2 de março de 2018

Capítulo 26

Uma carruagem até Corcillum teria custado extorsivos seis xelins por pessoa, mas Otelo sabia de uma cidade um pouco mais adiante na estrada principal onde o transporte poderia sair mais barato.
Depois de meia hora de caminhada e mais dez minutos de negociação, o grupo embarcou na caçamba de uma carroça puxada a cavalo por um xelim cada. Eles compraram uma cesta de maçãs por mais um xelim e a devoraram, curtindo o doce azedume das frutas. Nem a chuva que desabava sobre eles conseguiu desanimar os calouros, que riam e tentavam pegar pingos de água com a boca. O Lutra de Atlas foi quem mais curtiu a chuva, latindo e rolando nas tábuas molhadas da carroça.
Foram deixados na estrada principal da cidade, lotada de comerciantes e clientes, apesar do temporal. Conforme o grupo se aglomerava numa esquina, as pessoas olhavam seus demônios e uniformes, algumas sorrindo e acenando, outras passando apressadas com medo no olhar.
— Quero ir à perfumaria — anunciou Genevieve, ao ver duas meninas passando com sombrinhas cor-de-rosa. Elas exalavam uma fragrância exótica que fez Fletcher lembrar das montanhas. Seu estômago se revirou quando ele percebeu quão pouco tinha pensado em Berdon nos últimos dias. Precisava entrar em contato com o pai para lhe informar que estava tudo bem.
— Eu preciso resolver algumas coisas, mandar algumas mensagens, coisas assim. Otelo, você sabe de alguém que possa fazer uma bainha para a minha espada? — perguntou Fletcher.
— Claro... desde que você não se incomode em passar pela casa da minha família no caminho — respondeu o anão, puxando a barba de empolgação.
— Por que não? Ainda não visitei o bairro dos anões. Tem alfaiates lá também? — indagou Fletcher.
— Os melhores de Hominum — respondeu o outro, com firmeza.
— Bem, alguém tem que vir comigo à perfumaria. Não posso ir sozinha — choramingou Genevieve quando mais jovens damas passaram. Os olhos de Serafim se iluminaram ao vê-las, e ele se ofereceu sem hesitação.
— Eu vou. Talvez haja alguma água-de-colônia que me ajude a derreter o coração frio de Isadora — comentou ele com uma piscadela.
— Rory, você vem conosco ou vai com eles? — perguntou Fletcher.
— Acho que vou com Genevieve. Seria interessante ver o que eles fazem com todas as flores. Minha mãe colhe flores da montanha e as vende aos mercadores de perfumes — explicou Rory enquanto espiava de canto de olho as meninas bonitas que passavam.
Fletcher tinha certeza de que a motivação de Rory era baseada em algo mais que a arte da perfumaria, mas não o culpava. Fora apenas dois dias antes que ele tinha se maravilhado com a beleza das jovens de Corcillum e seus rostos pintados. Atlas já tinha começado a perambular rua abaixo, mas Fletcher presumia que o colega não iria querer visitar o Bairro dos Anões com eles, considerando sua animosidade para com Otelo.
— Nós nos encontramos aqui em cerca de duas horas. Tem carroças de sobra a caminho da linha de frente por aquela estrada, então podem ir embora se o outro grupo se atrasar — explicou Otelo.
Eles se separaram e apressaram o passo conforme a chuva torrencial se intensificava, abrigando-se sob os toldos das lojas e se mantendo próximos das paredes. Ignácio ronronava no calor seco sob o capuz de Fletcher enquanto Salomão seguia alguns metros atrás, lutando para acompanhá-los com suas pernas atarracadas. O anão tomara a precaução de trazer uma jaqueta com capuz, mas o pobre Salomão parecia miserável, todo molhado.
— Então, o que mais você precisa fazer além de visitar um alfaiate e um ferreiro? Ouvi alguma coisa sobre mandar uma carta? — perguntou Otelo, olhando por sobre o ombro para se assegurar de que Salomão ainda estava à vista. Enquanto o anão escolhia o caminho por entre os muitos becos estreitos, Fletcher se tocou de que ele seria o guia perfeito para ajudar o menino a aproveitar sua visita a Corcillum ao máximo.
— Sim, preciso mandar uma carta à frente élfica — contou Fletcher. Seria melhor não mandar nada diretamente a Berdon para o caso de Caspar e Didric interceptarem a comunicação. Talvez, se ele a enviasse a Rotherham, então o soldado poderia passar a mensagem em segredo.
— Bem, se é esse o caso, então é melhor mandar da Cidadela. Os mensageiros militares passam por lá toda hora. Quanto ao ferreiro, acredite em mim quando lhe digo que é o melhor. Ele criou isto para mim.
Otelo parou e abriu a bolsa de couro que levava no ombro, puxando uma machadinha de dentro. O cabo era feito de madeira negra, endurecida pelo fogo e minunciosamente esculpida para se encaixar no contorno da mão do proprietário. A cabeça do machado era fina mas devastadoramente afiada, com uma lâmina bem amolada na parte de trás, que resultaria num contragolpe fatal.
— Esta é uma machadinha enânica. Todos os anões recebem uma no seu décimo quinto aniversário, para se proteger em sua vida adulta. Foi decretado pelo primeiro dos nossos anciãos santos que todos os anões adultos teriam de portar uma destas o tempo todo, desde que nossa perseguição começou, há dois mil anos. Até mesmo as anãs possuem uma mara, uma pulseira cheia de pontas que levam o tempo todo no pulso. É considerado parte da nossa tradição, cultura e religião. Agora você entende a estima que tenho pela habilidade do ferreiro.
Os olhos de Fletcher se arregalaram quando ele viu a bela arma.
— Posso segurar? — perguntou, ansioso para experimentar a arma.
Talvez ele pudesse colocar o mesmo cabo entalhado no seu khopesh.
Subitamente, soou um apito agudo e o som de pés correndo. Dois Pinkertons vinham em disparada até eles, com cassetetes em riste e pistolas apontadas para o rosto de Otelo.
— Solte isso! Agora!
O primeiro Pinkerton segurou o anão pela garganta, ergueu-o do chão e o empurrou contra uma parede de tijolos. O homem era um brutamontes, com uma barba negra eriçada que cobria um rosto feio e esburacado. A machadinha de Otelo caiu no chão enquanto ele lutava para respirar contra os dedos enormes que apertavam sua traqueia.
— A gente já não falou que vocês anões não podem portar armas em público? Por que vocês não conseguem enfiar isso nessas suas cabeças duras? Só humanos dispõem desse privilégio! — exclamou o segundo Pinkerton numa vozinha aguda. Era um homem alto e magro com um bigodinho fino e cabelos loiros ensebados.
— Soltem ele! — gritou Fletcher, recuperando a voz. O rapaz avançou ao mesmo tempo que Ignácio saltou para o chão, sibilando violentamente. O demônio soprou uma rajada de chamas em advertência.
— Solte-o, Turner — comandou o Pinkerton magro, percebendo o perigo e arrastando o cassetete pela parede.
— Tudo bem, sargento Murphy. Vamos nos divertir mais com ele nas celas, mesmo — grunhiu o grandalhão, soltando Otelo, que caiu, ofegante, nos paralelepípedos da rua. O homem acertou um pontapé violento no flanco do anão, fazendo-o gritar de dor. Com isso, um rugido sobrenatural soou detrás de Fletcher.
— Não! — arfou Otelo, erguendo a mão quando seu Golem avançou e detendo-o a poucos metros de Turner. — Não, Salomão, está tudo certo.
O anão se levantou com dificuldade, apoiando-se nas paredes enquanto cambaleava atrás de Fletcher.
— Está tudo bem? — perguntou o rapaz. O Golem correu até o mestre, ribombando de preocupação.
— Estou bem. Eles já me fizeram coisa pior antes — grasnou o anão, dando tapinhas amistosos na cabeça do Golem.
Fletcher girou e fez uma careta para os Pinkertons, levando a mão lentamente até o khopesh. Murphy avançou e cutucou-lhe no peito.
— Quanto a você, pode tirar essa cara de mau do rosto — grunhiu o sargento, erguendo o queixo de Fletcher com o cassetete. — Por que você está defendendo um anão, afinal? É melhor tomar mais cuidado com essas suas amizades.
— Eu acho que você deveria estar mais preocupado com o fato de ter tentado prender um oficial do exército do rei por portar uma arma! Ou você espera que ele enfrente os orcs de mãos vazias? — retrucou Fletcher com uma confiança que não sentia.
Turner brandia o cassetete de um lado a outro.
— Quem é você para me dizer o que eu posso ou não posso fazer? — inquiriu Murphy, apontando a pistola para o rosto de Fletcher. Não havia nada que Ignácio pudesse fazer contra uma bala.
Fletcher considerou suas chances de sucesso ao lançar um feitiço de escudo pela primeira vez, e desistiu da ideia. Melhor levar uma surra do que arriscar a morte. O menino praguejou em voz baixa; aquela era a segunda vez que se encontrava encurralado nas ruas de Corcillum com uma pistola no rosto.
— O que você acabou de dizer? Acho que ele xingou o senhor, sargento Murphy — rosnou Turner, erguendo a própria pistola.
— Nada! Eu estava só praguejando pela minha sorte — gaguejou Fletcher.
Os dois canos eram como um par de olhos de serpente, pronta para atacar.
— Vocês não fazem ideia de quem estão provocando — grunhiu Otelo, endireitando-se com um estremecer. — Melhor vocês baixarem essas pistolas e caírem fora daqui agora.
— Já chega, Otelo! — sibilou Fletcher. O anão devia ter enlouquecido! Era fácil para ele ser arrogante quando não era ele quem encarava os canos de duas pistolas!
— Esperem só até ele contar ao pai sobre vocês. Lorde Forsyth ficará muito aborrecido ao saber que uns Pinkertons pés-rapados apontaram as armas para seu filho Tarquin — continuou Otelo, desabotoando a jaqueta para mostrar o uniforme por baixo. Fletcher tentou não parecer surpreso demais, mas por dentro estava horrorizado com o blefe arriscado do anão. De qualquer maneira, era tarde demais. Então Fletcher percebeu um sinal de hesitação no rosto de Murphy.
— Obviamente, vocês estão cientes dos batalhões enânicos sendo formados na frente élfica. Se os Forsyth tiverem que incorporar um deles em nossas forças, queremos ter os melhores oficiais anões disponíveis — declarou Fletcher com confiança na voz, afastando a pistola de Turner do seu rosto. — E agora encontro vocês atacando nosso mais novo oficial na rua porque ele está carregando uma arma que lhe foi dada pelo próprio Zacarias Forsyth? Quais são seus nomes? Murphy? Turner?
A pistola de Murphy vacilou, em seguida sendo apontada ao chão.
— Você não fala como um nobre — acusou Murphy, focalizando o olhar na bainha esfarrapada das calças do uniforme de Fletcher. — Nem se veste como um deles.
— Seu uniforme também ficaria assim se você estivesse lutando nas linhas de frente. Quanto à minha voz, se você tivesse crescido em meio aos soldados rasos, sua linguagem também seria áspera como a minha. Não podemos todos ser rapazes almofadinhas como vocês. — Fletcher estava pegando o jeito da coisa agora, mas Otelo o cutucou nas costas. O rapaz se controlou, preocupado em ter ido longe demais. — Agora, se vocês me dão licença, vou seguir meu caminho. Ignácio, venha! — chamou, afastando-se a passos largos rua abaixo. Ele não olhou para trás, mas ouviu o clique da pederneira sendo engatilhada.
— Continue andando — sussurrou Otelo atrás dele. — Eles estão nos testando.
Fletcher seguiu adiante, a cada segundo imaginando uma bala irrompendo do seu peito. Assim que eles viraram a esquina, saíram correndo pela rua, e desta vez Salomão mal conseguiu acompanhá-los com as perninhas curtas.
— Você é um gênio — ofegou Fletcher quando eles estavam a uma distância segura.
— Não me agradeça ainda. Na próxima vez em que te encontrarem, provavelmente vão te dar uma surra. Não vão conseguir me reconhecer, todos os anões são iguais para eles. Já fui preso duas vezes por esse par e eles nem me reconheceram — resfolegou Otelo, agarrando o flanco ferido. — Mas acho que eles podem ter me quebrado uma costela.
— Aqueles monstros sádicos! Temos que levar você a um médico. Não se preocupe comigo. Eu tinha o capuz levantado, e estava escuro. Desde que eles não vejam Ignácio e Salomão da próxima vez que nos encontrarmos, vai ficar tudo bem. Precisamos aprender a infundir nossos demônios o mais rápido possível. E feitiços de escudo também, por falar nisso — afirmou Fletcher.
— Tem toda razão. Bem, vamos lá. O Bairro Anão não fica longe daqui. Minha mãe deve conseguir fazer um curativo no meu torso — disse Otelo. Salomão soltou um grunhido gutural quando eles partiram novamente. Claramente, não estava acostumado com tanto exercício. — Vou ter que botar você em forma — ralhou Otelo, pausando para fazer cafuné na cabeça rochosa do Golem.
Eles continuaram andando, por ruas que ficavam cada vez mais estreitas e mais sujas. Era óbvio que os limpadores não se davam mais ao trabalho de passar por ali, não com o Bairro Anão tão perto. Os anões devem ter recebido a pior parte da cidade para viver.
— Por que você foi preso antes? — indagou Fletcher, evitando pisar num mendigo que dormia no meio da rua.
— Meu pai se recusou a pagar o dinheiro de proteção que os Pinkertons lhe cobraram. Todos os negócios de anões são extorquidos pelos policiais, mas esses dois são os piores. Eles me jogaram nas celas nas duas vezes, até o meu pai pagar.
— Isso é loucura! Como é que eles se safam com isso? — perguntou Fletcher. Otelo continuou andando em silêncio e o rapaz se arrependeu do que disse. Que pergunta idiota. — O que o seu pai faz? Ele é ferreiro? Meu pai era um ferreiro — contou, tentando romper o silêncio constrangedor que tinha criado.
— Meu pai é um dos artífices que desenvolveram o mosquete — afirmou Otelo, orgulhoso. — Agora que guardamos o segredo da sua criação, os Pinkertons pararam de aborrecer os ferreiros anões. Não posso dizer o mesmo de todos os negócios enânicos, porém. A criação dos mosquetes foi o primeiro passo na longa jornada pela igualdade. Nossa entrada para o exército é o segundo. Vou terminar o que o meu pai começou.
— Você deve ser o primeiro oficial anão em Hominum, mesmo que por enquanto seja só um cadete. Isso é motivo de muito orgulho — afirmou Fletcher.
Ele acreditava em cada palavra; quanto mais aprendia sobre os anões, mais os respeitava. Ele se empenharia para emular sua determinação em melhorar a própria situação.
Otelo parou e apontou adiante.
— Bem-vindo ao Bairro Anão.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!