22 de março de 2018

Capítulo 21

— Fletcher, acorde!
A voz de Sylva sibilou em sua orelha. Ele guinchou de dor quando ela lhe enfiou as unhas nos ombros.
— O que... — começou a dizer, mas uma mão apertou sua boca com força.
Lá em cima, os primeiros raios de luz já surgiam no céu, tingindo o mundo em um tom claríssimo de amarelo.
Ele foi instigado a sentar, e o cristal de visualização foi colocado em seu colo. Os outros já estavam acordados, aglomerados ao redor; rostos pálidos e arrasados, iluminados pelo brilho de um pequeno fogo-fátuo.
— Ali! — exclamou Sylva, apontando para a pedra.
Por um momento, ele pensou que olhava o reflexo fraco do fogo-fátuo acima. Mas não: era uma luz piscante, cor de índigo, situada em algum lugar mais além nas terras mortas... longe demais para identificar sua fonte.
Ele tentou sentar-se mais empertigado, porém o braço de Otelo era como uma barra de ferro em seu peito. A imagem no cristal moveu-se para baixo, para mostrar a orla da selva.
Picanços. Centenas deles, os vultos negros aninhados entre os galhos, como se as árvores estivessem carregadas de frutas podres.
Otelo se inclinou e apontou silenciosamente para cima. Fletcher levantou a cabeça e viu que Pria estava pairando logo acima da copa das árvores. Os Picanços estavam bem acima deles!
— Houve um ciclone de areia onde estavam antes — sussurrou Sylva, a voz pouco mais que uma respiração na orelha de Fletcher. — Eles devem ter voltado, enquanto dormíamos, para evitá-lo. Atena me acordou há alguns minutos.
Fletcher estremeceu e procurou a Griforuja, que saltou para seus braços. Ele agradeceu as estrelas por ela ter ficado de vigia. Otelo se inclinou, tão perto que a barba fez cócegas na bochecha de Fletcher.
— Se é um portal, não temos muito tempo — murmurou ele. — Você é quem manda. Você nos trouxe até aqui.
O coração de Fletcher acelerou desconfortavelmente no peito. Era como se alguém o tivesse mergulhado em água fria, despertando-o de seu sono com um terror repentino.
— Podem ser os demônios de fogos-fátuos — disse Fletcher baixinho, olhando cada um deles nos olhos. — Pode ser qualquer coisa.
— E pode também ser a nossa melhor chance de voltar para casa — disse Cress em resposta, mordendo o lábio. — Se não sairmos agora, vamos perdê-lo.
Era uma escolha impossível, no pior momento possível. Os Picanços poderiam começar a despertar a qualquer momento — o amanhecer chegaria em breve. Se o grupo deixasse o abrigo da copa das árvores, correria o risco de ser visto por um Picanço madrugador.
— Otelo, envie Pria para verificar o que é. Vamos levantar acampamento — ordenou Fletcher, tentando manter a voz baixa e firme. — Precisamos nos afastar daqui, independentemente de qualquer coisa.
Pria se afastou em disparada, voando na direção das terras mortas. Sua carapaça já havia ficado vermelha para se misturar com as planícies poeirentas.
— Quer dizer que vamos tentar? — perguntou Cress, subitamente receosa.
— Se descobrirmos que é um portal, saberemos que estamos em um território de Hominum — murmurou Fletcher. — Isso já seria uma benção; poderíamos ter sobrevoado isso aqui sem jamais vê-lo. Pode ser que levemos mais algumas semanas vasculhando a área até encontrar outro portal, mas significa que vamos encontrar um em algum momento.
— Semanas? — murmurou Otelo, com um gemido baixo.
— Se os Picanços levantarem voo antes de o portal se fechar, teremos de nos preparar para tentar atravessá-lo — murmurou Fletcher. — Caso contrário, esperaremos. Não vale a pena morrer por isso.
Passaram-se dois minutos de arrumação apressada, então Lisandro e Ignácio foram despertados. O grupo aguardou pelas montarias, sem tirar os olhos do cristal nas mãos de Otelo.
— Pria está seguindo devagar — informou Otelo, a voz tão baixa que Fletcher mal conseguia distinguir as palavras. — Alguns Picanços já acordaram, então ela está voando rente ao chão.
Fletcher ergueu os olhos e sentiu o medo gelado correr sua espinha dorsal, deixando a pele arrepiada. Na luz crescente da manhã, viu os demônios pássaros aninhados entre os galhos bem acima, as penas negras misturando-se às sombras escuras da copa das árvores. Alguns já estavam acordados, levantando as cabeças de onde tinham ficado escondidas sob as asas. Fletcher e seu grupo tiveram sorte de não terem sido vistos quando os pássaros pousaram ali para passar a noite.
— É melhor a gente ir... agora — murmurou Fletcher. — Não estamos seguros aqui.
Ele virou-se e olhou para o cristal de visualização. Ainda estava longe demais para saber qual era a fonte daquela luz azul, embora na tela do cristal ela tivesse aumentado de tamanho. Ao mesmo tempo, o azul era agora menos visível, pois a luz crescente do amanhecer tornava seu brilho indistinto.
Mantendo o silêncio, Fletcher puxou alguns ramos da barricada para saírem do acampamento e fez sinal para que os outros subissem nos demônios. Em seguida, montou no Drake, reuniu Atena e orientou Ignácio a passar pela abertura. Os Picanços poderiam se mexer a qualquer momento.
Ignácio encolheu as asas contra os joelhos para passar pela saída e se virou, colocando cada pata no chão com cuidado para não quebrar nenhum ramo e fazer barulho. Atena se contorceu junto ao peito de Fletcher, e ele percebeu que a segurava com força demais, devido ao medo inconsciente. Ele a soltou, e ela pousou em seu ombro, chamando a atenção de Alice. A mãe de Fletcher sorriu, alheia ao perigo em que se encontravam.
Ignácio deu um passo. Dois passos.
Então, o impensável aconteceu. Alice riu alto, a voz desenfreada, tentando pegar a Griforuja. Atena saltou para seus braços, na esperança de que ela se calasse.
Mas era tarde demais.
Um ruído alto veio lá de cima. Em seguida, outro, cortando o ar como unhas arranhando um quadro-negro. Lentamente, muito lentamente, Fletcher virou a cabeça para trás.
Uma dúzia de olhos o encarava, todos pretos e reluzentes na alvorada. Era como se o tempo estivesse parado, congelando o mundo em um horrível momento. Então uma forma escura saiu da copa acima e voou até os ramos abaixo, pousando entre seus irmãos, em meio a um farfalhar de folhas. Um segundo pássaro veio em seguida, as enormes asas agitando o ar. Ele piou bem baixo, e o som rouco e bruto encheu os ouvidos de Fletcher de terror.
Mais pássaros se seguiram, um após o outro, buscando a fonte do ruído. Pares viraram dezenas, dezenas viraram bandos, tantos que os ramos rangeram sob o peso das enormes aves. Uma delas se acomodou tão perto que Fletcher pôde ver a flácida crista vermelha tremer quando ela bateu o bico cheia de expectativa.
— Três — contou Sylva, em um fio de voz, alto apenas para que Fletcher ouvisse.
Ele não entendeu, a mente chacoalhava de medo.
— Dois.
Fletcher observou o primeiro Picanço pousar no chão, a poucos metros das patas de Lisandro. Sylva e Otelo já estavam montados.
— Um.
Ignácio estava se abaixando, rente ao chão.
Ah.
Fletcher saltou para o pescoço do Drake.
— Agora!
Eles se lançaram ao ar, arremetendo depressa, de modo que Fletcher ficou esmagado contra sua mãe, sentindo os braços lhe apertarem a cintura com força quando o impulso os achatou nas costas de Ignácio.
Uma cacofonia descontrolada de guinchos rasgou seus tímpanos quando os dois demônios se precipitaram, e então eles começaram a voar em ziguezague por baixo da copa das árvores e depois para o céu aberto.
O céu da manhã tinha o tom amarelado de um hematoma antigo, e a terra vermelha adiante brilhava a sua luz. O mundo inclinou-se de lado mais uma vez quando Ignácio entrou nas terras mortas, e então eles começaram a cortar o ar a toda velocidade em meio a uma confusão de asas. Lisandro estava logo à frente, sua carga mais leve e sua experiência dando-lhe vantagem sobre o Drake.
Aos guinchos, loucos de fúria, os Picanços os seguiram. Fletcher olhou para trás, e a respiração ficou presa na garganta. Os Picanços tinham se lançado em perseguição; eram tantos que a selva quase sumia de vista, coberta pela massa de silhuetas negras que iam atrás deles a toda a velocidade.
— A luz, cadê a luz? — gritou Sylva, torcendo a cabeça para olhar sobre o ombro.
O céu estava claro agora, tanto que o portal já não reluzia como um farol para apontar o caminho. Eles entraram nas terras mortas, na esperança de vislumbrar o ponto azul.
— Mais rápido! — gritou Fletcher.
Os Picanços quase os alcançavam, com as Matriarcas liderando o bando.
Suas asas eram tão grandes quanto as velas de um veleiro, agitando o ar em longas e pesadas batidas que, de alguma forma, os lançava pelos ares a uma velocidade vertiginosa. Ignácio mal conseguia manter a dianteira daquelas garras, prontas para se enfiarem em sua carne vermelha.
Uma pontada aguda de dor. Fletcher se virou e viu que a cauda de Ignácio fora rasgada pelo bico de uma Matriarca, mas que agora o Drake a agitava para cima e a enfiava na plumagem da Picanço, lançando-a com força para o lado.
Outra caiu sobre eles do alto, as asas dobradas, as garras mirando Cress. Fletcher sacou Ventania e disparou duas vezes por reflexo. A Matriarca foi jogada para trás em uma explosão dupla de penas e sangue.
O vento fustigava seus cabelos conforme eles se precipitavam sobre as planícies vermelhas, o terreno rochoso passando depressa embaixo deles. A terra estendia-se à frente, o Abismo, à direita, e a selva, à esquerda, sem que houvesse nada para guiá-los, apenas a direção improvisada definida por Pria.
— Ali! — berrou Otelo, enquanto disparava seu bacamarte com estrondo na massa de Picanços que os seguia. Três deles balançaram e caíram, mas os tiros do anão pouco fizeram para reduzir o tumulto estridente de asas e bicos.
Fletcher não via nada além dos Picanços às costas; sentiu apenas a inclinação do caminho de Ignácio quando ele se pôs a seguir Lisandro em uma nova direção. O rosto de sua mãe estava no canto da visão, calmo, enquanto ela acariciava a Griforuja em seus braços.
O reluzir de um relâmpago brilhou atrás dela quando a luva de batalha de Cress se esticou para lançar um feitiço. Os pássaros mais próximos se sacudiram em espasmos, retorceram-se e despencaram como pedras, mas se recuperaram e logo voltaram à carga.
Fletcher tentou um escudo, mas a luz branca foi levada pelo vento — emaranhou-se nas garras de uma Matriarca próxima, mas não fez quase nada além disso. Uma bola de fogo saiu de seu dedo e explodiu entre as garras de uma e o bico de outra, derrubando ambas do ar.
Um pequeno Picanço esvoaçou pela lateral, e Cress gritou de dor quando suas garras rasgaram-lhe a carne. A explosão cinética que ela lançou em resposta fez a ave ser atirada para longe, e foi acompanhada de uma flechada que atingiu a asa do Picanço vizinho. Então os outros os atacaram e os rodearam de todos os lados.
— O portal! — gritou Sylva, e Fletcher virou-se para ver a orbe girando ao longe, um pontinho azul flutuando no horizonte.
Um par de Picanços caiu em cima de Lisandro, e Ignácio lançou uma torrente de chamas, deixando apenas um rastro de restos mortais carbonizados e fumegantes que bateram no ombro de Fletcher.
Em resposta, o Grifo gritou e desceu, atingindo um Picanço pelas asas e destroçando-o, enquanto outro o atingia na lateral e raspava seu pelo emplumado.
Fletcher disparou Chama e atingiu o atacante na coxa com impacto suficiente para enviá-lo para longe. Uma garra cortou seu braço, e penas cegaram-no quando uma Matriarca se precipitou sobre ele. Fletcher rosnou de dor e guardou a pistola na bainha antes que ela caísse de seus dedos fracos, a ferida em seu braço espalhando carmesim pela jaqueta azul.
— Quase... lá! — gritou Otelo, pontuando cada palavra com uma explosão cinética, lançando Picanços e Matriarcas pelos ares com a força dos impactos.
Cress estava seguindo seu exemplo: o ruído grave de cada feitiço era acompanhado de uma rajada de vento e de plumagem caindo. Fletcher desembainhou o khopesh com a mão esquerda, mantendo com força o braço direito, ferido, contra o peito. Ele estendeu um dedo do punho da arma e disparou um raio elétrico azul que cortou os ares, abrindo um buraco na confusa revoada de Picanços que os rodeava. Seu mana estava quase drenado.
Sombras passavam por eles enquanto Picanços mergulhavam e fintavam para novo ataque, protegendo-se da defesa feroz de suas presas. Outra explosão de dor atravessou sua panturrilha, mas o demônio saiu voando depressa antes que Fletcher pudesse o contra-atacar com o khopesh.
O mundo girou, e as bordas de sua visão começaram a escurecer. Ele sentia o sangue quente gotejando por sua perna, o líquido vertendo depressa de sua ferida profunda. Depressa demais. Ele tentou desenhar o feitiço de cura no ar, mas este fraquejou e se esvaneceu, seu cotovelo oscilando com o movimento das asas de Ignácio.
Ouviu um grito de advertência de Sylva, sentiu o baque de um Picanço em seu ombro. Ignácio caiu em um giro vertiginoso.
Um brilho azul aproximou-se cada vez mais depressa.


O mundo se tornou subitamente frio e escuro. Fletcher sentiu o choque desagradável de Ignácio atingindo o chão, então se viu pairando pelos ares, girando uma vez, duas vezes. Bateu contra o chão, rolando em cambalhotas até tombar, enrodilhado, um pequeno amontoado de dor. Ele sentia a viscosidade de couro contra seu rosto, sentiu o cheiro acre do mesmo material em suas narinas.
Seus olhos entreabertos viram o borrão do portal giratório, parcialmente bloqueado por silhuetas negras. O brilho escureceu quando um demônio surgiu, depois a esfera azul piscou até apagar, deixando o lugar em escuridão absoluta.
Ele ouviu o som de passos, sentiu a presença de Ignácio a seu lado. Sentiu a língua morna do demônio lambendo sua panturrilha, e, no instante seguinte, sua saliva cobrindo seu braço. Sentiu o que restava do mana deixando seu corpo quando o feitiço de cura saturado na língua da Salamandra lhe subiu pela carne, unindo novamente músculos e pele.
Fletcher, de repente, percebeu vozes ao redor, murmúrios de surpresa, de medo. A sala, pois estava em uma, iluminou-se quando uma luz bruxuleante surgiu de tochas que foram acesas. Sua visão se alargou.
A voz de um homem cortou o ruído, dando ordens rispidamente. Então ele o viu, caminhando com propósito em sua direção, os olhos brilhando de preocupação.
Arcturo.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!