2 de março de 2018

Capítulo 28

Os degraus se abriam numa câmara, tão larga e alta quanto o pavilhão acima. O cano no centro continha uma chama que crepitava sobre uma grelha, e as correntes de ar vindas de baixo lançavam fagulhas velozmente para o alto. As paredes eram de terra nua, escoradas por fortes vigas de carvalho que sustentavam o aposento. Pequenos candelabros com velas de cera pendiam do teto, conferindo ao salão uma iluminação alaranjada e calorosa. Havia sete portas construídas nas paredes da sala redonda, todas feitas de aço sólido.
Eles seguiram descendo até chegar a outra câmara quase idêntica, contendo uma mesa de jantar de pedra. Em vez da lareira, o cano estava conectado ao que parecia ser um grande forno e fornalha.
Vasos e panelas de todos os tamanhos estavam empilhados contra as paredes. Cada um era pintado com intrincados padrões florais.
— É aqui que a minha mãe passa a maior parte do tempo. Ela gosta de assar, tanto comida quanto porcelana. Um homem vem comprar os produtos dela em grande quantidade uma vez por semana, para vender na loja dele. As donas de casa de Hominum torcem os narizes para porcelana enânica, então ele finge que são de fabricação própria. Faturamos um lucro bem decente — gabou-se Otelo.
Fletcher estava impressionado com a velocidade da recuperação dele. Os anões eram um povo forte, com certeza.
Os dois continuaram descendo cada vez mais fundo na terra, conforme a escadaria se tornava mais estreita e apertada. Fletcher estava feliz que Salomão tivesse se contentado em descansar com Thaissa e Briss; suas pernas atarracadas jamais dariam conta daqueles degraus.
Eles passaram por mais duas câmaras enquanto desciam, cada uma menor que a anterior. A primeira era revestida de pedra e estava cheia de vapor residual, com tubulações de cobre que circulavam ao redor da coluna central; algum tipo de sauna.
O salão seguinte estava escuro demais para que se visse muita coisa, mas Fletcher pôde discernir silhuetas de piques e espadas. O rapaz deduziu que se tratava de um depósito, lotado com as armas do pai de Otelo. A essa altura, a escada ficou tão íngreme que Fletcher quase teve de descer escalando, atrapalhado na penumbra.
— Peço desculpas pelas escadas. Foram desenhadas para defesa, sabe. Elas descem no sentido horário, então qualquer grupo de homens que tentassem abrir caminho lutando teriam que batalhar com a mão esquerda, e só poderiam descer um de cada vez. Um anão sozinho poderia defender esta escadaria contra mil inimigos, se fosse um guerreiro bom o bastante — explicou Otelo, batendo com os nós dos dedos no pilar central que impediria um espadachim destro de usar sua espada.
Ele soou oco às bastidas do anão, e Fletcher reconheceu o som de ar quente em seu interior.
— Os seus lares sempre foram assim? — perguntou, começando a se sentir claustrofóbico conforme o teto baixo começava a raspar em sua cabeça. Para alguém acostumado aos céus abertos do alto das montanhas, aquela não era uma experiência confortável.
— Sim, até onde nossas memórias alcançam. Achamos que antes era defesa contra animais selvagens e orcs, mas com o tempo passamos a preferir dormir debaixo da terra. É tão silencioso e pacífico. Tenho que confessar, ando tendo problemas em dormir no alto daquela torre, com o vento soprando no meu quarto.
— É... eu também — admitiu Fletcher, pensando no vulto na ponte levadiça da noite passada.
— Aqui estamos — anunciou o anão ao alcançar o fim da escada. Havia uma grande porta de aço cercada por rocha, como se tivesse sido incorporada a uma camada natural de rocha subterrânea. — Mesmo que eles escavassem ao redor do portão, teriam que desbravar a rocha sólida para entrar. Meu pai valoriza muito sua privacidade. Há muitas outras oficinas como esta, abrigando as fábricas onde se produzem os mosquetes. Mas esta é especial. Foi aqui que o primeiro mosquete foi criado.
Ele bateu o punho contra a porta com um ribombar rítmico, algum tipo de código secreto. Alguns segundos mais tarde, houve uma série de estrondos que indicavam trancas sendo removidas. Por fim, um rosto familiar abriu a porta.
— Athol! — exclamou Fletcher, sorrindo ao ver o conhecido. — O pai de Otelo é seu mestre? Eu deveria ter adivinhado, por causa daquelas belas armas.
— O que você está fazendo aqui? — O rosto de Athol foi tomado por uma expressão de surpresa e confusão. — E com Otelo, ainda por cima?
— Ele é meu amigo de Vocans — explicou Otelo, empurrando para entrar no aposento. — Eu quero apresentá-lo ao meu pai.
— Uhtred está ocupado agora, Otelo. É melhor você voltar outra hora — avisou Athol. — Espere aqui fora, Fletcher. Não acho que ele gostaria da sua presença na oficina.
Os anões desapareceram do lado de dentro, deixando Fletcher espiando pela porta. A oficina estava cheia de ferramentas e pilhas de lingotes de metal. Diferentemente da forja de Berdon, tudo estava organizado a um grau quase obsessivo. O interior do salão radiava calor, como se Fletcher estivesse com o rosto a centímetros de uma fogueira. Logo que ficaram fora de vista, uma conversa começou a ser murmurada, mas o rapaz não conseguia entender o que era dito graças ao rugido abafado das chamas da forja.
— O QUÊ? — trovejou uma voz. — AQUI?
O baque de passos pesados soou pelo salão, e o pai de Otelo apareceu diante de Fletcher. O peito nu do anão era muito largo, com braços musculosos cuja envergadura ocupava toda a extensão da porta enquanto ele bloqueava a vista para dentro do aposento. A barba vermelha que pendia do queixo era dividida numa bifurcação que descia em duas tranças até a cintura, e o longo bigode escorrido quase lhe alcançava o estômago. A densa pelugem no peito cintilava com o suor no incandescer alaranjado do fogo na forja.
— Athol me conta que você pediu trabalho como meu aprendiz há meros dois dias. — A voz retumbante de Uhtred ecoou no espaço apertado da escadaria. — Agora descubro que você está todo amiguinho do meu menino, se enfiando na nossa forja. Não confio em você, nem de longe, tão longe quanto eu poderia te arremessar. E garanto que eu poderia te arremessar a uma boa distância.
Ignácio se agitou no interior do capuz de Fletcher, sentindo a ameaça. O menino recuou alguns passos, horrorizado com a implicação. Porém, ao mesmo tempo, entendeu como a situação parecia suspeita.
— Eu juro, não tinha plano nenhum ao vir aqui. Trabalhei no norte como aprendiz de ferreiro. Tinha acabado de chegar a Corcillum e estava procurando emprego! Otelo e eu só nos encontramos quando me alistei em Vocans. Preciso de uma bainha para minha espada, e seu filho se ofereceu para me levar num ferreiro de confiança. Eu nem sabia que ele vinha de uma família de ferreiros até alguns minutos atrás, nem que Athol trabalhava aqui. Vou esperar lá em cima. Minhas sinceras desculpas por ter perturbado vocês.
Fletcher fez uma mesura e se virou para partir, mas só chegou ao primeiro degrau antes que Uhtred pigarreasse.
— Eu posso ter... sido apressado. Meu filho é um bom juiz de caráter, assim como Athol. Mas preciso testar a sua história primeiro e ver se você realmente é um aprendiz. Athol, esconda as ferramentas de produção de mosquetes e traga um dos martelos menores para Fletcher. Se ele for um espião, melhor descobrir logo, para que possamos tomar as devidas precauções. Enquanto isso, mostre-me essa espada. Faz um bom tempo que não vejo um khopesh de qualidade
Fletcher sacou a arma e entregou a Uhtred. Ela parecia minúscula nas mãos enormes do anão, mais como uma foice para podar flores do que uma arma mortal. O ferreiro tinha quase um metro e meio de altura, praticamente um gigante dentre os anões.
— Você precisa cuidar melhor disto. Quando foi a última vez que você a oleou ou afiou? — indagou Uhtred, inspecionando a espada por todos os ângulos à luz fraca. — Uma espada é uma ferramenta como outra qualquer. Vou lhe deixar um oleado para servir de embrulho enquanto a bainha for preparada, caso a sua história se comprove. Cuide das suas armas, rapaz! Você deixaria seu demônio passar fome?
— Acho que realmente fui relapso nos últimos tempos — admitiu Fletcher, envergonhado. Ele mal dedicara um único pensamento ao khopesh desde que o recebera, exceto durante sua luta contra Sir Caulder. Mais uma pontada de culpa o atravessou ao pensar em quanto tempo e esforço Berdon deve ter dedicado à criação da arma.
— Muito bem. Athol já deve ter preparado tudo — afirmou Uhtred, saindo do caminho. — Vamos ver do que você é capaz.

4 comentários:

  1. Sério 😒 Que horror o jeito que eles tratam os anões.

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    1. Se os anões detém a tecnologia para fabricar armas de fogo, que são bem mais avançadas que as da época, eles poderiam facilmente vencer uma guerra, ou um motim, contra os humanos, mesmo em menor número. Eles poderiam se revoltar e criar um país, tornando-se independentes e conquistando respeito através do poderio bélico e militar, além de conseguirem lidar com os orcs facilmente com as armas de fogo.
      Então porque eles ainda aguentam isso?

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  2. cada vez que leio mas da vontade de ler mais e mais esse livro só ta me surpreendendo

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  3. Como assim os anões tem melhores armas,e agüentar isso...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!