2 de março de 2018

Capítulo 23

Os nobres chegaram atrasados para o café da manhã, sentando-se do lado oposto do refeitório e ignorando completamente o grupo de plebeus. Tarquin e Isadora lideravam o cortejo, tendo claramente se estabelecido como líderes. Por outro lado, os tapinhas casuais nas costas e gargalhadas fizeram Fletcher concluir que a maioria dos nobres já se conhecia.
— Por que estão nos ignorando? — perguntou Atlas, olhando por sobre o ombro quando os nobres começaram a fazer comentários em voz alta sobre a baixa qualidade da comida.
— Isso é normal — afirmou Serafim. — Os nobres sempre ficam separados dos plebeus. Eu bisbilhotei um dos quartos deles outro dia. É do tamanho do nosso alojamento inteiro e mais um pouco!
— Não acho que deveria ser assim — comentou Rory. — Vamos viver juntos pelos próximos dois anos, não é? Só tem cinco deles. Certamente vão ficar entediados com a companhia um do outro.
— Duvido — opinou Fletcher. — Um dos criados me contou que os nobres frequentemente passam seu tempo livre em Corcillum. Somos nós que vamos ficar neste castelo sem ter nada para fazer. Nossa melhor opção vai ser fazer amizade com alguns dos plebeus mais velhos.
Enquanto dizia isso, uma dúzia de veteranos começou a entrar no salão, conversando em voz alta. Eles se separaram em dois grupos e se sentaram em mesas diferentes, mas, ao contrário dos calouros, as duas turmas pareciam conversar entre si sem nenhuma hostilidade perceptível. Mesmo assim, julgando pela qualidade dos uniformes, Fletcher suspeitava que a divisão de mesas era entre nobres e plebeus também.
— Eles desceram cedo para o café da manhã — comentou Serafim enquanto de duas mesas veteranos os olhavam de cima a baixo, com atenção especial dedicada a Otelo. Um deles cutucou o outro e apontou para Ignácio e o Golem, que Otelo tinha batizado de Salomão. O anão se ajeitou e baixou a cabeça sobre a refeição, constrangido pelos olhares.
— Eu queria que pudéssemos tomar café da manhã no mesmo horário que eles todos os dias. Tem espaço suficiente aqui para centenas de nós comermos — bocejou Genevieve, apoiando a cabeça nas mãos.
Fletcher fitou seus cabelos ruivos com desconfiança. Seria ela o vulto que ele vira saindo da Cidadela na noite anterior?
Quando os criados terminaram de servir o café aos recém-chegados, todos no refeitório subitamente se calaram. Erguendo o olhar da refeição, Fletcher viu o reitor entrando no salão, seguido por dois homens e uma mulher que vestiam uniformes de oficiais. Com um sobressalto, reconheceu um deles como Arcturo, com o olho branco fitando resoluto adiante. O homem não deu sinais de tê-lo reconhecido. A menina elfa entrou logo atrás, causando um rebuliço no refeitório. Ela caminhou com a cabeça erguida até um assento afastado da mesa dos plebeus. Seu Canídeo se enrodilhou sob a cadeira, a cauda peluda se esticando enquanto a criatura olhava pela sala, protetora.
Os quatro oficiais ficaram parados com braços cruzados e encararam o salão até fazer-se silêncio absoluto.
— Bem-vindos à Cidadela! Imagino que todos já tenham se instalado — anunciou o reitor Cipião asperamente por entre as cerdas de seu grosso bigode. — Vocês têm o privilégio de ser parte da menor e mais recente geração de estudantes a agraciar os salões da Academia Vocans. — Fletcher olhou em volta, contando. Eram doze veteranos, o mesmo número dos calouros. — Nossas tradições datam desde o primeiro rei de Hominum, há mais de dois mil anos — continuou Cipião. — E, mesmo que sejamos poucos, os magos de batalha graduados por esta instituição seguem servindo como os melhores oficiais das forças armadas, seja sob o comando do rei ou sob a bandeira de uma de nossas grandes casas nobres.
Fletcher viu Tarquin se inclinar e sussurrar com Isadora, cuja risada tilintante ecoou por todo refeitório. Ele não foi o único a perceber. O rosto de Cipião ficou vermelho de raiva, e o reitor apontou para o jovem nobre.
— Você aí, levante-se! Não vou tolerar grosseira de ninguém, seja nobre ou não! Levante-se, estou dizendo, e se apresente.
Tarquin se levantou, porém não parecia abalado pela raiva do reitor. Cravou os polegares nos bolsos das calças e falou numa voz clara:
— Meu nome é Tarquin, herdeiro do Ducado de Pollentia. Meu pai, o duque Zacharias Forsyth, é o general dos Furiosos de Forsyth. — Ele sorriu quando os veteranos começaram a murmurar ao reconhecer o sobrenome. Claramente o pai de Tarquin era um dos nobres mais antigos e poderosos de Hominum. Fletcher reconheceu o nome Pollentia; uma extensão de terra grande e fértil que corria do mar de Vesan ao centro de Hominum.
Cipião permaneceu calado, encarando Tarquin com expectativa por sob as sobrancelhas brancas e fartas. O jovem nobre esperou alguns momentos até o silêncio recobrir pesadamente o salão. Finalmente, falou:
— Peço desculpas por minha grosseria. Estava só dizendo à minha irmã que estou... orgulhoso em fazer parte desta grande instituição.
— É só por respeito ao seu pai que não mando você de volta ao seu quarto, como uma criança — resmungou Cipião. — Sente-se e fique de boca calada até que eu tenha terminado de falar.
Tarquin inclinou a cabeça com um sorriso e se sentou, inabalado pelo diálogo. Fletcher não sabia bem se era confiança ou arrogância que concedia ao rapaz aquela atitude destemida, mas desconfiava de que era a segunda. Cipião encarou Tarquin por mais algum tempo, em seguida se virou aos três oficiais.
— Estes são seus três professores; major Goodwin e os capitães Arcturo e Lovett. Vocês os tratarão com o devido respeito e lembrarão que, enquanto eles estão aqui educando vocês, bons homens nas linhas de frente sofrem sem sua liderança ou proteção.
Fletcher examinou os dois professores que ainda não tinha conhecido. A capitã Lovett era uma mulher de cabelos negros como um corvo, olhos frios e aparência severa. Porém, quando ela sorriu aos aprendizes no momento em que seu nome foi anunciado, seu rosto perdeu toda a aspereza. O major Goodwin parecia ser quase tão velho quanto Cipião, com uma silhueta grande e corpulenta e um espesso cavanhaque branco. Usava óculos de armação dourada, apoiados num nariz vermelho que indicava um gosto por bebidas destiladas.
— Agora, vocês veteranos devem estar se perguntando por que foram chamados tão cedo — anunciou Cipião, fazendo com que os segundanistas entediados se endireitassem nos assentos. — Tenho um anúncio que diz respeito a todos vocês. Tomamos uma decisão que pode não ser particularmente popular, mas foi tomada por questão de necessidade. Nas provas finais e nos torneios deste ano, tanto os calouros quanto os veteranos participarão. Se quaisquer calouros demonstrarem altos padrões de qualidade, então também receberão uma patente e serão enviados às linhas de frente um ano mais cedo, onde fazem uma falta terrível.
Um tumulto imediato se iniciou, mas foi encerrado com um berro de Cipião. Ele ergueu uma das mãos para o burburinho que se seguiu.
— Entendo que isso aumente a competição pelas poucas patentes de alto nível oferecidas a vocês do segundo ano. Venho lembrar-lhes de que vocês começaram a treinar com um ano de vantagem. Se forem derrotados por um dos calouros, então não merecem patente nenhuma.
Fletcher franziu o cenho com o anúncio. Lá se ia qualquer chance de fazer amizade com os plebeus mais velhos.
— Quanto aos primeiranistas, vocês devem estar preocupados em receber patentes e postos ruins este ano, quando poderiam conquistar coisa melhor se ficassem para o próximo ano. Para contrabalançar essa possibilidade, vocês só receberão postos de primeira-tenência ou melhor, com uma escolha opcional de uma segunda-tenência menos prestigiosa, se assim preferirem. O vencedor do torneio receberá uma capitania, a patente mais alta que um mago de batalha novato pode conquistar.
Isso gerou mais burburinho da mesa dos veteranos. Fletcher suspeitava que eles ficariam felizes com a participação dos calouros se estes preenchessem todas as patentes de segundo-tenente, a mais comum e mais baixa de todas.
— O rei ofereceu um incentivo adicional ao torneio deste ano. O vencedor também receberá um lugar no conselho real, e terá o direito de votar em questões de Estado. Sua Majestade deseja ter um representante da próxima geração de magos de batalha. Se uma patente de alto oficial não motivar vocês, sei que isso o fará — declarou Cipião, olhando de forma solene para todos.
Fletcher viu Otelo cerrar os punhos enquanto Cipião falava. Se isso fora motivado pelo assento no conselho, a patente ou ambos, Fletcher não saberia dizer. Tarquin e Isadora estavam especialmente inflamados pelas revelações de Cipião, sussurrando com empolgação apesar de um olhar de advertência de Arcturo.
— Em quais divisões serão concedidas as patentes? Os calouros vão correr o mesmo risco de serem postos nos batalhões de anões ou criminosos? — indagou um veterano plebeu alto, levantando-se.
Otelo se eriçou com a insinuação, mas Cipião falou primeiro.
— Vocês irão para qualquer diabo de divisão em que forem lotados! E não fale fora de hora! — rugiu o reitor.
O menino se sentou apressado, apesar dos murmúrios insatisfeitos com a resposta.
Cipião pareceu apiedar-se ao ver os rostos cabisbaixos que o encaravam por todo refeitório.
— Eles terão as mesmas chances que vocês. É tudo que posso dizer sobre esse assunto — acrescentou.
Uma mão delicada se ergueu no ar, agitando os dedinhos para chamar atenção. Cipião revirou os olhos e assentiu irritado com a cabeça. Isadora se levantou e fez uma mesura delicada.
— Peço licença por ter interrompido, senhor reitor Cipião, mas o que ela está fazendo aqui? — inquiriu a jovem, apontando um dedo acusador à elfa.
— Esse era o meu anúncio seguinte — afirmou Cipião, caminhando até a menina de cabelos prateados. — As conferências de paz entre os enviados de Hominum e os vários chefes de clãs élficos foram um longo esforço, mas recentemente alcançamos um avanço importante. Em vez de pagar o imposto, os elfos planejam se juntar à luta pessoalmente, mandando seus próprios guerreiros para serem treinados como soldados, assim como fizeram os anões.
Com esta última menção, Cipião lançou um aceno de cabeça respeitoso a Otelo, que devolveu o gesto igualmente.
— Porém, ainda resta muita desconfiança, como era de esperar — continuou Cipião, voltando à entrada para se reunir aos outros professores. — Então, num ato de boa-fé, a filha de um dos chefes foi enviada para ser treinada como maga de batalha, a primeira de muitos elfos que, esperamos, serão incorporados às nossas forças armadas ao longo dos próximos anos.
Ele deu um sorriso forçado à elfa.
— Seu nome é Sylva Arkenia, e vocês devem acolhê-la da melhor forma possível. Nunca fomos realmente inimigos dos elfos, mesmo que tenhamos nos sentido assim. Vamos esperar que este seja o primeiro passo de uma longa e frutífera aliança.
O rosto de Sylva permaneceu impassível, mas Fletcher notou a cauda de Sariel balançando sob a mesa. Ele se espantou com a coragem da jovem menina, que deixou o país e o lar para lutar numa guerra que não era dela, dentre pessoas que não confiavam no seu povo. Enquanto ele planejava seu pedido de desculpas, a voz de Cipião se ergueu novamente.
— Enfim, todos dispensados. As aulas começam em alguns minutos. Ah, e Fletcher — disse ele, virando-se para o rapaz. — Venha me ver no meu gabinete. Imediatamente.

4 comentários:

  1. Posso shippar a Sylva com o Fletcher ou ainda é cedo demais rsrsrsrs?

    E vixi, vai dar ruim essa chamada 😱?

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    Respostas
    1. Eu sou antecipada, já tava shippando desde que ele apareceu pela primeira vez no quarto dela

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  2. Vai dar ruim essa chamada do Cipião

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Boa leitura, E SEM SPOILER!