22 de março de 2018

Capítulo 23

Houve pouco tempo para se alegrarem com o retorno de Alice, por mais agridoce que fora. A manhã vinha se aproximando rapidamente, e o grupo de Fletcher precisaria estar bem longe antes de o dia raiar.
A urgência aumentou ainda mais quando Lovett lembrou que algum aluno poderia enviar um bilhete por um demônio voador, e que era provável que os Forsyth tivessem espiões mesmo entre os plebeus da Vocans. Afinal, já haviam conquistado a lealdade de dois deles: Atlas e Jeffrey. Um aluno plebeu do primeiro ano mais impressionável, atordoado pela amizade oferecida por uma rica família nobre, poderia ser facilmente subornado.
Lovett já contara ao rei e a Arcturo o que tinha acontecido durante a missão. Então, Fletcher descreveu aos trancos a jornada pelo éter, com interrupções dos outros quando deixava de lado detalhes importantes. As revelações de sua conversa com Khan sobre a forma como Alice fora tratada pelos orcs provocaram grunhidos de raiva dos outros, além de uma torrente de palavrões furiosos de Lovett.
Ao fim da conversa, a garganta de Fletcher estava seca e arranhando, e ele deixou o restante da mesa imerso em pensamentos sobre aquela situação difícil à luz do fogo quase extinto da lareira. Sylva terminou o relato com um resumo do conteúdo do diário de Jeffrey, que agora era passado de mão em mão enquanto todos digeriam as novas informações.
Cress foi a primeira a falar no silêncio sombrio:
— Não é óbvio? — perguntou, tirando o volume fino das mãos de Arcturo e levantando-o. — É isso. Uma prova. Prova de que Jeffrey era um traidor, prova de que ele estava por trás de cada explosão, cada morte... Droga, por trás de tudo pelo que a humanidade culpou os anões no ano passado.
Silêncio.
— Eles saberão que eu não matei Rufus e que os ataques dos Bigornas não tiveram nada a ver com os anões — continuou ela, brandindo o diário. — Isto é o suficiente para atirar Zacarias Forsyth e o inquisidor Rook na prisão.
Nada ainda. Ela se virou para Harold, exasperada.
— O que o senhor vai fazer sobre isso? — perguntou, retirando a carta entre as páginas do diário e balançando-a diante do rosto do rei.
Fletcher não conseguiu reprimir um sorriso. Cress não era alguém que usasse de cerimônia, mesmo com um rei.
— Não é tão simples assim — respondeu Harold, franzindo as sobrancelhas ante aquela impertinência. — Para quem eu deveria levar isso? Aos Pinkertons? À própria Inquisição? Eles estão na mão de meu pai. Até mesmo a maioria dos juízes está sob sua influência.
— Mas... o senhor é o rei... — argumentou Cress, com as sobrancelhas franzidas, confusa.
Fletcher entendeu a perplexidade. Ele havia dito aos outros que Harold desejava ajudar os anões e que tinha se afastado do pai por causa disso, contudo, nunca disse que era Alfric que detinha o poder em Hominum; que seu filho Harold só era rei no nome. Até Lovett e Arcturo pareciam chocados. Aquilo era novidade para eles também.
O rei suspirou e esfregou as têmporas.
— Meu pai reina nas sombras — disse Harold. — Não sou mais que um testa de ferro, um bode expiatório, caso as coisas deem errado. Ele quer exterminar os anões, e há anos busca uma desculpa para isso. Seus objetivos estão alinhados com os do Triunvirato.
— E o conselho? — indagou Cress, incisiva. — E as leis que o senhor aprovou para permitir que os anões lutassem, para remover as cotas de nascimento? Isso também foi coisa de Alfric?
Harold suspirou.
— É verdade que tenho uma maioria no conselho, que detém alguns poderes sobre o estado de direito, permitindo-me aprovar medidas menores. Porém, algo dessa magnitude... não.
— Podemos recorrer aos generais do exército, meu rei? — indagou Arcturo, inclinando a cabeça com repentina reverência. Sua intenção era evidente: deixar muito clara a Harold sua lealdade.
— É verdade — disse Lovett, tamborilando um dedo nos lábios. — O senhor não poderia levar essas evidências a eles?
— E lançar o país em guerra civil? — perguntou Harold, cuspindo palavras como ácido. — Muitos dos generais estão do lado do Triunvirato, e o mesmo vale para os nobres. Deixe-me pintar o quadro para vocês.
Ele se levantou e apoiou os nós dos dedos na mesa.
— Eu poderia convocar uma reunião dos generais e da nobreza para mostrar-lhes a carta e o diário. Alguns acreditariam e pediriam a prisão dos perpetradores; outros, como meu pai e seus amigos, diriam que vocês fabricaram esses documentos e pediriam sua prisão. Linhas seriam traçadas, lados seriam tomados. E, no meio de tudo isso, chegariam os recrutas anões. Haveria uma rebelião no meio de uma guerra civil. Vocês podem imaginar o caos?
— Isso não é tudo — acrescentou Sylva, a voz baixa e preocupada. — O senhor não teria de enfrentar apenas os anões. Se um mandado de prisão for emitido contra mim, a filha de um chefe, o conselho dos elfos entraria em guerra com toda Hominum por causa disso também. E nosso exército está se reunindo agora mesmo, enquanto estamos conversando, para ajudar em sua guerra. Só que ele se voltaria contra vocês.
Harold a encarou, o choque estampado em seu rosto.
— Eu não tinha pensado nisso — disse amargamente, seu rosto empalidecendo. — O exército élfico acaba de começar a se mobilizar, mas estarão marchando para Hominum quando estiverem preparados.
— E todos os soldados nas fronteiras do norte partiram — sussurrou Arcturo, horrorizado.
— Assim que descobrirem que vocês quatro estão vivos, com certeza será emitido um mandado para sua prisão — disse Harold. — Talvez eu consiga convencê-los a deixar Sylva fora disso, mas a essa altura talvez já seja tarde demais...
Ele suspirou e pressionou a testa com os nós dos dedos.
— Então, seria guerra contra os elfos se eu não conseguir livrá-la... E guerra com os anões, independentemente disso.
— Sim, depois de ver Rufus morrer, toda Hominum acredita que Cress é uma assassina — comentou Arcturo. — E agora estão ainda mais convencidos de que os ataques dos Bigornas foram orquestrados pelos anões. As coisas chegarão a um ponto de ebulição muito em breve.
— Quando os recrutas anões chegarem, meu pai enviará os Pinkertons para tomar o Bairro dos Anões — disse Harold. — Ele mesmo me contou e não mudará de opinião, não importa o que eu diga. A guerra começaria hoje mesmo...
Lovett terminou o pensamento.
— E então, enquanto nós guerreamos uns com os outros, as linhas de frente ficariam sem vigilância, e Khan atacaria e nos exterminaria.
A sala caiu em silêncio com aquelas palavras, o horror da situação pairando pesado no ar.
— Então, o que devemos fazer? — perguntou Fletcher.
Ele estava com raiva agora. Com raiva de como a ganância e o ódio de alguns poucos seres humanos famintos por poder levariam ao massacre de milhares de inocentes. Com raiva de que, uma vez mais, ele e seus amigos estavam de alguma forma metidos no centro de tudo. Sua pulsação rugia nos ouvidos.
— Vamos levá-los até os elfos na Grande Floresta — disse Harold. — Vocês estarão mais seguros lá se...
— Não — interrompeu Otelo, levantando a mão. — Eu não vou fugir. Se houver uma guerra, quero estar aqui, protegendo minha família, não me escondendo como um criminoso.
— Sim, eu também vou ficar — disse Cress, cruzando os braços em desafio.
— Vocês não entendem? Isso só piorará a situação! — grunhiu o rei. — Mesmo que vocês não sejam capturados, os Pinkertons se lançarão em sua busca, invadindo a casa de cada anão, destruindo cada lar. A rebelião dos anões começaria amanhã. Mas, se a notícia de que vocês conseguiram escapar viesse a público, de que os elfos lhes deram asilo... isso não aconteceria. Eu ganharia mais tempo.
Otelo se recostou e fechou os olhos. Daria a impressão de que estava tirando uma soneca, se não fosse pelos nós dos dedos brancos, bem tensionados.
— Se a guerra explodir, o estrago já estará feito, e vocês poderão retornar — disse Harold, com voz sombria e terrível. — Nesse meio-tempo, vocês devem ir até os elfos, enquanto eu tento evitar esse desastre. Sendo honesto, a chegada de vocês piorou as coisas. Façam o que estou mandando. Tenho preocupações mais urgentes que sua segurança neste momento.
— Que preocupações poderiam ser essas? — grunhiu Cress, o lábio tremendo de raiva. — Se os Pinkertons nos prenderem, o senhor terá mais um julgamento público nas mãos, seguido de uma rápida execução. Lembra-se de como chegaram perto de uma guerra da última vez que isso aconteceu, quando Otelo foi julgado por traição? Isso mesmo; eu e todos os anões no gueto sabíamos o que poderia acontecer caso Otelo tivesse sido executado.
Harold se virou para Cress, um olhar gélido no rosto.
— À luz dos crimes de Cress e dos ataques dos Bigornas, quando chegarem os recrutas anões, meu pai anunciará a todo o Hominum a rescisão dos direitos que eu consegui conceder na última década. As leis de cotas de nascimento voltarão, os soldados dos anões serão despojados dos uniformes. Pior ainda, ele promulgará impostos pesados sobre os negócios dos anões e decretará toques de recolher para que eles não possam caminhar nas ruas após o anoitecer.
— Por quê? — indagou Fletcher, sem conseguir se conter.
— Porque ele quer que os recrutas anões se encham de raiva quando chegarem aqui — grunhiu Harold. — Imagine algumas centenas de anões armados, recebendo a notícia de que não são mais cidadãos nem soldados, depois de um ano de treinamento e sofrimento na frente élfica. Então eles serão obrigados a voltar para casa antes do anoitecer sob ameaça de prisão, e, quando chegarem, os Pinkertons se mudarão para lá e patrulharão suas ruas, aterrorizando cada família.
— Eles se revoltariam — disse Otelo calmamente. — E Alfric chamaria isso de rebelião.
— Isso mesmo — concordou Harold, voltando-se para Cress. — Você entende? Preciso impedir que isso aconteça. Preciso ganhar mais alguns dias de manobra.
Fletcher não conseguia acreditar em seus ouvidos: que Alfric poderia ser tão óbvio, tão insensível. Ele precisava ser impedido.
— Então, qual o plano? — perguntou Fletcher.
— Capitã Lovett, por favor. — Harold recostou-se na cadeira, cobrindo os olhos com uma das mãos e gesticulando para Lovett com a outra, como se estivesse exausto demais para explicar.
— As pedras de visualização — disse ela, inclinando-se sobre a mesa. — O Triunvirato recolheu todas após a missão de vocês, conectou-as a um único Caruncho selvagem e depois as redistribuiu ao redor de Hominum. Alfric planeja fazer seu anúncio através dos cristais. Se Harold conseguir matar ou capturar o Caruncho, conseguirá adiar o anúncio até a chegada dos recrutas anões. Claro, eles poderão se rebelar de qualquer maneira, mas já é um começo.
— Só isso? — perguntou Otelo, colocando o queixo nas mãos.
— Isso é o grosso da história — respondeu Lovett. — E há mais uma coisa. Alfric também será capaz de transmitir sua voz através dos cristais.
Aquilo era novidade para a Fletcher.
— Pensei que isso fosse impossível... não? — perguntou, as sobrancelhas arqueadas em confusão.
— Era, mas Electra deu duro em seu laboratório na ausência de vocês — explicou Lovett. — Andei ajudando em seus experimentos de alquimia.
Lovett enfiou a mão no bolso e atirou um cristal de visualização sobre a mesa. A superfície estava tingida de preto, mas logo a imagem exibiu o teto da biblioteca, quando Valens emergiu do bolso do uniforme da capitã. Ele zumbiu sobre seu ombro, e por um momento Fletcher ouviu um cantarolar muito baixinho e fraco vindo da pedra. Lovett virou a cabeça e abaixou a boca até a altura do Caruncho. Fletcher viu os movimentos de seus lábios, ouviu-a dizer:
— Você consegue me ouvir?
Porém as palavras não vieram apenas de sua boca, também surgiram da pedra, e em volume alto. O som era metálico e áspero, mas bastante claro.
Lovett sorriu.
— A pedra vibra na mesma frequência que minha voz e produz som usando as reverberações. É como uma corda em um violino. A única coisa que isso requer é o uso do feitiço de amplificação nos cristais de coríndon, e que eles sejam carregados com uma pequena quantidade de mana. Obviamente a recarga uma hora acaba, mas as vibrações usam pouquíssima quantidade de energia.
— Não sei por que você está sorrindo — disse Harold, ríspido. — Antes você nunca tivesse divulgado sua descoberta. É a máquina de propaganda perfeita para meu pai. Ele tem feito discursos todos os dias, dizendo que os anões estão atrás dos ataques dos Bigornas, que eles assassinaram o pobre e inocente Rufus para que isso servisse de aviso para nós. O que me deixa enjoado.
— Teria sido ótimo ter tido essa capacidade antes — gemeu Fletcher. — Assim, todos teriam ouvido a confissão de Jeffrey.
Sylva ficou de pé. Ela estivera sentada em silêncio durante os últimos minutos, mas agora sua boca estava entreaberta, e seus olhos brilhavam à luz fraca do fogo.
— Há uma maneira — disse ela, baixinho. — Um jeito de resolver tudo.
Fletcher olhou para ela, incapaz de acreditar no que ouvia. Que ideia poderia ter tido?
— O senhor não precisa dos generais — continuou a elfa, virando-se encarar Harold. — Nem da nobreza. O senhor precisa do povo.
— O que você quer dizer com isso? — disse Harold. — Que povo?
— Por que o senhor acha que Alfric precisa fazer esses discursos? — perguntou Sylva. — Por que ele e o Triunvirato enviaram Jeffrey para incriminar Cress? Por que colocaram essas bombas? Porque ele precisa do apoio do povo de Hominum. Os soldados, os agricultores, os ferreiros, os mineiros, os operários. São eles os fios cruciais da trama de guerra. O senhor acha que ele conseguiria autorizar o massacre em massa dos anões sem o apoio popular? Sem essa mentira que ele fabricou?
Harold olhou para Sylva com um rosto inexpressivo; o único sinal de emoção era a contração suave de sua mandíbula enquanto ele apertava os dentes.
— É verdade — aquiesceu por fim. — É claro que é verdade. Se as pessoas pensassem que os anões eram inocentes, que tinham sido enganados, nunca permitiriam que esse comportamento continuasse, nem que os perpetradores ficassem impunes. — Ele parou, como se estivesse surpreso com as próprias palavras. — Mas o que espera que eu faça? — perguntou, com um suspiro. — Que faça meu próprio anúncio, que lhes mostre o diário de Jeffrey? Meu pai colocou espiões para me observar o tempo todo, e amanhã à noite deverei oficialmente confirmar a ascensão à nobreza das famílias de Serafim e Didric em um baile. Não há maneira de eu conseguir escapar e chegar até o Caruncho sem ser detectado.
— Mas o senhor não poderia ten... — começou a dizer Cress, mas Harold interrompeu-a bruscamente.
— Mesmo que eu conseguisse chegar até ele, o que aconteceria em seguida? Meu pai saberia que eu me voltei contra ele. Seria uma guerra civil, em que a nobreza e os generais tomariam partido mais uma vez. Não, isso nunca funcionaria.
— Não se não fosse o senhor — disse Otelo, levantando a cabeça. Ele olhou para Fletcher e assentiu devagar. Era loucura, mas era sua única chance.
— Quem, então? — grunhiu Harold.
— Nós — respondeu Fletcher.

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