13 de março de 2018

Capítulo 22

Era o meio da tarde quanto Fletcher acordou com a luz do sol entrando pelas janelas superiores da taverna. Ignácio ronronava baixinho no seu peito, o rabo tremelicando com os sonhos que ele tinha. Havia se mudado deliberadamente do seu lugar costumeiro em volta do pescoço de Fletcher para negar a Atena um posto tão bom. A Griforuja parecia irritada com as traquinagens do diabrete, e Fletcher sabiamente decidiu infundi-la para evitar um confronto.
Ao lado, Otelo roncava alto, de boca aberta e narinas se alargando a cada respiração. Fletcher espiou pelas persianas e, vendo o sol alto no céu, deu um chute gentil em Otelo. O anão fungou e grunhiu ao acordar, puxando as cobertas sobre o rosto.
— Parece que ficar a noite inteira acordado para planejar nossa rota acabou fazendo que perdêssemos a maior parte do dia dormindo — reclamou Fletcher, olhando pela janela — Eu disse que deveríamos ter ido para a cama.
— Bem, já adiantamos todo o trabalho — argumentou Otelo, só que sem parecer muito convencido. — Podemos passar o resto do dia fazendo compras. Não quer desfrutar de um dia de liberdade? Você andou trabalhando sem parar desde que saiu daquela cela.
Fletcher se espreguiçou e começou a calçar as botas, deixando que Ignácio deslizasse para o chão. O diabrete continuou deitado de costas, pernas esparramadas, recusando-se a ser acordado, mesmo após um cutucão mental do mestre.
— Pode acreditar, não há nada que eu gostaria mais — respondeu Fletcher. — Mas ontem à noite Jeffrey sugeriu que fôssemos às linhas de frente para conhecer os soldados. Eu nunca estive lá. Quero ver como é, como eles são.
— Tem certeza? — indagou Otelo, com óbvia apreensão.
— Tenho. — Fletcher passou nas pontas dos pés por Jeffrey, que ainda dormia no sofá. — Estamos prestes a ir atrás das linhas inimigas, e eu nem sei como são os nossos próprios soldados. Vou ver se as meninas estão acordadas.
Fletcher saiu do quarto e bateu de leve na porta ao lado. Não houve resposta, então ele bateu um pouco mais forte. Enquanto erguia o punho para bater uma terceira vez, soou o estrondo de algo pesado sendo jogado contra a porta, e então uma voz gritou:
— Cai fora! — berrou Cress.
Fletcher sorriu e voltou ao quarto.
— Parece que somos só nós três — concluiu,  cutucando Jeffrey para que se levantasse.
Foi uma longa viagem de charrete até as linhas de frente, tanto que o primeiro tom alaranjado do crepúsculo já manchava o céu quando o cocheiro bateu no teto para avisá-los que tinham chegado. A jornada fora melancólica, os três rapazes percebendo as dimensões da missão que se iniciaria no dia seguinte. Fletcher chegara até a infundir Ignácio no meio do caminho, pois o demônio tinha captado o desânimo geral e seus rosnados tristonhos não ajudavam em nada a deixar o clima mais leve.
— Vamos lá — chamou Fletcher, saltando da carruagem enquanto os outros dois espiavam as portas com trepidação. — Vamos explorar.
A carruagem tinha parado no topo de uma colina baixa, oferecendo a ele uma vista da linha de frente, que se estendia por quilômetros nas duas direções. Era constituída de uma única e larga trincheira cuja beirada tinha a altura do ombro de um homem, com um degrau de madeira ao longo da parede para que os soldados subissem e atirassem contra a selva. Casamatas de madeira armadas com canhões interrompiam essa linha em intervalos regulares, e Fletcher conseguia discernir, ao longe, os ecos de seus tiros; uma incursão órquica.
Algumas centenas de metros adiante, além da trincheira, as verdes frondes da selva se erguiam. O terreno entre a mata e a trincheira era uma terra devastada e infértil, um lamaçal revirado por anos de canhonaços e batalhas campais. Fletcher, que nunca havia visto a selva antes, ficou fascinado pela intensidade da cor e a densidade da folhagem, que obscurecia tudo além dos limites da mata. Enquanto espiava mais de perto, seu estômago se revirou. Logo ele estaria muito além daquela fronteira, isolado da segurança das terras de Hominum.
Atrás das trincheiras, do lado de cá, soldados com uniformes vermelhos perambulavam sem destino, caminhando entre fogueiras e grandes barracas, fumando, comendo e bebendo. Em algum lugar, um violino rangeu com uma canção triste, logo interrompida por um urro furioso de alguém que não tinha gostado nem um pouco dos esforços do músico.
— Que bacana, Fletcher — resmungou Otelo, parado ao lado do amigo. — Este lugar parece muito divertido. Valeu mesmo a viagem de quatro horas.
— Dê uma chance — pediu Jeffrey, espiando a maior das barracas, de onde vinham gritos e risadas. — Vamos ver o que está acontecendo lá dentro e tomar pelo menos um drinque. Podemos dormir na carruagem de volta para casa.
— De acordo — concordou Fletcher, observando um sujeito ser jogado para fora por dois guardas,  espirrando lama por todos os lados ao aterrissar.
Outro saiu cambaleando em seguida e vomitou violentamente, desabando sobre a poça fumegante que deixara para trás.
— Se bem que é melhor não ficar muito tempo — acrescentou, virando-se então para o condutor da carruagem. — Espere aqui por nós, e você terá uma corrida garantida para a jornada de volta.
— Pode deixar, meu senhor — respondeu o cocheiro, dando uma piscadinha.
Eles desceram a colina, tentando não enlamear demais as botas novas. Conforme os três passavam, alguns soldados endireitavam a postura, puxando os cachos ou batendo continência. O andar de Jeffrey ganhou um gingado; os novos uniformes que vestiam eram obviamente caros e os identificavam como oficiais de algum tipo. Até mesmo os dois guardas saíram da frente com presteza para deixá-los passar, de forma que logo o trio estava dentro da barraca.
Fazia um calor diabólico ali, o ar fumegante com o fedor de corpos não lavados, fumaça pungente e cerveja derramada. O lugar estava cheio de homens que sorviam de canecas e davam baforadas em charutos, criando no processo uma mortalha de névoa fumarenta que pendia sobre suas cabeças.  Havia um bar à direita, para onde Jeffrey se dirigiu rapidamente, entrando numa fila de homens que buscavam bebidas. Enquanto isso, Fletcher e Otelo viram um grupo amontoado em volta do que parecia ser um poço de rinha cercado no centro do aposento.
Conforme se aproximaram, um sujeito banguela e de cabeça raspada chegou perto, segurando um maço de papéis grudentos nas mãos.
— Façam suas apostas, rapazes. Chances de cinco para um em todos os quatro. Escolham entre azul, vermelho, verde ou amarelo, dá tudo no mesmo. O último que se mantiver de pé fica vivo.
Eles o ignoraram e abriram caminho até a frente do grupo, Otelo conseguindo por pouco espiar por sobre a beirada e ver o que havia abaixo.
No centro da rinha ensanguentada, havia um caixote que estremecia e balançava com movimento no interior. Ao redor dele, via-se quatro caixas menores alinhadas junto às paredes da pequena arena, cada uma com o tamanho aproximado de um barrilete de chope e pintada com uma das cores mencionadas pelo agenciador de apostas. Todas estavam conectadas por cordas que passavam por um anel embutido no toldo acima da rinha, prontas para erguê-las e soltar o que houvesse dentro. Ossos de animais estavam espalhados pela areia, como charutos num cinzeiro, enquanto uma caixa torácica, talvez de um grande cão, jazia apodrecendo no canto.
Por todo lado, homens zombavam, alguns cuspindo e lançando insultos contra os habitantes desconhecidos das quatro caixas.
— Última chance de apostar; mais alguém, mais alguém? — declarou o homem banguela, mas ninguém se animou. Ele saltou até a barreira ao lado de Fletcher, e, quando os olhos da plateia se voltaram para ele, o rapaz percebeu que se tratava do organizador do evento.
— Soltem os gremlins! — berrou.
Lentamente as caixas foram erguidas, e, de abas com dobradiças na parte de baixo, caíram criaturas magricelas de pele acinzentada, pouco mais altas que um bebê e vestindo tangas esfarrapadas. Tinham longos narizes e orelhas, olhos esbugalhados e ágeis dedos de pianista que se agarravam às caixas numa tentativa de não sair. Cada um deles exibia um espirro de tinta nas costas, tal como os recipientes nos quais moravam.
Estranhamente, um deles se destacou para Fletcher. Enquanto os outros se encolhiam e acorriam aos cantos, o gremlin azul se portava com orgulho, as orelhas triangulares achatadas sobre as costas e olhos que esquadrinhavam, dardejando da grande caixa no centro para a plateia acima. Por um momento, os olhos do gremlin se focalizaram em Fletcher; no seguinte, ele catou um fêmur partido do chão. Uma das pontas era afiada e serrilhada; a outra, uma clava dupla de osso.
— Parece que temos um lutador! Azul tem um pouco de bravura no coração. — O banguela riu com estardalhaço, dando um tapa nas costas de Fletcher como se este tivesse participado da piada. Então a voz ficou feia, e ele deu um sorrisinho sádico para o rapaz. — Esses geralmente são os primeiros a morrer.
Jeffrey abriu caminho por entre os dois, para grande alívio de Fletcher. Entregou bebidas aos companheiros, seus olhos já assumindo o aspecto vítreo dos embriagados. Fletcher deu uma olhada no líquido fétido dentro da caneca e a entregou discretamente ao homem banguela, antes que Jeffrey pudesse ver.
O homem piscou um agradecimento e então, depois de um gole que derramou a maior parte da bebida na camisa, rugiu:
— Soltem os ratos!
O caixote maior foi erguido, e dele saiu uma massa de corpos fervilhantes e contorcidos, uma mistura grotesca de rabos, dentes incisivos e pelos negros emaranhados. Devia haver uns cem deles. Onde quer que fossem, deixavam pequenas pegadas de sangue.
O homem passou o braço pelos ombros de Fletcher; a bebida parecia ter conquistado sua boa vontade.
— A gente não dá comida pra eles por um tempo, deixamos que fiquem famintos — grasnou o sujeito com uma cutucada de conspiração. — Leva um tempo pra recorrerem ao canibalismo; o ponto certo é uns três dias. Parece que esses começaram meio cedo.
O bafo dele fedia, o odor rançoso se infiltrando pelas narinas de Fletcher. O rapaz deu as costas, enojado, e seus olhos recaíram sobre a rinha novamente, incapazes de evitar o espetáculo.
Os ratos já tinham captado todo o movimento àquela altura, por mais que muitos ainda estivessem se libertando da pilha. Azul, com o fêmur na mão, estava chilreando para os compatriotas, dando-lhes ordens em alguma língua estranha, ou ao menos assim parecia. Mas, se estivesse, os outros o ignoraram, preferindo esconder as cabeças entre as pernas, enquanto um deles agarrava as paredes de terra da rinha, tentando escalar o material que se soltava.
O primeiro rato saltou para Azul, mas ele o lançou para longe com um golpe desesperado. Mais uma vez, chamou os amigos, sem resultado. Agora dois ratos pularam, e ele não teve escolha além de mergulhar para o lado com um rolamento frenético.
O gremlin verde tombou, cercado por um enxame guinchante de ratos com olhos vermelhos. Azul gritou em alarme, mas o som não foi nada comparado aos gritos e gargarejos de dor causados pelos dentes que roíam a criatura emaciada abaixo deles.
Mais ratos se libertaram do amontoado, e Azul se afastou deles, até que suas costas tocaram a caixa torácica decomposta, com pedaços de pelo ainda pendendo dos ossos e tendões apodrecidos mantendo a estrutura de pé. O gremlin amarelo foi o próximo a cair, desaparecendo sob uma massa de ratos negros, seus gritos dignos de pena soando inexpressivamente aos ouvidos de Fletcher.
Dos outros, só restava o vermelho que, de alguma forma, tinha conseguido subir à meia altura da parede da rinha. Ficou se segurando ali, suspenso, incapaz de escalar mais. Abaixo dele, os ratos guinchavam e saltavam, mordendo o ar sob os calcanhares agitados do gremlin. No canto, Azul se enfiou dentro da caixa torácica, meteu a ponta afiada do fêmur pela abertura e começou a estocar contra qualquer rato que entrasse em alcance.
Fletcher assistiu horrorizado a um homem se inclinar e cutucar o gremlin vermelho, que caiu gritando no frenesi abaixo. Houve alguns berros de raiva de alguns dos soldados, mas eles só reclamavam porque tinham apostado na criatura. Como um cardume de piranhas, os ratos devoraram o pequeno corpinho até só restar o esqueleto.
— Azul venceu! — declarou o sujeito banguela, recebendo vivas da plateia em resposta. — Agora, quem quer apostar em quanto tempo ele vai durar? Dois para um que chega a um minuto!
A multidão acorreu até o agente, com soberanos de prata erguidos no ar para fazer suas apostas.
— Achei que o vencedor ganhava o direito de viver — grunhiu Fletcher.
— O espetáculo nunca foi tão bom — sussurrou o homem com o canto da boca. — Não vou desperdiçar uma chance dessas.
— Eu tô enjoado — resmungou Jeffrey, segurando o braço de Fletcher. — Acho que essa cerveja não me caiu bem. Me leva pra fora, por favor.
Abaixo, Azul seguia lutando corajosamente, e um rato guinchou ao ser espetado no olho enquanto outro ao lado atacava a caixa torácica.
— Vamos embora — decidiu Fletcher, abrindo caminho pela multidão. A barraca tinha ficado subitamente pequena demais, quente demais. Ele precisava de um pouco de ar puro.
Os três irromperam pela entrada, e Jeffrey cambaleou para fora, arrastando Otelo e Fletcher atrás de si. Começou a vomitar. Otelo esfregou as costas do rapaz, virando a cabeça com nojo. A treva da noite havia caído, e os últimos vestígios do sol mergulhavam além do horizonte.
— Tomei um gole daquilo e joguei tudo fora — contou Otelo. — Era como mijo, recém-tirado do cavalo. Se bem que o álcool não passa do caminho do covarde para a coragem, de qualquer maneira.
Coragem: era isso que Fletcher tinha acabado de ver, num pequeno gremlin que enfrentava chances insuperáveis. Ao recordar a criatura valente, o coração do rapaz se encheu de determinação.
Assumiu uma expressão correspondente e se dirigiu à tenda.
— Fletcher, espere — murmurou Jeffrey, com cuspe escorrendo da boca.
Mas Fletcher já tinha passado pela entrada e abria caminho na multidão. Venceu o parapeito da rinha com um único salto e atirou os ratos para longe com um golpe de energia cinética que lançou os corpos pesados contra as paredes de terra num baque.
Conjurou Ignácio com um pulso de mana, e o demônio surgiu lutando, rasgando com as garras em todas as direções. O diabrete soprou uma onda de chamas que mandou uma dúzia de ratos para a morte, mas o cheiro de carne cozida foi demais para os outros; os ratos restantes caíram sobre os companheiros tostados com guinchos de alegria.
Azul estava engajado peito a peito com um rato monstruoso que tinha se enfiado na caixa torácica e esfaqueava o animal repetidamente no flanco com o fêmur. Fletcher sacou o khopesh e trespassou o roedor com facilidade, usando a espada e o cadáver para erguer a caixa torácica. Então, conforme os gritos de empolgação começavam a morrer, ele embainhou a espada e recolheu o pequeno gremlin nos braços. O peito magro de Azul subia e descia com exaustão.
A multidão encarou Fletcher, chocada, enquanto o banguela começava a gritar:
— O que infernos voc...
Só que ele nunca completou a frase, pois o mundo virou de cabeça para baixo e uma explosão destroçou a barraca, os estilhaços rasgando a multidão de homens bêbados, como uma foice no trigo.
No fundo do poço de rinha, a explosão passou por cima de Fletcher e Ignácio numa onda de chamas. Os ouvidos dele apitaram de dor ao soar do estouro trovejante, e o rapaz foi atirado ao chão por uma onda de choque que fez a terra ondular.
No instante seguinte, ele estava escalando para fora do poço e por cima dos corpos dos soldados feridos, Azul ainda agarrado ao peito. Sentiu uma mão segurar-lhe o tornozelo e a chutou para longe, puxando-se e arrastando-se como um náufrago em busca de terra firme. Ignácio lhe deu um puxão na manga, guiando-o pela fumaça. De súbito, as mãos fortes de Otelo o arrastaram para fora e para a lama, até que os dois desabaram juntos na base da colina. O rosto aliviado do anão o observava.
— Você está vivo — ofegou. — É um maldito milagre.
Fletcher contemplou o massacre atrás de si.
Sargentos frenéticos vociferavam ordens enquanto soldados arrastavam os feridos do chão enegrecido e ensanguentado até macas improvisadas, feitas de lanças e casacos amarrados.
— Isso não é milagre nenhum — retrucou Fletcher, engasgado com o ar carregado de fumaça.
Incêndios menores já se espalhavam pelos escombros. Ignácio chilreou assustado e subiu para o ombro de Fletcher, aninhando-se no pescoço do mestre para se reconfortar.
— Temos que ajudá-los — disse Jeffrey, cambaleando na direção da barraca arruinada, mas Fletcher o segurou pelo colarinho e o puxou de volta.
— Otelo, você não pode ser visto aqui — urgiu Fletcher, enquanto vozes raivosas se misturavam aos sons de homens morrendo. — Uma explosão... um anão por perto.
Os olhos de Otelo se arregalaram, e então ele começou a puxar Jeffrey morro acima junto a Fletcher, ainda que o rapaz os enfrentasse a cada passo do caminho, exigindo que lhe permitissem ajudar os soldados tombados.
Não demorou muito para que alcançassem a carruagem que, por algum milagre, ainda os aguardava.
— O que diabos aconteceu? — perguntou o cocheiro, com olhos se arregalando ao notar o gremlin aninhado nos braços de Fletcher.
O rapaz apenas jogou um punhado de moedas da bolsa nas mãos do condutor enquanto Otelo enfiava Jeffrey pela porta da carruagem.
— Leve-nos de volta a Corcillum — rosnou Fletcher. — E rápido.

2 comentários:

  1. Eu acho engraçada essa rivalidade entre o Inácio e a Griforuja que eu esqueci o nome, é tipo:
    IGNÁCIO: Eu fui o primeiro demônio dele!
    GRIFORUJA: Eu sou a herança da família! Grrr

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Boa leitura, E SEM SPOILER!