2 de março de 2018

Capítulo 20

Ao fim do café da manhã, os outros decidiram voltar aos quartos para dormir mais um pouco, mas Fletcher odiava a ideia de ficar sentado no frio. A conversa que tinha se desenrolado durante a refeição fizera o rapaz perceber quão pouco ele sabia sobre aquele lugar. Fletcher precisava achar Jeffrey. Se Serafim tinha aprendido tanto sobre a Cidadela com os criados, ele também extrairia o máximo de informações que pudesse daquela fonte.
Fletcher estava com sorte; Jeffrey ainda estava polindo o chão do átrio.
— Seria muito abuso se eu pedisse a você para me mostrar a Cidadela de novo? Não faz muito sentido você limpar o piso agora, já que vai ficar sujo de novo quando os alunos do segundo ano descerem para o café — argumentou Fletcher com o criado, que já parecia cansado.
— Só estou polindo o chão para que o Sr. Mayweather não grite comigo. Se eu puder dizer que estava guiando um aprendiz pelo castelo, então estou liberado! Vamos só pegar leve nas escadas desta vez — respondeu Jeffrey, sorrindo. — O que você gostaria de ver?
— Tudo! — retrucou Fletcher. — Tenho o dia inteiro.
— Então eu também tenho. — Jeffrey estava animado. — Vamos começar pela sala de conjuração.
A sala ficava no mesmo andar, na ala oriental. As grandes portas de aço eram difíceis de abrir, e o ranger das dobradiças enferrujadas ecoou pelo átrio. Jeffrey pegou uma tocha num suporte do lado de fora e levou o aprendiz para dentro, iluminando o caminho com a chama alaranjada e tremeluzente. As solas das botas pareciam grudar no piso que, sob exame mais próximo, mostrou-se feito de pesadas tiras de couro. Havia um grande pentagrama pintado no meio do aposento, o epicentro de uma espiral de estrelas gradualmente menores. Cada uma era cercada pelos mesmos símbolos estranhos que Fletcher tinha visto no livro do conjurador. Talvez fossem aquelas as chaves sobre as quais James Baker tinha escrito?
— Por que couro? — perguntou Fletcher.
— Os pentagramas e símbolos precisam ser desenhados em algo orgânico, ou não funcionam. Nós usávamos madeira, mas ela sempre queimava e precisava ser substituída. O reitor decidiu que couro era uma ideia melhor. Vem funcionando bem até agora; ele fica fumegando e esbraseando um pouco, e o cheiro é horrível, mas mesmo assim é melhor do que correr o risco de um incêndio toda vez que um dos demônios entra no éter.
— Eu não fazia ideia! — exclamou Fletcher, examinando uma fileira de aventais de couro pendurados em ganchos ao lado da porta.
— Não sei muito mais sobre este aposento. Seria melhor você perguntar a um dos alunos do segundo ano, mas eu não perderia tempo. A competição por patentes é feroz, e eles não gostam de ajudar os calouros. Assim evitam que você roube uma promoção que poderia ter sido deles. Odeio esse jeito de pensar, mas o reitor disse que as coisas são brutalmente competitivas nas linhas de frente, então por que não dar um gostinho disso aos aprendizes aqui?
Jeffrey ficou pela porta, recusando-se a explorar o salão.
— Vamos. Esse lugar me dá arrepios — murmurou.
O criado levou Fletcher ao corredor e os dois subiram ao segundo andar da ala oriental.
— Esta é a biblioteca. — Jeffrey empurrou a primeira porta. — Me perdoe por não entrar. A poeira é terrível para a minha asma.
O aposento parecia tão profundo e longo quanto o átrio era alto. Havia fileiras e mais fileiras de estantes de livros alinhadas nas paredes, cheias de tomos ainda mais grossos do que aquele escondido no fundo da bolsa deixada por Fletcher no alojamento. Longas mesas se estendiam entre cada estante, com velas apagadas dispostas a intervalos regulares sobre seus tampos.
— Há milhares de ensaios e textos teóricos escritos pelos conjuradores de outrora. A maioria é de diários, com datas espalhadas ao longo dos últimos mil anos, mais ou menos. Este lugar não é muito usado, considerando que já tem tanto trabalho a ser feito, mesmo sem as leituras extras. Mas alguns alunos vêm aqui em busca de dicas e truques, geralmente os plebeus que não têm dinheiro para gastar em Corcillum nos fins de semana — explicou Jeffrey, encostado à porta. — Eles precisam correr atrás de qualquer maneira; os nobres sempre chegam sabendo mais que eles, tendo crescido com o dom e tal.
— Fascinante — comentou Fletcher, espiando as pilhas de livros. — Estou surpreso que esta biblioteca seja usada tão raramente. Deve haver um verdadeiro tesouro de conhecimento por aqui.
Jeffrey deu de ombros e fechou a porta.
— Eu não saberia dizer, mas acho que o ensino nesta escola se tornou muito mais prático, por necessidade. Simplesmente não há mais tempo para pesquisas e experimentos; eles só se importam em despachar vocês à linha de frente o mais rápido possível.
Ao saírem dos aposentos, Fletcher viu um grupo de meninos e meninas passando pelo corredor.
— Esses são os alunos do segundo ano — contou Jeffrey, indicando-os com um aceno da cabeça. — Tiveram um ano muito difícil. A competição por patentes está mais feroz do que nunca. Agora que os criminosos provavelmente serão alistados no exército, além dos anões, esses novos batalhões vão precisar de oficiais. E os alunos que não tiverem um bom desempenho, serão escolhidos para liderar essas tropas em combate... ou vão apodrecer com eles na frente élfica. — Fletcher não achava que seria tão ruim liderar anões em combate, mas não pretendia começar um debate com Jeffrey; não enquanto ainda tinha tanto a aprender.
O rapaz fitou os alunos veteranos conforme eles desciam as escadas escuras, sem demônios. Pequenas esferas de luz flutuavam ao redor de suas cabeças como vaga-lumes, emitindo um brilho azul etéreo.
— O que são aquelas luzes? E cadê os demônios deles? — perguntou Fletcher conforme ele e Jeffrey os seguiam escada abaixo. Os veteranos o ignoraram, esfregando os olhos e murmurando entre si.
— Demônios não são permitidos fora dos alojamentos e das aulas. Eles vão te explicar essas coisas assim que todos os calouros tiverem chegado. Apesar de eu não fazer a menor ideia de aonde os demônios vão quando não estão com seus conjuradores. Quanto às luzes, são chamadas de fogos-fátuos. É uma das primeiras habilidades que ensinam aos aprendizes, acho. Em alguns dias vocês todos estarão fazendo essas coisas zanzarem para cima e para baixo.
— Mal posso esperar — comentou Fletcher, espiando as bolinhas azuis de luz enquanto elas flutuavam sem destino pelo átrio. — Não me espanta que só haja uma vela nos nossos aposentos.
Jeffrey o arrastou do átrio, descendo por uma escadaria ao lado da entrada da sala de conjuração.
— O castelo é enorme, mas a maioria dos aposentos é usada como acomodação para os nobres, professores e criados. O resto fica vazio ou serve como depósito, exceto por algumas salas de aula — explicou Jeffrey enquanto os passos de ambos ecoavam pelos degraus escuros.
Quando chegaram ao final das escadas, a primeira coisa que Fletcher percebeu foi uma sequência de grilhões incorporados às paredes de um longo e úmido corredor que se estendia pelas trevas. Ao atravessar o local, o rapaz viu dúzias de celas de prisão apertadas e sem janelas, com no máximo 1 metro de largura.
— Que lugar é este? — indagou Fletcher, horrorizado. As condições para as pessoas aprisionadas daquele jeito teriam sido insuportáveis.
— Esta parte da Cidadela foi construída no primeiro ano da guerra, oito anos atrás, para os desertores. Não sabíamos o que esperar, então sempre que as tropas eram enviadas para as linhas de frente, nós nos assegurávamos de que dormissem aqui embaixo na noite anterior. Assim, eles saberiam o que os aguardava se fugissem por covardia. Só recebemos algumas poucas dúzias de prisioneiros nos primeiros dois anos, ou pelo menos é o que me dizem. Hoje em dia, desertores são simplesmente açoitados quando são pegos e mandados de volta à guerra. — Jeffrey passou a mão pelas barras de ferro enquanto falava. Fletcher estremeceu e o seguiu pelo longo corredor.
Ficou surpreso quando o túnel claustrofóbico se abriu num aposento enorme. Tinha o formato do interior de um coliseu, com anéis concêntricos de escadas que também serviam como assentos, circundando uma área com piso de areia. Fletcher estimou que poderia facilmente receber uma audiência de quinhentas pessoas.
— O que diabos isto está fazendo aqui? — indagou. Certamente não poderia haver nenhuma explicação para uma arena gladiatória como aquela no porão da Cidadela.
— O que você acha, menino? — veio uma voz roufenha atrás dele. — Execuções, para isso que ela está aqui. Para dar alento aos soldados e aprendizes, sempre que capturássemos um orc, ao verem o monstro morrer como qualquer outra criatura.
Fletcher e Jeffrey giraram, deparando-se com um homem grisalho e quase banguela, apoiado num cajado. Ele não tinha o pé nem a mão direitos, substituídos por uma perna de pau grossa e um gancho terrivelmente afiado. Ainda mais estranha era sua armadura de cota de malha do exército antigo, resplandecente no verde-escuro e prateado de uma das velhas casas nobres.
— É claro que nunca foi usado — disse. — Quem é que já ouviu falar de um orc sendo capturado vivo!
Ele gargalhou consigo mesmo e estendeu a mão esquerda, que Fletcher apertou.
— Capturamos alguns gremlins, mas vê-los se encolher, tremendo num canto e mijando nas tangas não era muito gratificante. Eles provavelmente têm uma rixa mais séria com os orcs do que a gente, já que são escravizados e tal — contou o homem, mancando pela arena. — Bem, vamos lá, vamos ver o que você é capaz de fazer com esse khopesh. Faz muito tempo que não vejo um desses — chamou, brandindo o cajado e apontando para a espada de Fletcher. — Posso ter perdido minha mão boa na guerra, mas ainda posso lhe ensinar uma ou duas coisinhas com a esquerda. Diabos, eu tenho que poder; é o meu trabalho, não é?
— Quem diabos é esse cara? — sussurrou Fletcher, perguntando-se que tipo de louco escolheria passar seu tempo livre nas masmorras. Jeffrey se inclinou e murmurou de volta:
— Esse é Sir Caulder. É o mestre d’armas!
Sir Caulder riscou uma linha na areia com o cajado e chamou Fletcher mais para perto.
— Vamos lá. Posso ser um aleijado, mas tenho mais o que fazer.
Fletcher pulou para a arena e avançou até o mestre, pedindo mentalmente a Ignácio que ficasse ao lado de Jeffrey. Sir Caulder piscou para ele e ergueu o gancho numa saudação de brincadeira.
— Sei reconhecer um futuro oficial quando o vejo, mas será que você luta como um?
— Não quero machucar o senhor. Esta espada é afiada — avisou Fletcher, soltando a arma do cinto e erguendo para que o velho a visse. Era a primeira vez que ele realmente empunhava aquela arma nas mãos. A espada era muito mais pesada do que ele esperava.
— Sim, posso ser velho, mas com a idade vem a experiência. Este cajado aqui é duas vezes mais perigoso na minha mão única do que esse khopesh é nas suas duas.
Fletcher duvidou. O homem era magro como uma vassoura, e tinha mais ou menos a mesma altura, também. O rapaz brandiu a arma em sua direção sem muita convicção, mirando de forma a não acertar nada. Sir Caulder não se moveu para se defender, deixando a espada cortar o ar inofensivamente diante do seu peito.
— Muito bem, garoto, chega de brincadeira! — exclamou o mestre d’armas.
O cajado zuniu pelo ar, acertando a cabeça de Fletcher num golpe doloroso. O rapaz gritou e levou a mão à orelha, sentindo o sangue escorrer quente pela nuca.
— Vamos lá, essa espada não conseguiria nem perfurar esta cota de malha — provocou o velho com alegria, saltitando diante de Fletcher como um bode.
— Eu não estava pronto — rosnou Fletcher, em seguida estocando contra o estômago de Sir Caulder com as mãos. O cajado desceu como um martelo, batendo tão forte na espada que esta se cravou na areia. Fletcher foi recompensado com outra pancada no rosto, que deixou uma marca larga.
— Isso não vai ficar bonito amanhã. — Sir Caulder riu, espetando a barriga de Fletcher e fazendo o menino cambalear. — Veja, Jeffrey, eles carregam essas espadas por aí como se fossem enfeites. Escute bem o que vou dizer: quando um orc investe contra você dentro da mata, não ache que uma bala de mosquete vai detê-lo. Ele vai palitar os dentes com as suas costelas antes mesmo de perceber que levou um tiro — reclamou, pontuando cada palavra com uma cutucada do cajado.
A paciência de Fletcher acabou. Ele girou o khopesh num arco largo, pegando o cajado na curva e afastando-o para o lado. Em seguida investiu sob a guarda de Sir Caulder, derrubando o homem com um golpe do ombro para cair por cima dele.
Antes que um grito de triunfo pudesse deixar os lábios do rapaz, os joelhos de Sir Caulder tesouraram ao redor do pescoço dele, esganando as palavras. A perna de pau bateu na nuca de Fletcher, que largou a espada e tentou separar as pernas do velho guerreiro, mas estas eram como barras gêmeas de aço. O homem apertou mais, até que a visão de Fletcher se turvou. O mundo, então, desapareceu nas trevas.

4 comentários:

  1. Futuro oficial :3

    Huum... Acho que ele vai ser amigo dos orcs ainda :s

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  2. Muito bom!
    Lembrei de Eragom com o instrutor e amigo dele...

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  3. LEMBREI-ME DE HARRY E DUMBLEDORE INICIANDO UMA BUSCA POR HORCRUXES E UMA VASTA MANTA DE CONHECIMENTOS SENDO TRICOTADA POR UM, E ENCOBRINDO O MAIS NOVO. INCRÍVEL!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!