13 de março de 2018

Capítulo 25

Os quatro líderes de equipe se reuniram num círculo, de cócoras para não se sentarem no chão molhado. Serafim tinha aberto o mapa sobre a mochila, a rota planejada já marcada no papel.
O rio seguia um caminho serpenteante, a única característica marcante num mar de verde. Numa das curvas mais pronunciadas, um X vermelho marcava o local das cavernas órquicas, complementado por um desenho tosco de uma pirâmide. Num canto do mapa, havia um diagrama mais detalhado do acampamento dos orcs, baseado nas memórias de Mason do tempo que passara lá como escravo. A pirâmide de base quadrada ocupava grande parte do espaço, com uma rede de cavernas correndo por baixo; era lá que ficavam os ovos de goblin.
— Vamos seguir o rio pela margem oeste; assim não teremos que cruzá-lo para chegar ao acampamento — explicou Malik, traçando o caminho com o dedo. — Com Mason servindo de guia, vamos evitar as patrulhas com facilidade.
— Nós vamos pela margem leste e atravessaremos à noite — disse Serafim, balançando a cabeça e indicando a linha pontilhada que a equipe dele já havia desenhado ao longo do rio. — O lado oeste fica mais perto dos acampamentos dos orcs. Prefiro ficar molhado a ser morto.
Assentiu para o guia, um veterano grisalho armado com uma besta pesada.
— O sargento Musher aqui foi deixado para trás depois de uma batalha nas selvas no ano passado. Evadiu possíveis captores por vinte dias, vivendo da terra e se orientando pelas estrelas. Ele nos...
— Vocês dois estão errados — interrompeu-o Isadora, tirando a mão de Malik da frente com um tapa e traçando um arco mais largo, mais para oeste. — Nós vamos atravessar como Malik, mas contornando a margem oeste do rio. O rio é uma fonte de peixe e água, e é nele que os orcs irão se aglomerar. A distância é maior, porém é mais seguro.
Era uma sensação estranha, pensou Fletcher, estar tão perto de Isadora. O pai dela se esforçara com determinação para que ele e Otelo fossem executados, sem falar no fato de ela e Tarquin terem planejado o assassinato de Sylva. E, no entanto, ali estavam eles, trabalhando juntos contra os orcs.
— Fletcher — disse Serafim, cutucando o rapaz. Ele ergueu o olhar e viu que os outros líderes de equipe o fitavam com expectativa.
— Concordo que as margens do rio estarão mais ocupadas — afirmou, lembrando a rota que ele os outros tinham escolhido. — Faremos o mesmo, só que deste lado. Atravessaremos à noite, como Serafim, mas, até lá, nos manteremos longe da margem.
— Nobres de um lado, plebeus do outro. — Isadora sorriu, assentindo para si mesma com satisfação. — Vamos ver quem chega primeiro.
Serafim fez cara feia para as palavras da jovem, mas enrolou o mapa.
— É bom que nós nos separemos — comentou Malik, ignorando Isadora. — Se uma equipe for pega, haverá três outras para completar a missão. Mas há uma desvantagem também.
— E qual seria? — indagou Fletcher.
— Vai ser mais difícil chegarmos todos ao mesmo tempo na pirâmide, como Rook falou. Se não conseguirmos, a primeira equipe terá que entrar sozinha e as outras ficarão vulneráveis quando o alarme soar. Então o Corpo Celeste terá uma dificuldade dos infernos de localizar todas as quatro equipes no tempo que terão antes da chegada das Serpes.
— Ele tem razão — admitiu Isadora, um tanto a contragosto. — Vamos ter que dar o nosso melhor. Se uma equipe chegar mais cedo, espere dentro da pirâmide. Mason me diz que é solo sagrado, usado somente para cerimônias, então ficaremos seguros ali. Se alguém se atrasar... encontra o próprio caminho de casa.
— Por mim, tudo bem — disse Fletcher, enquanto Malik e Serafim concordavam com a cabeça.
— Seguiremos pelo pântano até onde ele se junta à boca do rio — disse Malik, enquanto se levantava. — Então tomaremos nossos caminhos separados e nos reencontraremos na pirâmide.
Enquanto os líderes de equipe voltavam aos respectivos grupos, Fletcher ficou cada vez mais ciente do gremlin se remexendo na mochila. A criaturinha obviamente farejava sua volta à selva e tentava se libertar. Fletcher precisava de uma distração.
— Tive uma ideia — anunciou ele aos quatro grupos, hesitante em levantar demais a voz, no caso de o som reverberar na selva. — Cada um dos nossos guias tem uma especialidade que os outros não têm. Por exemplo, Jeffrey aqui tem acesso a um novo conjunto de feitiços que só foi descoberto recentemente, além de conhecimento da flora local, coisas que estou disposto a compartilhar com vocês. O guia de Serafim, sargento Musher, vai saber como se evitar detecção e se orientar na floresta. O seu...
Ele olhou para o guia de Malik, Mason, que estava ocupado devorando uma pilha de frutas da selva.
— Bem, tenho certeza de que todos teremos alguma coisa para contribuir.
— E quanto a mim? — grunhiu uma voz em meio à equipe de Isadora. — Eu terei utilidade?
Com toda a emoção dos acontecimentos e depois do vaguear de todo mundo, Fletcher não tivera uma chance de ver quem era o guia de Tarquin. Porém, quando o vulto parrudo se revelou, Fletcher ficou sem fôlego. Grindle.
Era um homem feito, com a cara amassada de um buldogue e uma grossa camada de gordura pelo corpo, mais ainda que Atlas, parado ao lado. Vestia o uniforme negro dos Fúrias de Forsyth, como todos na equipe de Isadora.
— Servi como homem de lorde Forsyth por muitos anos — afirmou ele, avançando na direção de Fletcher. — Você sabe, sujando minhas mãos de sangue para que Zacarias não precisasse fazê-lo. Não poderia deixar os filhos dele entrar na selva sem meu olho vigilante sobre ambos.
Grindle piscou para Sylva cujo rosto ficou completamente pálido. Quase dois anos antes, aquele homem tinha colocado a cabeça dela num bloco e erguido aquela mesma clava retorcida que agora trazia nas costas, com a intenção de matá-la. Se não fosse pela intervenção de Otelo e Fletcher, ela agora estaria morta, e Hominum, mergulhada numa guerra com os elfos.
Sylva colocou uma flecha no arco, mas Otelo a tirou da corda antes que a elfa pudesse erguer a arma.
— O mundo está assistindo — sibilou ele, apontando para o Wendigo cujos olhos negros estavam fixados neles com interesse atento.
— Você quer ajudá-los? — exclamou Sylva, voltando a raiva contra Fletcher.
— Talvez nós compartilharemos só com a equipe de Serafim — afirmou Fletcher, a voz carregada com a mesma fúria. — Você parece ter toda a ajuda de que precisam.
— E que ajuda poderiam nos dar um servo imundo metido a besta e um soldado burro o bastante para se perder na selva? — perguntou Tarquin, inspecionando as próprias unhas. — Podem ir em frente e compartilhar o que vocês quiserem. Nós estamos partindo agora.
Isadora abriu um sorriso maldoso para eles e sibilou uma ordem para o Wendigo. O monstro saiu andando sobre as quatro patas pela mata rasteira, abrindo bem as garras para fazer uma trilha adiante.
— Nos encontramos mais tarde, Fletcher! — exclamou Didric, tocando a rapieira no cinto. — Vamos nos ver muito em breve.
Então a equipe Forsyth caminhou casualmente selva adentro, desaparecendo lentamente até só restar o som de galhos sendo quebrados.
— Bem, não quero saber a explicação disso tudo — comentou Verity alegremente, adiantando-se. — Mas nós estaríamos muito dispostos a compartilhar. Mason pode lhes mostrar como ler as pistas no chão e não deixar rastros, uma lição que teria sido útil para aqueles idiotas. — Ela apontou o polegar sobre o ombro para a trilha de caules partidos e solo revolvido que os Forsyth haviam deixado para trás.  — O que me diz?
Ela chutou Malik, que tossiu e concordou com a cabeça.
— Você é uma Faversham! — exclamou Fletcher desajeitado, ficando vermelho assim que as palavras lhe saíram da boca. Não estava acostumado a ser tão rude.
— E você é um Raleigh — respondeu Verity com sarcasmo. — Sei que meu pai participou da sua acusação no julgamento, mas esse é o trabalho dele. Tento não julgar as pessoas com base nas famílias. E você?
Fletcher hesitou enquanto ela sorria para ele com um brilho travesso nos grandes olhos escuros. Ela era realmente muito bonita. Fletcher gaguejou, sem saber o que dizer, e a forma como Sylva o encarava com desaprovação não ajudava em nada.
Felizmente, Serafim falou antes que o silêncio se prolongasse por tempo demais.
— Mal não vai fazer — declarou ele, estufando o peito. Era incapaz de resistir a um rostinho bonito. — Se um de nós for pego, dificultará as coisas para os outros. Sugiro passarmos o dia aqui treinando uns aos outros e então acampar até amanhã. Já é quase tarde, de qualquer maneira. Deveríamos ter feito todo esse planejamento antes de termos vindo para cá, mas é o jeito.
Fletcher olhou para Otelo em busca de orientação, e, depois de uma pausa, o anão lhe deu um curto aceno. Leves arranhões dentro da mochila selaram sua decisão.
— Certo — disse Fletcher, abrindo caminho por entre a equipe e caminhando até o limite da clareira. — Agora, se vocês me dão licença, tenho alguns assuntos a resolver com uma daquelas árvores ali.

Um comentário:

  1. O pessoal deve estar achando que ele foi usar o banheiro kkkkk

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!