13 de março de 2018

Capítulo 27

Atena cutucou os pés do bebê, tomando cuidado para manter as garras retraídas. O bebê gorgolejou e observou a Griforuja com grandes olhos escuros.
— Atena! O que foi que eu lhe disse sobre brincar com o bebê? Ele mal tem idade para sentar. — A voz era suave e pura, vinda do alto.
Tranças loiras desceram sobre o bebê enquanto mãos o erguiam do berço. Atena, ainda nos lençóis, olhou para cima e contemplou os olhos azuis de uma dama. A mulher nobre sorria, apesar da ruga do cenho franzido entre as delicadas sobrancelhas.
— Edmund! — exclamou a mulher. — Você pode tirar essa Griforuja tola do berço?
— Desculpe-me, Alice; não estava prestando atenção. Há uma casa em chamas em Raleightown. Dá para ver aqui da janela.
Houve passos, e um homem surgiu à vista, chamando Alice para segui-lo. Como a dama, ele não vestia mais do que uma camisola, aberta no peito. Seu cabelo era escuro, com uma grossa camada de barba cobrindo a metade inferior do rosto.
Atena saiu do berço e se assentou na grade de madeira. Os dois nobres estavam juntos na janela do quarto do bebê, observando um leve brilho ao longe.
— É o padeiro ou o ferreiro? — indagou Alice, estreitando os olhos.
— Nenhum dos dois; ambos ficam no lado leste da aldeia. Espere... O que é aquilo?
Atena sentiu um pulso de alarme súbito do mestre. Houve um grito distante, interrompido tão subitamente quanto começara.
Ela esvoaçou até o ombro de Edmund e espiou pelo vidro. O gramado da mansão estava perfeitamente bem-cuidado, as bordas iluminadas com lampiões tremeluzentes. No horizonte, as chamas de uma aldeia incendiada cresciam. Então, como a maré subindo, uma onda de criaturas cinzentas surgiu nas trevas.
— Que os céus nos ajudem — sussurrou Edmund.
Eles vinham correndo da penumbra, como uma matilha de lobos. Dezenas de orcs; gigantes musculosos e esguios, com ombros recurvados e cenhos protuberantes, bafejando grandes nuvens de fôlegos fumegantes no frio ar noturno. Os caninos que se projetavam das mandíbulas reluziam brancos à luz dos lampiões, e as criaturas brandiam as clavas e machados enquanto corriam. Atena quase ouvia o trovejar dos pés, mas os orcs não uivavam ou gritavam, pois queriam pegar os ocupantes de surpresa.
— Todos os guardas estão no passo da montanha — sussurrou Alice, agarrando o braço de Edmund. — Eles teriam soado o alarme se os orcs tivessem atacado por ali. Nós... fomos traídos!
— Sim — concordou Edmund, caminhando até a porta do quarto. — Alguém lhes mostrou a passagem subterrânea.
— Reúna os criados e arme-os como puder — disse Alice, beijando o bebê e deitando-o cuidadosamente no berço. — Eu os conterei nos portões principais.
Os orcs já tinham alcançado o cascalho ao redor da mansão. Houve um estrondo no andar de baixo, seguido pelo estardalhaço de cascos e clavas golpeando a porta.
Edmund saiu correndo do quarto, mas Atena sentiu o desejo do mestre de que ela ficasse ali, vigiando o bebê. Ainda que tudo no seu ser a atraísse para ele, Atena se agachou à beira do berço e manteve vigília.
— Proteja-o, Atena — pediu Alice. Então ela também saiu.
Atena pôde apenas assistir a mais orcs vindo da aldeia, sangue pingando das armas. A porta no térreo emitiu um som de ruptura ao ceder ao massacre, o som foi seguido por um quebrar de vidro quando a janela do quarto do bebê implodiu diante dela. Uma lança passou assoviando, tão perto que Atena sentiu o vento no seu rastro.
Então, enquanto Atena olhava pela janela partida, uma explosão abaixo lançou massas de orcs para o gramado, como bonecos de pano atirados por uma criança furiosa.
Bolas de fogo se seguiram, brilhando como meteoros conforme cada disparo atingia aqueles ainda de pé. Acertavam com força explosiva, derrubando orcs como moscas.
Para cada orc que caía, porém, havia outros tomando o seu lugar, aglomerando-se nos restos da entrada explodida.
— Aguentem firme, os guardas virão. Eles têm que vir! — A voz de Edmund soou clara no pátio, mesmo enquanto os orcs começaram a berrar com fúria.
Relâmpagos crepitaram por entre os orcs reunidos, deixando-os se contorcendo e convulsionando no chão. Atena sentia o mana sendo drenado de si. Não duraria mais muito tempo.
Uma vibração surda soou quando uma grande lança foi arremessada pela porta aberta, e Atena sentiu uma dor aguda nos limites da consciência. Edmund tinha sido atingido, mas ela percebeu que tratava-se somente de uma ferida de raspão.
Um orc bem maior que os outros investiu pela entrada. Sangue espirrou no cascalho quando um impacto cinético lhe arrancou a cabeça, mas os orcs que o seguiam conseguiram entrar.
Mais gritos. Um uivo, de Galert, o Canídeo de Edmund, quando o demônio foi libertado sobre as feras. O Vulpídeo de Alice, Reynard, devia estar lutando ao seu lado, pois os uivos eram acompanhados por rosnados agudos.
Porém, mesmo enquanto Atena via corpos cinzentos sendo arremessados da porta, ensanguentados e queimados, mais e mais orcs conseguiam se enfiar na mansão. A maré estava virando.
Dor. Pior agora. Um braço quebrado. Ordens de Edmund, imagens enviadas pela conexão deles, com uma clara intenção. A memória de uma grande árvore. Um elfo que tinham encontrado uma vez. Leve o bebê para lá. A criança que ainda não tinha nome. Não pare por nada.
Atena pegou os braços do recém-nascido com as patas. Ele era tão pesado, e o destino, tão distante. Mas ela precisava tentar.
Um grito rouco veio de fora, cortando os berros e rosnados que emanavam dos horrores da batalha abaixo.
Sir Caulder, grisalho e ensanguentado, cambaleava no gramado diante da mansão. Mal conseguia ficar em pé de exaustão, tendo corrido até ali em cota de malha. Mesmo assim, o primeiro orc a atacá-lo foi talhado nos joelhos, então pisoteado com bota blindada. Quando o próximo orc se virou para enfrentá-lo, foi jogado para trás por uma flechada na cabeça. Mais soldados vieram, trôpegos da escuridão, disparando os arcos.
Mas estavam em desvantagem numérica; mais de cem orcs contra poucas dezenas de humanos. Um por um, os soldados exaustos iam sendo abatidos por dardos e machados arremessados, derrubados como marionetes arrancados do palco. Os homens mais próximos eram esmagados pelas clavas, os gigantes cinzentos ululando guturais gritos de guerra.
Sir Caulder continuou lutando, mesmo quando uma clava esmagou seu braço. O membro pendia inerte ao seu lado enquanto ele se esquivava e atacava, fazendo os orcs pagarem caro por cada passo que recuava. Um golpe pelas costas quase lhe decepou a perna, que ficou pendurada num ângulo perturbador. Ele tombou, então, com olhos voltados ao céu.
Atena se lançou ao ar noturno no momento em que uma explosão no térreo arremessou destroços pelo gramado. As enormes pedras da construção devastaram os orcs aglomerados, caindo como cargas de chumbo e os transformando em nuvens de névoa vermelha.
A conexão com Edmund se foi, tal como ele. Atena já sentia o éter puxando a própria essência. Só que o bebê sob ela chorava, os braços esticados dolorosamente sobre o próprio corpinho. A noite ficava cada vez mais fria conforme Atena voava cada vez mais alto.
Escuridão. Bater de asa após bater de asa. Estrelas imóveis brilhando acima, luzes cintilantes de cidades passando abaixo. O chamado do éter cada vez mais forte.
Horas se passaram.
Montanhas nevadas se erguendo da terra como dentes. Corpo se esvanecendo. A selvageria do éter tomando controle.
Uma vila, bem abaixo.
Nenhum tempo.
Nenhuma escolha.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!