2 de março de 2018

Capítulo 22

A lua estava cheia e resplandecente no céu sem nuvens. Fletcher tremeu e puxou o colarinho do uniforme; era a única roupa que não fora levada para ser lavada. Ainda assim, ele tinha que vestir algo; estava gélido no quarto, e o cobertor esfarrapado na cama não ajudava em nada a mantê-lo aquecido. Ele se inclinou para fora da janela sem vidro para o ar frio da noite, pensando no dia que tinha se passado.
A elfa tinha ficado no próprio quarto, o que estava ótimo para Fletcher. O resto do grupo se manteve animado no almoço e no jantar, ansioso pelo dia seguinte e pelas maravilhas que este traria. Fletcher notou que tinha gostado da companhia dos outros, ainda que a tensão entre Atlas e Otelo tivesse conferido um sutil tom de tensão a uma noite feliz. Fletcher tinha simpatizado especialmente com Serafim, cujo carisma e dom para contar histórias tinham deixado todos atentos a cada palavra sua. A atitude despreocupada de Rory também conquistou sua afeição, e, mesmo que todos os esforços dela para salvar o uniforme do rapaz tenham sido em vão, Fletcher descobriu que Genevieve era uma pessoa generosa com um senso de humor surpreendentemente seco.
Era estranho saber que todos eles estariam arriscando a vida nas selvas quentes do sul em alguns poucos anos. Por mais que Fletcher tentasse evitar pensar no assunto, os outros estavam ansiosos pelo combate. Genevieve era a única que não ostentava abertamente sua vontade de lutar, mesmo que falasse dos orcs com uma fúria sombria que escondia sua trágica experiência.
Fletcher sabia que deveria dormir, mas se sentia eufórico demais para isso. Até Ignácio, geralmente tão preguiçoso, parecia contagiado pela agitação do dono, perseguindo a própria cauda na escuridão do quarto.
O rapaz estendeu a vela para que Ignácio a acendesse, então saiu para a sala comum. Ao chegar, viu uma luz de vela que sumia pela escadaria, com o som de passos apressados ecoando abaixo.
— Venha, Ignácio; parece que não somos os únicos com dificuldade para dormir — comentou Fletcher. Se fosse passar a noite em claro, seria muito melhor fazê-lo acompanhado.
Os corredores ficavam sinistros à noite, com correntes de ar gélidas sibilando pelas seteiras que salpicavam as paredes exteriores do castelo. A chama da vela de Fletcher tremeluzia com cada rajada, até que ele teve de protegê-la com a mão para que não se apagasse.
— Eu bem gostaria de uma daquelas luzes voadoras numa hora destas, né, Ignácio? — sussurrou o rapaz.
As sombras se moviam de forma bizarra conforme o menino descia o corredor, as fendas negras dos visores de cada armadura fitando-o à sua passagem.
Parecia estranho que a pessoa adiante, fosse quem fosse, estivesse se movendo tão rápido, mais como uma corrida do que um passeio noturno. Fletcher se apressou em acompanhar, motivado por uma curiosidade mais forte que seu bom senso. Mesmo ao alcançar o átrio, o menino só conseguiu ver uma luz fraca e o sibilar de tecido conforme a silhueta escapava pela entrada principal.
O pátio estava silencioso como um túmulo e duas vezes mais assustador quando Fletcher pôs os pés do lado de fora, mas não havia sinal da pessoa misteriosa. Ele caminhou até a ponte levadiça e espiou a estrada, procurando pela luz da vela. Enquanto contemplava a escuridão turva, começou a ouvir a batida rítmica de cascos na estrada, vindo na direção da Cidadela.
Fletcher correu para uma pequena saleta construída na guarita da ponte levadiça, apagando a própria vela com um sopro e se espremendo contra a fria parede de pedra. Quem quer que fosse, o rapaz não queria que a primeira impressão que a pessoa tivesse dele fosse de alguém que gostava de se esgueirar por aí na calada da noite.
Ele conteve a empolgação de Ignácio, pressionando-o sobre a necessidade de silêncio com um pensamento severo. Lembrou-se do que tinha acontecido da última vez em que estivera numa sala fria de pedra, escondido nas trevas. Com essa memória, o demônio reagiu com concordância e até um toque do que parecia ser arrependimento. Fletcher sorriu e deu uma coçadinha no queixo de Ignácio.
O diabrete entendia mais do que ele pensava!
O ruído de rodas em movimento e o estalo de chicotes anunciou a chegada das carruagens, que ribombaram ao cruzar a velha ponte levadiça. Fletcher espiou por uma rachadura na pedra do aposento, cruzando os braços com força por conta do frio. Seriam os nobres? Talvez um dos professores, chegando cedo?
Aproximaram-se duas carruagens, ambas floreadamente decoradas com ornamentos dourados e iluminadas por tochas crepitantes. Dois homens montavam no topo de cada uma, vestindo uniformes escuros com botões de latão e quepes que lembraram a Fletcher o traje dos Pinkertons. Os quatro portavam bacamartes pesados nas mãos, prontos para disparar em qualquer um que tentasse emboscar o comboio. Carga preciosa, de fato.
As portinholas se abriram e vários vultos desceram, vestindo versões perfeitamente talhadas e ajustadas do uniforme de Vocans. À luz fraca das tochas, era difícil identificar seus rostos, mas um dos mais próximos ficou bem à vista.
— Ah, céus! — exclamou ele aos outros, numa voz elegante e arrastada. — Eu sabia que este lugar tinha caído em decadência, mas não achava que tinha chegado a nível tão baixo.
— Você viu o estado das coisas, Tarquin? — indagou uma menina, das sombras. — Estou espantada por termos conseguido atravessar a ponte.
Tarquin era um rapaz bonito com maçãs do rosto bem definidas e cabelos loiros angelicais, que caíam em cachos até a nuca. Porém, seus olhos azuis acinzentados pareciam a Fletcher tão duros e cruéis quanto tantos outros que vira antes.
— É isso que acontece quando você deixa a ralé entrar — declarou ele com uma expressão de desdém. — Os padrões estão decaindo. Tenho certeza de que, quando papai esteve aqui, este lugar era o dobro do que é agora.
— Ainda assim, ao menos os plebeus podem ficar com os postos que não quisermos — sugeriu a menina, fora do campo de visão de Fletcher.
— Sim, bem, esse é o lado bom — concordou Tarquin, num tom entediado. — Os plebeus podem ficar com os criminosos e se, deus nos acuda, eles permitirem que os anões sirvam como oficiais, então podem comandar os meios-homens também. Manter todos nos seus devidos lugares, esse é o jeito certo. Cada um onde deveria estar.
Uma garota saiu da penumbra e parou ao lado do jovem nobre, estreitando os olhos para espiar a alta Cidadela diante deles. Ela poderia ter sido gêmea de Tarquin, com maçãs do rosto angulosas e madeixas de querubim arrumadas em delicados cachinhos loiros.
— Isto é uma desgraça. Como é que pode, cada criança nobre em Hominum ser forçada a viver aqui por dois anos? — perguntou ela em voz alta, ajeitando um cacho errante atrás da orelha.
— Cara irmã, é por isso que estamos aqui. Os Forsyth não botam o pé em Vocans desde que nosso pai se formou. Vamos mostrar a este lugar como nobres de verdade devem ser tratados — respondeu Tarquin. — Falando nisso, onde estão os criados? Que tal você ir lá buscá-los, hein, Isadora? — brincou ele, empurrando a irmã na direção da entrada.
— Ugh! Eu prefiro ter minha cabeça raspada a passar um segundo nos alojamentos da criadagem! — exclamou ela.
Com essas palavras, a porta lateral se abriu e Mayweather, Jeffrey e vários outros criados saíram cambaleando, muitos ainda esfregando os olhos de sono.
— Mil desculpas pelo nosso atraso, milorde — disse Mayweather, num tom humilde. — Tínhamos pensado que os senhores chegariam pela manhã, já que não chegaram até o décimo primeiro sino.
— Sim, bem, decidimos que os bares de Corcillum eram lugares muito mais interessantes para se estar à noite do que este... estabelecimento — respondeu Tarquin gelidamente, apontando em seguida para Jeffrey. — Você, moleque, leve as malas aos meus aposentos, mas com cuidado. O conteúdo nelas vale mais do que você ganhará na sua vida inteira.
Jeffrey se apressou em obedecer, fazendo uma mesura desajeitada aos dois nobres de cabelos dourados ao passar.
— Permita-me levá-lo aos seus alojamentos, milorde. Sigam-me, os dois — disse Mayweather ao grupo, subindo os degraus com dificuldade enquanto os servos descarregavam as carruagens.
Fletcher teve um relance dos dois nobres que seguiam Mayweather, e então a vista foi bloqueada pelas duas carruagens girando e saindo do pátio, trovejantes.
Logo Fletcher estava sozinho de novo, enojado com o que tinha acabado de ver. Ele tinha sempre imaginado os nobres como sendo generosos e justos, liderando os próprios soldados para lutar na guerra e cedendo seus filhos adolescentes para que servissem como magos de batalha. Ele sabia que muitos nobres em idade militar arriscavam as vidas todos os dias nas linhas de frente, deixando as famílias em casa. Mas o que vira naqueles dois moleques mimados era o completo oposto do que esperava. Fletcher torceu para que nem todos os aprendizes de berço nobre fossem como aqueles dois espécimes que acabara de encontrar.
Fletcher esperou alguns minutos e saiu sorrateiramente da guarita, voltando à entrada principal pelas sombras da muralha do pátio. Logo antes de passar por um feixe de luar, ouviu o ranger da ponte levadiça atrás de si.
Girou bem a tempo de ver um vulto diante dela sumir de vista, correndo estrada abaixo. Um vulto com longos cabelos ruivos.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Cada capitulo um comentário rsrs me acostumei contigo como se fosse uma comentarista oficial

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Boa leitura, E SEM SPOILER!