22 de março de 2018

Capítulo 27

Fletcher nem teve tempo de alcançar a comida antes de a longa perna de Sylva deslizar sob o assento de Serafim para chutar seu tornozelo. Ele sufocou um gemido de frustração e a viu levantar-se e fazer uma mesura.
— Estou me sentindo um pouco fraca com o cheiro de toda essa comida gordurosa — disse a elfa, levando uma mão dramaticamente até sua testa. — Sr. Rotherham, você faria a gentileza de me acompanhar para que eu possa tomar um pouco de ar fresco?
Fletcher demorou um momento para perceber que ela falava com ele, então, relutantemente, se pôs de pé e segurou-a pelo braço. Os dois nem precisavam ter se incomodado com aquele teatrinho — os nobres que os cercavam mal olharam para eles, ocupados em devorar a comida com o máximo de decoro que puderam reunir.
Para Fletcher, a única coisa boa daquilo era que ele não precisaria se esforçar para descobrir quais talheres usar, pois a toalha de mesa estava adornada com uma ampla variedade de facas, colheres, garfos e outros implementos que ele não conseguia reconhecer. Mas, enfim, era mesmo o momento ideal para saírem, enquanto o resto do salão estava distraído.
— Venha — disse Sylva, em um sussurro ríspido, puxando-o de seu assento à mesa comprida.
Eles sabiam aonde tinham de ir: a um par de pesadas portas duplas contíguo ao salão. Fletcher sentiu um tremor percorrer a espinha quando os olhares se voltaram para eles, pois eram os únicos convidados em pé. Ele se distraiu examinando os outros alimentos na mesa. Para sua surpresa e horror, a carcaça assada de uma toninha inteira estava sendo destrinchada por um lacaio na cabeceira da mesa principal.
Então ele viu as pessoas que rodeavam o pobre animal e uma nova sensação de repulsa tomou conta de si. Quase todos os seus inimigos estavam sentados ali: o velho rei Alfric, lorde e lady Faversham, os gêmeos Forsyth e até mesmo o próprio Didric. O rei Harold estava sentado entre eles, rindo de uma piada que o pai contara.
Fletcher quase perdeu o passo, mas Sylva o conduziu em frente sem pestanejar, apertando com firmeza seu braço. Ele não conseguiu evitar um olhar por cima do ombro quando passaram. Era fascinante vê-los socializando. Por algum motivo, ele sempre os imaginara armando esquemas em salas escuras, não desfrutando de refeições juntos.
Momentos depois, eles já haviam atravessado as portas duplas, abertas por criados confusos que não tinham certeza de para onde os dois convidados se dirigiam, mas tinham receio de impedir duas pessoas que poderiam ser nobres importantes.
Eles começaram a caminhar por um longo e escuro corredor com tapete de veludo vermelho. Apenas algumas velas bruxuleantes revelavam uma escada a meio caminho da passagem. Eles retiraram suas máscaras, e Fletcher respirou com grande alívio.
— Caminhe, não corra — avisou Sylva, assumindo o comando da situação e puxando-o para trás. — Nós não queremos levantar suspeitas, e convidados não devem sair bisbilhotando por aí.
Fletcher ofegou, a respiração curta. As palmas das mãos suavam sob as luvas brancas.
— Deve ser difícil para Harold sustentar essa encenação, dia após dia — disse Fletcher, apenas para estabilizar seus nervos.
Mas ele não ouviu a resposta de Sylva, porque as portas duplas abriram-se abruptamente atrás deles. Fletcher viu de relance um guarda, segurando em uma das mãos um candelabro e na outra uma espada. Então foi puxado para junto de Sylva, que enlaçou seu pescoço, os lábios procurando os dele. Ela o beijou com feroz abandono, e Fletcher retribuiu com a mesma paixão. Ele se deixou levar, sentindo a maciez do corpo dela contra o seu. Por um instante, nada mais importava.
— Só dois pombinhos apaixonados — resmungou o guarda. — Nada com o que se preocupar.
As portas se fecharam com um baque suave.
No mesmo instante, Sylva se afastou, voltando a caminhar até as escadas o mais rápido possível.
— Vamos! — chamou ela, olhando para Fletcher por cima do ombro. — Eles esperam que voltemos em breve. Otelo e Cress vão ter de nos alcançar.
Fletcher a seguiu, uma pontada de tristeza percorrendo seu corpo. Aquilo tinha sido um estratagema... nada mais.
Eles subiram as escadas dois degraus por vez, Sylva seguindo descalça, segurando os sapatos de salto, e Fletcher evitando a cauda de seu vestido. Era ridícula a quantidade de tecido que ela precisava arrastar atrás de si.
O corredor em que entraram era ainda mais escuro, iluminado apenas pelo brilho das escadas atrás de ambos e uma única vela em uma alcova próxima. Eles chegaram a seu destino: um conjunto de enormes portas localizado bem em frente à escadaria: a entrada da sala do trono assomava diante dos dois, sombria e ameaçadora.
— Tomara que Otelo e Cress tenham começado a distração — sussurrou Fletcher.
— Permita-me — disse Sylva.
Seu dedo emitiu um brilho azul, e ela desenhou a forma de um buraco de fechadura no ar. Lentamente, ela o baixou até a fechadura pesada da porta e lhe lançou um raio de luz prateada. Com um ruído alto, a porta se abriu, fazendo gemer as dobradiças.
Dentro, uma enorme câmara entrou no campo de visão, iluminada por um raio de luar filtrado por uma claraboia. O salão de piso de mármore era dividido ao meio por um estreito tapete grosso e vermelho. Pilares de pedra ladeavam as paredes, cobertos por sombras profundas. Mas algo dominava a cena acima de todas as outras coisas. Um trono, feito de ouro, prata e joias preciosas, incrustado com madrepérola e margeado de madeira polida, estava disposto em um estrado na extremidade do longo cortinado vermelho nos fundos da sala. Cada elemento do trono fora projetado como parte de um mosaico de demônios entrelaçados, as joias formando os olhos, os metais delineando a linha de seus corpos. Era magnífico, reluzindo mesmo à luz fraca. Fletcher mal conseguia tirar os olhos daquilo; jamais vira tanta riqueza em um só lugar.
Então eles o viram, embutido no chão diretamente na frente do trono.
Um cajado negro, coberto por um tecido rendado. O alvo.
— Depressa! — murmurou Sylva, alheia ao esplendor do trono real.
Fletcher a seguiu, o baque maçante de seus passos ecoando sobre o piso.
Eles não haviam sequer alcançado o meio do salão quando o som de dobradiças cortou o ar atrás deles, seguido pelo barulho de portas.
Fletcher virou-se, a mão procurando uma espada que não estava lá.
— Ora, ora — disse Rook, saindo das sombras. — Veja o que temos aqui, Zacarias. Uma elfa e um traidor, saindo para dar um passeio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!