22 de março de 2018

Capítulo 20

O grupo se colocou diante da árvore, inspecionando a exibição macabra enquanto a aurora tomava o céu. Era uma visão horrível; no entanto, à luz da manhã, parecia muito menos sinistra que o espetáculo etéreo e azulado que Fletcher vira meia hora antes.
— Bem, que ótima notícia — murmurou Sylva, esfregando o cansaço dos olhos. — Vou voltar a dormir.
— Isso? Isso é uma ótima notícia!? — exclamou Cress, voltando-se para Sylva em horror confuso.
— Hã-hã — murmurou Otelo, voltando para o acampamento, onde a fogueira crepitante os chamava. — Me acordem em meia hora.
— Eu estou ficando louca, ou são eles? — perguntou Cress, virando-se para Fletcher.
Mas ele já sabia do que eles estavam falando, pois um fato antes esquecido agora despontava na superfície de sua mente. Não era nenhuma surpresa que ele não tivesse se lembrado daquilo imediatamente, pois lhe fora ensinado durante uma aula a que Fletcher faltara, quando fora arrancado da sala para mostrar o diário de Baker à dama Fairhaven.
— Você sabe como os Picanços ganharam o nome? — perguntou Fletcher, coçando o queixo. — Acabei de me lembrar.
— Hã... Na verdade, não — respondeu Cress. — Para ser sincera, não prestei muita atenção às aulas de demonologia... estava focada em ganhar o Torneio.
— Bem, o nome vem de um animal de verdade. Existe uma espécie de pássaro nativa das fronteiras do deserto de Akhad conhecida como picanço. Esses picanços têm o hábito de empalar a presa, geralmente insetos ou lagartos, em espinhos. É assim que a mantêm no lugar enquanto se alimentam. Os demônios Picanços têm os mesmos hábitos de alimentação, então o nome pegou.
— Então, isso significa que não perdemos o rastro dos Picanços — disse Cress, enfim entendendo.
— É isso aí — disse Fletcher, observando os restos mortais gotejantes e resistindo ao desejo de estremecer. — Basta seguir os cadáveres.
Saber que estavam tão perto dos Picanços deixou o grupo em um humor soturno. Eles corriam perigo agora, não só por conta dos Picanços, mas também dos predadores e carniceiros que rastreavam o bando. O letal Wendigo era talvez o mais amedrontador deles; sua predileção por cadáveres lhe conferia um fedor igual ao de sua fonte preferida de alimentação.
Considerando o frescor das carcaças, Fletcher sabia que os Picanços deviam estar aninhados nas árvores à frente, então enviaram Pria como batedora, depois aproximaram-se cuidadosamente a pé, de modo a não topar com as mortíferas criaturas.
Sozinho, um único Picanço macho era perigoso, com a envergadura de um albatroz, as garras de uma águia e o bico cruelmente adunco de um abutre. Quando esses demônios migravam, no entanto, iam em bandos indefectíveis, dizimando as populações em seu caminho.
As mais terríveis de todas eram as Matriarcas Picanço, as líderes fêmeas de uma revoada, muito mais raras. Em uma inversão estranha, o macho Picanço possuía uma crista insignificante, como a de uma galinha, enquanto a da matriarca era totalmente desenvolvida, irrompendo da cabeça como a de um galo. Duas vezes maiores que seus homólogos machos, elas eram capazes de arrancar um jovem Canídeo do chão.
O grupo avistou os Picanços pela primeira vez na manhã seguinte, quando a revoada irrompeu da copa das árvores, mais ou menos 2 quilômetros à frente, para continuar a migração, depois de despojarem a selva ao redor de todas as criaturas vivas. Os conjuradores saíram voando atrás deles — somente quando os demônios não passavam de pontos distantes no horizonte —, valendo-se da ótima visão de Atena para mantê-los no radar.
Dia virou noite, que virou dia mais uma vez. Ao anoitecer, o grupo instalou-se na trilha dos demônios empoleirados, e eles acamparam como haviam feito antes. Comeram suas pétalas e os míseros remanescentes da carne-seca, complementando a dieta com os restos comestíveis que os Picanços deixaram para trás. Na noite seguinte, choveu, e eles ficaram encharcados, mas agradecidos; esticaram a pele do Catoblepas para pegar a água e reabastecer os cantis.
Assim se passaram os dias, a selva rolando abaixo, como um aparentemente infinito tapete verde. Fletcher jamais imaginara tal visão, pois ela se estendia de horizonte a horizonte em um terreno plano que era desprovido de marcos, rios ou clareiras. Apenas na extremidade direita havia algo que se parecia com o fim da cobertura de árvores: uma fina linha vermelha indicando onde a selva terminava e as terras mortas começavam.
Na quarta noite, eles jantaram os pernis de um Yale recém-abatido, um demônio que parecia o cruzamento entre um antílope e um bode, com um par de chifres curvos capaz de girar à vontade. A carne da criatura tinha gosto de carne de carneiro envelhecida, dura, mas saborosa, muito mais gostosa que os restos do charque mal defumado do grupo.
Foi naquela noite que viram os primeiros carnívoros que rondavam atrás da revoada de Picanços, contornando os limites de sua barricada improvisada na escuridão, atraídos pela luz e pelo aroma de carne cozinhando.
O grupo observou os predadores se aproximarem pelo cristal de visualização quando Atena se empoleirou nas árvores acima. Um único Leucrota listrado como zebra trotava ao crepúsculo — uma estranha criatura mamífera, com cascos fendidos, cauda de leão e cabeça de texugo. Mais tarde, um par de esqueléticos Licans passou por ali. Os lobos bípedes uivaram tristemente enquanto se acomodavam a poucas dezenas de metros do acampamento. Ninguém dormiu muito naquela noite.
Foi na manhã seguinte que avistaram seu primeiro vulcão, a grande coluna de fumaça subindo ao céu. A visão fez o coração de Fletcher acelerar. Os arredores estavam se tornando semelhantes aos de Hominum, acidentados e com um céu escurecido pelas mesmas nuvens de cinzas que ele via agora. Só não tinha como ter certeza. Eles poderiam passar voando sobre o território dos Hominum sem nem perceber.
Pior ainda, Otelo havia lembrado de outra coisa, depois de acordar no meio da noite e chegar a uma compreensão terrível. O tempo médio que um conjurador era capaz de manter um portal aberto no éter era breve, talvez meia hora no máximo. A área em que um portal podia aparecer era grande, de modo que, mesmo que estivessem na região certa, as chances de se depararem com um portal aberto ao passarem eram ainda menores.
A única esperança era encontrar um enquanto voavam, algo impossível, dada a espessura da camada de copas das árvores. Portanto, Fletcher sentiu-se feliz ao perceber que os Picanços pareciam estar migrando para as terras mortas, onde talvez eles conseguissem vislumbrar melhor algum sinal de uma esfera giratória. Agora eles estavam nos limites das terras áridas vermelhas, o que era um bom sinal, pois os Picanços estavam perto das terras mortas quando Valens fora atacada dois anos antes. Poderia ser o mesmo lugar?
Eles passaram horas voando ao longo da orla da selva, olhando para a bacia vermelha, na esperança de ver a esfera azul giratória que os levaria para casa. Mas não havia nada.
Derrotados, montaram acampamento pela quinta noite desde a travessia pelo deserto, os olhos irritados por causa do vento e da poeira. Todos os outros tinham os olhos vermelhos, como se tivessem chorado, e Fletcher supôs que bem que poderiam ter mesmo. Não havia esperança. Estavam condenados a permanecer no éter. Para sempre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!