22 de março de 2018

Capítulo 22


Eles haviam voado direto para dentro de uma aula de conjuração. A primeira do ano letivo, na verdade. Arcturo voltara a dar aulas depois da missão de resgate, substituindo Rook.
Quando Fletcher e seu grupo avistaram o portal, Arcturo estava demonstrando os perigos da migração dos Picanços para os alunos, observando o bando a partir da distância segura das terras mortas. Felizmente, um estudante de olhar afiado viu a fuga desesperada do grupo pelo Oculus, a gigantesca pedra de visualização de Vocans, antes de terminar a aula. Sacarissa esperara atrás do portal para que Arcturo pudesse assistir ao progresso do grupo, e saltou para dentro depois que ficaram em segurança.
Agora eles estavam sentados na biblioteca, desfrutando das almofadas macias das poltronas e do calor da lareira que estalava nas proximidades.
Fletcher tinha carregado a mãe nos braços e a deitara em um sofá junto ao fogo.
O resto do grupo sentara ao redor de uma grande mesa de carvalho, ocupada por pilhas altas de livros e cercada pelas prateleiras altas que dividiam a sala em um labirinto de corredores revestidos de tomos. Era quase meia-noite; a aula tinha começado tarde.
— Quem estamos esperando? — gemeu Otelo, remexendo-se no assento nervosamente.
Não lhes fora dada a oportunidade de tomar banho, nem mesmo de trocar de roupas. Em vez disso, Arcturo lhes dissera para infundirem seus demônios e os tirara da frente de seus alunos de primeiro ano, que os encaravam cheios de espanto.
— Vou deixar que eles expliquem — disse Arcturo, andando nervosamente de um lado para o outro, perto da porta.
— Eles quem? — perguntou Sylva, a paciência prestes a se esgotar, os lábios em uma linha fina.
— Olhe, eu nem sei quem está vindo — respondeu Arcturo, correndo as mãos pelos cabelos. — Mandei uma mensagem ao rei Harold e a Elai... a capitã Lovett, mas eles podem enviar outras pessoas. Muita coisa mudou enquanto estiveram fora...
— Bem, conte-nos sobre isso, pelo menos — pediu Fletcher, cansado de tanto mistério.
Ele pensou que eles seriam recebidos como heróis, não como criminosos quaisquer, escondendo-se. Foi o choque da recepção que o manteve em silêncio sobre o resgate da mãe. Arcturo mal a olhou duas vezes, provavelmente ainda acreditando que se tratasse de Lady Cavendish, a mãe de Rufus. Aquele assunto podia esperar.
— A capitã Lovett... ela ouviu tudo — disse Arcturo, ainda andando de um lado para o outro. — Pelo menos até Lisandro atravessar o portal e sua conexão ser interrompida. A confissão de Jeffrey, a fuga de vocês, tudo. Porém, como ela não tinha nenhuma prova, ficou em silêncio. Ninguém nem acreditou que vocês tivessem entrado no éter.
— Não percebemos que ela ficou sabendo de tudo — murmurou Sylva. — Pensamos que Lisandro estivesse inconsciente.
— O que mais? — perguntou Otelo.
Arcturo hesitou, mordendo o lábio.
— Toda Hominum viu Rufus morrer — revelou, enfim. — Viram um dos disparos azuis da besta de Cress atingi-lo, depois viram Jeffrey correr até ele e arrancar a flecha, para tentar salvá-lo. Até onde todo mundo entende, Cress matou Rufus. Eles não descobriram que foi Jeffrey que atirou.
A notícia atingiu Fletcher como um raio. Ele, que antes estivera esgotado, pronto para dormir no conforto caloroso da biblioteca, agora sentiu um choque gelado escorrer pela coluna vertebral.
Rufus já estava morto quando eles entraram na câmara sob a pirâmide. Eles não viram o que o matou, apenas uma ferida profunda na barriga do garoto. Jeffrey devia ter atirado a flecha da besta enquanto ficou fora de vista.
— Mas Jeffrey pensou que ele havia falhado — disse Cress, horrorizada, levando as mãos unidas até a boca.
— Tudo isso foi visto pela visão periférica de Lisandro, logo após ele ser paralisado — explicou Arcturo, com o rosto contido, sombrio. — Seus olhos se fecharam alguns segundos depois. Jeffrey provavelmente não percebeu que Hominum observava tudo; o único motivo pelo qual ele fingia ajudar Rufus era para enganar vocês três quando saíram do túnel. O maldito teve sorte.
— Então todos devem ter voltado a odiar os anões — sussurrou Otelo. — Eles pensam que enviamos um assassino para matar alguém de seu povo.
Arcturo suspirou e esfregou os olhos.
— O velho rei Alfric já ordenou que os Pinkertons cerquem o Bairro dos Anões. É um barril de pólvora prestes a explodir. Mas esse não é o pior de nossos problemas.
— Não é? — perguntou Fletcher, horrorizado.
Arcturo fez que não.
— Depois de anos de treinamento, os recrutas anões recém-formados foram enviados para a frente de batalha. Eles se colocaram em marcha, a partir da frente élfica, e passarão por Corcillum dentro de dois dias. Quando chegarem aqui e encontram seus lares sitiados, haverá conflito, de uma forma ou de outra. Não há nada que possamos fazer para evitá-lo.
Arcturo parou e olhou para eles, como se os visse pela primeira vez.
— Não sei o que vai acontecer quando eles descobrirem que vocês estão vivos — disse, meio que para si mesmo. — Mas podem apostar que Cress será presa... e talvez todos vocês também, como cúmplices, dado o histórico de Fletcher e Otelo com acusações de traição. Sylva, o mero fato de acompanhar esses três bastará para...
— Precisamos partir agora mesmo — disse Sylva, pondo-se de pé.
Arcturo gesticulou para que ela tornasse a se sentar na cadeira, balançando a cabeça.
— Os alunos lá embaixo que os viram atravessar o portal eram todos plebeus, já que os nobres não se deram o trabalho de comparecer. Então, temos até amanhã antes que a notícia se espalhe. Ordenei que fossem todos para a cama e pedi à dama Fairhaven que ficasse de olho neles, para que não deixassem seus quartos. Vocês estão seguros pelo menos por esta noite.
Fletcher não podia acreditar no que estava ouvindo. De fugitivos para fugitivos. Como isso podia ser possível? Eles estariam mais seguros se tivessem resolvido passar o resto da vida no éter.
— Fletcher, e o... — Sylva começou a dizer.
Mas não terminou a frase, porque o rei Harold irrompeu pelas portas da biblioteca, os olhos arregalados e incrédulos, os ondulados cachos dourados grudados em sua testa. Lovett seguia logo atrás, girando uma cadeira de rodas de madeira com espaldar alto.
— Então é verdade — disse ele, ofegante.
— Eu disse a você — falou Lovett secamente. Ela sorriu e balançou a cabeça com fingida descrença. — Eu aposto que eles têm uma história e tanto para contar. Dezesseis dias do éter... isso é quase uma semana em nosso tempo!
Mas o rei já não ouvia, nem sequer olhava para os quatro alunos sentados à mesa grande à frente. Ele fitava a mãe de Fletcher. Como se fosse um sonâmbulo, ele cambaleou até a poltrona onde ela estava sentada, o rosto da mulher coberto pelas sombras lançadas pelas chamas cintilantes.
— Alice — disse ele, com voz rouca, ajoelhando-se na frente dela. — É você?
Ele olhou para Fletcher com um olhar interrogativo e recebeu um solene aceno positivo de cabeça. Havia lágrimas nos olhos do rei, que segurou a mão magra de Alice.
— Não pode ser... Fletcher, você... — A frase de Arcturo ficou no ar, e seus dedos correram pela longa cicatriz que lhe maculava o rosto. A mesma cicatriz que ele ganhara ao vingar-se dos orcs que tinham atacado os Raleigh naquela noite fatídica.
Fletcher viu a óbvia alegria de Arcturo em encontrar sua velha amiga, o olhar de espanto, seguido pelo sorriso mais largo que Fletcher já havia visto naquele rosto marcado.
Arcturo colocou uma mão sobre o ombro do rei e olhou para os olhos vazios de Alice. Então, quando os dois olharam para ela, os olhos da mulher cintilaram por um momento, e um minúsculo traço de sorriso surgiu em seus lábios. Em seguida, desapareceu, tão rapidamente que Fletcher não conseguiu ter certeza se o vira ou não.
— Alice, sou eu — disse Arcturo, apertando a outra mão da mulher.
Mas o instante havia passado. Os olhos de Alice fitavam as chamas, sem nem sequer piscar.
— Ela fica... sempre assim? — perguntou Harold, enquanto uma lágrima vagarosa rolava por seu rosto.
— Sim — respondeu Fletcher. Não havia mais nada a dizer.

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