2 de março de 2018

Capítulo 29

Fletcher fez uma careta quando o metal vermelho incandescente na bigorna lentamente ficou cinzento de novo. Toda vez que ele removia a barra de aço das chamas estrondosas da forja, o metal esfriava depois de apenas uma ou duas marteladas do menino. Ele a tinha moldado numa grosseira estaca de metal, nada parecida com a adaga que queria criar.
— Eis o aço enânico — comentou Otelo, com um tom de pena. — É mais duro e afiado que qualquer metal conhecido pelo homem, mas esfria rápido. Você precisa ter a força de um anão para causar algum impacto nele antes que endureça de novo.
— Foi um truque injusto que pregamos em você, Fletcher — admitiu Uhtred, não sem gentileza. — Eu sabia que não conseguiria trabalhá-lo. Athol, pegue um pedaço de ferro-gusa lá nos fundos.
— Pelo menos ele não soube identificar o aço enânico pela aparência, logo percebi pela expressão de espanto — comentou Athol. — Um espião dos militares de Hominum certamente saberia isso. Agora vamos descobrir se ele era mesmo um aprendiz.
— Esperem — disse Fletcher, com uma ideia se formando na cabeça. — Acho que consigo dar um jeito nisso.
Ele tirou Ignácio do pescoço e cutucou o bicho para acordá-lo. O diabrete bocejou e coçou o rosto com a pata traseira, como um cachorro. Fletcher sorriu e esperou que a consciência de Ignácio passasse de confusa à clara conforme acordava.
— Hora de pegar no batente, sua coisinha preguiçosa — provocou o rapaz. Então ele se concentrou no aço, desejando que ficasse incandescente de novo. Ignácio trinou de empolgação. Ele respirou fundo e soprou uma chama azulada no metal.
Lenta, mas implacavelmente, o metal ficou vermelho, depois rosado.
— Uau... um desses me seria muito útil — sussurrou Uhtred, admirado, enquanto o demônio inspirava mais uma vez antes de intensificar a chama. O metal tornou-se quase branco, enchendo a oficina com um cheiro acre e sulfúrico.
Fletcher desatou a martelar, moldando a adaga com cada impacto.
Depois do que pareceu uma era, ele acalmou Ignácio com um pensamento. Exausto, o demônio rastejou de volta ao seu lugar sob o capuz. Fletcher também se sentia exausto, com o braço doendo da chuvarada de marteladas que ele despejara na lâmina.
Uhtred usou uma tenaz para levar a arma à luz. O cabo era um punho de metal simples com um pomo redondo, pronto para ser envolvido em couro a fim de que proporcionasse um aperto mais firme à mão. A lâmina propriamente dita era um punhal clássico, longo e fino como preferiam os assassinos.
— Onde você aprendeu a fazer um desses? — indagou Otelo, testando a ponta com o dedão. — Não é exatamente um equipamento padrão.
— Nós vendíamos quase todos aos mercadores. Eles gostavam de uma arma fácil de ocultar, para pegar os salteadores de surpresa — explicou Fletcher, admirando o produto do seu trabalho. Era uma de suas melhores peças.
— Muito bem, rapaz, você está livre. Não é como se tivesse descoberto nada de mais, de qualquer maneira. Para compensar minha falta de educação, vamos lhe fazer a bainha de graça. Você vai ter que deixar a lâmina conosco, mas a receberá de volta em alguns dias. Minha mulher vai lhe costurar um novo uniforme, também. Não vai ser feito sob medida, mas será melhor que essa coisa comida por traças que você veste agora. Não queremos que ninguém diga que os companheiros de nosso filho são vagabundos. Sem ofensa — afirmou Uhtred com um sorriso.
— Quanto eu lhe devo? — perguntou Fletcher, pegando a bolsa de dinheiro.
— Só esse punhal e sua promessa de que vai tomar conta do meu menino. Você parece ser de um tipo raro, Fletcher. É gente como você que me dá esperanças de reconciliação entre anões e homens — explicou Uhtred.
A chuva caía forte quando eles alcançaram o ponto de encontro, mas não havia sinal dos outros. Otelo chutou a parede enquanto eles tremiam de frio num vão de porta, planejando o que fazer em seguida. Não havia carroças à vista, e as ruas estavam praticamente desertas.
— Droga de chuva — resmungou Otelo. Ele estava de péssimo humor, e não só por causa do tempo e da falta de transporte. Na pressa para escapar dos Pinkertons, a machadinha de Otelo tinha ficado no chão. Os rapazes não a encontraram ao voltar pelo mesmo caminho. — Droga de Pinkertons, também. Minha costela está rígida como pedra, e perdi uma das melhores peças do meu pai — continuou Otelo, estreitando os olhos em meio ao dilúvio.
— Lamento, Otelo. Tenho certeza de que seu pai fará outra para você — disse Fletcher, fazendo uma careta de solidariedade.
— Como você se sentiria se perdesse seu khopesh? — Otelo soava amargurado, saindo para a rua.
Fletcher não sabia como responder, então ficou de boca fechada. Ele seguiu o anão abatido pela chuva. Os dois estavam gelados até os ossos apesar das jaquetas, e Fletcher sabia que a jornada de volta para casa seria fria e miserável.
— Acho que nossa melhor opção é a praça Valentius — gritou Otelo em meio aos trovões que retumbavam no ar. — É lá que fica a maioria dos estábulos.
— Tudo bem, vamos lá! Não aguento mais ficar parado — berrou Fletcher de volta, de olho no céu barulhento.
Eles correram pelas ruas vazias, pisando nas poças que se formavam no caminho. A cada tantos segundos, a rua era congelada num clarão de relâmpago, seguido do estrondo do trovão.
— Os raios estão perto, Otelo! Deve ter uma tempestade de verdade se formando — gritou Fletcher, cuja voz quase foi levada pelo vento.
— Quase lá! — berrou Otelo de volta.
Finalmente eles chegaram a uma pequena praça com um enorme toldo, que protegia o lugar do pior da chuva. Estava tomada por uma multidão que se abrigava da tempestade e escutava um homem numa plataforma. Ele gritava, mas Fletcher estava cansado demais para ouvir.
— Eles leiloam cavalos daquele palco, se você sentir vontade de comprar um para mim algum dia — brincou Otelo, torcendo a barba.
— Hah, talvez um pônei barrigudo; é o máximo que você conseguiria montar — zombou Fletcher de volta, feliz que o anão tivesse recuperado o ânimo.
Enquanto eles vasculhavam o lugar em busca de uma carroça, Fletcher captou as últimas palavras do discurso do homem irado.
— ... E ainda assim os elfos fazem a guerra se arrastar, custando às duas nações um preço muito maior do que o valor do imposto! Só que, ao invés de levar a guerra até eles, nosso rei fala em paz, sem perceber as verdadeiras intenções dos elfos! Eles querem que o nosso reino perca a guerra, vocês não percebem? Quando Hominum cair, os elfos ficarão livres para tomar nossas terras! Os orcs não as desejam; eles só querem nos ver mortos. Quando o sangue correr pelas ruas de Corcillum, os elfos se regozijarão com nossas mortes!
A multidão rugiu em aprovação, agitando os punhos no ar. Fletcher prestou atenção, distraído de sua tarefa imediata. Ele nunca tinha visto um homem falar tão abertamente contra o rei, nem com tanto ódio pelos elfos.
Nem mesmo Rotherham tinha sido tão veemente.
— Então o que podemos fazer quanto a isso? Como forçar a mão do rei? Eu digo a vocês! Vamos marchar até a embaixada deles e matar cada um dos desgraçados de orelhas pontudas! — uivou o homem, com uma paixão tão fervente que quase chegava a um berro.
Desta vez a plateia ficou menos empolgada. Essa sugestão era tão ousada que um silêncio constrangedor recaiu sobre a multidão, acompanhado de murmúrios perturbados. O homem ergueu a mão como se pedisse silêncio.
— Ah, eu sei, o primeiro passo é sempre o mais difícil. Mas vamos dá-los juntos. Vamos aproveitar este momento! — rugiu ele, acompanhado por um punhado de vivas da multidão, que começava a se interessar pela sua retórica. — Mas, primeiro, deixem-me mostrar como se faz. Grindle, traga a prisioneira!
Um homem gordo e careca, com braços tão fortes quanto os de Otelo, emergiu de uma porta atrás do palco e arrastou uma elfa, que gritava desesperadamente, até a frente da plataforma. Mesmo de onde estava, bem no final do grupo, Fletcher reconheceu a vítima.
— Sylva! — gritou ele.

10 comentários:

  1. Está ficando cada vez melhor!

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  2. Uuooohhh,isso está ficando interessante

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  3. E pensar que coisas como essas eram muito comum de acontecer antigamente. Agora vou passar o resto do dia revoltado.

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  4. agora o bicho vai pegar tadinha da Sylva

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Boa leitura! E SEM SPOILER!