13 de março de 2018

Capítulo 29

Fletcher protegeu os olhos, contemplando o sol poente, cujos últimos raios de luz se infiltravam pelos galhos emaranhados. Ficou feliz de ter decidido montar acampamento antes do anoitecer, pois a lua mal passava de um risco no céu e os fogos-fátuos chamariam atenção demais.
A chegada do crepúsculo foi anunciada pelos urros roucos dos bugios, que ecoavam pelas copas da selva acima. A equipe se assentou para a primeira noite que passariam sozinhos em território inimigo numa clareira, localizada a uma distância segura da trilha na floresta.
Depois de Ignácio subir até a nuca do mestre e começar a cochilar, Fletcher refletiu sobre a jornada até ali. A trilha natural tinha se desviado em direção ao rio em várias ocasiões, mas a equipe tomara o cuidado de seguir morro acima, fazendo curvas para longe da água. Apesar da subida, eles tinham progredido bem, e Fletcher se sentia confiante de que chegariam ao ponto marcado na pirâmide em dois dias.
Sariel e Lisandro haviam agido como retaguarda durante toda jornada do dia, de olho numa emboscada. Atena cuidava das copas, ocasionalmente esvoaçando acima das árvores para que Fletcher pudesse confirmar que eles estavam na rota certa via cristal de visão. Enquanto isso, Ignácio e Tosk protegiam os flancos, deslizando pela vegetação rasteira com barulhos pouco mais altos que um sussurro. Salomão havia sido deixado de fora da patrulha, sendo lento e desajeitado demais. Em vez disso, tinha servido de mula de carga, transportando os suprimentos nos ombros rochosos quando o peso ficava demais para eles.
— Agora que somos só nos quatro, ficou tudo mais real — comentou Sylva, cutucando a fogueira apagada com um graveto. — Eu me sentia como se pudéssemos enfrentar um exército quando estávamos todos juntos. Agora não tenho mais tanta certeza.
— Eu não sei — respondeu Fletcher, tirando Ignácio da nuca. — Acho que formamos uma equipe bem formidável. Temos dois vencedores do Torneio e dois semifinalistas. Se encontramos uma patrulha orc, acho que nos sairemos bem.
Ignácio choramingou, aborrecido de ter sido acordado. Depois de um pouco de insistência mental, cuspiu com relutância uma bola de fogo numa pilha de madeira.
— Não é vencê-los que me preocupa — continuou Sylva, protegendo o rosto quando os gravetos se incendiaram. — É a possibilidade de um deles escapar durante a luta que me assusta. Se soarem o alarme, a missão chega ao fim.
— Bem, Sariel e Lisandro podem persegui-los — sugeriu Otelo, grunhindo, enquanto tirava as botas e as meias. — Porque esse pedregulhão aqui não vai pegar ninguém tão cedo.
Ele fez um cafuné carinhoso na cabeça de Salomão, e o demônio ribombou de felicidade. Assim como tinha feito no barracão nos arredores de Corcillum, o Golem segurou obediente as meias de Otelo junto ao fogo. Pela primeira vez no que pareciam anos, Fletcher se sentiu contente.
— Então, como vocês estão se sentindo? — perguntou ele, abrindo a mochila e tirando um pacote de carne de cervo seca. Espetou um pedaço num graveto próximo e o levou às chamas.
— Tão bem quanto o meu cheiro. — Otelo fez uma careta. — Que não está lá aquelas coisas. Este calor não me faz muito bem. Nem a vocês, por sinal.
— Nem brinca — riu Cress, segurando o nariz. — Os orcs provavelmente devem conseguir sentir o nosso cheiro a quilômetros de distância.
Ela remexeu na mochila, procurando a própria comida, então parou.
— Ei! Estão faltando algumas setas da minha besta.
Cress franziu o cenho e mostrou a eles a aljava atada à mochila. Não estava mais cheia, o que deixava os virotes chacoalhar soltos.
— A mesma coisa aqui — comentou Sylva, balançando a própria aljava. As penas de suas flechas, assim como os projéteis de Fletcher e Cress, tinham sido tingidas de azul, a cor da equipe. Eram lindamente bem-feitas e tinham pontas mais estreitas e afiadas que as de Fletcher, melhores até que os melhores esforços do rapaz quando fabricava as próprias flechas na velha aldeia.
— Talvez elas tenham caído? — sugeriu Fletcher.
Ele passou os dedos pela própria aljava, mas as dele pareciam estar todas ali.
Cress deu de ombros e pousou a aljava de novo.
— Ainda tenho bastante, mas vamos tomar cuidado. Orcs não usam flechas, mas, se encontrarem uma no chão, saberão que estamos na área.
Sariel e Lisandro, que tinham estado patrulhando em volta do acampamento, voltaram e se deitaram ao lado do fogo. Os largos dorsos serviam de encosto confortável para os outros. De fato, Fletcher viu que todos os demônios menos um tinham voltado, com Tosk aninhando-se no colo de Cress, enrolado como um cachorro.
Fletcher vestiu seu monóculo de visão remota, para que pudesse ver onde Atena estava. O ponto de vista de Atena era rosado e se sobrepunha sobre metade da visão de Fletcher.
Ela estava de guarda num galho alto, os olhos de  coruja enxergando no pôr-do-sol alaranjado, como se estivessem em plena luz do dia. A cada poucos segundos ela girava a cabeça, como uma sentinela de guarda. Fletcher urgiu com um pensamento a Griforuja a descer, mas sentiu o desejo do demônio de ficar.
— Bem, parece que não teremos de organizar um esquema de guarda noturna — observou Fletcher. — Atena pretende ficar lá em cima a noite toda.
— Ótimo — bocejou Sylva. — Não acho que conseguiria manter meus olhos abertos.
Ficaram todos ali deitados no silêncio confortável, deixando que o calor da fogueira massageasse os músculos doloridos. Os sons noturnos da selva já haviam começado, com o trilar dos grilos adicionando um zumbido surdo ao silêncio, misturado ao chamado ocasional das aves noturnas. Era estranhamente tranquilizador; lembrava a Fletcher dos sons da floresta de Pelego.
Jeffrey, que se calara pela maior parte da viagem, falou pela primeira vez naquela noite.
— Não sei porque estou aqui — soluçou ele, o medo em sua voz cortando o confortável crepitar da fogueira. — Só tenho essa espada curta que Uhtred me deu. Só entendo de biologia e botânica, e não vamos encontrar nenhum demônio morto aqui. Quando o ataque começar, dissecar um deles vai ser a última coisa que eu terei na cabeça.
— Prefiro você como guia a qualquer um dos outros — afirmou Sylva, generosa. — Mal ficamos com fome com todas as frutas e vegetais que você colheu na caminhada, e também recarregou nossos cantis com os cipós o dia todo. Não precisamos de um navegador, com essa pirâmide imensa marcando o caminho, e temos um mapa do acampamento órquico. É só você tomar o cuidado de ficar para trás quando a luta começar; nós lidamos com os orcs.
— Obrigado — murmurou Jeffrey, mas ficava óbvio que ele não estava convencido. O rapaz se deitou de costas para eles, e Fletcher pensou ter visto o brilho de uma lágrima na sua bochecha, refletindo o fogo. Então o brilho lampejou de novo, e ele percebeu que tinha sido no cristal de visualização.
— O que diabos é isso? — murmurou Fletcher.
Uma fogueira fora acesa, a apenas algumas centenas de metros, bem na trilha da floresta. Por um momento, ele pensou que Atena estivera olhando para eles, de tão perto que a luz estava.
Ele tirou o monóculo, e os outros se inclinaram para perto, espiando o cristal minúsculo.
— Orcs? — indagou Jeffrey, com a voz trêmula.
— Vou mandar Atena mais para perto — decidiu Fletcher, transmitindo as ordens com um lampejo de intenção.
Logo, o cristal mostrava as árvores passando velozmente abaixo conforme a Griforuja planava sobre as copas. Levou apenas alguns segundos para alcançar o lugar, onde ela aterrissou com graça felina num galho largo. A madeira rangeu com o peso de Atena; Fletcher ouvia tudo que ela ouvisse na própria mente. O rapaz se encolheu com o ruído, mas os vultos abaixo pareceram não reagir.
Estava muito alto para ver os rostos, mas a criatura monstruosa de guarda ao lado deles não deixava dúvidas quanto à identidade do grupo.
A equipe de Isadora estava seguindo a deles.
— O que eles estão fazendo aqui? — sibilou Sylva. — Era para eles estarem do outro lado do rio!
— Eu não sei, mas não estão aprontando nada de bom — sussurrou Otelo. — A questão é que não podem fazer nada com Lisandro assistindo. A não ser que ataquem no escuro...
Eles pausaram por um momento, considerando as palavras.
— Talvez estejam perdidos ou tenham mudado de ideia quanto a atravessar o rio — sugeriu Cress.
— Você não os conhece — disse Fletcher. — Eles estão tentando nos sabotar para provar que uma equipe com anões e elfos não dá certo. Eles poderiam nos matar com feitiços na escuridão. Pareceria uma emboscada dos xamãs orcs.
— Isso já seria incentivo bastante para que eles nos emboscassem — concordou Sylva. — Não que precisassem de um bom motivo. Eles já nos odeiam o suficiente.
Fletcher se sentou, fitando a escuridão em volta do acampamento.
— Temos que partir com o raiar do dia e colocar o máximo de distância possível entre nós. Atena ficará de olho no grupo, para garantir que não saibam que estamos tão perto.
Olhou para a fogueira brilhante da equipe e começou a entalhar no ar o símbolo do feitiço de gelo. Com um pulso de mana, um jato de cristais de gelo recobriu a lenha, mergulhando o acampamento em profunda escuridão.
— Aproveitem para descansar — suspirou Fletcher, ajeitando-se na barriga macia de Lisandro. — Pode ser a última chance que teremos em algum tempo.
Enquanto os outros tiravam cobertores das mochilas, Otelo se ajeitou ao lado dele.
— Claro que você ia querer ficar com Lisandro de travesseiro todo para você — resmungou. — Chega para lá.
Fletcher se arrastou, e Otelo se estirou ao lado. A presença do amigo era reconfortante.
— Ei — disse Otelo de repente. — O que você acabou fazendo com aquele gremlin?
— Eu... hum... Eu o soltei — respondeu Fletcher.
Otelo suspirou.
— Eu sabia que você o faria, mas... isso me deixa preocupado.
O estômago de Fletcher se torceu de constrangimento com as palavras de Otelo. Ele já tinha quase se esquecido de Azul, com tudo mais que estava acontecendo.
— Eu tenho bastante confiança de que ele não vai nos trair. E, de qualquer maneira, era a coisa certa a se fazer — argumentou Fletcher, sem saber a quem realmente tentava convencer: ele próprio ou Otelo.
— Bem, espero que você esteja certo — murmurou o amigo, virando-se de lado. — Pelo bem de todos nós.
Fletcher respirou fundo, tentando afastar as dúvidas. Já tinha muito com que lidar sem se preocupar com o gremlin também.
— Você ficou cabisbaixo o dia todo... — comentou Otelo, baixo o suficiente para que ninguém mais ouvisse. — Alguma coisa te perturbando?
Fletcher fez uma pausa. Ele sabia que deveria estar dormindo, mas tinha certeza de que ficaria acordado a noite inteira, pensando no sonho de infusão de Atena. Talvez ajudaria conversar a respeito.
— Eu vi meus pais morrendo — respondeu Fletcher.
— Você lembrou? — indagou Otelo.
— Não... Eu vi as memórias de Atena. Você sabe, quando eu a infundi — explicou Fletcher, os olhos marejando. — Eles estavam tão felizes, e então... Foi horrível.
— Ah... — sussurrou Otelo. Ele fez uma pausa. — Sinto muito.
Silêncio. Então o anão falou com a voz embargada de emoção:
— Você sabia que eu tive outra irmã?
— Não — respondeu Fletcher, franzindo a testa. — Teve?
— Essie nasceu quando Átila e eu tínhamos 3 anos, dois anos antes de minha mãe ficar grávida de Thaissa e as leis ficarem mais relaxadas. Tínhamos que mantê-la escondida; anões só podiam ter um filho naquela época, e como Átila e eu éramos gêmeos, já tínhamos nos safado com dois graças a uma tecnicalidade. Nós a mantínhamos no subterrâneo, escondíamos sob as tábuas do piso quando os Pinkertons faziam as inspeções. Só que, quando Essie fez 1 ano, ela ficou doente... muito doente. Então nós a levamos a um médico humano.
Otelo parou, e Fletcher viu que o rosto do amigo estava molhado com lágrimas.
— Ele chamou os Pinkertons, Fletcher, e eles tiraram Essie de nós. Não sabemos para onde. Algumas semanas depois, eles disseram que ela havia morrido da doença. Simples assim; ela tinha se ido. Eles nunca nem chegaram a devolver o corpo.
Fletcher estendeu a mão e a colocou no ombro de Otelo.
— Eu sinto tanto que isso tenha acontecido com você, Otelo. Com a sua irmã. Com a sua família. Não posso nem imaginar como deve ter sido.
— Nós nunca falamos sobre isso — continuou Otelo, enxugando as lágrimas com a manga. — Thaissa nem sabe. Porém, se eu tivesse a chance de saber o que realmente aconteceu com ela; ouvi-la rir, ver aquele sorriso só mais uma vez, eu faria qualquer coisa.
Fletcher sabia que o amigo tinha razão. Fora uma bênção ver os pais, conhecer as vozes e os rostos de ambos. O que acontecera a eles fora uma tragédia, e a verdade de sua morte era dolorosa de se conhecer... mas necessária.
Acima deles, Lisandro virou a cabeça e fitou o rosto coberto de lágrimas de Fletcher. Gentilmente, o Grifo ergueu a garra e tocou a bochecha de Fletcher, um movimento humano demais para ser iniciativa do demônio. Então ele pousou a asa acima deles, como um cobertor. Fletcher sabia que Lovett estava tomando conta dos dois.
— Obrigado por compartilhar isso comigo, Otelo — sussurrou Fletcher. — Vou me lembrar disso.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!