22 de março de 2018

Capítulo 24

Pouco da viagem na decrépita carruagem até Corcillum, ou de Arcturo apressando-os para subirem a escada e deitarem-se nas camas empoeiradas da Taverna dos Bigornas, ficou na memória de Fletcher. Foi uma mistura nebulosa de sono e vigília, de sussurros furtivos e olhares roubados na escuridão.
Ele dormira durante toda a noite e, aparentemente, a maior parte do dia também — pois a visão que teve pela janela do quarto ao ser despertado pelo cheiro de comida foi de uma tarde azul de inverno. A cama de Otelo estava vazia, então ele desceu cambaleando os degraus de madeira para encontrar a fonte daquele cheiro delicioso, tropeçando em uma bota que ele havia arrancado do pé de qualquer jeito na noite anterior.
Estava faminto, o estômago se contraindo como um punho cerrado a cada fôlego do aroma de comida que vinha do andar de baixo. Saltando os últimos degraus, Fletcher encontrou um grupo de mesas na frente do bar, unidas a esmo e repletas de pratos de comida fumegante. Havia ovos fritos com gemas douradas e enormes, além de salsichas ainda chiando de fritura, grossas como seu pulso. Batatas fritas de corte grosso, douradas à perfeição, estavam dispostas em tigelas e cobertas com uma guarnição de espinafre cozido no vapor, dentes de alho fritos e raminhos de estragão. Jarras de vidro com suco de laranja completavam o quadro, assim como jarras de água cristalina. Era um banquete que poderia alimentar um pequeno exército, mas havia apenas cinco pessoas sentadas ao redor da mesa, já no meio da refeição. Seus companheiros fizeram pouco mais que grunhir ao vê-lo, e continuaram devorando a comida, como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento.
Mas havia outra pessoa à cabeceira da mesa. Uma figura em um vestido verde, tão baixa quanto Otelo e Cress.
— Ora, ora, olhem só quem levantou! — disse uma voz familiar.
Era Briss, a mãe de Otelo. Fletcher sorriu e curvou-se para dar-lhe um grande abraço, que ela retribuiu com carinho.
— Ande, vá logo comer alguma coisa — mandou ela, apontando uma cadeira para ele ao lado dos outros. — Otelo me mostrou um pedaço daquele charque que vocês andaram comendo nestes últimos dias. Horrendo!
Fletcher não precisou de nenhum outro incentivo; parou apenas para apanhar uma faca e um garfo antes de encher a boca. Os próximos minutos gloriosos foram dedicados a mastigar e engolir em silêncio, até seu queixo ficar manchado de gema amarela e a barriga parecer mais cheia que jamais estivera em toda a sua vida.
— Sua mãe já comeu, pobrezinha — avisou Briss, quebrando o silêncio. — Thaissa está no andar de cima cuidando dela; a essa altura já deve ter sido banhada e colocada na cama. O rei disse que vai providenciar os melhores cuidados em toda Hominum, então não se preocupe com ela.
No final, de alguma forma a comida milagrosamente tinha sido reduzida a alguns poucos restos.
Otelo soltou um gemido exagerado e esfregou a barriga estufada.
— Você nos assassinou — disse ele, balançando a cabeça. — Morte por comida.
— Como vocês vão entrar em seus trajes agora? — brincou Briss, cutucando-lhe a barriga. — Se continuar nesse ritmo, vou ter de ajustá-las.
— Trajes? — perguntou Fletcher.
Briss suspirou embaixo do véu verde e fez uma pausa. Foi só então que Fletcher notou as roupas dobradas em uma mesa atrás da anã, juntamente a um par de coisas que pareciam caixas de sapatos.
— Para o baile — explicou Cress, com um suspiro, a voz sombria. — Quando entrarmos de penetra.
— Ora, quanta empolgação da sua parte — disse Fletcher, embora a lembrança da nova missão também o fizesse estremecer.
— Você vai ver só — grunhiu Otelo. — Você até que se deu bem. Mas enfim, Cress, eu não entendo por que está reclamando. Eu é que ganhei o pior traje de todos.
A anã abriu um sorriso largo, sua expressão taciturna desaparecendo ao ouvir essas palavras.
— Certo, acalmem-se, todos vocês — riu Briss, gesticulando para pedir silêncio.
Ela apanhou um embrulho vermelho de tecido e babados e o entregou a Sylva, que o tomou com um olhar apreensivo.
— Pelo que Otelo me disse, isso pode não ser de seu agrado, mas você precisa estar no papel — disse Briss, timidamente. — Fiz alguns desses antes, e eles são muito populares entre as jovens damas da nobreza. Há um banho quente preparado para você no andar de cima, mais tudo o que for necessário. Experimente a roupa, e depois Thaissa irá ajudá-la com o cabelo.
— Tenho certeza de que vou adorar — murmurou Sylva, tentando esconder as dúvidas. Ela subiu lentamente a escada, segurando o vestido como se este fosse uma cobra venenosa.
— Certo, agora... vamos ver se este serve em você — disse Briss, com animação, depois que Sylva se foi.
Ela tirou uma roupa cor-de-rosa da mesa e o sacudiu. Era um vestido rodado, com flores bordadas ao redor das mangas e um véu delicado, preso com uma corrente de prata na barra. Era bem bonito, e Fletcher poderia imaginar Cress muito alinhada naquele traje de anão tradicional. Mas...
— O véu — comentou Fletcher. — Não é de admirar que você esteja tão mal-humorada, Cress. Mas vai ser só por uma noite.
Otelo arrastou os pés no chão, envergonhado, o rosto assumindo a mesma cor daquela roupa.
— Bem, sim, mas... Esse não é para mim — disse Cress, em meio a risadas, virando-se para o anão avermelhado. — Otelo, acho que o cor-de-rosa combina com você. Vai muito bem com a cor de seu rosto.
— Ah, que inferno! — grunhiu Otelo.
Fletcher não conseguiu evitar o riso quando o anão taciturno veio andando para a frente, pés arrastados, e permitiu que a mãe lhe colocasse o vestido.
— Só não conte nada a Átila — implorou Otelo, enquanto Cress ria e lhe arrumava o véu sobre o rosto, enfiando para dentro um trecho de barba ruiva.
— Ele devia vir dar uma olhada, para ver como ficaria de vestido — brincou Fletcher. — Afinal, vocês são gêmeos.
— Acredite em mim, eu queria que Átila estivesse em seu lugar — disse Cress, limpando uma lágrima de seus olhos. — Ou melhor, em seu vestido!
Ela dobrou o corpo em um novo ataque histérico de riso, e Otelo desabou mais uma vez na cadeira, derrotado.
— Eu não entendi — disse Fletcher, começando a rir mais controladamente. — Por que ele vai estar de vestido?
— Arcturo, Lovett e eu ficamos acordados a noite toda, formando um plano para conseguir fazê-los atravessar o palácio sem serem detectados. Claro, não haverá nenhum convidado anão no baile, mas haverá muitos serviçais anãos, todos mulheres, usando este mesmo uniforme. Então, Otelo vai brincar de se vestir de mulher hoje. Mas não vai ser a primeira vez. Lembra de quando você tinha 5 anos, Otelo, e...
— Já chega, basta! — interrompeu Otelo levantando a voz e atirando uma salsicha semidevorada na mãe.
Ela se abaixou para se desviar do projétil comestível, pegou outro vestido idêntico sobre a mesa e então o entregou a Cress.
— Sabe, de alguma forma isso já não parece tão ruim — comentou a jovem alegremente, deixando a roupa se desdobrar e segurando-a contra o corpo. — Há séculos que eu não uso um vestido.
Ela deu de ombros, deixando o véu sobre a mesa. Então rodopiou, fazendo a musselina flutuar no ar, os olhos brilhando enquanto ela agitava os cabelos vermelhos.
— Parece maravilhoso — disse Briss, cobrindo a boca para esconder o sorriso de prazer.
— Realmente — concordou Otelo, depois pigarreou de um jeito esquisito.
Fletcher não conseguiu ver o rosto de Otelo, mas imaginou a boca aberta do anão embaixo do fino véu cor-de-rosa.
— Agora você, Fletcher — disse Briss, depois de lançar um olhar significativo para ele e Otelo. — Como você é muito alto para um anão, você e Sylva irão como convidados de Serafim, que por sorte está hospedado em um hotel em Corcillum hoje. Pudemos colocá-lo a par das novidades.
Fletcher sorriu ante a ideia de ver Serafim novamente. O futuro nobre era parecido com Fletcher de muitas maneiras: um plebeu tornado nobre, que tinha um relacionamento íntimo com os anões. Seria bom revê-lo.
— Vamos vestir os dois como membros de sua comitiva — prosseguiu Briss. — Você vai usar isso.
Ela apontou para a mesa, onde Fletcher viu um terno de cetim azul-royal, com bordas de fio de ouro e ombreiras com borlas. Um par de reluzentes sapatos sociais de couro preto com fivelas de latão estava ao lado do traje, bem como elegantes luvas brancas, para esconder as tatuagens em sua mão.
— Vá logo experimentar — ordenou Briss, enxotando Fletcher dali.
O rapaz pegou a roupa das mãos da anã e apressou-se a subir as escadas.
— E tome também um banho — disse Briss lá de baixo. — Não vou permitir que a deixe fedendo. Sylva já está pronta a essa altura, e Thaissa deve ter preparado a banheira para você.
Fletcher sorriu e virou à direita ao alcançar o topo da escada. Ele bateu na porta do quarto das meninas.
— É a porta ao lado, Fletcher — disse a voz de Thaissa atrás da porta. — Não entre! Vá depressa antes que a água fique fria... a lenha aqui está quase no fim; Cress e Otelo gastaram quase tudo hoje cedo.
Lenha? Ele foi até o quarto ao lado e encontrou uma suíte com uma pequena janela, um espelho, um banquinho e uma grande banheira de metal cheia de água fumegante. Os pisos e as paredes eram de azulejos, e havia um grande ralo embaixo da banheira. Uma lareira crepitava. Acima dela, pendurado na parede, via-se um caldeirão. Havia uma toalha amarela felpuda no banquinho, junto de meias limpas, roupas íntimas, uma lâmina de barbear, pedra-pomes e tesoura. Eles tinham pensado em tudo.
Dali a uns minutos Fletcher desfrutava daquele calor infiltrado até seus ossos, esfregando o corpo e o cabelo com um sabonete perfumado com lavanda até que a espuma transbordasse pelas beiradas da banheira. Então, quando a água começou a esfriar e as bolhas quase tinham sumido, ele atacou os calos de seus pés e mãos, e esfregou o resto do corpo até que a pele ficasse rosada, limpa como nunca.
Em seguida, ele raspou os pelos que haviam coberto seu lábio superior e o queixo, até ficar com pele de bebê, mais para agradar Berdon que por qualquer outro motivo — e a lembrança do gigante lançou uma pontada de dor em seu coração. Ele não tinha ideia de onde ele e os aldeões de Pelego poderiam estar; sabia apenas que ainda deviam ser em algum lugar ao norte, rumando para o sul.
Finalmente, ele uniu as mechas de seu cabelo em um rabo de cavalo e aparou as pontas duplas. Em suas mãos restou um punhado de cabelo, que ele disfarçadamente jogou pelo ralo. Aquilo teria de servir.
Ele saiu da água, agora morna e suja, para se secar com a toalha à luz fraca do fogo moribundo. Percebendo que havia demorado muito mais que Sylva, ele vestiu as roupas e tornou a descer as escadas, mal parando para se ver no espelho.
— Ora, ora — riu Cress, quando ele chegou à sala da taberna. — Olhe só para você, todo sofisticado.
Briss bateu palmas com entusiasmo e correu até ele, puxando o paletó aqui, alisando ali, até se afastar e admirar sua obra.
— Você está muito elegante — elogiou. — Emagreceu um pouco desde a última vez que tirei suas medidas, mas eu já imaginava isso. O traje caiu como uma luva. Por que você não calça os sapatos? Vamos ver se eu acertei o tamanho também.
Fletcher deslizou os pés para os mocassins e sorriu.
— Desse jeito vou ficar mal-acostumado — disse ele. — São confortáveis; mas eu também seria capaz de correr um quilômetro com eles.
— Bem, talvez isso seja mesmo necessário esta noite — lembrou Cress, e ele fez uma careta ao pensar no propósito daquelas roupas.
— Venha dar uma olhada aqui — chamou Briss, apontando para uma caixa de sapatos.
Fletcher se virou para a mesa, confuso. Ele a apanhou, mas a caixa parecia estranhamente pesada. Curioso, ele levantou a tampa.
E viu um rosto pálido olhando para ele.
— O que... — murmurou, deixando cair a caixa sobre a mesa.
— Ah, você encontrou seu novo rosto — disse Briss, apanhando a caixa e entregando-a para ele. — Bem, vá em frente, prove e veja se serve.
Fletcher olhou para o interior da caixa mais uma vez. Era uma máscara, feita de porcelana tão branca que poderia ser osso descorado. Na verdade, com as órbitas oculares vazias, aquilo quase poderia ser um crânio, não fossem as curvas suaves das bochechas e os lábios brancos em bico.
Uma fina filigrana de ouro rodeava a borda oval, voluteando em intervalos com espirais delicadas que se curvavam em torno dos olhos para chamar a atenção para eles. Era terrível e lindo ao mesmo tempo, como uma ave de rapina.
Fletcher ergueu a máscara até o rosto e sentiu as mãos de Briss prendendo-a no lugar com fitas, apertando-as contra a parte de trás de sua cabeça.
— É um baile de máscaras, se é que você ainda não adivinhou — disse Briss. — Comecei a fazer cerâmica para vender tigelas, acredite se quiser, mas recebemos mais encomendas para isso que para qualquer outra coisa. Os nobres vão a vários bailes de máscaras todos os anos, e insistem em ter uma nova máscara para cada um.
— Obrigado — agradeceu Fletcher, procurando as palavras certas. — É... É assustadoramente linda.
Ele se virou para Otelo, que levantou o véu para olhar o amigo mais de perto.
— Quer saber de uma coisa, eu prefiro usar véu — disse o anão, balançando a cabeça.
— Pois é, isso aí me dá calafrios — concordou Cress.
Briss suspirou.
— Bem, é o que eles gostam de usar, esses nobres, e deixei essa máscara o mais sutil e discreta possível. Você deveria ver a de Sylva... tem até penas.
— O que tem penas? — perguntou alguém atrás deles.
Fletcher se virou e ficou boquiaberto.
Sylva estava descendo as escadas, transformada. Lá se tinha ido o cabelo claro e quase prateado, substituído por cachos soltos que tinham sido tingidos e enrolados de modo que caíssem sobre seus ombros em uma onda de negro, e a mudança era tão surpreendente que Fletcher ficou sem palavras. Seus ombros estavam nus, e o veludo vermelho do vestido abraçava suas curvas finas e sua cintura. Seus quadris sustentavam uma saia ampla, decorada com dobras delicadas e camadas que davam a impressão de uma rosa desabrochando.
Ela nunca estivera tão bonita.
— Não quero ouvir nenhuma risada! — resmungou Sylva, ao passar por eles.  — Vamos acabar logo com isso.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!