2 de março de 2018

Capítulo 2

— Saia dessa cama, Fletcher. Este é o único dia do ano em que eu realmente preciso de você acordado na hora certa. Não posso cuidar da barraca na feira e ferrar cavalos ao mesmo tempo. — O rosto avermelhado de Berdon surgiu assim que Fletcher abriu os olhos.
O rapaz grunhiu e puxou os cobertores sobre a cabeça. Jakov o tinha feito esperar do lado de fora por uma hora antes de deixá-lo entrar, com a condição de que Fletcher lhe pagasse um drinque da próxima vez que os dois estivessem na taverna.
Antes que pudesse se deitar, Fletcher teve de estripar e esfolar o alce, além de cortar a carne e pendurá-la junto à lareira para secar. O rapaz se permitiu apenas uma única fatia suculenta, assada por alguns poucos minutos no fogo, antes que ele perdesse a paciência e devorasse tudo. No inverno era sempre melhor salgar e secar a carne para mais tarde; Fletcher geralmente não tinha como saber quando faria a próxima refeição.
— Agora, Fletcher! E vá se lavar. Você está fedendo como um porco. Não quero que afaste os clientes. Ninguém vai querer comprar de um vagabundo. — Berdon arrancou as cobertas e saiu do minúsculo quarto do aprendiz, nos fundos da forja.
O rapaz estremeceu com a perda dos cobertores e se sentou. O quarto estava mais quente do que ele esperava. Berdon provavelmente passara a noite toda na forja ardente, se preparando para o dia de feira. Fletcher já aprendera havia muito tempo como se manter adormecido sob o retinir de metal, o rugido dos foles e o chiado das armas incandescentes sendo temperadas.
Ele atravessou penosamente a sala da forja até o pequeno poço do lado de fora, do qual Berdon costumava tirar a água de têmpera. Puxou o balde e, após um único instante de hesitação, despejou a água gelada na cabeça. A túnica e as calças também se encharcaram, mas, considerando que ainda estavam cobertas do sangue da noite anterior, isso deveria lhes fazer algum bem. Depois de vários outros baldes e uma esfregada enérgica com pedra-pomes, Fletcher estava de volta à forja, tremendo de frio e com os braços cruzados.
— Venha cá, deixe-me dar uma olhada em você.
Berdon estava parado à entrada do próprio quarto, com os longos cabelos ruivos iluminados pela lareira. Era de longe o maior homem da vila, e as longas horas martelando o metal na forja lhe concederam ombros largos e um peitoral sólido como um barril. Ele fazia com que Fletcher, um rapaz pequeno e magro para a idade, parecesse ainda menor.
— Bem como eu pensava. Você precisa se barbear. Minha tia Gerla tinha um bigode mais grosso que esse. Livre-se dessa penugem rala até que você tenha um de verdade, como o meu.
Os olhos de Berdon brilhavam enquanto ele torcia as pontas do próprio bigode ruivo que se eriçava, espesso, acima da barba grisalha. Fletcher sabia que o ferreiro tinha razão. Hoje os mercadores viriam à vila, e eles frequentemente traziam as filhas, meninas da cidade grande com longas saias plissadas e madeixas cacheadas. Mesmo que o rapaz já soubesse, graças à amarga experiência, que elas torceriam o nariz quando o avistassem, não faria mal algum se estivesse apresentável.
— Vamos lá. Enquanto se barbeia, vou separar a roupa que você vai vestir hoje. E nada de reclamar! Quanto mais profissional você parecer, melhor nossa mercadoria parecerá.
Fletcher saiu novamente para o frio congelante. A forja ficava bem ao lado dos portões da vila, cuja paliçada de madeira terminava a menos de um metro da parede dos fundos do seu quarto. Havia um espelho e uma pequena bacia largados ali perto. Fletcher sacou a faca de esfolamento e aparou a penugem, antes de inspecionar o próprio rosto no espelho.
Ele era pálido, o que não era surpreendente, já que estava tão ao norte de Hominum. Os verões eram curtos em Pelego, onde o garoto passava algumas curtas, mas divertidas, semanas com os outros meninos na floresta, pescando trutas nos córregos e assando avelãs na fogueira. Era a única época na qual Fletcher não se sentia um forasteiro.
A expressão dele era séria, com maçãs do rosto definidas e olhos castanho-escuros um tanto encovados. O cabelo era um denso emaranhado negro, que Berdon era obrigado a literalmente tosar quando ficava selvagem demais. Fletcher sabia que não era feio, mas também não exatamente belo se comparado aos meninos mais ricos, bem alimentados, de cabelos loiros e bochechas coradas da vila. Cabelos escuros eram incomuns nos assentamentos do norte, porém, tendo sido abandonado aos portões quando era só um bebê, Fletcher não ficava surpreso ao notar que não se parecia em nada com os outros. Era só mais uma coisa que o separava do resto.
Berdon tinha deixado uma túnica azul-clara e calças verde-limão na cama do rapaz. Fletcher empalideceu perante aquelas cores, mas engoliu os comentários quando percebeu a advertência no olhar de Berdon. As roupas não pareceriam estranhas num dia de feira. Os mercadores eram conhecidos pelos trajes extravagantes.
— Vou deixar você se vestir — comentou Berdon com uma curta risada, enquanto saía do quarto.
Fletcher sabia que as provocações do ferreiro eram sua maneira de demonstrar carinho, então elas não o incomodavam. O rapaz nunca fora do tipo tagarela, preferindo a companhia de si mesmo e dos próprios pensamentos. Berdon sempre respeitara sua privacidade, desde que o menino começara a falar. Era um relacionamento estranho, o solteirão rústico e bondoso com seu aprendiz introvertido, porém eles conseguiam fazer dar certo. Fletcher sempre seria grato por Berdon tê-lo acolhido quando ninguém mais o quis.
O menino tinha sido abandonado sem nada, nem mesmo uma cesta ou trouxa. Apenas um bebê nu na neve, berrando a plenos pulmões diante dos portões. Os ricos esnobes não acolheriam a criança abandonada, e os pobres não tinham condição de fazê-lo. Aquele era o inverno mais severo da história de Pelego, e a comida era escassa. No fim, Berdon se oferecera para ficar com o menino, já que tinha sido ele quem o encontrara em primeiro lugar. O ferreiro não era rico, mas não tinha outras bocas a alimentar nem dependia das estações para trabalhar, então era a pessoa ideal em vários aspectos.
Fletcher nutria um ódio profundo pela mãe, mesmo que não fizesse ideia de quem ela fosse. Que tipo de pessoa deixaria seu bebê nu para morrer na neve? O menino sempre se perguntava se não teria sido uma garota de Pelego, incapaz ou indisposta a criá-lo. Às vezes vasculhava os rostos das mulheres ao seu redor, comparando suas feições às próprias. Não sabia por que se dava a tal trabalho; nenhuma delas se parecia em nada com ele.
A barraca de Fletcher, carregada de espadas e adagas brilhantes, já estava montada junto à estrada principal, que ia do portão até os fundos da vila. E não era a única. Pelo caminho havia outras, lotadas de carnes e pelos. Outras mercadorias também estavam à mostra: móveis construídos com os altos pinheiros que cresciam no Dente de Urso e flores da montanha, de pétalas prateadas, em jarros para os jardins das ricas donas de casa da cidade.
Couro era outro produto famoso de Pelego, cujas jaquetas e os gibões eram valorizados acima de todas as outras pela qualidade do corte e da costura. Fletcher estava de olho numa jaqueta em particular. O rapaz tinha vendido quase todas as peles que conseguira naquele ano a caçadores, e fora capaz de economizar mais de trezentos xelins para essa compra. Ele a viu pendurada mais adiante, mesmo que Janet — a mercadora que tinha passado várias semanas fazendo o casaco — tivesse lhe dito que ele só poderia comprar pelos trezentos xelins se ninguém fizesse uma oferta melhor até o fim do dia.
A jaqueta era perfeita. Forrada com pelo ultrafelpudo de lebre da montanha, macio e cinzento, salpicado de castanho. O couro propriamente dito era de um mogno profundo, robusto e imaculado. Era à prova d’água e não mancharia fácil, nem se rasgaria quando Fletcher perseguisse uma presa por entre os espinheiros da floresta. O rapaz já se via vestindo o casaco; agachado na chuva, bem aquecido e camuflado com uma flecha preparada no arco.
Berdon estava sentado atrás dele, diante da forja, ao lado de uma bigorna e uma pilha de ferraduras. Mesmo que suas armas e armaduras fossem de alta qualidade, ele tinha aprendido que havia muito dinheiro a se ganhar ferrando os cavalos de carga dos mercadores exaustos, cuja longa jornada pelas vilas remotas ao longo do Dente de Urso tinha apenas começado.
No último ano que os mercadores apareceram, Fletcher passara o dia inteiro ocupado, até mesmo afiando as espadas depois que a barraca ficara vazia. Tinha sido um ótimo ano para se vender armas.
O Império de Hominum havia declarado guerra numa nova frente ao norte das montanhas do Dente de Urso. Os clãs élficos tinham se recusado a pagar o imposto anual, dinheiro que o Império de Hominum exigia em troca da proteção contra as tribos órquicas das selvas do sul, lá do lado oposto do país. O império declarara guerra para cobrar as dívidas, e os mercadores temiam grupos de elfos saqueadores. No fim, acabou sendo uma guerra de princípios com algumas escaramuças e nada mais, e acabou num acordo de cavalheiros, acertando que o conflito não se agravaria. Havia uma coisa na qual tanto Hominum quanto os clãs élficos concordavam implicitamente: os orcs eram o verdadeiro inimigo.
— Será que eu vou ter tempo de dar uma olhada na feira este ano? — perguntou Fletcher.
— Acho que sim. Não há muita demanda por armas novas desta vez. As novas tropas do Dente de Urso podem ser compostas de velhos e aleijados, mas acho que os mercadores acreditam que a presença dos militares vá desencorajar os salteadores a vaguear por estas bandas e atacar seus comboios. O pior é que provavelmente estão certos; não acho que terão de se defender muito este ano. Não faremos muitos negócios com eles. Mas, pelo menos, sabemos que ainda há necessidade dos meus serviços da parte dos militares, depois da sua visita à linha de frente no mês passado.
Fletcher estremeceu com a lembrança da jornada sobre a montanha até o forte mais próximo. A linha de frente era um lugar tenebroso, cheio de homens com olhares vazios, esperando pelo fim de seu período de serviço. A frente élfica era o lixão onde eram despejados os homens que o exército não queria mais, as barrigas vazias incapazes de lutar.
Fricção. Era assim que alguns soldados explicavam. Alguns a consideravam uma bênção, longe dos horrores das trincheiras na selva. Os homens morriam aos milhares na frente órquica, suas cabeças eram tomadas como troféus e abandonadas em estacas à beira da mata. Os orcs eram uma raça selvagem e brutal, criaturas de trevas com intenções implacáveis e sádicas.
Porém, havia um tipo diferente de horror na fronteira com os elfos: uma degradação constante. Inanição lenta e crescente pela ração insuficiente. Exercícios sem fim aplicados por sargentos cansados que não sabiam mais o que fazer. Generais tacanhos que permaneciam em seus gabinetes aquecidos enquanto seus homens tremiam em seus catres.
O intendente estivera relutante em comprar qualquer coisa, mas ele precisava cumprir a quota, e as linhas de suprimentos sobre o Dente de Urso tinham se reduzido a um fiapo havia muito, devido ao aumento da demanda na frente órquica. O fardo de espadas que Fletcher estivera carregando nas costas desde aquela manhã fora vendido por muito mais dinheiro do que valia, deixando a bolsa do garoto pesada com xelins de prata, ainda que consideravelmente mais leve que antes. Se tivesse trazido mosquetes, teria sido pago com soberanos de ouro. Berdon estava torcendo para que os mercadores trocassem armas de fogo por espadas. Se fosse o caso, ele poderia revender os mosquetes ao intendente na próxima estação.
Naquela noite, enquanto jazia deitado no beliche que lhe emprestaram no alojamento do quartel, esperando a manhã para que pudesse voltar a Pelego, Fletcher decidiu que, se algum dia se alistasse no exército, jamais se permitiria acabar num lugar como aquele.
— Você, garoto. Tire sua barraca da frente dos portões. Vai bloquear o caminho dos mercadores — ralhou uma voz imperiosa, interrompendo seus pensamentos.
Era o pai de Didric, Caspar; um homem alto e magro vestido com roupas caras de veludo, costuradas a mão com tecido púrpura bordado delicadamente com ouro. Encarava Fletcher como se sua mera existência o ofendesse. Didric se escondia atrás dele, com um sorriso no rosto e o cabelo loiro emplastrado de cera, dividido para o lado. Fletcher olhou a barraca vizinha, consideravelmente mais próxima da estrada que a dele.
— Não vou mandar de novo. Tire agora, ou chamarei os guardas — mandou Caspar, com rispidez.
Fletcher olhou para Berdon, que ergueu os ombros largos e lhe deu um aceno de cabeça. No fim das contas, não faria a menor diferença. Se alguém precisasse de armas, conseguiria encontrá-los.
Didric piscou um olho e fez um gesto de “xô”. Fletcher ficou vermelho, mas começou a se mexer para cumprir a ordem. A hora de Didric ainda chegaria, mas o pai do guarda era um homem incrivelmente poderoso. Era agiota e tinha a vila quase inteira no bolso. Quando um bebê precisava de remédio da cidade, Caspar estava lá. Quando uma temporada de caça ia mal, Caspar estava lá. Como poderia um camponês que mal era capaz de assinar o próprio nome compreender o conceito de juros compostos ou os números complexos escritos acima? No fim, todos descobriam que o preço da própria salvação era muito maior do que eles poderiam pagar. Fletcher odiava que Caspar fosse reverenciado por tanta gente na vila, já que não passava de um vigarista.
Enquanto Fletcher lutava para puxar a barraca, derrubando várias adagas cuidadosamente polidas na terra, o sino da vila começou a soar. Os mercadores tinham chegado!


10 comentários:

  1. Esse livro parece legalegal. Uma parada meio às crônicas do matador do rei.

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  2. Comecei a ler e já estou adorando vlw karina

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  3. Oq são essas figuras nos finas do capítulo?

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  4. Esse livro me lembrou magisterio

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  5. Berdon e gente boa, quase um pai para o fletcher

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  6. Amando!Eu tinha perdido o site ainda bem q achei n tava conseguindo fica sem os seus livros aqui karina❤

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Boa leitura, E SEM SPOILER!