22 de março de 2018

Capítulo 25

As ruas de Hominum passavam em borrão pela janela da carruagem, sombreadas à luz minguante da noite de inverno. Via-se poucas pessoas nas ruas, e as que ali estavam passavam às pressas, de cabeça baixa, na crescente escuridão. Havia uma aura de mau presságio no ar, pesada e grossa como a fumaça de uma lâmpada a óleo.
Cress e Otelo foram a pé para o palácio, e a carruagem de Serafim chegou logo depois para apanhar Fletcher e Sylva. O reencontro fora feliz, mas a alegria deteriorou-se rapidamente à medida que se aproximavam do destino.
Agora os três estavam sentados em silêncio, contemplando a tarefa da noite.
— Eu devia estar fazendo isso sozinho — comentou Serafim, balançando a cabeça. — Ou Arcturo. Vocês estão correndo um grande risco.
— Ele é um conhecido inimigo do Triunvirato, tal como você — rebateu Fletcher. — Você também será o centro das atenções hoje à noite, sendo um convidado de honra e tudo mais. Muito melhor que Sylva e eu sejamos seus convidados anônimos e depois escapemos na primeira oportunidade.
Serafim grunhiu, concordando, relutante.
— Vamos repassar o plano mais uma vez — disse a elfa, com voz forte e alegre.
— Certo — concordou Fletcher. — Você começa.
Serafim se inclinou para escutar, os olhos arregalados de curiosidade.
— O Caruncho que Alfric usa está guardado na sala do trono, bem acima do salão do banquete — disse ela, de olhos fechados, como se estivesse recitando algo gravado em sua memória. — O demônio teve as pernas amputadas e foi preso na ponta de uma bengala de abrunheiro, em algum lugar da câmara. Deve estar coberto por um pano.
Fletcher estremeceu, lembrando-se de quando Arcturo lhes contara sobre esse detalhe horrível. O Caruncho era selvagem, livre de qualquer conjurador, de modo que tinha de ficar preso quando Alfric se dirigia ao povo de Hominum.
— Para chegar até ele, temos de sair por uma das portas laterais do salão e subir as escadas — continuou Sylva. — Lá, usaremos o feitiço de arrombamento para entrar. Vou sacar o diário que está amarrado em minha perna e começar a lê-lo em voz alta, mostrando cada uma das páginas para o Caruncho.
Fletcher assumiu quando ela fez uma pausa para respirar.
— Cress e Otelo estarão servindo comidas e bebidas aos convidados — disse ele. — Criarão uma distração enquanto nos esgueiramos até a sala do trono. Se tudo correr bem, devemos terminar em poucos minutos, e os convidados nem vão perceber nada.
As sobrancelhas de Serafim se juntaram.
— O que vai acontecer se a distração de Cress e Otelo não funcionar e os nobres ficarem sabendo que vocês dois estão fazendo um discurso?
— Nesse caso, só vamos precisar atrasá-los até que a história seja contada — respondeu Fletcher, com severidade. — O rei Harold ordenará a prisão de Rook e lorde Forsyth. Então esperaremos, para ver a reação de Alfric.
— Esse é o plano? — perguntou Serafim, os olhos se arregalando com surpresa. — E se Alfric os defender?
— Ele está metido nessa até o pescoço — respondeu Sylva, com um tom feroz. — E todo o povo de Hominum ficará furioso. Se ele quiser impedir que seu envolvimento venha à tona, e que uma multidão com forcados e tochas chegue marchando até o palácio, ele ficará ao lado de Harold e condenará os dois como traidores. O povo de Hominum pode não gostar dos anões agora, mas, quando descobrirem quem está realmente por trás dos bombardeios, vão querer vingança. Alfric os sacrificará para salvar a própria pele.
Ouviram uma batida no teto da carruagem, onde o condutor estava sentado.
— Bem, acho que não tem como voltar atrás agora — disse Serafim. — Chegamos.
Eles apanharam as máscaras do colo e as colocaram, o cheiro terroso de porcelana fresca tomando conta de suas narinas. Bem na hora, pois a porta se abriu e Fletcher foi convidado a sair da carruagem por um lacaio de libré preta e branca e uma exagerada peruca branca.
O cascalho se moveu ruidosamente sob seus pés, e, em seguida, eles tiveram uma visão completa do palácio. Fletcher já o vira a distância antes, pois o prédio ficava em um lugar afastado a norte de Corcillum. Mas, de perto, o verdadeiro tamanho e a majestade do edifício impressionavam.
A mansão era construída de mármore branco, mas aquela noite estava tingida de ouro pelas chamas que ardiam, instaladas em seteiras nas paredes mais baixas. Tinha cinco andares de altura, com um domo central, flanqueado por duas alas largas. A fachada era sustentada por dezenas de pilares, grossos como carvalhos e cercados por videiras tortuosas ali esculpidas. Ao redor, sebes bem aparadas assomavam sobre gramados inclinados, com fontes elegantes ao lado dos caminhos de cascalho.
Alfric quase levara Hominum à falência construindo aquele palácio — fora por isso que abdicara do trono em favor do filho, Harold. O povo de Hominum quase fizera um levante na época, e a mudança de governante acalmara as coisas; ou melhor, a impressão de mudança de governante.
— Por aqui, por gentileza — indicou o lacaio, curvando-se enquanto os conduzia sobre o cascalho em direção à bem iluminada entrada. Havia multidões de pessoas aguardando para serem anunciadas, as roupas chamativas iluminadas pelas chamas bruxuleantes em um caleidoscópio de cores.
Fletcher se virou para Sylva, para checar se a máscara lhe escondia as orelhas. A máscara em si parecia-se com a dele, mas tinha um traçado prateado em vez de dourado. Era enfeitada nas bordas com penas de pavão azul-esverdeadas, que se arqueavam para trás a fim de lhe cobrir as orelhas, que, além disso, haviam sido dobradas e amarradas para que ficassem escondidas sob os novos cachos.
Dando as costas para Fletcher, Sylva tomou o braço de Serafim e foi caminhando na frente. Afinal, ela era sua convidada. Sentindo uma pontada irracional de ciúme, Fletcher puxou o colarinho da camisa e os seguiu.
As pessoas que esperavam no pátio do palácio pareceram-lhe um conjunto de pássaros tropicais, pavoneando-se e chamando umas às outras em exibição exagerada. E ele que pensara que seus trajes e os de Sylva eram alarmantemente brilhantes e chamativos! Agora ele percebia o quanto eram simples em comparação.
Os oficiais desfilavam com medalhas faiscantes no peito, as roupas de gala em plena mostra. Muitas das máscaras cobriam apenas a metade superior de seus rostos, com temas grotescos de narizes e chifres aduncos, uma paródia dos maxilares bonitos e bem-feitos abaixo. Mulheres com rostos brancos pintados os acompanhavam, com pintas falsas estrategicamente coladas nas bochechas e cabelos empilhados em penteados fantásticos. As saias caíam em profusas camadas de seda, tão grandes e pesadas que Fletcher tinha certeza de que deviam ser sustentadas por alguma estrutura metálica. A maioria usava apenas uma máscara de olhos simples, para exibir a beleza de suas compleições maquiadas.
Os nobres não ficavam atrás em extravagância e eram identificáveis apenas pelos símbolos de riqueza que adornavam seus corpos. Joias cintilavam no colo das mulheres da nobreza, enquanto os dedos dos homens estavam cobertos de anéis pesados de ouro e prata.
Apesar do ar frio do inverno, Fletcher começou a suar quando eles pisaram na fila sobre um tapete vermelho, iluminado por tochas, atrás de um grupo de mulheres jovens. À frente, os nomes dos convidados eram anunciados à medida que caminhavam por entre os pilares do claustro e atravessavam as enormes portas duplas para seguir rumo ao hall de entrada.
Um pensamento súbito atingiu Fletcher, e um suor começou a cobrir sua testa, escorregadio sob a máscara de porcelana.
— Nome — sibilou ele, dando um passo à frente e puxando Serafim de lado.
— O quê? — perguntou Serafim.
— Meu nome, qual é? — murmurou Fletcher, rispidamente.
A fila ia diminuindo à frente, e um par de oficiais juniores desacompanhados postou-se atrás deles.
— Eu não sei. Invente qualquer coisa — respondeu Serafim, puxando o braço e indo juntar-se a Sylva. A máscara de Serafim cobria apenas seus olhos, e Fletcher pôde ver a pele bronzeada do maxilar do nobre contrair-se com ansiedade.
As garotas à frente chegaram ao início da fila, parando para gargalhar ruidosamente quando uma delas tropeçou, depois de enganchar o pé em seu vestido.
A mente de Fletcher estava em branco. James Baker. Mason. Por que não conseguia pensar em mais nada? Ele apertou os dentes enquanto o arauto tomava os convites das mulheres à frente, anunciando seus nomes em rápida sucessão.
— Priscilla Hawthorne!
O nome girou em torno de sua cabeça.
— Vivien Findlay!
Seu nome deveria parecer comum? Ou seria melhor que parecesse como um nome do Oriente, tipo Baybars ou Pasha?
— Rosamund Bambridge!
Algo simples. Qualquer coisa.
— Helena Bambridge!
E então Serafim mostrou seu convite, gesticulando para que Fletcher se aproximasse.
— Nome, senhor? — perguntou o arauto.
— James Rotherham — gaguejou Fletcher, as palavras saindo de sua boca antes que ele pudesse contê-las.
— James Rotherham! — gritou o arauto. Então ele entrou, cambaleando ao brilho dourado do hall de entrada.
Ficou cego com a luz brilhante do candelabro, ouviu o murmúrio incoerente de mil conversas. A entrada estava repleta de pessoas reunidas em círculos, de mãos estendidas para apanhar garrafas de espumante e canapés com pasta de salmão.
Uma enorme escada de mármore dominava a sala, com um tapete de feltro vermelho ao centro, conduzindo a elegantes portas duplas mais acima.
A sala era tão ampla quanto o átrio da Vocans, embora seu pé-direito não fosse tão alto. Ao olhar para cima, Fletcher ficou fascinado ao perceber que o teto fora pintado com um mural colorido de um rei antigo, de cabelos brancos, com uma coroa dourada. Suas mãos estavam estendidas e afastavam dezenas de demônios abóbada afora em um turbilhão de luz pálida.
Percebendo que estava de boca aberta, Fletcher abaixou os olhos e viu as serviçais anãs com os vestidos cor-de-rosa, trançando por entre as filas de pessoas à espera, carregando, ao alto, bandejas com comes e bebes. Uma delas apareceu, apressada, a cabeça velada voltada para ele.
— Uma bebida, senhor? — perguntou.
Fletcher assentiu sem palavras, aceitando a taça de espumante e trazendo-a até os lábios.
— Não beba — sussurrou a anã, chegando mais perto. — Você precisa manter a cabeça sóbria esta noite. Sério, não beba nada, somente água, para o caso de nós...
Ela se afastou quando um nobre se aproximou para apanhar um drinque de sua bandeja. Fletcher não conseguiu conter o sorriso, e sua ansiedade diminuiu um pouco. Ele abaixou a taça, e Cress saiu às pressas, esquivando-se pela multidão com a travessa vazia bem erguida. Ela parou junto a outra anã cujos ombros largos não deixaram dúvidas a Fletcher de que se tratava de Otelo. Só então ele reconheceu as espadrilhas vermelhas que ambos usavam, o identificador que haviam criado para distingui-los das outras serviçais cujos sapatos eram bege.
— Quando começamos? — perguntou Sylva atrás dele, sobressaltando-o.
Ele derrubou um pouco de espumante no piso de mármore, mas rapidamente o limpou com seu mocassim.
— Relaxem — pediu Serafim, apertando o ombro de Fletcher. — Eles só estão esperando Didric chegar, o que deve acontecer a qualquer instante. Melhor vocês se afastarem de mim, pois sou o convidado de honra, lem...
Então Serafim congelou, e a palavra morreu em seus lábios. Fletcher os viu, entrando decididos no hall. Tarquin e Isadora.
E estavam indo diretamente até eles.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!