13 de março de 2018

Capítulo 26

Fletcher se apressou selva adentro, com o rosto vermelho. Fingir que precisava ir ao banheiro... Não poderia ter pensado numa desculpa melhor?
Ele lutou para avançar em meio aos arbustos emaranhados, a pele coçando ao esbarrar numa grudenta teia de aranha. Ao redor de sua cabeça, o zunido agudo dos mosquitos se misturava ao zumbido grave das moscas. Apesar da umidade abundante no ar, os insetos pareciam atraídos ao líquido nos olhos e boca do rapaz, que teve que avançar cuspindo bichos até sair da vista dos outros.
Ciente da própria vulnerabilidade, assim tão longe dos outros, conjurou Ignácio e Atena com dois clarões da palma. Imediatamente, Atena esvoaçou até o topo da árvore mais próxima, vasculhando a área em busca de perigos. Ignácio se contentou em escalar até o ombro de Fletcher e dar um tapa no mestre com a cauda, castigo por tê-lo mantido infundido tanto tempo.
Com um olhar furtivo para trás, Fletcher se agachou em meio aos arbustos e abriu a mochila lentamente. Ali dentro, Azul o espiou de volta com olhos esbugalhados e assustados. Tinha de alguma forma se armado com um anzol de pesca, uma das muitas ferramentas que Uhtred e Briss haviam guardado nas bolsas de couro dadas pelos anões. Era uma arma patética, mas o gremlin a ergueu enquanto Fletcher se afastava, os braços erguidos para mostrar que não era ameaça.
Lentamente, sem tirar os olhos de Fletcher, o gremlin saiu da mochila e se agachou no chão, o peito magricelo ofegando com respirações ansiosas.
— Eu não deveria fazer isso — disse Fletcher; ao dizê-lo, as dúvidas começaram a atormentá-lo.
Azul poderia correr direto aos seus mestres orcs e lhes contar sobre a missão. Mas era tarde demais agora, pois o gremlin já tinha se afastado para fora de alcance. Um clarão de branco acima disse a Fletcher que Atena sentira seus temores e estava pronta para dar o bote.
Então, o gremlin falou:
— Obrigado — trinou Azul, soltando o anzol no chão.
Ele sabia falar! A mente de Fletcher girou enquanto Azul disparava selva adentro. Meio segundo depois, as patas de Atena atingiram o chão onde ele havia estado, e ela piou de frustração.
— Deixem-no ir — sussurrou Fletcher, enquanto Ignácio saltava e farejava os arbustos. — Ele não vai contar.
Assim ele esperava.
Conforme a manhã se transformava em tarde, Fletcher se via feliz que a equipe de Malik tivesse compartilhado o conhecimento de seu guia. Mason os ensinou a deixar menos pegadas, evitando o solo mais úmido e ficando perto do chão mais firme ao lado das raízes das árvores. A lembrar, quando examinavam as pegadas alheias, que os gatos selvagens andavam com garras retraídas enquanto as hienas, mascotes favoritas dos orcs, não. Como alguns dias de vento ou uma única noite de chuva bastaria para apagar tudo.
Mostrou como disfarçar o próprio cheiro e evitar mosquitos esfregando alho-bravo na pele e nos cabelos. Falou sobre as estradas naturais da floresta, aprofundadas pelos anos de passagens de animais.
Fletcher sabia de algumas dessas coisas dos anos de caçadas nas montanhas Dente de Urso. Mas ouvir aquilo sendo dito e ensinado, em vez de apenas depender do próprio entendimento instintivo, era fascinante.
Enquanto Mason falava, Jeffrey vasculhava as bordas da floresta, coletando plantas e guardando vários espécimes na bolsa. Quando chegou sua vez de falar, foi o conhecimento botânico que impressionou mais, em vez dos feitiços que revelou no fim.
— Vejam aqui, o cipó d’água — explicou, apontando para uma liana que pendia rigidamente das copas.
Ele cortou a base com uma faca fina e a levou à boca. Água fluiu como de uma torneira.
— Fresca como uma nascente da montanha — disse, sorrindo e limpando a boca. — Se não der para arranjar água da chuva ou de cocos, é o melhor lugar a procurar.
Foi até outra planta próxima, uma muda de palmeira. Serrou gentilmente e removeu da casca o interior branco, que mastigou com alegria.
— Palmito. Tem gosto de aipo — resmungou de boca cheia. — Mas é nutritivo!
Fatiou o cilindro e distribuiu os pedaços. Fletcher achou o sabor sem graça, mas com um toque de nozes que aprovou.
Um pouco mais longe do acampamento, Jeffrey lhes mostrou uma flor com pétalas roxas e brancas. Colheu-a para revelar um legume alaranjado abaixo.
— Batata-doce. — Sorriu mais uma vez, guardando-a no bolso para mais tarde.
Por mais uma hora ele os guiou pela selva, num raio de 30 metros do acampamento. Mamão, goiaba, coco e maracujá pendiam dos galhos, sendo colhidas pelos demônios mais acrobáticos. Malaqui e Azura, os Carunchos de Rory e Genevieve, cortavam os caules das frutas, que caíam com baques suculentos.
Verity revelou que seu demônio era uma Donzela, parecida com uma libélula iridescente e com o dobro do tamanho de um Caruncho. Tinha um ferrão e mandíbulas afiadas que adicionavam um elemento de perigo ao inseto multicolorido que dardejava por entre as árvores. Era um demônio de nível baixo para uma conjuradora nobre, e Fletcher suspeitava de que não era o único que ela mantinha em seu rol.
Mas não era tudo paz e amor. Jeffrey parou diante de uma grande planta de um único caule, com folhas em forma de coração, que crescia ali perto. Não parecia muito impressionante, exceto pelas frutinhas translúcidas, cor-de-rosa e brilhantes, que pendiam em cachos como uvas.
— Esta é uma gympie-ferrão. Estão vendo aqui essas cerdas finas que cobrem os frutos e folhas? — Ele ergueu o braço para afastar os outros, mas ergueu uma das folhas com a faca para que todos vissem. — Cada fibra está cheia de uma neurotoxina que causará a pior dor imaginável. O pior de tudo é que a dor continua por meses, alguns dizem até anos. Fiquem de olho nelas. Sargento Musher, você já ouviu falar?
O veterano guia de Serafim balançou a cabeça com tristeza.
— Um rapazote de 17 anos foi pego de surpresa numa patrulha uma noite. Entrou no mato, fez os negócios dele. Limpou com uma dessas folhas aí. Os gritos poderiam ter acordado os defuntos. Definitivamente acordou alguns orcs, porque a gente teve que cair fora de lá rapidinho. Levamos de volta pro acampamento, chamamos o médico pra dar uma olhada, chamamos até um conjurador pra curar. Não fez uma pitomba de diferença. Os gritos continuaram e continuaram. O pobrezinho se matou duas semanas depois.
O clima ficou pesado, e Fletcher estremeceu.
Aquela planta não estivera muito longe de onde ele tinha libertado Azul. Aquela selva era tanto paraíso quanto uma armadilha mortal.
Novamente, Jeffrey os levou adiante, daquela vez parando ao lado de uma grande árvore, tão comum quanto qualquer outra.
— A mancenilheira — anunciou, apontando para os galhos. — Queime esta madeira, e a fumaça o cegará. Fique embaixo dela durante uma chuva, e uma única gota queimará sua pele. Orcs cobrem as lanças com a seiva para fazer os ferimentos infeccionarem. Eles até amarram os gremlins fugitivos aos troncos para que morram devagar. Pior que ser queimado, dizem alguns. O fruto é conhecido como maçã da morte. — Apontou para os grandes frutos verdes que pendiam dos galhos. — Vocês podem adivinhar o que acontece se comerem uma.
Houve muitas outras revelações naquela tarde.
Jeffrey lhes mostrou quais lenhas queimam com menos fumaça, de forma a melhor ocultar a presença na floresta. Colheu capim-navalha com folhas tão afiadas que dava para se barbear com elas, carnudas como os espinhos nas costas do Cascanho de Serafim. Havia até cipós espinhentos que poderiam servir de serras, de tão afiados e fortes que eram os dentes de cada espinho.
Finalmente, Jeffrey entregou diagramas de três novos símbolos de feitiços. O primeiro, um feitiço de crescimento em forma de folha, era capaz de transformar uma semente em planta em questão de minutos. Ninguém o testou, porém, pois Jeffrey avisou que exigiria mana substancial.
O símbolo seguinte era uma linha retorcida, que Jeffrey chamou de feitiço de emaranhamento. Ele apertaria e selaria qualquer nó ou, ao se entalhar o símbolo inverso, o afrouxaria. Os usos eram limitados, mas Fletcher se divertiu testando a magia nos cadarços das botas de Serafim quando este não estava olhando, o que entreteve os outros. Acima de tudo, Fletcher ficou aliviado em ver que Genevieve e Rory o tratavam bem, aparentemente tendo perdoado o amigo pelas transgressões do ano anterior.
O símbolo final era provavelmente o mais empolgante, e Jeffrey o descreveu como um feitiço de gelo, encontrado na carcaça de um Polárion. Com a forma simples de um floco de neve, lançava uma rajada gélida que dominava tudo que tocava.
— Uma bênção neste calor — proclamou Malik, disparando contra a poça mais próxima. A superfície estalou e se congelou, e a umidade do ar no rastro caiu no chão numa névoa de flocos de neve. — Um pouco poderoso demais para se refrescar — concluiu, decepcionado. — Mas vou colocar gelo na minha água de coco daqui em diante.
Fletcher se perguntou por que os feitiços teriam sido mantidos em segredo por tanto tempo, úteis como seriam a todos os magos de batalha. Talvez fossem as únicas fichas de barganha de Electra, usadas por ela para permitir que Jeffrey continuasse sua pesquisa atrás das linhas inimigas.
Assim que as equipes terminaram de testar o feitiço de gelo, foi a vez do sargento Musher demonstrar seu conhecimento. E foi em boa hora, pois o céu tinha escurecido e as primeiras estrelas já estavam cintilando. Eles montaram acampamento, agrupando-se bem de perto conforme o calor do dia se esvaía, deixando apenas a umidade da selva infiltrar o frio nos ossos de todos.
A voz de Musher os envolveu na escuridão, descrevendo as constelações e a quais direções elas levariam o navegador. A Flecha Élfica que indicava o norte, o Cetro de Corwin, que apontava o leste...
Aninhado no calor dos amigos, Fletcher sonhou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!