2 de março de 2018

Capítulo 24

O gabinete de Cipião estava tão quente quanto no dia anterior, mas dessa vez as persianas das janelas tinham sido abertas, deixando um facho de luz cortar o ar entre Fletcher e a escrivaninha do reitor. O homem vinha encarando Fletcher por sobre os dedos unidos pelo último minuto, e este já estava começando a se sentir constrangido.
— Por que você mentiu para mim, menino? — perguntou Cipião, com o olhar dardejando entre Ignácio e o rosto de Fletcher.
— Eu não tive a intenção — respondeu Fletcher e então, depois de um momento, acrescentou: — senhor reitor Cipião.
— Perguntei onde você tinha conseguido esse demônio, e você me respondeu que Arcturo tinha mandado você. Achou que isso responderia à minha pergunta? Achou mesmo que o que disse não tinha certas implicações? Não achou que eu descobriria a verdade depois que falasse com Arcturo? — A voz de Cipião era calma e composta, um contraste profundo com o homem exaltado que Fletcher vira no refeitório poucos minutos antes. Ele não sabia bem qual versão preferia.
— Eu... não sei por que disse aquilo. Era verdade que Arcturo tinha me mandado, mas entendi o que o senhor quis dizer. Foi errado da minha parte mentir. Eu só queria muito ter permissão para estudar aqui. Peço desculpas, senhor.
Fletcher baixou a cabeça, sentindo-se um idiota. Se ele simplesmente tivesse dito a verdade, poderia estar numa aula com Arcturo agora, aprendendo a fazer fogos-fátuos. Em vez disso, corria o risco de ser expulso de Vocans no primeiro dia, por ter mentido a um oficial superior. Cipião pigarreou com o que Fletcher torcia que fosse aprovação, e depois o chamou até a escrivaninha.
— Tenho culpa nisto também. Eu deveria ter investigado melhor. Afinal de contas, pesquisar como capturar novas espécies de demônios é uma tarefa conferida a todos os magos de batalha. Presumi que você não conheceria a magnitude das implicações representadas pela sua Salamandra... Ando presumindo demais, ultimamente — admitiu o reitor, com um suspiro. — Arcturo me explicou como você se deparou com seu demônio... um pergaminho de conjuração de um xamã orc, quem poderia imaginar. Suspeito que a minha frustração tenha derivado do meu desapontamento com o fato de não termos feito uma descoberta; apenas tivemos sorte. Entretanto, devo pedir a você que deixe o livro que Arcturo mencionou com a bibliotecária, para que ela possa examiná-lo e extrair dele qualquer conhecimento novo. James Baker era obviamente um homem de segredos.
Fletcher aguardou num silêncio esperançoso enquanto o velho guerreiro o examinava. Finalmente, Cipião puxou uma folha de papel e a colocou na escrivaninha, diante dele.
— Este é o compromisso que todos os oficiais cadetes têm de assinar antes de se alistar nas forças armadas de Hominum. Uma vez que estiver assinado, você será oficialmente um soldado estudante desta academia, trabalhando sob a autoridade de Sua Majestade. Sua renda anual será de mil xelins, descontados alojamento, refeições e custos de instrução. Está tudo aí escrito. Escreva seu nome e saia já daqui. — Ele estendeu uma grande pena a Fletcher, que rabiscou o nome na linha pontilhada embaixo, com o coração cheio de alegria.
— Nada de sobrenome? — indagou Cipião, espiando a assinatura.
— Eu nunca recebi um — murmurou Fletcher, um pouco envergonhado.
— Bem, escreva alguma coisa. Oficiais são conhecidos pelos sobrenomes, não pelo primeiro nome — afirmou Cipião, indicando o espaço vazio ao lado do nome de Fletcher. O sobrenome de Berdon era Wulf, então Fletcher o escreveu.
— Para o átrio, cadete Wulf. Seu padrinho de academia está dando a primeira aula, e você já está cinco minutos atrasado — disse Cipião, oferecendo-lhe um raro sorriso.
Quando Fletcher chegou ao átrio, o salão estava pontilhado com fogos-fátuos errantes, orbes que flutuavam pelo ar como vagalumes. Sob a brilhante luz turquesa, ele viu os nobres rindo e criando uma bolinha atrás da outra com os dedos, competindo para ver quem conseguia fazer a maior. Otelo, Genevieve e Rory eram os únicos plebeus ali, afastados dos nobres num silêncio infeliz.
— Isso foi rápido. É tão fácil assim? — indagou Fletcher, observando enquanto Tarquin criava uma bola de luz do tamanho de um punho, para grande espanto dos outros nobres.
— Não, a gente nem viu como se faz ainda. Só que o fato de serem filhos de conjuradores faz com que os nobres já saibam uma ou duas coisinhas — sussurrou Rory, com uma expressão de desapontamento e inveja.
Arcturo estava parado no meio do aposento, observando os nobres com olhar impassível. Estalou os dedos, e todos os orbes se apagaram, lançando o salão numa escuridão absoluta. O átrio se iluminou de novo lentamente quando um pequeno fogo-fátuo surgiu no dedo de Arcturo. Delicados filamentos azuis brotavam das pontas dos dedos dele e pulsavam para a luz, se expandindo numa esfera do tamanho da cabeça de um homem. Ele a soltou acima de si, onde ela flutuou, imóvel, como se estivesse suspensa do teto. O salão ficou imediatamente preenchido por uma luz azul calorosa.
— Não pedi que vocês demonstrassem; perguntei se algum de vocês já era versado na técnica. Claramente, seus pais nobres já lhes ensinaram esse truque. Assim sendo, vocês podem sair, se quiserem. Suas tabelas de horários estarão aguardando em suas camas. Sugiro que as memorizem. Atrasos são inaceitáveis. — Arcturo lançou um olhar significativo a Fletcher com essas palavras.
— Eu sabia que esta aula ia ser uma piada. Vamos, Penélope, deixe os amadores brincarem de correr atrás — zombou Isadora.
Outra menina nobre, com cabelos escuros e enormes olhos castanho-claros, assentiu depois de um momento de hesitação. Isadora saiu altiva, seguida pela menina, que lançou um olhar de desculpas a Arcturo por sobre o ombro.
Tarquin as seguiu calmamente, acompanhado pelos dois outros nobres: um menino grande de cabelos completamente negros, com pele tão escura quanto a de Serafim, e um rapaz mais magro com cabelos de um castanho mortiço e rosto de anjinho. Quando Tarquin passou, olhou para o uniforme esfarrapado e mal-ajustado de Fletcher e o rosto cheio de hematomas. Franziu o nariz de nojo e seguiu em frente. Fletcher estava bem-humorado demais para se aborrecer com aquilo naquele momento.
— Deixem que partam — afirmou Arcturo, uma vez que os nobres estavam fora do alcance de sua voz. — Eles ainda não aprenderam a controlar os movimentos de seus fogos-fátuos. Na próxima aula, eles que estarão brincando de correr atrás. Os princípios dos fogos seguem os mesmos princípios de todo lançamento de magia.
Ele se virou para os plebeus e lhes lançou um longo olhar de avaliação.
— A primeira lição é muito importante; vocês descobrirão que todos têm capacidades diferentes de feitiçaria. Seus demônios são a fonte de todo o seu mana, e espécie, experiência e idade dele determinarão quanto mana ele tem e quão rápido se recarrega.
Mana. Essa fora a palavra que Serafim tinha usado ontem. Fletcher deduziu que significava algum tipo de energia, usada para alimentar feitiços. Agora Arcturo vinha na direção deles, o fogo-fátuo acima de sua cabeça se movendo no mesmo ritmo. Sob o luzir etéreo, a cicatriz do oficial parecia mais aterrorizante que nunca.
— Com licença, onde estão Serafim e Atlas? — perguntou Fletcher, entrando na frente de Genevieve e Rory para que Arcturo finalmente o percebesse.
— Senhor — corrigiu o professor.
— Senhor — repetiu Fletcher, exasperado.
— Suspeito que tenham ido recolher seus demônios. Já que eu decidi patrocinar você, mas não lhe dei um dos meus demônios, o reitor decidiu que seria justo se eu fornecesse um diabrete a um dos outros plebeus. Eu o capturei ontem, numa operação de muito risco para Sacarissa. Espero que você valha o sacrifício — comentou ele com uma nota de arrependimento na voz, para desencorajamento de Fletcher.
— Isso significa que era um demônio poderoso, senhor? — sondou Rory enquanto Fletcher sentia o desânimo crescer.
— Não necessariamente. Ele o será com o tempo, mas era raro demais para que eu o deixasse escapar. Um dos seus amigos terá grande sorte em recebê-lo. Nunca tinha visto um deles antes. Agora, chega de perguntas. Sentem-se no chão e fechem os olhos.
Os alunos obedeceram, e os passos de Arcturo ecoaram conforme ele andava às costas do grupo.
— Deixem suas mentes se esvaziarem. Escutem apenas o som da minha voz.
Fletcher tentou acalmar o bater empolgado de seu coração, prestando atenção nas palavras de Arcturo. A voz do capitão era melíflua, envolvendo-o como uma brisa morna.
— Estabeleça uma conexão com seu demônio, sinta a ligação entre vocês. Aja com delicadeza. Esta provavelmente será a primeira vez que o alcançará. Não se preocupe se tiver dificuldade em achá-lo no começo; quanto mais praticar, mais fácil ficará.
Fletcher seguiu as instruções, buscando a outra consciência que parecia flutuar no limite da sua mente. Sentiu a psique do demônio e, ao tocá-la, Ignácio se remexeu, desconfortável, no pescoço dele. Aquele não era o pulso de emoção que Fletcher tinha lhe mandado antes, mas algo completamente diferente.
— Quando você o segurar, sentirá o mana do demônio fluir. Tome a energia e a focalize toda pelo dedo indicador da sua mão dominante. Por enquanto, é só isso que você precisa fazer.
Fletcher sentiu aquela sensação de clareza se espalhar pelo seu corpo mais uma vez, ainda mais forte do que quando ele evocara o demônio no cemitério. Ela o trespassou, violenta como um furacão, e ele percebeu que seu corpo tremia.
— Pelo seu dedo, Fletcher! Você está tomando muito! Controle-se! — gritou Arcturo. A voz dele soava muito distante.
Fletcher inspirou fundo e exalou pelo nariz, erguendo o dedo e canalizando a corrente para ele. Ao fazê-lo, o dedo formigou, passando-lhe uma sensação tanto de calor ardente quanto de frio congelante, tudo ao mesmo tempo. A escuridão detrás das pálpebras se tornou um azul fraco.
— Abra os olhos, Fletcher — comandou Arcturo, colocando a mão no ombro dele para estabilizá-lo.
O menino percebeu que estava respirando forte e se acalmou, em seguida abriu os olhos com receio.
A ponta do dedo dele incandescia num azul tão brilhante que quase chegava a ser branco. No momento em que moveu o dedo, deixou um rastro de luz no ar, como a pós-imagem de uma brasa ardente brandida no escuro.
— Eu disse pelo seu dedo, Fletcher, não para ele — exclamou Arcturo, mas havia um leve tom de orgulho em sua voz.
— Vou ficar bem? — indagou o garoto, horrorizado enquanto traçava um oito de luz no ar. Os outros agora já tinham aberto os olhos, tendo obviamente levado muito mais tempo que Fletcher para canalizar o mana dos seus demônios. Em vez de deixar que isso lhe subisse à cabeça, o rapaz se relembrou de que passara alguns dias a mais com seu demônio do que eles.
— Você conseguiu fazer algo que só iriamos mencionar daqui a várias aulas; a arte de entalhar. Observem com atenção.
Arcturo ergueu o próprio dedo e a ponta brilhou, azul. Ele desenhou um estranho símbolo triangular, feito de linhas serrilhadas. Moveu o dedo aleatoriamente diante dos alunos, e o símbolo o seguiu, como se estivesse preso a uma moldura invisível. Assim que começou a sumir, Arcturo disparou filamentos de fogo-fátuo pelo espaço entre o dedo e o símbolo. Porém, quando os fios passaram pelas marcas, uma torrente de filetes fantasmagóricos e opacos emergiram, formando um escudo circular diante dele, que Fletcher reconheceu como o mesmo que salvara sua vida meros dois dias antes nas ruas de Corcillum.
— Quando usamos mana sem um símbolo, ele se torna nada além de fogo-fátuo, também conhecido como mana cru. Mas quando você entalha um símbolo e canaliza seu mana por ele, os aspectos mais úteis da caixa de ferramentas do mago de batalha se tornam disponíveis. Não é fácil; leva tempo e prática para se criar um escudo como o meu, em vez de uma massa disforme. Até mesmo o ato de formar uma bola de fogo-fátuo exigirá algum tempo até que vocês o dominem.
O dedo de Fletcher se apagou de volta ao cor-de-rosa, e ele o abraçou contra o peito. Ignácio ronronou e saltou para o chão. O demônio lambeu o dedo do dono com uma língua triangular que era surpreendentemente macia, aliviando o formigamento estranho na ponta do dedo.
— Então, o que nós perdemos? — A voz alegre de Serafim soou atrás deles Fletcher se virou e viu Serafim, Atlas e a capitã Lovett saindo do salão de conjuração.
Acompanhados por seus demônios.
Serafim sorria como um louco, em total felicidade. Seu demônio caminhava ao seu lado, com um passo desajeitado e um tamanho que fizeram Fletcher pensar num texugo supercrescido. Porém, era ali que as semelhanças terminavam. A criatura era coberta de uma pele áspera que parecia casca de árvore, com uma camada de bolor salpicada em cima. Uma crista espessa de espinhos corria pela coluna dorsal, cada um com uns três centímetros de comprimento e afiados como uma faca de cirurgião. Lembrava Fletcher de um arbusto de tojo, espetos verdes brutais que perfuravam a pele com facilidade.
— O que que é isso!? — exclamou Rory maravilhado enquanto o demônio corria à frente dos outros e farejava as botas de Arcturo, a quem reconhecia. O focinho curto de pug se abriu para revelar uma boca estranha, cheia de placas. Fletcher notou os restos mastigados de folhas lá dentro, logo engolidos com a ajuda de uma língua marrom coriácea.
— É um Cascanho — respondeu Arcturo. — São mestres da camuflagem, por isso é tão raro encontrar um deles. Você terá dificuldades em alimentá-lo; eles precisam comer pelo menos meio quilo de folhas todos os dias. Mas tenho certeza de que o major Goodwin vai ensinar tudo isso a você nas aulas de demonologia.
Arcturo olhou o demônio com emoções ambivalentes, então acariciou-lhe a cabeça com alguma relutância. Serafim alcançou os dois e deu um sorriso de gratidão ao professor.
— Eu teria realmente amado ficar com ele para mim e capturar outro demônio para você, Serafim, mas o bicho ardiloso deixou Sacarissa cheia de espinhos quando ela se aproximou. Ela ficou ferida demais para fazer uma segunda jornada pelo éter. A pobre garota quase não conseguiu segurá-lo depois que o arrastou pelo portal. Mal tive tempo para executar o ritual de arreamento. É tarde demais para capturar outro agora. Desejo-lhe tudo de bom ao seu lado.
— Muitíssimo obrigado, senhor! — exclamou Serafim, agarrando o demônio num abraço e fazendo uma careta com o peso. — O senhor não faz ideia do quanto isso significa para mim. Vou chamá-lo de Farpa.
Atlas tinha ficado para trás, com um sorriso estampado no rosto. Seu demônio era do tamanho de um cachorro grande, com pelo grosso e eriçado, e dois incisivos afiados que se salientavam à frente da boca. Parecia uma enorme lontra dentuça, exceto por uma cauda de rato com uma bola espinhenta na ponta, no formato de uma maça-estrela. A criatura era incrivelmente ágil, praticamente fluindo pelo chão enquanto circulava os pés de Atlas.
— O meu é um Lutra. Chamei ele de Barba, por causa do pelo!
— Barba — repetiu Arcturo. — Talvez seja melhor pensar um pouco mais sobre isso. Não é um... nome tradicional para demônios. Por que não Bárbaro? Conheço pelo menos mais um que atende a esse nome.
— Perfeito! — concordou Atlas, agarrando o bicho nos braços.
A capitã Lovett tinha voltado para a sala de conjuração, mas não antes que Fletcher espiasse um relance de penas castanhas enquanto a porta se fechava. Ele imaginou o que poderia ser.
Aparentemente, havia mais espécies de demônios disponíveis aos evocadores de Hominum do que ele tinha pensado.
Quando Arcturo pegou fôlego para continuar a lição, Fletcher levantou a mão. Havia uma coisa que ele precisava saber.
— Onde está Sacarissa agora, senhor? E onde estão os demônios dos nobres? Estão todos sentados nos quartos, esperando pelos donos? — perguntou Fletcher, sua curiosidade tendo finalmente alcançado o ponto de ebulição.
— Você sabe o que é infusão? — inquiriu Arcturo, fitando-o atentamente. Fletcher fez que não com a cabeça. — Infusão é quando um conjurador absorve um demônio para dentro de si, permitindo que a criatura descanse e se cure. O conjurador ainda pode se comunicar com o demônio, até mesmo usar mana, mas o ser continua dentro dele, fora do caminho. Quando as lanças dos orcs chovem ao seu redor, a infusão é a melhor defesa para o seu demônio. Você aprenderá o procedimento na aula com a capitã Lovett amanhã. Eu me especializo em feitiçaria, então não cabe a mim ensinar a infusão. Esta resposta lhe basta?
— Sim, senhor. Muito obrigado.
Enquanto Arcturo se virava e começava a entalhar outro símbolo no ar, Fletcher levou a mão ao ombro e acariciou Ignácio. Podia sentir a carne e os ossos sob as pontas dos dedos. Infusão. Ele só ia acreditar quando visse.

Um comentário:

  1. Nossa! Que maravilhoso! Estou amando a criatividade e o enredo do livro.
    Será que vai ser fácil o Fletcher absorver Ignácio? Curiosa para saber.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!