13 de março de 2018

Capítulo 28

— Fletcher, acorde!
Os olhos verdes de Otelo o espiavam, da mesma cor da folhagem acima.
— A equipe de Malik partiu sem a gente.
Fletcher se sentou, a memória de Atena ainda vívida em sua mente.
— Por quê? — murmurou ele.
— Deixaram um bilhete, dizendo que decidiram aproveitar a luz do dia ao máximo, e saíram cedo. Não quiseram nos acordar.
— Por mim, tudo bem — bocejou Sylva, se espreguiçando. — Se houver problemas à frente, eles vão dar de cara com eles antes da gente.
Serafim e a equipe estavam fazendo as malas. Exibiam os demônios materializados, e Fletcher ficou feliz em ver que Rory agora tinha um segundo Caruncho, menor que Malaqui, com uma carapaça amarela.
Foi o demônio de Átila que mais o surpreendeu, porém: uma ave branca como uma pomba, com longas penas da cauda, empoleirada em seu ombro. Era um Caládrio, um demônio de nível sete com a habilidade de curar ferimentos ao colocar as penas sobre eles.
O Caládrio era uma das quatro aves primas igualmente raras, incluindo a Fênix nascida nas chamas, a gélida Polárion e a relampejante Alcione, com plumagens vermelha, azul e amarela, respectivamente. Ele suspeitava de que não fora somente Arcturo o presenteado com um demônio pelo rei Harold. Fletcher apostava que tinha sido um pedido de desculpas aos Thorsager pelo que acontecera a Otelo. Ele se perguntou qual demônio Átila possuía antes e se ele ainda estaria na coleção do colega anão.
Sacarissa já farejava o chão, ansiosa para guiar sua equipe na direção do rio. Ela choramingou quando Fletcher hesitou, indicando que Arcturo queria que eles ficassem juntos.
Não demorou muito para a equipe de Fletcher se aprontar, sendo o maior atraso Cress, que não gostou nem um pouco de ser acordada tão cedo.
— Você não pode mandar Salomão me carregar, Otelo? — grunhiu Cress, colocando a pesada mochila nas costas.
— Carregar você? Não deveria ser o contrário? — riu Fletcher.
— Na verdade, Fletcher, ele bem que conseguiria — explicou Otelo, corando de orgulho.
Tirou um rolo de couro do bolso lateral da mochila e o abriu no chão. Então, com um toque dos dedos, o Golem se materializou num clarão de luz roxa.
Salomão tinha crescido. Estava tão alto quanto o próprio Otelo, só que mais largo e com membros mais grossos. Assim que viu Fletcher, o rosto rochoso se abriu num sorriso. O Golem investiu adiante com braços abertos, e Fletcher teve que recuar para escapar de um abraço de urso.
— Salomão, não! — ralhou Otelo, então revirou os olhos quando o demônio baixou a cabeça, envergonhado. — Ele ainda não conhece a própria força.
— Tanta coisa mudou em um ano. Ele logo estará do meu tamanho — espantou-se Fletcher.
— Ah, com certeza. Mas é melhor nos adiantarmos; eles já estão partindo. — Otelo indicou a floresta atrás de Fletcher com a cabeça, onde a equipe de Serafim já estava a caminho, deixando o pântano e entrando na selva fechada.
— Vamos parecer preguiçosos se não tomarmos cuidado — concordou Sylva, puxando Otelo.
Ela assentiu para Lisandro, que educadamente olhava o céu.
— Lembrem-se, o mundo está assistindo. Isto é mais do que uma simples missão.
Otelo e Sylva se apressaram atrás dos outros, deixando Cress e Fletcher em seu encalço. Lisandro caminhava tranquilamente ao lado deles, de alguma forma evitando a emaranhada vegetação rasteira com graça felina. Em contraste, Atena saltava de galho em galho acima, despejando folhas e insetos sobre Fletcher. O rapaz não se incomodava, pois sentia que o demônio tinha saudades do éter. Afinal, passara lá os últimos 17 anos.
Os pensamentos de Fletcher se voltaram aos pais.
Tinha passado muitos anos contemplando rostos em Pelego, perguntando-se como seria a aparência deles. Agora, depois do vívido sonho de Atena, ele sabia.
Tinha os cabelos negros e cheios do pai, e os olhos cor de avelã do homem eram iguais aos dele. Por outro lado, herdara a mesma pele pálida e o nariz reto da mãe. Ele fora amado, um dia. Sentira esse amor naquele sonho, tão forte que fizera seu coração se apertar de alegria. Mas lhe fora tudo arrancado brutalmente.
Logo o mundo caiu na penumbra conforme a cobertura das árvores ficou mais espessa, filtrando a luz pelas folhas num tom escuro de verde.  A trilha era bem definida, pois a vegetação mais espessa fora arrancada pelo Wendigo e depois pisoteada pela equipe de Malik. Por enquanto, a jornada era fácil, e eles seguiram num passo confortável que devorava a distância.
Enquanto andavam, Fletcher tentava gravar os rostos dos pais na memória, mas praguejou conforme eles se borraram em sua mente. Tinha tudo acontecido tão rápido.
— Então... essa é a primeira vez que você vê uma garota anã? — perguntou Cress, para espantar o silêncio desconfortável. — Conheceu direito, quero dizer.
— Eu vi a mãe de Otelo, uma vez — respondeu Fletcher.
Ele fez uma pausa, sem saber o que dizer. A mente ainda estava na memória de Atena.
— E nós somos bonitas? — indagou ela, sorrindo ao ver Fletcher ficar vermelho. Ela o estava provocando.
— Tanto quanto qualquer outra garota — respondeu ele, e, ao fitar o rosto sorridente, percebeu que era verdade. De fato, agora que tinha passado mais tempo com ela, afeiçoava-se a Cress. Ela o lembrava um pouco de Serafim; direta, até um pouco rude, mas com um charme particular.
— Os meninos anões tendem a concordar com você — riu Cress, depois de pensar por um momento. — Não é raro que um jovem rapaz anão fuja com uma humana. Aposto que Átila teme que eu possa fazer o mesmo.
Cress piscou para Fletcher, que não pôde deixar de rir daquela postura tão direta. Os olhos da anã cintilavam de alegria, e Fletcher sentiu o peso nos ombros se aliviando.
— Seria assim tão ruim? — indagou Fletcher.
Percebeu que sabia muito pouco sobre o romance entre as raças.
— Bem, é tabu dos dois lados — contou Cress, balançando a cabeça. — Imoral, eles dizem. Mas acontece mesmo assim, e são os filhos que sofrem.  Alguns se safam passando por humanos baixos por um tempo, mas sempre são descobertos, especialmente se seguirem os costumes enânicos. Rejeitadas por ambas as raças, as famílias viajam para as terras além do deserto de Akhad, ou atravessam o mar Vesaniano até Swazulu.
— Ouvi falar em meio-elfos, mas nunca em meio-anões — murmurou Fletcher.
— É pior ainda para os meio-elfos, por mais que seja mais raro encontrá-los. Os elfos são muito opostos à miscigenação, até mesmo entre as castas de elfos-elevados e elfos silvestres. As orelhas dos meio-elfos não são tão longas quanto as de Sylva, mas são pontudas.
— Você parece saber muito sobre esse tipo de coisa — observou Fletcher. — Eu nunca nem havia pensado no assunto. Tenho um pouco de vergonha disso, na verdade.
— Deixa disso. Eu tenho um interesse especial por isso. Meu irmão... — Ela afastou o olhar por um momento. — Ele fugiu de casa para ficar com uma humana. Sou a única na comunidade que ainda fala com ele.
A velocidade do avanço se acelerou conforme a manhã virou tarde, e a conversa se encerrou, substituída pela respiração pesada da corrida pela vegetação rasteira. Dessa vez, o silêncio era confortável, mesmo que a atmosfera não o fosse. O pântano tinha sido quente, mas suportável. Agora, o calor era massacrante, apesar do tecido respirável das jaquetas.
Até os ruídos haviam mudado. Acima do coro dos insetos, os melódicos chamados de acasalamento das aves brotavam da copa das árvores.
— Vamos deixar nossos demônios esticarem as pernas? — perguntou Cress, tirando a alça da mochila do ombro e a apertando no peito. — Me dará uma chance de testar a manopla de combate que Athol fez para mim.
— Manopla de combate? — indagou Fletcher, intrigado.
Ela remexeu na mochila, enquanto eles andavam, e puxou uma luva de couro. O dorso tinha sido blindado com faixas de aço, que se estendiam até o pulso, mas não era isso que realmente chamava a atenção. A palma e as pontas dos dedos foram marcadas com os mesmos símbolos tatuados na mão de Fletcher.
— Não gosto nada de agulhas, então nada de tatuagens para mim. — Ela piscou. — Estou surpresa que não tenham virado moda ainda! Acho que a maioria dos conjuradores é muito conservadora.
Vestiu a luva e apontou o pentagrama para o chão adiante. Para assombro de Fletcher, houve um clarão roxo e um demônio surgiu.
Parecia muito uma cruza entre um guaxinim e um esquilo, com pelame azul-escuro salpicado de listras irregulares de turquesa. Os olhos redondos e amarelos do demônio se focalizaram em Fletcher assim que ele se materializou, o rabo felpudo balançando com animação. Apesar de todos os estudos, Fletcher não fazia absolutamente nenhuma ideia do que aquilo seria.
— É um Raiju — explicou Cress, dando tapinhas no próprio ombro. O demônio tinha dedos acolchoados e unhas curvas para escalar, o que permitiu que ele subisse até o poleiro indicado com dois saltos lânguidos.
— Quase tão raro quanto a sua Salamandra, pelo que me disseram — acrescentou Cress, rindo da expressão hipnotizada de Fletcher. — Nível cinco, também. Tosk pode disparar relâmpago da cauda, como uma nuvem de tempestade, então evite tocá-la. Pode dar um belo choque.
— Mas que incrível! Não acho que eu poderia ter usado essa luva no Torneiro, porém. Como você conseguiu um demônio tão raro? — perguntou Fletcher, enquanto o Raiju alisava os bigodes para ele, quase flertando.
— O rei Harold. Ele é um baita colecionador, tendo um nível tão alto e tal. Quando ficou sabendo que mais dois anões entrariam na academia, ele ofereceu seus Caládrio e Raiju para nós. Está realmente do nosso lado.
Antes que Fletcher pudesse arrancar mais alguma informação, houve um grito de empolgação adiante, e o grupo se deteve. A selva tinha se aberto, e, pelo som de água corrente, Fletcher entendia o motivo.
As águas do pântano e mais uma dúzia de outros riachos além haviam se reunido numa rede de canais que se despejavam numa queda-d’água. Muito abaixo, a água arrebentava numa névoa branca que se estendia por quilômetros, até que um grande rio serpenteante emergia ao longe, abrindo caminho em meio a dois vales que o cercavam. No extremo oposto, uma corcova triangular de um amarelo sem graça revelava seu destino: a pirâmide.
— Então, como vamos descer? — perguntou Otelo em voz alta.
Havia um aclive íngreme dos dois lados da queda, mas Fletcher ficou feliz de não ter que cruzar o rio naquele ponto, pois os riachos que alimentavam a cachoeira eram numerosos, com finos trechos de terra encharcada entre ambos.
— Acho que as equipes de Malik e Isadora já devem ter atravessado — comentou Serafim num tom desapontado. — Eu queria ter visto aquela turma patinhando por esse lamaçal.
— Bem, vamos torcer para que a nossa travessia seja tão fácil quanto a deles — respondeu Fletcher.
Eles esquadrinharam o terreno adiante, e logo ficou claro que havia duas formas de descer. Uma era uma trilha rochosa ao lado da própria cachoeira, enquanto a outra era um estreito caminho pela floresta, que se curvava em direção às colinas ao leste.
— Bem — anunciou Fletcher, dando um tapa nas costas de Serafim — é aqui que nos separamos.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!