13 de março de 2018

Capítulo 21

Fletcher e sua equipe se reuniram ao redor da mesa da taverna, examinando o mapa diante deles.
— Por que vão nos largar tão longe do alvo da missão? — perguntou Otelo, apontando a borda distante do mapa, onde a zona de entrega estava marcada com um X. — Vamos levar dias até chegar lá.
— Isso é provavelmente o mais próximo da pirâmide que podem nos deixar sem serem vistos — sugeriu Sylva, traçando com o dedo a distância da linha de frente até a marca. — Se formos vistos ao sermos entregues, então seria melhor soltar logo uns bons fogos de artifício anunciando a nossa chegada.
Fletcher observou o debate com o queixo nas mãos, cansado demais para contribuir com as próprias especulações. A viagem de charrete até Corcillum fora horrível, ensopando-os com uma garoa fina que os havia deixado em silêncio e encolhidos uns nos outros, protegendo o mapa e as instruções que Rook lhes entregara na saída de Vocans.
Quando finalmente chegaram, Otelo os levou direto até uma taverna fechada com tábuas, onde ele disse que a equipe poderia passar a noite enquanto a equipe de Serafim seguia Sacarissa, provavelmente para encontrar quem quer que Arcturo tivesse escolhido para ser o guia deles. Lisandro também se foi, alçando voo sem nenhum aviso. Fletcher concluiu que Lovett tinha parado de visualizar pela pedra, e o Grifo, portanto, estava ansioso para voltar a ela.
As vigas do teto da taverna eram bem baixas, como se tivessem sido criadas para anões, em vez de humanos, e o interior parecia estar intocado havia muito tempo, com mesas e cadeiras espalhadas desorganizadamente pelo salão. Otelo tinha acendido os poucos lampiões restantes, mas o aposento continuava na penumbra, iluminado majoritariamente pelo luar que se infiltrava através das janelas fechadas.
— Onde diabos nós estamos, aliás? — resmungou Fletcher, passando o dedo pela beira da mesa e mostrando a poeira aos outros. — Este lugar está imundo.
— A taverna da Bigorna — respondeu Cress, apontando uma placa com aquele nome e símbolo acima da porta. — É onde os Bigornas costumavam se encontrar, acredite se quiser. O nome dá a dica.
A anã piscou para ele.
O nome era familiar, e Fletcher tinha uma vaga recordação de Athol sugerindo que ele fosse ali em seu primeiro dia em Corcillum ao lhe entregar o cartão dos Bigornas que fora usado no julgamento.
— Eu vinha aqui — comentou Jeffrey, deixando a mesa e se encostando no balcão. Mal dissera uma palavra desde que fora escolhido com guia. — Cheguei até a ser um membro júnior antes de eles virarem incendiários e este lugar ser fechado. Melhor cerveja em toda Corcillum. Ela sozinha já valia a inscrição.
— De propriedade de um anão — disse Otelo, peito inchado de orgulho. — Meu primo, aliás. Ele disse que poderíamos usar a taverna a fim de nos prepararmos para a missão.
— As instruções dizem que a missão começa depois de amanhã — comentou Fletcher, ignorando os outros. — Seria bom pregar os olhos um pouco agora, porque não acho que vamos poder dormir muito na selva. Resolvemos essas coisas todas amanhã cedo.
— Na verdade, Fletcher, você vai ter que ficar acordado mais um pouquinho — disse Otelo, com um sorriso encabulado. — Temos visitas chegando.  Estarão aqui a qualquer momento, com sorte.
Alguém bateu à porta, o ratatá fazendo Fletcher pular.
— Bem na hora. — Otelo sorriu, correu até a porta e a abriu.
Dois vultos aguardavam na entrada. O mais próximo vestia longos robes cor-de-rosa e azuis, bordados com flores entrelaçadas descendo pelo centro. Ainda que usasse um véu, pelo jeito que Otelo a abraçou, Fletcher deduziu que se tratava de Briss, a mãe dele.
Ao lado dela, Athol esperava com as mãos nos bolsos dos culotes e uma expressão cansada, mas satisfeita, no rosto.
— Vocês nos ajudariam com a mercadoria? — perguntou ele, indicando com a cabeça uma carroça puxada por javalis logo atrás. A carroça parecia lotada de pacotes, e os flancos do javali estavam encharcados com o suor de uma árdua jornada. — Cuidado, é uma carga preciosa. Pode salvar sua vida.
O anão moreno piscou para Fletcher, depois caiu na gargalhada ao abraçá-lo. Fletcher dava tapas nas costas dele enquanto Jeffrey, Sylva e Cress levavam os pacotes para dentro e os colocavam na mesa. O rapaz não tinha percebido até agora quanta saudade sentira de Athol.
Não demorou muito para descarregar tudo, e Athol deu um tapa na anca do animal, que soltou um grunhido aborrecido e foi embora aos trotes, a carroça seguindo atrás.
— Ele sabe o caminho de volta. Mais espertos que cavalos, os javalis — comentou Athol, encostando-se a uma mesa e puxando os suspensórios com os polegares.
Soltou um assovio ao olhar em volta.
— Olhem só este lugar — lamentou.
Pegou uma caneca descartada na mesa atrás e a virou de cabeça para baixo. Uma fina torrente de poeira escorreu, e ele franziu o nariz.
— Era a melhor taverna em toda Hominum — resmungou. — Assim que o primeiro ataque terrorista aconteceu, foi selada com as tábuas. Teria sido incendiada por algum humano com espírito empreendedor, caso contrário. Uma vergonha.
— Mas o que aconteceu, afinal? — perguntou Fletcher, tentando entender o que havia mudado durante sua longa temporada na cadeia. — O que os Bigornas têm a ver com esses ataques?
Athol suspirou e esfregou os olhos.
— Os Bigornas eram apenas humanos amistosos aos anões, no começo — explicou o anão, sentando-se num dos bancos baixos. — Começou com alguns deles bebendo nas nossas tavernas, por causa da nossa cerveja, é claro. Logo, começamos a distribuir nossos cartões para evitar os encrenqueiros, como algumas das gangues racistas que vinham procurando briga. Não demorou muito para que os Bigornas começassem a virar um tipo de gangue eles mesmos, garantindo que os amigos anões chegassem em casa em segurança, participando de protestos enânicos, esse tipo de coisa. Nada de violento, porém. Nada como o que aconteceu.
Athol fez uma pausa para organizar os pensamentos.
— A primeira explosão foi num desses protestos, depois que um jovem anão foi preso ilegalmente — continuou Athol, uma expressão sombria no rosto. — Pólvora e balas de mosquete, embrulhadas num barril ao lado dos Pinkertons e disparada por um longo pavio. Pegou três deles e dez inocentes. Só poderiam ter sido os Bigornas, disseram os investigadores. O barril fora deixado no lugar dias antes para evitar suspeitas, e as únicas pessoas que sabiam onde seria o protesto éramos nós e os Bigornas. Eles poderiam ter empurrado a culpa para nós, anões, mas uma testemunha viu o terrorista fugir da cena. Alto demais para um anão, disseram.
— Mas por quê? — perguntou Fletcher. — O que de bom poderia sair disso?
— Nunca saberemos — respondeu Cress, com olhos fechados e mãos tremendo de raiva súbita. — Os líderes todos desapareceram no mesmo dia. Mas houve mais ataques. Um aconteceu no dia do próprio julgamento do jovem anão. Matou trinta pessoas dessa vez, incluindo o anão em questão. Era como se eles nem se importassem. Deixaram um cartão de visitas, então, bem literal. Cartões de membros, do tipo que não se pode falsificar, pertencentes à liderança.
— Igual àquele que você me deu, aquele que mostraram no julgamento? — indagou Fletcher.
— Não, aqueles eram cartões para membros juniores, se é que dá para chamá-los de membros. A maioria dos meninos e meninas de Corcillum já tiveram um cartão uma hora ou outra... Eles os distribuíam como balas — explicou Athol, balançando a cabeça. — Incluindo eu mesmo, se você não esqueceu. O único motivo para terem mencionado seu cartão no julgamento foi para confundir o júri, que não tinha como saber desses detalhes, tão longe ao norte de Corcillum. Era pouco mais que um bilhete de entrada.
— Rory e Genevieve tinham um — concordou Jeffrey. — Até mesmo alguns nobres. Além disso, a maioria dos outros servos, como o Sr. Mayweather, o cozinheiro, costumava vir aqui. Eles queriam provar da cerveja, como eu.
Fez-se silêncio, então, o estado de espírito geral foi ficando sombrio conforme percebiam como as coisas haviam piorado. Fletcher se perguntou se a missão poderia fazer alguma diferença, depois de tudo que acabara de ouvir. Será que a visão de equipes de anões, elfos e humanos lutando juntos realmente traria a paz?
— Anos de progresso perdidos num instante — sussurrou Otelo, fitando o vazio. — Sem sentido, completamente sem sentido. Todos culparam os anões, é claro. Disseram que estávamos seduzindo a impressionável juventude humana com álcool, fazendo lavagem cerebral neles e os obrigando a fazer nosso trabalho sujo.
— Conte a eles o que Uhtred pensa — sugeriu Briss, o rosto inescrutável detrás do véu.
Otelo revirou os olhos e balançou a cabeça, como se fosse uma perda de tempo. Cress o chutou, e ele ganiu, esfregando a canela.
— Eu quero descobrir o que há nesses pacotes, vamos logo com isso! — exclamou ela, cruzando os braços. — E respeite a sua mãe.
— Está bem! É uma teoria ridícula, mas não é mais maluca que nenhuma outra explicação que eu ouvi — resmungou Otelo, enquanto se sentava e examinava a perna com pelos ruivos em busca de hematomas. — Ele acha que alguém na liderança dos Bigornas estava trabalhando para o Triunvirato. O novo sentimento antienânico está acabando com os nossos negócios de armas. Os intendentes se recusam a comprar conosco, e há rumores de que sabotamos nossos mosquetes para que explodam na cara do usuário.
— Ou poderia igualmente ser um anão fanático que acredita que deveríamos nos rebelar de novo — apontou Cress, nada impressionada com a teoria do pai de Otelo. — Alguém como Ulfr. Ele é o pior de nós. Ficava nos ouvidos de Átila, também, até ele conhecer você, é claro, Fletcher.
Ela sorriu alegremente para ele, depois se virou para Briss e Athol.
— Agora, eu sei que vocês dois andaram trabalhando muito o dia inteiro num projeto confidencial e que foi por isso que vocês não puderam me assistir vencendo o Torneio — comentou Cress, em tom de advertência. — Então vamos ver o motivo desse auê todo.
Briss bateu palmas, animada, virou-se para trás e começou a distribuir pacotes para os membros da equipe. Fletcher não teve como não rasgar o embrulho imediatamente, e a textura macia debaixo do papel marrom lhe disse exatamente o que seria: um uniforme.
Fletcher chacoalhou o embrulho para abri-lo, e ergueu as vestes para a luz, impressionado com o azul profundo do tecido.
A jaqueta era decorada com fio prateado, com uma gola aberta e largas lapelas brancas. Era longa o bastante para passar dos joelhos, bem como fora a anterior, só que o material era mais espesso.
— Deve ser longa e grossa o bastante para mantê-los aquecidos à noite, mas leve o suficiente para que continuem ágeis — explicou Briss, mexendo no vestido, encabulada. — É lã, então vai respirar bem, mas também esfreguei óleo para que ficasse à prova d’água, apesar de lã já ser naturalmente resistente à água.
Fletcher viu que os outros seguravam roupas parecidas.
— É perfeito — declarou. — E é do azul e prata da casa Raleigh, não é?
— Isso. — Briss riu. — Que bom que você notou! Primeiro eu ia fazer tudo verde, para que se misturassem à selva, mas precisamos que o mundo consiga vê-los pelos cristais de visão. Lembrem-se, vocês têm que conquistar corações e mentes. Um uniforme colorido vai ajudar todo mundo a identificar sua equipe.
— É verdade — concordou Fletcher, vestindo a jaqueta e examinando as calças correspondentes que a acompanhavam. — Eu não teria pensado nisso.
— Também fiz botas — disse Briss, apontando uma fileira de botas de cano alto que Athol tinha deixado na mesa. — Feitas com couro élfico: macio, mas resistente. O melhor de todos.
Sylva sorriu com o comentário e curvou a cabeça em alegre reconhecimento. A equipe agradeceu profusamente enquanto Athol balançava sobre os pés, ansioso para abrir seus pacotes.
— Minha vez agora — disse, enfim, antes que Briss tivesse uma chance de responder. — Eu sei que você já tem um arco e um falx, Sylva, então temo que não haja nada para você exceto algumas flechas com penas azuis, a cor da sua equipe.
— Tudo bem — respondeu Sylva, ainda que com uma nota de desapontamento na voz. — Minhas armas pertenceram ao meu pai, então acho que bastarão.
— Ótimo, ótimo — disse Athol distraído, esfregando as mãos em antecipação. — Cress, eu já tinha feito seu torque e seax para o Torneio, então você já está bem equipada para combate corpo a corpo, mas eu lhe fornecerei uma besta amanhã, com setas azuis, além de uma espada para Jeffrey. Não sobrou espaço para essas coisas na carroça.
— Bah — bufou Cress, sentando-se pesadamente. — Passei o dia inteiro empolgada para ganhar armas novas!
— Agora, Otelo — disse Athol, acenando para que o amigo se aproximasse.
Tirou um pacote da pilha, que o jovem anão abriu com entusiasmo.
— Isto é um bacamarte — explicou Athol, enquanto a arma era extraída do embrulho oleado. — Está carregada com uma carga de balins de chumbo, um grande número bolinhas que se espalharão quando disparadas. Não é exatamente uma arma muito precisa, mas tem um imenso poder de fogo. Um orc-touro frenético pode levar um tiro de um mosquete normal e continuar correndo, matar você e chegar à metade do caminho de casa para jantar antes de perceber que foi alvejado, e o mesmo vale para flechas e setas de besta. Ele vai acabar morrendo, com certeza, mas isso não lhe adiantará muito. Acerte-o com um punhado de balins, por outro lado, e ele tombará como se tivesse levado uma marretada.
Otelo ergueu a arma de fogo para a luz, revelando um trabuco que era muito parecido com um mosquete, só que com um cano mais curto e um bocal que se abria como um trompete. O metal fora lustrado até um reluzir de bronze, e a madeira era da textura de teca polida.
— Eu hesito em lhe dar tal arma para uma missão tão furtiva como a de vocês, mas, se vocês forem avistados e o sigilo for perdido, ela poderia lhe cair bem — explicou Athol, saindo do caminho quando Otelo ergueu a arma e fez pontaria. — Mas fique ciente de que, se você a disparar, o tiro será ouvido a quilômetros de distância.
O rosto de Otelo era a própria imagem da alegria enquanto ele pousava com reverência o bacamarte na mesa. A expressão de Athol era idêntica, e ele entregou sem palavras um coldre de couro que poderia ser atado sobre o ombro de Otelo.
— Também tenho um machado de batalha para você — disse Athol, apontando um pacote ao lado. — Peguei na estante, um dos melhores que seu pai fez. Não tive tempo de personalizá-lo, infelizmente. Botei umas machadinhas de arremesso no pacote também.
— Muito obrigado, de verdade — agradeceu Otelo, a voz embargada. — Você se superou com aquele bacamarte. Meu pai lhe ensinou bem.
— Ah, bem, ele o teria feito por conta própria se não estivesse tão ocupado com o conselho. Por sorte, conseguiu recuperar sua machadinha com os Pinkertons depois do julgamento; vai lhe entregar quando vier se despedir.
Otelo se sentou, balançando a cabeça com um sorriso lamentoso.
— Agora, a vez de Fletcher... a não ser que você prefira dormir? — Athol piscou. — Isso pode esperar até amanhã, se quiser.
— Muito engraçado — retrucou Fletcher, espiando os pacotes atrás de Athol. Seriam mesmo todos para ele?
— Tenho que admitir, a maior parte dessas coisas é só a devolução das suas posses, cortesia de Arcturo — explicou Athol, separando vários grandes pacotes. — Ele manteve tudo seguro para você durante sua temporada na prisão. Seu arco, khopesh, bainha, pedra de visão, dinheiro, roupas e flechas estão todos aqui. Ele também me pediu para lhe entregar isto.
Athol lhe entregou um embrulho familiar, e Fletcher riu de alegria ao ver o que era.
O diário e livro de feitiçaria de James Baker fora belamente amarrado com barbante. De alguma forma, Arcturo conseguira recuperá-lo da cela.
Quando Fletcher o pegou, viu que havia um bilhete colado em cima:

Fletcher,
Fico feliz que estes papéis tenham chegado às suas mãos ano passado; eu honestamente não sabia se tinha subornado o guarda da prisão com dinheiro suficiente. Ele os vendeu de volta para mim por um preço bem elevado. Certamente você já memorizou o diário a esta altura, mas eu não gostaria que Didric botasse as patas imundas nele.
Sugiro que você o entregue a Athol para que fique em segurança. Boa sorte em sua missão. Eu estarei lá em espírito (além de estar em Sacarissa também).
Arcturo

Fletcher sorriu de orelha a orelha. O benfeitor misterioso que escondera os livros na cela fora revelado. Por mais que agora soubesse que eles não eram meio-irmãos, Arcturo tinha feito mais por ele do que qualquer irmão poderia. Fletcher devia muito àquele homem.
— Eu devia ter deixado isso por último — resmungou Athol, percebendo a expressão de felicidade de Fletcher. — Enfim, aqui está.
O anão entregou um embrulho pesado, que o rapaz pousou cuidadosamente na mesa e, então, abriu.
Um par de pistolas brilhava sob a luz tremeluzente, uma com um cano longo, a outra com dois canos mais curtos. A pistola comprida tinha uma Salamandra entalhada no cabo, com detalhes tão intrincados que pareciam mais o trabalho de um artista do que de um armeiro. A outra arma tinha um desenho igualmente belo de um Griforuja, com uma asa correndo por cada cano.
— A capitã Lovett nos contatou mais cedo e me ajudou com os projetos. Espero que você goste — contou Athol. Ele esfregou as mãos calejadas e observou, ansioso, o rosto de Fletcher.
O rapaz sentiu o peso da pistola de Salamandra, tomando cuidado para não colocar o dedo no gatilho.
— São incríveis — elogiou, passando as mãos na madeira polida. Tinha uma tonalidade avermelhada e era lisa como seda.
— Fico feliz que tenha gostado — disse Athol,  abrindo um largo sorriso.
O anão se adiantou, pegando a arma e a erguendo até a tocha mais próxima.
— Esta aqui é um protótipo. O interior do cano é “raiado”, com ranhuras que correm espiraladas por dentro e fazem a bala girar. Você verá que ela dispara mais longe e com mais precisão que qualquer mosquete, mas demora mais para carregar.
Fletcher começou a espiar cano adentro, depois pensou melhor quando Athol pegou a arma e pôs de lado.
— Eis aqui outro protótipo — continuou Athol, pegando a pistola seguinte. — Dois canos querem dizer dois tiros, mas também o dobro do tempo de recarga, então esta arma não é raiada. Os canos são de alma lisa. Otelo lhe mostrará como carregar e disparar as pistolas mais adiante.
— E você deveria batizar suas armas — apontou Otelo, com olhos ainda fixados no metal reluzente do bacamarte. — Esta aqui se chama Bess.
Ele ficou meio corado quando Cress sorriu para o nome.
— Paixonite de infância — admitiu, com as orelhas ficando lentamente rosadas.
Fletcher riu, depois se virou para seu próprio conjunto de armas de fogo. Por um momento, considerou batizá-las com os nomes dos pais, mas isso lhe pareceu errado, de alguma forma. Não; os entalhes eram a chave.
— Chama e Ventania — anunciou, brandindo as duas pistolas. — Chama pelo fogo de Ignácio e Ventania pelo jeito como Atena plana nos ventos.
— Belos nomes — aprovou Sylva, assentindo solenemente.
As pistolas pesavam nas mãos dele. Capazes de encerrar uma vida, com um simples apontar e disparar. Armas formidáveis, de fato.
— Mire na cabeça, se for um orc, e tome cuidado com o barulho — aconselhou Athol, empurrando as mãos de Fletcher para baixo, de modo que as pistolas apontassem para o chão. — Agora, seu último presente. Tive que fazer alguns ajustes de última hora quando a capitã Lovett me contou que você aceitou a oferta de Electra; foi por isso que nos atrasamos um pouco.
Athol abriu o pacote ele mesmo, revelando uma longa bandoleira de couro, com uma coleção de tiras, coldres e fivelas.
— Este é o seu arnês — disse, passando o equipamento sobre a cabeça de Fletcher e ajustando as tiras. Um puxão aqui e uma esticada ali, então Athol deu um passo atrás para admirar o trabalho.
— Está muito bom. Vamos preparar você. Ponha essas pistolas nos coldres, pode ser? Você está me deixando nervoso, apontando essas coisas para todo lado.
Fletcher deslizou as pistolas nos coldres que agora estavam nos seus flancos, sentindo o peso equilibrado das duas nos quadris. Athol abriu os outros pacotes atrás dele, e Fletcher sentiu o arco e a aljava sendo afixadas às costas, a bainha do khopesh sendo atada ao cinto. Finalmente, o anão deu a volta e encaixou os quatro frascos dados por Electra numa bandoleira cruzada sobre o peito de Fletcher.
— Perfeito — declarou Athol. — Você está armado até os dentes, mas conseguirá se esgueirar pela selva, como um fantasma, com esse equipamento, sem que nada caia ou faça barulho.
— É, sim, perfeito — concordou Fletcher, procurando um espelho no qual se examinar, mas sem conseguir achar. Contentou-se em olhar para baixo, para o peito, segurando os cabos das pistolas e sentindo o poder por trás delas. — Não sei como lhe recompensar, Athol, ou a você, Briss. Tenho algum dinheiro; não vou precisar dele na selva. Deixe-me pagá-los, pelo menos.
— Sem chance — retrucou Athol, enfiando as mãos nos bolsos.
Fletcher pegou a carteira de um dos pacotes abertos de Arcturo e tentou entregá-la a Briss, mas ela se afastou com as mãos no ar.
— Só sobreviva, Fletcher — respondeu ela simplesmente, colocando o braço em volta dos ombros de Otelo. — E mantenha meu menino seguro.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!