22 de março de 2018

Capítulo 26

Os dois nobres vestiam trajes militares de gala e usavam máscaras iguais, que não passavam de um visor branco liso sobre seus olhos. Na verdade, Isadora não era a única mulher que estava usando trajes militares — pelo canto do olho, Fletcher viu que várias outras recém-chegadas tinham dispensado os vestidos de baile, preferindo um visual menos vistoso: mulheres da nobreza que detinham altos cargos na milícia ou seus próprios exércitos particulares.
A respiração de Fletcher se acelerou ao ver os gêmeos, o suor brotando nas palmas das mãos. Eles andavam pela sala como um par de leões de cabelos dourados, completamente à vontade na ostentosa reunião da elite de Hominum.
Ignorando as saudações dos outros convidados, a dupla caminhou diretamente até Serafim. Fletcher sentiu Sylva puxar a sua manga, mas o choque de ver a dupla o havia deixado plantado no lugar. Quando recuperou a compostura, já era tarde, e Tarquin e Isadora estavam diante deles, os olhos mascarados piscando ao examinar os três.
— Parabéns, Serafim — cumprimentou Tarquin, a voz inexpressiva e sem o menor entusiasmo. — Um nobre, finalmente. Você subiu na vida.
— Obrigado — respondeu Serafim, com rigidez.
Tarquin mal registrou a resposta. Seus olhos estavam grudados nos de Fletcher, estreitando-se sob a máscara. Fletcher permaneceu em silêncio, mas inclinou ligeiramente a cabeça, como se cumprimentando-o.
— Bem, não seja mal-educado, Serafim querido — disse Isadora, atirando de lado sua juba. — Você não vai nos apresentar a seus convidados?
Serafim pigarreou, ganhando tempo.
— James Rotherham — finalmente disse, a voz uma oitava mais aguda que o habitual. — Ele é de Swazulu. Veio supervisionar nossas minas de enxofre.
— James Rotherham? — perguntou Tarquin, com as sobrancelhas franzidas. — Esse é um nome nortenho. E você é um pouco branco demais para ser de Swazulu, não é, James?
— Hã, ele não fala muito bem nosso idioma — respondeu Serafim, depressa. — Seus antepassados são originários de Hominum, daí esse nome e a aparência, mas ele é tão estrangeiro quanto qualquer um de sua terra.
Fletcher baixou a cabeça e juntou as mãos em um gesto de respeito.
Tarquin soltou um resmungo, e a desconfiança estava clara em seu rosto, mesmo com a máscara. Apesar disso, seu principal interesse era Sylva: seus olhos se demoraram em seu corpo magro um pouco mais que Fletcher teria gostado.
— Diga-me, Serafim, por que você convidou uma elfa para o baile? — perguntou Isadora, e então riu quando Serafim inspirou fundo.
— Bem, não precisa ficar tão surpreso — riu ela, dando um tapinha brincalhão no ombro de Serafim. — São olhos... muito coloridos. Nem mesmo os olhos de mamãe são tão azuis assim. Sinceramente, Serafim, você não tem nenhum amigo de seu próprio país? — Ela fingiu parar para pensar, em seguida cobriu a boca afetando um espanto dissimulado. — Ah, espere, todos morreram, não foi? Oh, eu sinto muito.
Serafim gaguejou de raiva, e Fletcher teve de fazer força para não cerrar os punhos. Por sorte, Sylva avançou ligeiramente para a frente e fez uma reverência profunda antes que Serafim pudesse responder.
— Boa noite.
Um sotaque élfico, puro e cadenciado, estendia-se sobre suas palavras. Era uma atuação impressionante, e Fletcher sorriu sob a máscara.
— Sou representante dos clãs, aqui para negociar um acordo de armas com lorde Pasha. — Ela indicou Serafim com a cabeça. — Nossas tropas chegarão na linha de frente em breve, e precisam de armas. Achamos por bem não fazer conhecida a minha presença no baile, dado o atual... clima político.
Tarquin ergueu o maxilar, e o sulco em sua sobrancelha se aprofundou.
— Não consideraram negociar armas com o Triunvirato? — perguntou Isadora, a voz repugnantemente doce. — Nossas fábricas ficam muito mais próximas de suas fronteiras que a da família Pasha.
— Nós escolhemos com quem fazemos negócios com muito cuidado — declarou Sylva, cruzando os braços. — É uma questão de... gosto.
Os dois enrijeceram ao ouvir aquelas palavras, e Fletcher viu manchas vermelhas aparecerem nas bochechas de Tarquin.
— Vamos, Isadora — disse ele, pegando o braço da irmã. — Temos de cumprimentar lady Faversham.
A dupla se foi, desaparecendo na multidão sem olhar para trás.
— Swazulu? — disse Fletcher, irritado. — Foi o melhor que você pôde inventar?
— Ei, não me culpe — murmurou Serafim em voz baixa, aproximando-se para que Fletcher pudesse ouvi-lo. — Você era o que não tinha uma história pronta, nem sequer um nome! Você sabe que só fiquei sabendo desse esquema ridículo de vocês há poucas horas, não é? Fui obrigado a deixar meus dois convidados de verdade chupando o dedo no hotel, e vocês têm sorte de que os convites não eram nominais. Não esqueça: se isso der errado, minha vida está em risco. Ser cúmplice de traidores me torna um também.
Fletcher suspirou e tomou um gole do espumante. O gosto era amargo em sua boca, e ele engoliu com uma careta. No mesmo instante arrependeu-se, ao sentir o líquido ácido descer e assentar na entrada de seu estômago.
— Desculpe — lamentou. — Mas parece que escapamos dessa, então não houve estrago.
— Bem, Sylva não ajudou muito. Você tinha mesmo que conquistar a antipatia deles?
— Não pude me controlar — respondeu Sylva, com um tom de arrependimento na voz.
— Está bem. Apenas fiquem longe de mim, antes que alguém que conheçamos venha me cumprimentar.
Como se seguindo a deixa, o arauto chamou o nome de Didric, reduzindo o burburinho alto a sussurros a meia voz. Fletcher viu seu inimigo de relance, trajando o uniforme listrado de amarelo e preto de seu exército privado: uma peça elegante de duas peças com os galões de um capitão blasonados nos ombros. Ele usava uma máscara prateada em forma de lua crescente, que cobria perfeitamente a metade queimada de seu rosto. No mesmo instante, viu-se cercado por um número de nobres menores, desesperados para familiarizarem-se com o novo lorde.
Mas não havia necessidade de se apressarem, pois o arauto convocou os convidados.
— Senhoras e senhores, dirijam-se ao salão de banquetes.
Fletcher não precisou de novo aviso. Sylva enganchou seu braço no dele e se juntou às multidões na escada. Ela custava um pouco para caminhar, pois o vestido era longo e se prendia em seus calcanhares. Fletcher percebeu que os sapatos delicados e de salto alto, além de serem uma má escolha de calçados para o trabalho daquela noite, não faziam sentido, pois mal podiam ser vistos sob as saias que iam até o chão. Quando chegaram às portas, Fletcher estava suando sob o calor das tochas brilhantes que iluminavam o caminho, e os cachos pretos de seus cabelos estavam encharcados de transpiração. Eles entraram meio aos tropeços no iluminado salão de banquete e ficaram boquiabertos de admiração.
Três longas mesas estavam dispostas lado a lado, em um salão iluminado com tantos lustres que era como se o próprio teto estivesse em chamas. O piso era de mogno polido, e bustos de mármore que representavam as gerações da família real alinhavam-se às paredes, olhando furtivamente para os convidados reunidos, como se reprovando aquela exibição extravagante.
Lacaios almofadinhas se curvavam e arrastavam os pés ao entrar no salão, antes de orientar os convidados para seus lugares. Fletcher viu-se sentado ao lado de Serafim e Sylva, em frente a um nobre gordo, cujo rosto já estava vermelho de tanto beber. O homem se via sentado entre duas mulheres jovens, que obviamente eram suas convidadas, pois o adulavam a cada palavra. Ambas usavam maquiagem pesada; penteados altos e máscaras douradas escondiam-lhes os olhos.
— Claro, é vergonhoso — dizia o homem, enquanto Sylva e Serafim sentavam-se um de cada lado de Fletcher. — Quero dizer, o rei Harold é um bom homem, tem o coração no lugar certo e coisa e tal, mas dessa vez foi longe demais.
— Você está certíssimo, Bertie querido, ele foi longe demais — disse uma das mulheres com voz afetada, inclinando-se mais, e Fletcher viu uma pinta falsa em sua bochecha esquerda.
— Longe demais — repetiu a outra, balançando a cabeça. Tinha um pescoço incomumente longo, e sua cabeça tremia como a de uma cegonha.
— Ofereça a mão que eles levam o braço, é o que eu sempre digo — prosseguiu Bertie, e as papadas tremeram quando ele bateu a mão fechada na mesa para dar ênfase. — Os anões precisam saber qual seu lugar. Agora vejam o que aconteceu. Algumas centenas desses sacanas estão marchando para cá, armados até os dentes, e, enquanto não chegam, atiram bombas a torto e a direito.
— É realmente horrível — disse Pinta. — Não estamos seguros em nossas camas à noite.
— Já o velho rei Alfric, esse sim tem as ideias no lugar — murmurou Bertie.
Ele ergueu um dedo, depois virou a taça de espumante em um único gole, fazendo com que metade do líquido de cor clara escorresse pela camisa branca rendada.
Então ele se inclinou e acenou para que Fletcher, Serafim e Sylva se aproximassem. Relutantemente, os três dobraram o pescoço, para não parecerem grosseiros e atrair as atenções.
— Fontes confiáveis me disseram que o velho rei ordenou que os Pinkertons invadam as oficinas dos anões amanhã à noite — sussurrou, olhando por cima do ombro para checar se não havia nenhuma criada anã por perto. — Porque, óbvio, é lá que as bombas estão sendo fabricadas. Sou amigo antigo de Alfric, e, claro, ele confiou em mim para revelar isso.
— Ah, como você está por dentro — disse Pescoçuda, cobrindo a boca com uma das mãos.
— Lógico, Alfric vem me pedir conselhos o tempo todo — continuou Bertie bombasticamente. — Não toma nenhuma decisão sem me consultar.
— Isso é muito interessante — disse Serafim, incitando o homem de língua solta. — Ele deve confiar muito em sua opinião.
Fletcher duvidava muito que o frio e calculado Alfric fosse amigo daquele fanfarrão bêbado ali à frente. O mais provável é que o homem tivesse ouvido rumores a respeito e estivesse simplesmente se gabando para as jovens impressionáveis.
Mas a notícia era preocupante. As fundições dos anões se localizavam nos porões de suas casas, construídas sobre os leitos rochosos e protegidas por portas metálicas. Alfric enfrentaria dificuldades para entrar, o que significava que os Pinkertons teriam de invadir as próprias casas dos anões. Além disso, eles estariam tentando invadir os mais secretos santuários dos anões. Se aquilo fosse verdade, haveria rebeliões naquela noite, de uma forma ou de outra; tudo parte do grande plano de Alfric para incitar uma revolta.
— A melhor parte da história é que finalmente vamos saber como eles fabricam as malditas armas — continuou Bertie. — Eu disse a ele, eu falei: “Alfric, você precisa dar uma olhada nas armas.” Depois que soubermos isso, não teremos mais necessidade desses filhos da mãe. Podemos prender a turma toda e jogar fora a chave.
O nobre atirou na boca os resíduos que tinham se acumulado no fundo da taça depois estalou os lábios e soltou um suspiro satisfeito.
— Nossa, isso parece muito duro, Bertie! — comentou Pinta, abanando-se com um leque. — Não poderíamos apenas... sei lá, mandá-los para longe? Talvez colocá-los em um navio ou algo assim?
— É arriscado demais — explicou Bertie, olhando em torno do salão em busca de uma serviçal que enchesse novamente sua taça. — Foram eles que começaram, afinal. Primeiro os bombardeios, depois um matou aquele menino corajoso na missão, bem na nossa frente. Isso é toda a prova de que precisamos: eles voltariam e nos limpariam da face da Terra se pudessem. Não, Gertrude, são eles ou nós.
— Mas por quê?
Fletcher levou um instante para perceber que era ele quem tinha perguntado aquilo.
— Desculpe, não entendi o que você disse — falou Bertie, a testa suada acima de sua máscara enrugando o cenho franzido.
— Por que ela matou Rufus Cavendish? — perguntou Fletcher, indeciso, sem saber se era melhor continuar a conversa.
— E quem sabe por que essas criaturas fazem essas coisas? — rebateu Bertie, dispensando a questão como se fosse uma mosca irritante. — Provavelmente para enviar um recado a toda Hominum, nos mostrar exatamente com quantos paus se faz uma canoa anã, por assim dizer. O que importa é que ela o matou.
As rugas do olhar severo do nobre se aprofundaram, e seus olhos se estreitaram por trás da máscara. Obviamente não estava acostumado a ser questionado daquela maneira.
— Aliás, quem diabos é você, mesmo? — perguntou ele. — Eu não estou reconhecendo seu uniforme.
— Meu convidado — apresentou Serafim suavemente, ao mesmo tempo que pousava uma mão tranquilizadora na coxa de Fletcher. — E eu sou lorde Pasha.
Mesmo sob a máscara, Fletcher viu Bertie ficar lívido. Afinal, a afiliação de Serafim aos anões não era nenhum segredo.
— Eu... isso é... — O pomo de adão do homem balançou enquanto ele engolia em seco. — Sei que você tem certa... simpatia pelos anões. Não quis ofender.
— Não ofendeu — garantiu Serafim, apertando ainda mais o joelho de Fletcher, como se para avisá-lo para ficar quieto. Não era necessário; Fletcher já tinha se arrependido da impulsividade.
O mal-estar foi interrompido pelo suave tilintar dos sinos, anunciando que a comida estava pronta. Não demorou e os criados estavam entre as mesas, equilibrando enormes bandejas com tampa brilhantes para manter a comida aquecida. Dentro de minutos, o centro da mesa estava repleto de bandejas fumegantes, e os mordomos à espera removeram as tampas com um floreio simultâneo.
O estômago de Fletcher se apertou de fome ao avistar aquilo. O cheiro delicioso que flutuava embaixo de seu nariz encheu sua boca de saliva.
O maior prato era uma perna de veado cujo pernil fora assado em fogo baixo a noite inteira para que a carne ficasse suculenta e macia. Ao lado havia um cisne recheado com cogumelos e ostras, a pele crocante lambuzada com um molho de polpa de figos e açafrão, brilhando sob as chamas cintilantes dos lustres acima. Mais adiante, havia um javali inteiro, com uma crocante maçã vermelha presa à boca.
Mesmo com esses pratos enormes, havia ainda mais carne sobre a mesa: frigideiras de lebre com gelatina de tangerina, bolinhos fritos de lúcio, esturjão pochê com guarnição de seu próprio caviar e até mesmo um gooducken, o prato extravagante que consiste em um pato recheado com uma galinha, por sua vez inserido dentro de um ganso.
Rodeando as carnes, havia mais iguarias: verduras com alho, ameixas aferventadas em água de rosas, castanhas-portuguesas confeitadas e tigelas de frutas vermelhas em creme de nata. Fletcher só conseguia ver a comida que estava na própria mesa, mas achava que era demais. Tentou resistir à tentação de estender a mão para provar algo do prato mais próximo. Em vez disso, começou a destravar o segmento de baixo da sua máscara, para que pudesse comer.
— Cress disse para só tomar água — sussurrou Serafim, enquanto uma anã de vestido cor-de-rosa passava por ele.
Então a voz do arauto interrompeu os suspiros maravilhados e o tilintar dos talheres.
— Lordes, ladies e ilustres cavalheiros. Que comece o banquete!

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