31 de março de 2018

Capítulo 1

MORRIGHAN

Eu tinha oito anos de idade na primeira vez que o vi. Naquele momento aterrorizante, eu estava certa de que morreria. Ele era um abutre, e eu nunca havia estado tão perto de um antes. Sozinha. Eu não tinha nada para me defender, exceto por algumas pedras que estavam próximas aos meus pés, e estava paralisada demais pelo medo para me abaixar e pegá-las. Mas um punhado de pedras não teria me ajudado muito de qualquer maneira. Vi a faca embainhada em sua cintura.
Ele ficou parado em cima de uma rocha, olhando para baixo com curiosidade, me estudando. Com o peito nu e com seus cabelos selvagemente embaraçados, ele era a figura feroz sobre a qual haviam me advertido, mesmo que fosse pouco mais que uma criança. Seu peito era estreito e suas costelas poderiam ser facilmente contadas.
Ouvi o distante retumbar de cascos, e medo vibrou através de mim. Mais estavam vindo, e não havia lugar para correr. Eu estava encurralada, me encolhendo entre duas pedras em uma abertura escura embaixo dele. Eu não respirava. Não me movia. Eu não conseguia nem tirar meu olhar dele. Eu estava totalmente sem saída, um coelho silencioso efetivamente caçado e encurralado. Eu iria morrer. Ele olhou para o saco de sementes que eu havia passado a manhã recolhendo. Em meu terror e pressa eu o havia derrubado, e as sementes se espalharam entre as pedras.
O olhar do garoto se ergueu, e o som de cavalos e vozes encheu meus ouvidos.
— Você conseguiu alguma coisa? — Uma voz alta. Uma que a Ama odeia. Aquela da qual ela e os outros cochicham. Aquela que roubou Venda.
— Eles se dispersaram. Não consegui alcançar. — O garoto falou.
Outra voz repulsiva.
— E nada foi deixado para trás?
O garoto balançou a cabeça.
Houve mais gritos de descontentamento e o ressoar de cascos novamente. Partindo. Eles estavam partindo. O garoto desceu da pedra e também partiu, sem mais um olhar ou palavra para mim, seu rosto deliberadamente virado em outra direção, quase como se estivesse envergonhado.

* * *

Eu não o vi novamente por dois anos. Estar tão próxima ao perigo instilou uma forte dose de medo em mim, e eu não vaguei para longe da tribo novamente. Pelo menos, não até um dia quente de primavera. Os abutres pareciam ter seguido em frente. Não havíamos visto nenhum sinal deles desde a primeira geada do outono.
Mas ali estava ele, uma cabeça mais alto e tentando arrancar taboas da minha lagoa favorita. Seu cabelo loiro havia crescido mais selvagemente, seus ombros estavam ligeiramente mais largos, suas costelas tão evidentes como sempre. Eu observei sua frustração crescer quando os caules que ele puxava arrebentavam um atrás do outro e ele ficava somente com pedaços inúteis de talos.
— Você é impaciente.
Ele se virou, sacando sua faca.
Mesmo na tenra idade de dez anos, eu sabia que estava correndo um risco me expondo. Eu não estava certa de por que fiz isso, especialmente quando vi seus olhos. Ferozes e famintos, não havia reconhecimento.
— Tire suas botas — eu disse. — Vou te mostrar.
Ele fez um arco com a faca no ar quando dei um passo a frente, mas eu me sentei e removi meus próprios calçados de pele de bezerro, nunca tirando meus olhos dele, pensando que eu poderia ter que correr, afinal.
Quando seu medo retrocedeu, o mesmo aconteceu com seu olhar frio e feroz, e o reconhecimento finalmente se espalhou pelo seu rosto. Eu havia mudado mais do que ele em dois anos. Ele abaixou sua faca.
— Você é a garota que estava entre as pedras.
Assenti e apontei para suas botas.
— Tire-as. Você terá que entrar na água se quiser pegar alguns bulbos.
Ele tirou suas botas e me seguiu, com a água da lagoa na altura dos joelhos, os juncos se espalhando ao nosso redor. Eu disse a ele para sentir com seus dedos do pé, para colocá-los dentro da lama para soltar o tubérculo grande e carnudo antes de puxá-lo. Nossos dedos dos pés tinham que trabalhar tanto quanto nossas mãos. Havia poucas palavras entre nós. O que havia para um abutre e uma criança dos Remanescentes dizer um ao outro? Tudo o que tínhamos em comum era a fome. Mas ele parecia entender que eu estava retribuindo o seu ato de misericórdia de dois anos atrás.
No momento em que partimos, ele tinha um saco cheio de raízes carnudas.
— Essa é minha lagoa agora, — ele disse rispidamente enquanto amarrava o saco em sua sela. — Não venha aqui novamente. — Ele cuspiu no chão para enfatizar o que estava dizendo.
Eu sabia o que ele estava realmente querendo dizer. Os outros viriam aqui agora também. Não seria seguro.
— Qual é o seu nome? — perguntei enquanto ele montava em seu cavalo.
— Você não é nada! — ele respondeu, como se tivesse escutado uma pergunta diferente saindo de meus lábios. Ele se acomodou em sua sela, então relutantemente olhou em minha direção novamente. — Jafir de Aldrid.
— E eu sou...
— Eu sei quem você é. Você é Morrighan. — Ele se afastou galopando.
Somente quatro anos depois eu o vi novamente e, durante todo esse tempo, eu me perguntei como ele sabia meu nome.

4 comentários:

  1. Também quero saber :3

    Uma profecia :v?

    ResponderExcluir
  2. Cheiro d romance no ar. Curiosa pra saber como ela já sabia o nome dela?

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!