2 de março de 2018

Capítulo 27

Os prédios altos desapareceram para revelar fileiras e mais fileiras de barracas brancas, lindamente bordadas com formas caleidoscópicas em vermelho e azul. Grama verde primaveril substituía os paralelepípedos, e cada pavilhão era cercado de jardins carinhosamente mantidos. As flores de cores vívidas emanavam perfumes doces no ar, lembrando Fletcher dos verões da sua juventude nas montanhas. Liberado dos prédios esquálidos, o sol de inverno lançava uma luz pálida, mas quente, no rosto do rapaz.
— É lindo — comentou ele, maravilhado pela súbita transformação.
Fletcher tinha esperado que o Bairro Anão fosse um lugar paupérrimo e miserável, considerando o nível das construções que o cercavam.
Otelo sorriu com essas palavras e seguiu mancando, acenando para os anões próximos sentados pelos jardins, conversando.
— Eis o meu lar — disse Otelo, apontando uma barraca próxima. — Minha família inteira mora ali.
— E quantos vocês são? — indagou Fletcher, tentando não se incomodar com os olhares que recebia dos outros anões ao passar.
— Ah, tem pelo menos uns trinta de nós em cada barraca, mas a nossa contém a oficina do meu pai, então somos só vinte. Ele precisa do espaço.
Fletcher tentou entender como um grande pavilhão de pano poderia conter vinte pessoas e uma oficina. Cada um deles era do tamanho de um grande celeiro mas, a menos que eles dormissem em beliches, não havia como isso ser verdade.
— Baixe o capuz e tire os sapatos antes de entrar. Na nossa cultura, isso é educado — instruiu Otelo.
Fletcher ajudou o amigo a tirar as botas; o pobre anão tinha começado a empalidecer por conta da dor do ferimento, e abaixar-se era difícil para ele. Enquanto o rapaz humano, ajoelhado, lutava com os nós grossos dos cadarços do anão, uma silhueta baixa com robes esvoaçantes correu até eles, gritando em choque. Seu rosto era obscurecido por um véu cor-de-rosa preso por uma delicada corrente de prata.
— Otelo, o que aconteceu? — uivou a silhueta numa voz aguda.
— Estou bem, Thaissa. Eu só preciso entrar. É melhor não deixar que os outros me vejam ferido, ou vão achar que estou sendo maltratado em Vocans, o que não é o caso.
Thaissa abriu a aba da tenda e os colocou para dentro. Estranhamente, não era o aposento espremido que Fletcher tinha esperado. Em vez disso, o piso era decorado com tapetes e almofadas. No centro, um grosso cano de metal se estendia até o topo da barraca, como uma chaminé. Fletcher finalmente entendeu tudo ao ver a escada em espiral que circundava o cano, descendo terra adentro. Eles viviam no subterrâneo!
Thaissa, que só poderia ser a irmã de Otelo, continuou a fazer um rebuliço ao redor do anão, empilhando almofadas no chão para que ele se reclinasse.
— Vocês têm um belo lar — comentou Fletcher enquanto outra figura subia as escadas. Ele captou um relance de um rosto com bochechas rosadas e olhos verdes brilhantes antes que a anã soltasse um berro e puxasse um véu sobre o rosto.
— Otelo! — gritou ela. — Como você pôde trazer visitas sem nos avisar? Ele viu meu rosto!
— Está tudo bem, mãe; não acho que humanos contam. Ele é meu amigo e eu peço que o tratem como tal. — Otelo desabou para o chão e agarrou o flanco.
— Você está ferido! — exclamou ela, correndo até o filho.
— Por favor, pegue as ataduras. O policial Turner e o sargento Murphy me atacaram de novo. Desta vez, acho que podem ter me quebrado uma costela. Preciso que você passe bandagens pelo meu tórax.
Ele falava entrecortadamente, como se respirar fosse doloroso, enquanto tirava a jaqueta e a parte de cima do uniforme. Seus largos ombros e peitoral eram cobertos com uma grossa penugem ruiva encaracolada, que também descia até a metade das costas. A pele dos ombros estava coberta com uma malha de cicatrizes, mais uma demonstração da brutalidade dos Pinkertons. Fletcher estremeceu ao vê-las.
A mãe de Otelo desceu as escadas correndo enquanto Thaissa enxugava a testa do irmão com a manga da roupa. Ela logo voltou com um rolo de linho e começou a enrolá-lo com força ao redor do peito do filho. Otelo se encolhia com cada volta, mas aguentou estoicamente. Fletcher já podia ver um hematoma negro crescendo no tórax do amigo.
— Otelo, o que você está fazendo aqui de volta tão cedo? Alguém me contou que tinha lhe visto na cidade — disse uma voz atrás deles.
— Estou só sendo remendado, Átila — respondeu Otelo. — Os Pinkertons bateram um papo comigo de novo. Sorte que Fletcher estava lá para me ajudar.
Havia outro anão parado na entrada. Ele era extremamente parecido com Otelo; quase idêntico, na verdade. Lançou um olhar de puro ódio a Fletcher e ajudou Otelo a se levantar.
— Os humanos nunca vão nos aceitar. Deveríamos abandonar esta cidade maldita e criar nossos próprios assentamentos, longe daqui. Olhe só o que aconteceu com você depois que fraternizou com esse humano — ralhou Átila. — Vá embora daqui, humano, antes que eu faça o mesmo a você.
Como se Ignácio pudesse entender as palavras, ele saltou para o chão e sibilou, deixando uma fina coluna de fumaça sair das narinas.
— Chega! Estou farto da sua retórica anti-humana! — gritou Otelo. — Não vou permitir que insulte meu amigo no meu próprio lar. É você quem tem que ir embora! — Ele tossiu de dor com a explosão de raiva e se apoiou em Fletcher.
Átila lançou mais um olhar furioso ao rapaz e então partiu da barraca, resmungando em voz baixa.
— Você vai ter que desculpar meu irmão gêmeo. Ele também passou no teste, mas seu ódio pelo seu povo, Fletcher, significa que ele jamais lutará por Hominum, nem mesmo como um mago de batalha. Nós dois desejamos a libertação dos anões, mas é aí que termina nossa concordância — explicou Otelo, infeliz. — Eu me preocupo com ele, com o que é capaz de fazer. Mal posso lembrar quantas vezes me entreguei quando eles emitiam um mandado de prisão no seu nome, e sofri as punições dele. Se tivessem tentado prendê-lo, ele poderia ter resistido e lutado de volta, e então o matariam. O que mais eu poderia fazer além de ir em seu lugar?
— Está tudo bem. Como eu poderia culpar seu irmão por se sentir assim depois do que vi hoje? Espero que eu tenha uma chance de mudar a opinião dele um dia. Não somos todos tão ruins.
— Sim, sim, você até que não é tão mau — admitiu Otelo com um sorriso. — Estamos tentando manter Átila longe de encrencas, trabalhando com meu pai na oficina. Acho que é melhor levar você lá logo. Meu pai vai dar uma olhada em sua espada. É o melhor ferreiro em toda Hominum.
— O inventor dos mosquetes e pistolas? Não duvido — comentou Fletcher, em seguida se lembrando das boas maneiras. — Eu ficaria honrado se me permitissem visitar seu lar — disse às duas anãs, curvando a cabeça.
O véu da mãe de Otelo escondeu sua expressão, mas ela assentiu depois de alguns instantes.
— Confio no julgamento do meu menino, e fico feliz que ele tenha encontrado um amigo em Vocans. Temíamos que ele pudesse ser infeliz por lá. Meu nome é Briss, é um prazer conhecê-lo.
— Ele tem muitos amigos, sou só um deles — explicou Fletcher, dando tapinhas amistosos nas costas de Otelo. — Estou honrado em conhecê-la, Briss, e você também, Thaissa.
— Devemos parecer muito estranhas para você, com nossos véus — comentou Thaissa, com voz tímida e hesitante. — Não é comum que anãs encontrem humanos. Ora, muitos ainda pensam que as anãs têm barbas e são idênticas aos anões!
Ela riu, e até mesmo Briss soltou uma risadinha leve e melódica.
— Tenho que admitir, estava me perguntando por que vocês os vestem. Seria rude da minha parte perguntar? — inquiriu Fletcher.
— De forma alguma. Nós os usamos para que os anões se casem por amor, e não por luxúria — explicou Briss. — Nossos maridos não podem nos ver até a noite de núpcias, então precisam nos amar por nossas personalidades, e não pelas aparências. São também um sinal de recato e privacidade, de modo que não exibimos nossa beleza para que todos vejam. É um privilégio reservado aos nossos maridos...
— Falando em marido, preciso levar Fletcher para conversar com meu pai agora mesmo — interrompeu Otelo, desconcertado com a franqueza da mãe. — Vamos, Fletcher, ele está no andar de baixo.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!