31 de março de 2018

Capítulo 20

MORRIGHAN

Nós vimos ao mesmo tempo. Era uma nuvem de poeira subindo atrás de um monte, e em segundos, a nuvem se transformou em outra coisa. Uma caravana. Cavalos carregados de pacotes. Parecia uma pequena vila, mesmo que eu já conhecesse os números. Jafir me contou. Vinte sete, oito sendo crianças. Sete deles se distanciaram do grupo, uma tempestade de cascos ressoando, músculos e loucura vindo em nossa direção.
Jafir puxou as rédeas e disse um palavrão.
Eles pararam, nos cercando.
— Desçam — um deles ordenou.
Jafir sussurrou o seu nome para mim. Era Fergus, o seu pai. Eu desci da sela, seguida por Jafir.
— Fique atrás de mim — ele ordenou.
Mas eles se moviam com a destreza de lobos, colocando-se em um círculo à nossa volta. O meu coração martelava em meu peito.
Sem nenhum aviso, Fergus foi para frente, o seu punho voando pelo ar, alcançando jafir e o mandando esparramado nos braços de dois outros. Eles o seguraram para que ele não caísse. Sangue escorria da boca de Jafir.
Eu gritei e me apressei até ele, mas Steffan me segurou, puxando-me para trás.
— Onde está o meu grão? — Fergus gritou para Jafir, o rosto contorcido coma fúria.
— Eu dei para Harik. Já foi.
Fergus olhou para mim, os seus olhos se arregalando.
— Por ela? — ele gritou em descrença. — Deu a ele em troca dela?
Jafir limpou a sua boca com as costas da mão.
— Eu e ele fizemos um acordo. Tem que respeitá-lo. Deixe-a ir, ou desonrará Harik.
Um grunhido destorceu a face de Fergus.
— Honra? — ele riu e andou até mim, aproximando o rosto do meu. A sua respiração era ácida, e os seus olhos eram adagas de vidro. — Você tem o saber, garota?
Hesitei, não sabendo o que dizer. Eu não devia a verdade a este homem. O olhar de Jafir se prendeu ao meu, e vi a miséria em seus olhos. Ele balançou um pouco a cabeça. Não. Se eu não tivesse valor, eles ainda poderiam me deixar ir.
Olhei para a multidão que tinha se juntado atrás dele. O resto do clã tinha chegado, um mar de olhos me fitando. Um bebê começou a chorar. Outra criança soluçou.
Em breve. Meu coração apertou. Menos de quatro dias.
— Responda-me! — Fergus exclamou.
— Não — eu sussurrei.
Ele soltou um fôlego frustrado e segurou o meu queixo, virando-o de um lado para o outro. Olhou para o Steffan, que me segurava.
— Serve como mulher. Ela é sua, Steffan. Deve ser capaz de lhe dar um pirralho ou dois – o meu grão não será desperdiçado.
— Não! — gritei. — Eu não...
O rugido de Jafir seguiu os meus gritos.
— Não pode desonrar o Harik! Ele...
Fergus se virou repentinamente e socou o estômago de Jafir, a força veemente e brutal, fazendo os homens que o seguravam tropeçarem para trás. Ele o socou de novo nas costelas. Gritei para ele parar. A cabeça de Jafir caiu para o lado, suas pernas colapsando sob ele. A única coisa impedindo-o de cair era os homens que o seguravam. Jafir tossiu, cuspindo sangue.
— Como você me desonrou? — Fergus gritou. Ele segurou os cabelos de Jafir, puxando a cabeça dele para trás, para que ele o olhasse. Os olhos de Jafir continuavam desafiadores.
— Você traiu o clã — Fergus rosnou. — Traiu a mim. Não é meu filho. Assim como Liam não era meu irmão.
Ele ergueu a sua faca até o pescoço de Jafir.
— Não! — gritei. — Espere!
Fergus olhou para mim.
— Harik tinha razão! Eu tenho o saber, e sou poderosa com ele! Eu os levarei com segurança pelas montanhas e além, com uma condição – eu serei a mulher de Jafir. Não de Steffan.
— Cale a boca! — Steffan gritou, me sacudindo.
Fergus sorriu com desdém.
— Olhe para você, menina. Não está em posição para fazer acordos, muito menos colocar condições neles. Você nos guiará seguindo as minhas ordens.
Uma mulher se espremeu passando pelos outros, colocando a mão no ombro de Fergus.
— Dê-lhe o que ela quer, Fergus. Se ela não tiver nenhuma esperança para o fim da viagem, o que a impedirá de nos guiar até o perigo?
— Ou de nos abandonar para morrer no meio da selva? — outra mulher acrescentou. Medo se espalhou pelo resto do clã.
— Calem-se! — gritou Fergus, brandindo sua faca no ar. — Ela fará o que eu disser se quiser viver!
Você fará o que eu disser se quiser viver, eu queria dizer. Eu já tinha visto vocês todos mortos daqui a apenas quatro dias. Mas segurei a minha língua, porque os movimentos dele eram fanáticos e ele ainda segurava a faca na sua mão.
Um homem deu um passo para frente. Ele era mais alto e mais velho do que Fergus.
— Seria bom para todos nós ter alguém do tipo dela para nos guiar — ele disse — mas Laurida tem razão, se a menina não tiver esperança em ganhar uma recompensa, isso poderá nos levar até a nossa ruína.
Fergus deu alguns passos como se pesasse as palavras do homem, e guardou a sua faca. Ele analisou o seu clã e os seus olhares preocupados, e depois andou de volta até mim, mexendo no meu cabelo.
— Muito bem, Morrighan dos Remanescentes. Eu farei um acordo com você. Se nos guiar com segurança para um lugar que eu escolher e se me agradar pelo caminho com a sua prestavidade, no fim da viagem você será de Jafir. Se não, será de Steffan. Concorda com isso, sem discussões?
Eu sabia que não havia forma de agradar este homem. Ele nunca concordaria com a minha condição, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer. Se eu concordasse, isso daria a mim e a jafir mais tempo — e para todos aqueles que seguiam Fergus também.
— Sim — respondi.
Ele mamdou que Steffan me soltasse, e então se virou para os homens que seguravam Jafir e acenou. Eles soltaram os braços dele, e ele caiu no cão, tossindo. Corri até ele e me abaixei ao seu lado. A respiração dele falhou, e ele segurou as costelas. Coloquei a cabeça dele no meu colo, limpando o sangue da boca dele com a minha saia.
— Morrigan... — ele começou a protestar, mas coloquei um dedo nos lábios dele. Ele sabia o que eu sabia. O pai dele não me daria nada.
— Shh — sussurrei. A minha visão se embaçou por causa das lágrimas e eu me abaixei para ter a certeza de que ninguém mais me escutaria. — Por agora, é uma solução. Uma solução para nós. Eu te amo, Jafir de Aldrid. Eu sempre amarei.
Olhei para trás para Fergus. Ele e Steffan já estavam de pé ombro a ombro, os olhos brilhando com vitória. O clã estava satisfeito, e ele ainda ganhava o que queria. No momento este acordo, mesmo que passageiro, comprara tempo para mim e Jafir. A única coisa que eu tinha certeza era que no fim desta viagem eu seria a mulher Jafir de Aldrid.

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