31 de março de 2018

Capítulo 21

MORRIGHAN

Eu tinha dezoito anos quando nós finalmente chegamos a um lugar para ficar. Um lugar onde frutas do tamanho de punhos pendiam das árvores e uma linha de azul se alongava no horizonte, até não conseguimos ver mais.
Fora uma longa jornada. Em escala maior do que qualquer coisa que um de nós jamais teria imaginado. Aquele território selvagem uivava com a solidão daquele lugar, carregando os choros dos mortos.
Às vezes a comida era tão escassa quanto a coragem. Havia dias em que eu os mantinha vivos com gramíneas, casca de árvores e esperança enganosa. Eu mentia para mantê-los em movimento, um passo depois do outro. Contava histórias para as crianças para mantê-las ocupadas e fazerem-nas esquecer de seus medos. Eu não sabia se existia um deus ou quatro, mas rezava para qualquer um que me escutasse. Eles sussurravam de volta. Nos ventos, em um vislumbre de luz, cores dançavam atrás das minhas pálpebras. Palavras roçando meu pescoço e se aninhando em minha coragem. Continue. A minha forma de saber era silenciosa, suave e confiante, um ouvir que às vezes não era o suficiente para a mão de Fergus. Se não era o meu rosto que sofria o preço, era Jafir, ou qualquer pessoa que estivesse perto o suficiente.
Eu sentia falta da gentileza da minha tribo, e havia momentos quando eu pensava que já não aguentaria mais, mas Ama tinha razão. Era na dor, no medo, na necessidade, que o saber ganhava asas, e eu tinha muito disso. Eu me lembrei daquela menina de oito anos que eu costumava ser, aquela que se acovardava entre as pedras querendo morrer. Nos meus vários anos com a tribo, pensei que tivesse conhecido o medo. Pensava que tivesse conhecido a perda.
Eu não tinha.
Não das formas que eu conhecia agora.
Desespero ganhou dentes. Garras. Se transformou em um animal dentro de mim que não conhecia limites, indescritível, tal como Jafir tentara explicar muito tempo atrás. Isto abriu e libertou todos os meus pensamentos mais sombrios, deixando-os se desdobrarem-se como asas negras.
Quando a jornada estava por acabar, Fergus falou o que eu sempre soube. Eu sempre fui prometida a Steffan. Jafir tinha que pagar pela sua traição. Fergus me dar o que eu pedira era o mesmo que dar poder, e poder era o mais importante para ele, ainda mais agora que eu tinha lhe dado um mundo novo e fresco, um mundo sem limites ao seu alcance.
Não havia dúvidas em minha mente sobre o que eu deveria fazer. Eu já tinha planeado tudo há messes. Eu matei Steffan primeiro. Ele me puxara possessivamente no momento em que Fergus anunciara a sua decisão, mas em um movimento que eu já tinha praticado bastante, enterrei minha adaga em sua garganta, e ele arquejou por ar inutilmente. Quando Steffan caiu morto aos meus pés, Fergus saltou para mim, mas Jafir já estava pronto e o matou com um arremesso veloz em seu coração. Ninguém lamentou a perda de Fergus e Steffan, e Piers declarou Jafir como chefe do clã.
— Aqui está — Jafir disse enquanto finalmente via as montanhas verdes e vinhas de frutas. — É tudo eu, Morrighan. Você nos trouxe até aqui.
Ele esticou a mão para o alto, pegou um punhado de céu azul e colocou na palma da minha mão.
— Nosso, Jafir — eu respondi.
Caí de joelhos e chorei por todos os dias, semanas, meses — e pela perda daqueles que não tinham terminado a jornada conosco. Laurida, Tory, e o bebê Jules. Chorei por todos aqueles que eu nunca mais veria. Ama e a minha tribo. Chorei pelas crueldades.
Jafir se ajoelhou ao meu lado, e nós agradecemos, rezando para que isto fosse realmente o fim, rezando para que fosse aquele novo começo que tínhamos buscado.
Nós nos levantamos e assistimos enquanto o clã corria na nossa frente até o vale que seria o nosso lar. Jafir colocou a mão na pequena coisinha que crescia em minha barriga e sorriu.
A nossa esperança.
— Nós fomos abençoados pelos deuses — ele falou. — As crueldades do mundo estão para trás agora. A nossa criança nunca as conhecerá.
Fechei os meus olhos, querendo acreditar nele. Querendo esquecer o sangue que foi derramado pelas nossas mãos, querendo começar do começo, tal como a minha tribo fizera naquele pequeno vale tanto tempo atrás, querendo acreditar que desta vez a nossa paz duraria.
E então eu ouvi aquela voz tão familiar, uma que eu já tinha ouvido muitas vezes, me chamando.
Dos quadris de Morrighan,
Nascerá a esperança.
Nos seus calcanhares veio um sussurro de um nome que sempre esteve além do meu alcance, não era meu ainda para escutá-lo, mas eu sabia que um dia os filhos dos meus filhos ou quem viesse depois o escutaria.
Um dia a esperança teria um nome.

8 comentários:

  1. Que lindooooooo !!!!!! Já li duas vezes quero ler de novo...

    ResponderExcluir
  2. Mmmmeeeeiiii morringhan e a jezelia são tops ela sabendo de todo perigo continuo

    Mirtiz lazza

    ResponderExcluir
  3. Maravilhoso, pena que e tat curtinho!

    ResponderExcluir
  4. Li primeiro as crônicas de amor e idio,depois li esse. Só posso dizer uma coisa,e espero que não seja considerado spoiler: como os anos podem distorcer a verdade!

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!