13 de março de 2018

Capítulo 23

— O que diabos vocês estavam pensando? — berrou Uhtred, socando a mesa.
Eles estavam no porão da Bigorna, levando o maior sermão de suas vidas. Uhtred tinha chegado alguns minutos antes e os arrastara até ali embaixo assim que escutou a história, com medo de que as pessoas estariam vigiando a taverna por sinais de movimento depois do ataque Bigorna.
— E se você foi visto? — rosnou, avançando contra os três. — O único soldado anão num raio de quilômetros, e você apenas calhou de estar lá quando uma bomba explodiu. Estamos na Taverna da Bigorna, pelos céus. Você acabou de se livrar de uma acusação de traição. Se a notícia se espalhar, sua missão fará mais mal que bem; as pessoas acharão que vocês são traidores!
— Acho que dá para dizer que eu fui visto — murmurou Otelo. — Só que, com a minha barba feita, eles podem não ter me tomado por um anão, só um sujeito baixo. Estava escuro e lotado, com todo mundo embriagado. A maioria das pessoas que me viu provavelmente morreu na explosão.
— A viagem foi ideia minha — acrescentou Fletcher, enquanto Otelo se encolhia sob o olhar do pai. — Mas como poderíamos saber que haveria um ataque? Só queríamos dar uma olhada nas linhas de frente.
Uhtred abriu a boca, mas fez uma careta e a fechou de novo.
— Independentemente disso, vocês três estão no fio da navalha — afirmou ele, mas com uma expressão mais branda.
— Vocês podem falar baixo? — resmungou Jeffrey, segurando a cabeça. — Eu tô morrendo aqui.
— Bem merecido — grunhiu Uhtred, apesar de entregar ao rapaz um frasco de água do cinto. — Entorne isto. Precisamos de você em sua melhor forma para a missão amanhã.
Otelo grunhiu alto à menção da missão, e o pai o fitou de volta.
— Esqueceu isso, foi? O futuro de Hominum depende de vocês, tanto para unificar a nação quanto para destruir a ameaça dos goblins. Odeio pensar no que o rei Harold diria se soubesse o que aconteceu esta noite.
Fletcher baixou a cabeça, envergonhado, mas parte da mente estava ocupada, se perguntando como Uhtred reagiria se soubesse que havia um gremlin adormecido na mochila pendurada no corrimão das escadas do porão. Ele não tinha ideia do que fazer com a criaturinha, e Otelo não havia ajudado muito nesse aspecto. Jeffrey, por outro lado, nem estava ciente, pois caíra num estupor assim que entrara na carruagem.
Uhtred deu uma olhada nas pistolas de Fletcher e suspirou. Tirou uma delas do coldre e fez pontaria.
— O meu filho ao menos lhe ensinou como carregar e disparar uma delas durante a viagem? — indagou, com um tom que sugeria que ele já sabia a resposta.
— Bem... Com a explosão e tudo mais... — resmungou Fletcher, evitando o olhar de Otelo.
— Você não vai poder praticar na selva; seria ouvido a quilômetros! — exclamou Uhtred, exasperado. — Não haverá tempo amanhã, também. Este lugar é isolado acusticamente o bastante, se bem que o treino pode ferir os nossos ouvidos um pouco. Ninguém vai nos ouvir na rua.
No extremo oposto do porão, uma pilha de móveis quebrados fora acumulada sem cerimônia. No centro, havia uma cadeira estofada de vermelho virada para eles; um alvo ideal.
Uhtred puxou o gatilho sem hesitar, e uma longa língua de fumaça irrompeu da pistola com um barulho que era mais estalo do que estrondo no espaço confinado. Uma pluma menor de fumaça subiu do ponto onde a pederneira atingira a arma, causando a ignição da pólvora no interior.
O estofado vibrou de leve, mas Fletcher notou o novo furo no tecido puído, logo ao lado do centro.
— Nada mal — comentou Uhtred, engatilhando a pederneira de novo. — Agora observe atentamente.
Ele tirou um pequeno cartucho do bolso de trás, um cilindro de papel amarelo com uma das pontas enrolada. Mordeu essa ponta e a rasgou, revelando o fino pó preto contido no interior.
— Você despeja a pólvora neste quadrado em que a pederneira acerta o aço da pistola ao descer, que é chamado de caçoleta — explicou Uhtred, colocando um pouco de pólvora. — Por isso se diz que uma pessoa que morreu “bateu a caçoleta”.
Fletcher observou com olhos ávidos enquanto Uhtred empurrava o resto do cartucho pelo cano da pistola.
— Depois, você coloca a coisa toda no cano e usa a vareta para empurrar até o fundo.
Uhtred puxou uma vareta estreita de metal da guarda de madeira da arma, logo abaixo do cano. Socou até o final algumas vezes, para garantir que o cartucho estivesse bem preso. Recolocou a vareta no lugar e, em seguida, apontou o cano para a cadeira de novo.
— Agora tente atirar. Lembre-se do forte coice!
Uhtred entregou a arma a Fletcher. A pistola pesava nas mãos dele, e o braço vacilou quando o rapaz a ergueu, fazendo pontaria ao longo do cano.
Era diferente do arco: o ponto de focalização muito distante; o peso desequilibrado, todo num só braço.
Ele disparou, fechando os olhos com a explosão da caçoleta, o estrondo tão alto quanto tinha sido o ataque dos Bigornas. Fletcher não conseguiu ver se acertara alguma coisa, pois havia fumaça demais.
Porém, quando seus ouvidos pararam de retinir e o ar se limpou, o estofado surgiu idêntico ao que fora antes.
— Aonde foi parar? — indagou Fletcher.
Lentamente, uma perna de cadeira no canto superior direito do porão balançou, depois se partiu com um estilho, uma bala cravada na junta. Otelo deu uma risada quando ela caiu no chão, bem longe de onde Fletcher tinha mirado.
— Bem, talvez seja melhor mirar no peito em vez da cabeça — riu Uhtred, dando um tapa nas costas do rapaz, que suspirou e guardou a pistola de volta no coldre.
— Certo, tirem as roupas! — exclamou Uhtred, estalando os dedos.
— O quê? — indagou Fletcher. Do que Uhtred estava falando?
Então Fletcher olhou para o uniforme. A frente da farda e calça novas estavam borrifadas com fuligem, lama e sangue do massacre. Até mesmo Otelo tinha o uniforme manchado com as mesmas coisas, de quando havia arrastado Fletcher para fora. Em contraste, o de Jeffrey estava limpo apesar das sessões de vômito.
Fletcher deu de ombros e tirou lentamente as armas e as roupas, até que ele e Otelo estavam tremendo no ar frio do porão poeirento, com apenas as roupas de baixo. Uhtred deu uma risada diante dos rostos miseráveis.
— Vocês têm sorte da minha mulher ser a melhor costureira da região. Ela vai substituir o que não puder ser lavado, e tudo estará pronto amanhã.
Antes que Fletcher pudesse pedir desculpas por ter arruinado as roupas novas, houve um ranger no andar de cima. Então, antes que qualquer um deles pudesse se mexer, a porta do porão se abriu de rompante e alguém mirou uma besta escadaria abaixo.
— Quem está aí? — gritou Sylva, dando um rolamento com o arco em riste, enquanto Cress os espiava por sobre a arma.
— Somos só nós — admitiu Fletcher, envergonhado. Uhtred subiu a escada e baixou a besta de Cress.
— Vão descansar — sorriu ele. — Vejo todos vocês amanhã.
Por um momento, as duas garotas encararam os dois rapazes seminus, rostos marcados com a fuligem da explosão, e Jeffrey esparramado, bêbado, no chão.
Então as duas caíram na risada, para o horror de Fletcher.
— Ora, ora — comentou Cress, com olhos faiscando de diversão. — Parece que perdemos a festa.

4 comentários:

  1. Nossa fiquei imaginando essa cena kkkkkkk

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    1. ( ͡° ͜ʖ ͡°)8 de maio de 2018 06:35

      Imaginou? ( ͡° ͜ʖ ͡°)

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  2. ( ͡° ͜ʖ ͡°)8 de maio de 2018 06:34

    Agora entendi porque as garotas não foram. Só pra não ficarem seminuas no porão e não virar outra coisa ( ͡° ͜ʖ ͡°).

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  3. hum🤔esse Jeffrey.. Sei não tá suspeito.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!