13 de março de 2018

Capítulo 20

Lisandro os levou para fora da arena e de volta ao átrio, com Sacarissa ao seu lado. Fletcher esperava que eles saíssem pela porta principal, como fizera Caliban, mas os dois continuaram subindo pela escadaria oeste.
Era uma longa subida, mas Fletcher se distraiu observando Lisandro, que geralmente voava, escorregando e deslizando ao subir, desacostumado a lidar com degraus, especialmente tão estreitos e sinuosos como aqueles. Sacarissa esperava paciente no topo de cada lance de escada, os olhos azuis vigiando de forma protetora o Grifo com dificuldades.
— Talvez você devesse ter voado direto até o topo e nos esperado lá — riu Fletcher, recebendo em troca um olhar severo de Lisandro, que só poderia ter vindo de Lovett.
Fletcher raramente entrara naquele lado do castelo durante seu primeiro ano em Vocans, pois aquelas instalações eram em sua maioria os aposentos particulares dos professores, alojamentos dos criados, uma grande lavanderia e armazéns. Não foi surpresa, portanto, eles se encaminharem direto ao corredor principal do último andar e, então, em direção à torre noroeste.
Conforme seu grupo seguia os demônios, Fletcher não pôde deixar de admirar as pinturas e tapeçarias que decoravam o corredor, ilustrando antigas batalhas travadas sem pólvora. Foi só quando passou por uma pintura mais antiga, com cores desbotadas e descascando da tela, que ele parou.
Não mostrava orcs sendo derrotados, mas anões. No fundo, anãs tinham seus véus arrancados enquanto, em primeiro plano, guerreiros anões se ajoelhavam em fileiras e tinham as barbas cortadas por humanos vestidos heroicamente em armadura reluzente. Ao redor deles espalhavam-se os cadáveres dos anões caídos, e, acima, conjuradores alados contemplavam a cena, suas lanças ensanguentadas da base à ponta.
Os três anões, assim como Serafim e Sylva,  pararam ao lado dele, enquanto Rory e Genevieve seguiram em frente, os olhos passando por aquela pintura, como se não fosse diferente das outras.
— É contra isso que estamos lutando — afirmou Otelo, a voz pouco mais de um sussurro enquanto ele traçava as silhuetas caídas com a ponta do dedo. — Poderia acontecer tudo de novo. Estudei os nossos textos históricos, aprendi como o ódio pode ser rápido em criar raízes dos dois lados. Quatro vezes os anões se rebelaram e fracassaram. Quatro vezes nossa raça foi castigada, reduzida a pestes aos olhos da humanidade. Temos que quebrar esse ciclo. Só por meio da unidade poderemos nos libertar.
Átila se afastou, enojado, e Fletcher não poderia culpá-lo. A imagem era odiosa, não algo a ser glorificado nos sagrados salões de Vocans. Serafim correu atrás dele, mas o braço que passou pelos ombros do jovem anão foi rejeitado.
— Vamos — murmurou Fletcher. Quando ele se virou para seguir em frente, soou um estranho barulho de crepitar. Olhou para trás e viu que a superfície da pintura estava carbonizada, um símbolo entalhado de feitiço de fogo flutuando diante dela.
— Oops. — Cress deu de ombros, dando tapinhas nas costas de Fletcher ao passar por ele. — Minha mão escorregou.
Eles deram uma corridinha para alcançar Rory e Genevieve, que já haviam quase alcançado o topo da torre noroeste. A escadaria tinha camadas de poeira em todas as superfícies, interrompidas apenas por uma estreita trilha onde fora perturbada, como se apenas uma pessoa a usasse.
Finalmente, as duas equipes se amontoaram diante de uma porta trancada, toda coberta de mecanismos de ferro que a mantinham fechada.
Lisandro ergueu a pata dianteira e bateu, formando uma estranha combinação de arranhões e batidas que parecia ser algum tipo de código. Depois de uma pausa, as trancas começaram a girar e chacoalhar.
Então, com um rangido agourento, as portas se abriram.
O interior era tão sombrio quanto a escadaria, a fonte principal de iluminação, um único candelabro no alto teto acima deles.
— Entrem, entrem — chamou uma voz bem lá dentro. — Não derrubem nada!
Fletcher e Sylva seguiram na frente, soltando fogos-fátuos das pontas dos dedos para iluminar o caminho adiante. A luz azul lançava um brilho fantasmagórico sobre uma grande quantidade de prateleiras, mesas e bancadas de trabalho, cada uma delas coberta com frascos e ferramentas.
À esquerda, Fletcher viu demônios flutuando, suspensos, em jarros de líquido verde-pálido, assim como estivera o goblin na reunião de conselho. Muitos estavam sem membros ou cabeça, e as superfícies das mesas exibiam seus restos dissecados.
À direita via-se plantas envasadas, em vez de demônios, além de béqueres borbulhantes de líquidos viscosos, em lenta ebulição por conta de minúsculas fornalhas que os aqueciam.
Cada planta era mais estranha que a última. Uma tinha flores pesadas, bulbosas, que faziam bico e se abriam como lábios num beijo. Outro era quase completamente composta de raízes tuberosas que pareciam se estender para a luz conforme eles passavam.
— Não fiquem tímidos; sintam-se em casa — disse a voz, e um vulto saiu das sombras.
A mulher tinha pele mais escura que a de Serafim, com uma cabeleira de cachos volumosos e grisalhos na cabeça. Vestia um longo jaleco de algodão branco, com luvas enegrecidas de couro estendendo-se por cima das mangas. Um sorriso brilhante, quase desvairado, estampava seu rosto, e ela os espiava através de um par de óculos tão grossos que deixavam seus olhos com o dobro do tamanho original.
— Peço que me perdoem pela bagunça — disse ela, indicando as mesas cobertas de plantas e partes de corpos em volta. — Jeffrey deveria ter arrumado tudo, mas ele saiu escondido para assistir ao Torneio.
O grupo ficou calado, e a mulher se remexeu nervosamente, como se esperasse que eles falassem.
— Xícara de chá? Ou será que era café? — perguntou ela, apontando um caldeirão fervente ali perto. Estava cheio de uma substância marrom não identificável que tinha a consistência de lama. — Talvez ginseng? Chocolate? Era alguma coisa gostosa, em todo caso.
— Hum, não, obrigado — respondeu Fletcher educadamente.
Eles ouviram um glop quando uma grande bolha estourou na superfície.
Ela encarou o grupo um pouco mais, o sorriso sumindo lentamente de seu rosto, até que Fletcher pigarreou e deu voz às perguntas que todos estavam se fazendo:
— Quem é você? Que lugar é este?
O sorriso voltou, e a mulher acenou para que se aproximassem da mesa ao lado. Estava mais bem-iluminada que as outras, com um lampião suspenso sobre ela.
— Eu sou Electra Mabosi, da terra de Swazulu, além do mar Vesaniano. Sou botânica, bióloga, química, demonóloga. Um pouquinho de tudo, na verdade. Alquimista é provavelmente a melhor palavra. Só que não sou sua guia, se é com isso que vocês estão se preocupando. Não saio desta sala há quatro anos, e não planejo fazê-lo tão cedo.
Fletcher observou o aposento mal iluminado e tentou imaginar passar os últimos quatro anos de vida num lugar como aquele. Era melhor que a cela de prisão, mas não muito. Que tipo de pessoa gostaria de ficar ali por tanto tempo?
— Venho fazendo pesquisas secretas para o rei Harold e o reitor Cipião desde que cheguei aqui. Eu os mantenho informados das novidades quando é possível, mas eles não me deixam dar aulas ou me envolver com a docência, não importando o quanto eu peça. Dizem que o meu tempo é mais bem-investido na pesquisa.
Ela pegou um vidro fechado com rolha de uma prateleira próxima enquanto falava e tirou dele um cadáver de demônio encharcado, do tamanho da mão humana. Ela o pousou na bancada de trabalho diante de si e desenrolou um estojo de couro de ferramentas cirúrgicas ao lado.
— Vejam aqui. Este é um Araq juvenil, encontrado morto no éter há alguns meses. Nível de realização seis; raro, mas não tanto. Eu o guardei para esta demonstração. Finalmente, tenho uma chance de ensinar.
Parecia uma grande aranha peluda, com um punhado reluzente de olhos na cabeça, um par de presas curvas abaixo e um ferrão espinhoso, como o de uma abelha, no traseiro. Electra cortou cada perna com um par de tesouras pesadas, como se estivesse aparando unhas. Empurrou os membros amputados para um balde no chão, deixando apenas a cabeça e o tórax. Genevieve estremeceu e pulou para longe, pois uma das pernas errou o alvo e aterrissou junto aos pés dela.
— Estão vendo este orifício, abaixo do ferrão? — indagou Electra, usando um par de tenazes para manter o corpo da criatura no lugar. — Um Araq é capaz de lançar dele uma substância grudenta, baseada em mana, muito parecida com teia de aranha.
Ela puxou o lampião para mais perto e espiou o espécime encharcado.
— Temos que ser cuidadosos; as cerdas no corpo dela podem se soltar, flutuar por aí e irritar os olhos e a pele de quem tocar. Jeffrey me contou que o Araq de lorde Cavell já causou problemas em algumas das aulas do primeiro ano, não é mesmo, Cress?
— Pois é — concordou Cress, coçando o pulso distraidamente. — Não parou de coçar por uma semana.
Fletcher teve um calafrio, pois os olhos da criatura pareciam se cravar na alma dele. O rapaz odiava pensar em como seria um Araq completamente crescido, apesar de já ter visto ilustrações nas aulas de demonologia. Era muito azar que Didric tivesse um desses, pois seria um oponente formidável se algum dia acabasse em um duelo com Ignácio.
Electra cantarolava uma alegre canção enquanto empurrava um instrumento em forma de tubo no orifício abaixo do ferrão, como se removesse o centro de uma maçã. Quando o puxou para fora, obteve um cilindro de órgãos escorregadios, que ela espalhou na mesa com as tenazes.
— Isso é nojento — comentou Rory, passando a mão pela massa de cabelos loiros espetados. O rosto perdeu o pouco de cor que tinha, e ele se juntou a Genevieve numa posição mais afastada.
— Não seja tão fresco — murmurou Electra. Ela pegou Fletcher com a mão enluvada e o arrastou para perto. — O que você vê aí?
Por um momento, Fletcher teve a desconfiança insana de que Electra queria que ele lesse o futuro, como os xamãs orcs afirmavam ser capazes de fazer com as entranhas dos inimigos. Mas, ao examinar mais de perto, ele reconheceu um estranho símbolo, gravado num dos órgãos, como uma marca a ferro quente.
— É... um símbolo de feitiço — afirmou Fletcher,  balançando a cabeça, confuso.
— Sim! Vocês ao menos sabem como feitiços e entalhamento foram descobertos? — perguntou Electra, virando-se tão rápido que o extrator lançou uma gotícula de gosma no rosto de Serafim. O rapaz pareceu se contrair em ânsias de vômito enquanto tentava limpar loucamente a face com a manga.
— Demônios sempre usaram suas habilidades especiais canalizando mana pelos símbolos orgânicos que têm dentro de si — continuou Electra, ignorando os gemidos de nojo de Serafim. — Os primeiros conjuradores devem ter percebido isso, dissecando seus demônios mortos, como eu acabei de fazer, e copiando os símbolos. Minha missão aqui é incrementar o repertório de feitiços disponíveis para os nossos magos de batalha por meio da minha pesquisa. É uma arte há muito esquecida que eu revivi. Porém, não sou uma conjuradora, o que acaba complicando um pouco as coisas.
Ela se virou para Fletcher e segurou os ombros do rapaz.
— Sua Salamandra, por exemplo, terá o símbolo de fogo em algum lugar da garganta. Se eles ao menos me deixassem dar aulas aqui, vocês saberiam de tudo isso!
A alquimista suspirou de frustração. Fletcher trocou olhares com Otelo, e os dois sorriram. Mesmo comparada a um fanático como Rook, Electra era obviamente um pouco excêntrica demais para ensinar em Vocans.
— Então qual é a dessas plantas todas? — indagou Fletcher, apontando para um grande vaso com um espécime assustador que parecia uma dioneia espinhosa.
— Elas são demônios também, tecnicamente — respondeu Electra, acariciando o caule, como se fosse um bicho de estimação perdido havia muito. — Plantas do éter. Não encontrei símbolos em nenhuma delas, mas descobri algo interessante: as pétalas,  raízes e folhas de certas espécies podem ser usadas como ingredientes de elixires que, quando bebidos,  têm efeitos úteis.
Ela apontou um suporte de madeira com frascos; tubos de ensaio enrolhados cheios de líquidos vermelhos, azuis e amarelos.
— Felizmente, a capitã Lovett se ofereceu para testá-los. Este aqui, quando consumido, cura os ferimentos do usuário. Ajudou a capitã Lovett a se recuperar parcialmente da paralisia. — Ela pegou um dos tubos e balançou o líquido vermelho-sangue que continha. — E este aqui recupera o mana de um demônio quando seu conjurador o toma — continuou, apontando para um dos frascos azuis após guardar o vermelho.
Houve uma pausa constrangedora enquanto a mão dela pairava sobre os tubos de ensaio cheios de líquido amarelo, até que deu de ombros e se virou de volta para o grupo.
— Eu comecei a pesquisa botânica muito recentemente, mas as plantas são um bom ponto de partida! — afirmou ela alegremente.
— Sem dúvida! — exclamou Serafim. — Isso vai nos dar uma bela vantagem!
— E quanto aos amarelos? — indagou Sylva. — O que eles fazem?
Electra franziu o cenho e deu de ombros enquanto balançava a cabeça.
— Não faço ideia. Sei que tem algum efeito em alguma coisa, mas isso é tudo. Você toma a poção e tem a impressão de alguma coisa acontecendo, mas ainda não consegui determinar o quê.
Ela deu um tapa na mão de Serafim, que tentava discretamente pegar um dos frascos. Então a porta atrás deles se fechou, e passos soaram pelo cômodo.
— Ah, Jeffrey está aqui — anunciou Electra, juntando as mãos. — Ele é meus olhos e ouvidos, sabe? Arrisca a vida e a saúde para coletar os cadáveres dos demônios órquicos depois de uma batalha na selva. São as espécies de demônios deles que raramente vemos na nossa área do éter e que, portanto, oferecem uma chance maior de revelar um feitiço ainda não descoberto.
Fletcher se virou para ver Jeffrey vindo na direção deles, olhos fundos e tez doentia amplificados pela parca iluminação. O criado sorriu para ele debaixo de uma cabeleira castanha bagunçada, com um corte parecido com o seu próprio.
— Claro, a asma o deixa meio lento — continuou Electra. — Mas o conhecimento que ele tem das selvas será valiosíssimo para vocês. Eu o venho treinando como alquimista pelos últimos dois anos.
— Oi, pessoal — acenou Jeffrey, tímido. — Estou muito empolgado em trabalhar com vocês. Sempre quis uma chance de contribuir, mas eles nunca me deixaram me alistar, por causa dos meus pulmões.  Agora eu posso ajudar.
— Espera, ele vai ser nosso guia? — exclamou Serafim.
— Para uma das suas equipes — respondeu Electra, um tanto irritada, erguendo as sobrancelhas para o rapaz. — A capitã Lovett o escolheu, mas decidiu oferecer às duas equipes a opção de levá-lo. Arcturo tem um guia próprio se vocês decidirem rejeitá-lo.
— Com todo respeito, estou um pouco preocupado — afirmou Otelo, arrastando os pés e parecendo envergonhado. — Se os médicos militares disseram que ele não estava apto para a linha de frente, como ele pode estar pronto para uma missão tão perigosa, nas profundezas da selva? Achei que receberíamos um batedor ou um rastreador.
— Eu estava inclinada a concordar com você quando Jeffrey me fez a sugestão — revelou Electra. — Só que eu desenvolvi para ele um remédio herbóreo que alivia parcialmente seus sintomas e, como já disse, Jeffrey conhece a selva melhor até do que um batedor. Ele estudou o ecossistema da região, assim como fiz com o éter. Sabe quais plantas comer, quais evitar. Cuidará bem de vocês, caso decidam levá-lo.
— Nós temos uma escolha? — perguntou Fletcher.
— Sim. Ninguém os obriga a escolhê-lo como guia, mas sei que a capitã Lovett ainda não encontrou uma segunda opção para sua equipe. Se vocês quiserem meus elixires e os novos feitiços que descobri, então aceitarão. Tão longe além das linhas inimigas, quem sabe que tipo de demônios encontrarão? Quero um alquimista por lá — respondeu Electra.
Por um momento, Fletcher fitou Jeffrey, que endireitou a postura, determinação estampada no rosto.
— Eu o levarei — decidiu.

6 comentários:

  1. interessante não entendo mas interessante

    ResponderExcluir
  2. Nossssa! Um suporte. Tá ficando divertido.

    ResponderExcluir
  3. Eu acho que Arcturo é apaixonado por Lovett, até os demônio dele demonstra.
    Aaah, eu gosto do Jeffrey, que bom que ele teve uma chance.

    ResponderExcluir
  4. Pô agora tá parecendo uma novel japonesa

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!