13 de março de 2018

Capítulo 24

As quatro equipes aguardavam numa grande plataforma de madeira que se erguia sobre um mar de soldados de uniformes vermelhos, logo além das trincheiras das linhas de frente. Os soldados olhavam de volta com rostos severos, e o mundo parecia silencioso exceto pelo vento barulhento que fazia as longas jaquetas agitarem no ar.
Fletcher sentiu um movimento na mochila que levava nas costas, e congelou no lugar. Azul dormira, ou pelo menos assim fingira, a noite inteira. O plano tinha sido mantê-lo ali e soltá-lo na selva quando pousassem. Infelizmente, o sono do gremlin parecia ter chegado ao fim.
Enquanto Fletcher rezava para que Azul adormecesse de novo, o reitor Cipião subiu lentamente as escadas na lateral do palco, resplandecente no uniforme de gala de um general.
Acenou com a cabeça para cada equipe e, em seguida, virou-se para a multidão de soldados.
— Vocês todos me conhecem — começou Cipião, com as mãos unidas atrás das costas. — O Herói da Ponte de Watford. Reitor da Academia Vocans. Lutei nesta guerra por uma década e defendi as fronteiras por muitos anos antes disso. Muitos de vocês me conhecem pessoalmente. Então, quando eu lhes digo que o que vocês estão prestes a ouvir é a verdade, tenho a expectativa de que confiarão em mim.
Houve acenos de concordância dos soldados, ombros tensos relaxaram, surgiram até alguns sorrisos.
— Vocês ouviram falar em lady Cavendish, que sofreu no cativeiro por todos esses anos. Vocês sabem dos goblins e dos milhares de ovos prestes a chocar. Estas quatro equipes vão liderar uma expedição, bem atrás das linhas inimigas, para eliminar as duas ameaças. É uma missão das mais perigosas que já autorizei. Cada um destes jovens guerreiros arriscará a vida para manter nosso país seguro. Quero que vocês tenham isso em mente quando os recrutas anões e elfos chegarem às linhas de frente.
Ele fez uma pausa, e os olhos de Fletcher dardejaram para a terra enegrecida além da plateia, onde o resultado da explosão recente ainda era visível.
— Perdemos 43 bons homens ontem à noite, num ataque brutal e sem sentido. Os homens que o cometeram são apenas isso: homens. Os anciãos anões já condenaram esses ataques repetidamente e deixaram claro que essas atrocidades não foram cometidas em seu nome. Quero que vocês se lembrem disso também.
Essa última declaração foi recebida com silêncio gélido; alguns balançavam a cabeça, enquanto outros apenas fitavam, impassíveis.
— O Corpo Celeste logo chegará, com os guias das equipes e demônios patrocinadores. Quero que todos demonstrem sua apreciação pelo sacrifício que estes jovens fazem hoje.
Enquanto os aplausos soavam, pequenos pontos surgiram nas nuvens, primeiro circulando como abelhas ao redor de um pote de mel, então crescendo até preencher a visão de Fletcher com enormes asas em movimento. Havia dúzias delas, todas feras voadoras poderosas, que espiralavam em perfeita formação.
Lovett pousou ao lado deles, as garras de Lisandro mal fazendo um som. O Grifo dobrou as asas e se ajoelhou ao lado de Fletcher.
— Posso levar dois de vocês — sussurrou a capitã, puxando Fletcher para cima com ela. Sem dizer nada, Sylva se enfiou atrás do rapaz, com uma fina camada de suor na testa. Apoiou a cabeça na mochila dele, abraçando a cintura de Fletcher com força.
— Vai ficar tudo bem — disse o rapaz, nada convencido das próprias palavras. Azul não se mexeu. Era como se o gremlin soubesse que tinha que ficar quieto.
Outro demônio pousou ao lado deles, com cascos estalando no chão. Era um Alicórnio, um dos demônios mais raros do arsenal de Hominum.  Fletcher admirou o lindo pelame branco e penas de cisne, o corpo que se movia graciosamente em meio aos estudantes reunidos. Parecia um grande cavalo, exceto pelas largas asas e o longo chifre cônico que crescia da testa.
O rosto do cavaleiro estava obscurecido pelo capacete de couro e grandes óculos, mas ele acenou para que Cress e Otelo se aproximassem e puxou os dois para cima, pois a estatura reduzida de ambos dificultava que subissem sozinhos.
Mais demônios chegaram, cada pouso acompanhado por uma comemoração dos soldados. Hipogrifos aterrissaram; eram parecidos com os Grifos em forma, mas com o corpo e patas traseiras de um cavalo em vez de um leão. Peritons com galhadas pisaram pelo palco, assemelhando-se àquelas presentes nos cervos élficos com grandes asas castanhas, longas penas de cauda e garras afiadíssimas nas patas traseiras.
Havia até alguns Chamrosh, Grifos miniaturizados com cabeça e asas de gavião somados ao corpo e maneirismos de um cachorro. Eram pequenos demais para serem cavalgados, com talvez o dobro do tamanho de Atena. Em vez disso, eles ofereciam suporte muito necessário e eram excelentes companheiros aos demônios primários do Corpo Celeste.
Fletcher estava maravilhado. Jamais vira tamanha variedade de demônios, especialmente espécimes tão grandes e poderosos. Tinha se acostumado a ver sempre os mesmos demônios em Vocans e se esquecera da variedade de espécies que Hominum tinha à disposição.
Ele também ficou feliz em não ver nenhuma Griforuja. Atena era rara, e ele mal podia esperar para deixá-la esticar as asas durante o voo. Tinha se assegurado de manter Ignácio e Atena infundidos dentro de si pelo máximo de tempo possível antes da missão para que descansassem e recuperassem o máximo de mana. Ainda assim, era estranho ficar tanto tempo sem Ignácio, e ainda estava se acostumando com a presença de Atena em sua consciência. Por mais que ela raramente se intrometesse nos pensamentos dele, como era de esperar de um demônio bem treinado, Fletcher ainda tinha dificuldades em direcionar instruções a uma só consciência demoníaca de cada vez.
— Todos prontos? — gritou Cipião, observando os últimos estudantes subir aos flancos de seus respectivos demônios.
À frente, Fletcher viu Ofélia Faversham montada no próprio Periton, os cabelos pálidos esvoaçando ao vento. Ela levava Zacarias Forsyth na garupa, ali para despachar seu Wendigo quando eles chegassem à zona de pouso ou talvez como proteção adicional. Rook também estava montado, agarrado à barriga de outro oficial e com uma expressão bem enjoada no rosto.
Caliban, Sacarissa e o Wendigo não estavam em lugar algum, mas Fletcher sabia que não poderiam ser infundidos, ou a conexão com as pedras de visão seria rompida. Então ele viu os soldados apontando para cima. Seguiu os olhares deles e viu três grandes caixotes flutuando bem alto no céu, cada um atado a dois membros do Corpo Celeste. Não era de se espantar que Rook estivesse tão nauseado: as caixas balançavam de um lado ao outro, e os mestres sentiriam o movimento através dos demônios.
— Onde está Arcturo? — indagou Fletcher, percebendo a ausência do patrocinador de Serafim, e Lovett apontou para o homem no Alicórnio ao lado deles. De repente, Fletcher reconheceu a parte de baixo do rosto do estranho, percebendo parte da cicatriz sob os óculos.
— Um presente do rei Harold! — gritou Arcturo, dando tapinhas no pescoço do Alicórnio. — Eu o chamo de Bucéfalo, ou Buck, como apelido! Vai me fazer companhia enquanto Sacha estiver fora.
Lovett se virou para Fletcher e Sylva com um sorriso alegre.
— Arcturo vai participar da equipe de extração quando vocês tiverem completado a missão, ou se algum de vocês precisar de resgate. Vai ser bom ter um companheiro de voo... depois que vocês me devolverem Lisandro, é claro.
Fletcher viu que agora todos os outros estavam montados, incluindo Jeffrey, apesar de ser difícil distinguir quem era quem com todos os demônios e asas agitadas na frente.
A uma ordem de Ofélia, o Corpo Celeste se virou para as selvas. Então, com boca seca e coração acelerado, Fletcher foi lançado ao ar pela segunda vez naquela semana.
O chão desapareceu mais rápido do que ele pensava ser possível, o mar de uniformes vermelhos se transformando em pouco mais que uma poça, acumulada contra a barra negra da trincheira. Ainda assim continuaram subindo, chegando cada vez mais perto das nuvens. Antes que eles as atravessassem, porém, Fletcher teve um relance de um oceano infinito e ondulante de verde, interrompido apenas pelo largo rio serpenteante que meneava em direção às linhas de frente antes de dar meia-volta.
— Foi por esse rio que o garoto, Mason, veio até nós — gritou Lovett, quando atravessaram as nuvens com um rastro de névoa em seu encalço. — Aquele que trouxe o corpo do goblin. É um rapaz valente. Eu não teria a coragem de fazer o que ele está fazendo.
Planavam sobre um vasto manto branco de nuvens que se estendia até onde a vista alcançava. Agora que as haviam atravessado, o sol fulgurava potente no alto, e o reflexo de tanta luz na camada nebulosa abaixo era fortíssimo. Era estranho, pois o céu estivera nublado antes da decolagem.
— O que você quis dizer sobre Mason? Por que ele é corajoso? — perguntou Sylva, ofegante de empolgação, as mãos bem apertadas na barriga de Fletcher.
— Por que ele ia querer guiar a equipe de Malik? — respondeu Lovett. — Você lembra o estado em que ele estava quando chegou das linhas de frente? Ele é louco ou destemido de voltar. Não sei dizer se é por lealdade aos amigos que ainda estão cativos ou se está atrás do dinheiro da recompensa.
A formação de demônios alados deu uma guinada para o sul, vários deles logo acima das nuvens, raspando as patas nelas. Fletcher esticou as pontas dos pés, na esperança de sentir alguma coisa, mas sentiu apenas as botas ficando úmidas.
— Tenho uma coisa para você — disse Lovett, pegando alguma coisa nos alforjes da sela. Era um pergaminho, firmemente enrolado com uma fita vermelha. — Se alguma coisa acontecer comigo enquanto vocês estiverem lá fora — explicou ela, pressionando o pergaminho nas mãos de Fletcher. — Este é o pergaminho de conjuração de Lisandro. Não quero que ele desapareça de volta no éter no meio da missão se o pior acontecer.
— Obrigado — respondeu Fletcher, tocado pelo gesto. — Eu o devolverei quando voltarmos.
Ele guardou o pergaminho no bolso lateral da mochila, tomando cuidado para não perturbar o gremlin. Não queria ter que se explicar caso Lovett descobrisse o fugitivo que ele abrigava.
Seguiram voando adiante, o sol quente na pele, o vento marejando os olhos com cada rajada. Não demorou muito, contudo, para que a empolgação do voo passasse e desse lugar à realidade de para onde se dirigiam.
— Por que você não deixa Atena esticar as asas? — sugeriu Lovett, sentindo a tensão no ar.
Fletcher sorriu e apontou a palma para o céu. Atena irrompeu no mundo com um clarão de luz azul, espiralando numa pirueta elegante até planar logo adiante do bico de Lisandro.
— Talvez fosse uma boa ideia mudar a posição dela — riu Lovett.
Só que Fletcher não entendeu a piada. Ele fez um esforço para pensar no motivo, confuso, até que Sylva sussurrou:
— Hominum inteira está assistindo a isso pelos olhos de Lisandro. Não acho que eles apreciariam uma visão avantajada do traseiro de Atena.
— Ah! — Fletcher riu, em seguida fazendo Atena chegar para baixo com um pensamento rápido. — Eu esqueci!
— Já eu não vou me esquecer tão cedo — resmungou Lovett, esfregando os tufos das orelhas de Lisandro. — Lisandro passou a maior parte do dia de ontem sendo cutucado e espetado com cristais que seriam distribuídos pelo império. Tivemos que ficar o tempo todo ao lado de Aníbal, o Wendigo de Zacarias. Aquela coisa fedia mais que uma tanga de gremlin.
Dentro da mochila de Fletcher, Azul se remexeu, como se reconhecesse a palavra. Fletcher nem sabia se gremlins eram capazes de falar, mas mudou de assunto depressa.
— Por que estamos voando acima das nuvens? — perguntou. — Não precisamos ver a configuração do terreno?
— Na verdade, é muita sorte que o dia esteja tão nublado — respondeu Lovett, balançando a cabeça para ele. — Há milhares de orcs, gremlins, talvez até goblins, cuidando dos seus afazeres rotineiros abaixo de nós. Se mesmo um só deles calhasse de nos ver voando aqui em cima, esta missão acabaria antes de começar. Não, vamos ficar acima da cobertura de nuvens até alcançarmos a zona de pouso. Vocês ficarão bem seguros lá; os batedores do Corpo Celeste nos contam que é relativamente desabitada.
Fletcher engoliu em seco — a grossa camada de nuvens de repente parecia uma barreira insubstancial entre eles e a terra abaixo. De fato, de vez em quando a névoa afinava, revelando relances provocantes de terreno montanhoso, totalmente recoberto por uma massa de verde, crescida além da conta. Ele odiava pensar em quanto tempo levariam para voltar caso o Corpo Celeste não conseguisse extraí-los. Isso se tal retorno fosse mesmo de alguma forma possível.
Pela primeira vez, ele notou uma curta lança afixada sob a lateral da sela. Parecia muito uma das lanças de justa dos cavaleiros de outrora, só que mais curta e robusta. Aquela era pintada com listras de branco e azul, com uma poderosa ponta metálica que reluzia ao sol.
— O que é isso? — perguntou ele, apontando.
— Uma lança, o que mais? — respondeu Lovett, puxando-a do suporte e exibindo-a ao apoiá-la sob o braço. — Quando se enfrenta uma Serpe, a lança é a única coisa capaz de lhe perfurar o couro... E isso se você botar alguma velocidade no golpe também.
Fletcher estremeceu ao pensar em combates a tamanha altitude, sobre o lombo de demônios que se entrechocavam num caos de asas e garras.
— Às vezes, passageiros indesejáveis aparecem — continuou Lovett, que guardou a lança e sacou uma lâmina da bainha do cinto. — Picanços, Estirges e Vespes são os mais comuns dos demônios voadores menores dos orcs, e, se chegarem perto demais, você precisa atacá-los com isto.
Fletcher reconheceu a arma como uma adaga rondel, uma lâmina fina e pequena como uma agulha, amparada por guardas em discos no topo e na base do cabo, para proteger as mãos do usuário.
— Claro, isso sem falar em todos os feitiços de batalha disparados para todos os lados — comentou Lovett, girando a adaga, com uma facilidade vinda da prática, e a colocando de volta na bainha. — Se você achava que feitiços eram difíceis antes, espere só até ter que fazê-los no meio de uma luta aérea.
Fletcher estremeceu e, pela primeira vez, se ressentiu com o pouco tempo que tivera para estudar em Vocans. Um ano não chegava nem perto do suficiente para aprender tudo que a conjuração tinha para oferecer, nem para aperfeiçoar as técnicas que tinha conseguido aprender.
Diziam que, no geral, os xamãs orcs tinham demônios mais fracos, mas Fletcher se perguntava se isso seria verdade ou só propaganda. Afinal, as Serpes estavam dentre os demônios mais poderosos de todos. Talvez aqueles mandados à linha de frente na verdade fossem os mais fracos, enquanto os mais poderosos ficavam na reserva. Até então.
— Estamos seguindo o rio — gritou Lovett, mais alto que o vento que lhe roubava as palavras. — Vocês serão deixados num pântano que se drena numa das nascentes. Estamos quase chegando!
Como se tivesse escutado, Ofélia parou adiante do esquadrão. Por um momento, ela pairou ali, espiando o solo abaixo, então disparou três fogos-fátuos para o céu em rápida sucessão.
Ao sinal, Lisandro dobrou as asas, e eles mergulharam pelas nuvens, como uma flecha, o vento fustigando o rosto e os olhos de Fletcher. Ele vislumbrou um breve borrão verde de paisagem, e então folhas estapearam seus braços e pernas.
Lisandro parecia saltar de galho em galho, cada um reclinando-se para baixo, como uma muda dobrada, desacelerando a queda deles até o ponto de quase se partir, mas sendo solto quando o Grifo saltava para o próximo. Finalmente, quando Fletcher pensou que não acabaria mais, houve um baque suave; as garras de Lisandro se cravavam no solo, derrapando e deixando quatro sulcos no seu rastro. Eles pararam logo antes se chocar contra uma touceira emaranhada de arbustos espinhosos.
— Agora é isso que eu chamo de uma descida rápida — comemorou Lovett, socando o ar.
Fletcher sentiu Sylva lentamente descer, rolando das costas de Lisandro, desabando no chão com o formato das pernas ainda conformado à sela.
— Isso foi horrível — ofegou ela, cravando os dedos no solo.
— Achei que você estaria acostumada a altura, com a Grande Floresta e coisa e tal — comentou Fletcher, ainda sentindo o coração bater tão forte que quase podia ouvir a pulsação nos ouvidos. Ele saltou para o chão e prontamente desabou ao lado dela, as pernas dormentes por terem apertado os flancos de Lisandro tanto tempo.
— Não foi a altitude, foi a descida — respondeu Sylva, dando-lhe um tapa brincalhão no peito. Eles ficaram ali deitados, vendo outros cavaleiros descendo mais lentamente pelas copas.
— Idiotas — resmungou Lovett, observando uma das grandes caixas ser baixada em meio às árvores por um par de Grifos planando. — Quanto mais tempo demorarmos para pousar, maiores as chances de orcs nos verem.
Atena esvoaçou e se empoleirou no peito de Fletcher, piscando os olhos enquanto o examinava. Ela o tateou com as patas na barriga e nas pernas, assegurando-se de que ele ainda estava inteiro. O rapaz sorriu e a acariciou, deliciando-se com a forma estranha como a plumagem delicada se misturava ao pelo macio do ventre e dorso.
Fletcher se sentou e observou o terreno em volta.
A mata ali era mais densa e abundante que nas terras élficas, que consistiam em imensos troncos cercados por um cobertor plano de musgo. Em contraste, o solo da selva era coberto de uma camada de folhas decompostas, com galhos espinhosos, plantas de folhas largas e cipós preenchendo os espaços entre as árvores retorcidas e interligadas. O solo era negro e de cheiro intenso, alimentado pela queda constante de folhas mortas que formavam uma argila rica e macia abaixo. Logo além da clareira onde ele e os outros tinham pousado, poças de líquido fétido se espalhavam; água preta salobra coberta por refugo de folhagem podre.
— Eu nunca mais vou fazer isso — declarou Cress.
Fletcher se virou e se deparou com ela de cara no chão, abraçando a terra com todo seu amor. Otelo parecia estar só um pouco melhor, ajoelhado ao lado do Alicórnio de Arcturo com uma expressão de alívio.
— Eu preferiria andar — continuou Cress despreocupada. — Pode cair fora daqui com essa palhaçada de voar, Arcturo. Você e Buck podem ficar dormindo quando for a hora de nos resgatar.
O capitão riu, tirando o capuz de couro e chacoalhando a juba negra recém-libertada. Fletcher teve certeza de ter visto Lovett corar, dar uma olhada rápida para Arcturo e, em seguida, afastar o olhar.
Fletcher captou o olhar da conjuradora e sorriu, mas a expressão severa que ela devolveu apagou o sorriso dele no mesmo instante.
— De pé, todos vocês — comandou a voz de Ofélia, em meio aos demônios que os cercavam. — Estamos partindo.
As equipes se reuniram, e os caixotes foram descarregados, deixando Sacarissa, Aníbal e Caliban cambalearem para fora e se juntar aos demais. Arcturo ergueu Lovett do dorso de Lisandro e a carregou até Bucéfalo, segurando-a como uma criança adormecida. Fletcher, que tinha se esquecido momentaneamente da perda de movimento da capitã, se sentiu culpado em lhe tirar Lisandro.
Ofélia andava de um lado para o outro, impaciente e ansiosa para voltar à segurança das linhas de frente de Hominum.
— Quero que vocês se lembrem de que o mundo está assistindo-os pelos olhos dos demônios dos seus patrocinadores — ralhou ela, passando os olhos pelo rosto de cada um. — Comportem-se de uma forma digna de formandos de Vocans. Não faltem ao dever.
A neta dela, Verity, ergueu a mão timidamente, mas a baixou depois de um olhar furioso de Ofélia.
Levou mais alguns momentos para Arcturo remover a sela de Lisandro e atá-la ao flanco de Bucéfalo. Feito isso, o Corpo Celeste estava montado de novo.
— Cuidem bem de Lisandro, hein?! — exclamou Lovett, erguendo a voz para ser ouvida sobre as despedidas dos outros cavaleiros.
— De Sacha também — ecoou Arcturo.
Então, num piscar de olhos, estavam no ar de novo, deixando os formandos a sós com seus destinos. As equipes ficaram ali paradas, observando em silêncio por um tempo, até que o corpo desapareceu de vista.
— Então — disse Serafim alegremente. — O que fazemos agora?

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