22 de março de 2018

Capítulo 1


Um caleidoscópio violeta cruzou a visão de Fletcher. Em seguida, ele se viu em um abismo, com água escura inundando a boca e o nariz.
Algo borrachudo lhe acertava o tornozelo enquanto ele se debatia, lutando contra o arrasto inexorável rumo à escuridão negra. Seus pulmões ardiam, frios como gelo, conforme ele engasgava com o líquido ferroso. Sua consciência tornava-se um borrão, minguando junto ao calor de seu corpo. Ele sentiu-se entorpecido e leve.
A cada instante, lembranças lampejavam por seu cérebro sufocado. Sariel, esmagado sob os destroços da pirâmide. O rosto zombeteiro de Jeffrey, pisando nos corpos paralisados de seus amigos, uma zarabatana nas mãos. O portal, girando. Sua mãe.
Ele pairava no vazio.
No entanto, dedos grossos agarraram seu pulso estendido e o puxaram para cima. Ele ofegou quando o ar frio lhe bateu no rosto, depois sentiu a batida de um punho carnudo em suas costas enquanto vomitava o líquido que engolira.
— Isso aí, põe tudo para fora — murmurou Otelo, conforme Fletcher piscava para afastar a água dos olhos e via o novo mundo ao redor.
Estavam em uma ilhota rochosa com a forma de uma tigela virada de cabeça para baixo e coberta por uma camada espessa de algas verdes. Percebeu que estavam no meio de um canal de águas escuras, com árvores submersas, semelhantes às de um manguezal, formando uma barreira grossa de ambos os lados. O céu acima era de um azul desbotado e melancólico, como um anoitecer de inverno.
Cress, Sylva e sua mãe também estavam ali, trêmulas e ensopadas, encolhidas ao lado de Lisandro, enquanto Tosk aninhava-se no colo da dona. Ignácio parecia ocupado, secando a desgrenhada Atena a lambidas, e Salomão, de bruços, abraçava a ilha, como um náufrago, ofegando com o esforço hercúleo que devia ter sido necessário para conseguir alçar a si mesmo e o paralisado Grifo para fora da água.
— Está se mexendo — disse Sylva, apontando para o portal que se contraía a uns 3 metros da ilha, semissubmerso nas águas plácidas. — Foi por isso que vocês foram parar lá longe quando atravessaram o portal da câmara.
Diante dos olhos de Fletcher, a abertura, encolhendo, pareceu afastar-se mais e mais antes de desaparecer com um ruído baixo de estouro.
— Nada disso — discordou Otelo, apontando para as árvores que se moviam ao lado. — Somos nós que estamos nos mexendo.
Era verdade. Pouco a pouco eles se moviam pelo rio escuro. Era quase como se a ilha estivesse... flutuando.
Fletcher engatinhou até a beira das rochas. Lá embaixo, nas águas pantanosas, uma cabeça reptiliana virou-se de lado, revelando uma íris salpicada de dourado que piscou para ele.
— Não é uma ilha — sussurrou Fletcher, vendo uma pata palmeada deslizar pelas águas. — Estamos em cima de um Zaratan.
Ele recuou bem devagar, tomando cuidado para não escorregar na superfície do casco. Pois é o que aquilo era: um casco. O demônio sobre o qual se moviam podia ser descrito como uma gigantesca tartaruga anfíbia. Ele supôs que aquele fosse razoavelmente jovem, pois os seres daquela espécie podiam ficar muitas vezes maiores que o espécime onde se acomodavam.
Fletcher olhou para as árvores submersas ao lado, considerando as opções. Sem nenhuma terra à vista, não tinham para onde ir enquanto não encontrassem alguma coisa melhor.
Um clarão azul veio das árvores em torno; Fletcher se virou, percebendo que a forma rochosa de Salomão havia desaparecido, infundido através do couro de conjuração encharcado de Otelo.
— Salomão afundaria como uma pedra se nossa carona aqui decidisse mergulhar — explicou o anão, olhando para a água escura com um estremecimento.
— Boa ideia — elogiou Fletcher, sentindo uma pontada de medo por Lisandro. O Grifo, ainda paralisado devido aos dardos com que Jeffrey o atingira, provavelmente teria se afogado se o Zaratan não estivesse passando por perto.
Quanto a Ignácio, ele se enrodilhara em torno de Atena para aquecê-la com o calor do próprio corpo, enquanto ela, por sua vez, o envolvera com as asas, como se fossem um cobertor. Fletcher deixou que ficassem assim. Seria bom para os dois demônios criar laços. Agora, mais que nunca, ele precisava de que ambos se tornassem uma equipe.
O grupo ficou em silêncio. O único som que se ouvia era o do estalo das árvores ao vento. A cada rajada, a superfície plácida da água estremecia, como uma criatura viva.
— O único problema agora é: o que vamos fazer? — finalmente perguntou Cress, piscando ante o céu escuro.
— Esperar — respondeu Sylva, apoiando a cabeça no ombro de Cress. — Até encontrarmos terra firme ou algum lugar para nos esconder. Vamos torcer para que o Zaratan nos tire daqui rapidinho.
— Por que precisamos nos esconder? — indagou Otelo.
— Você acha que os orcs não vão adivinhar para onde fomos? — retrucou Sylva, apontando para todos eles. — Quando virem o rastro de sangue no chão, vão saber que escapamos por um portal até sua região no éter. Claro, as chaves não nos transportam até um local preciso, mas eles saberão mais ou menos onde estamos.
— Talvez nos deixem ir embora — sussurrou Cress, meio que para si mesma.
— Acabamos de invadir o coração do lugar mais sagrado para os orcs, destruímos metade do exército que levaram anos para formar — argumentou Sylva, balançando a cabeça. — Não, eles não nos deixarão escapar assim tão fácil. Em questão de horas, os cavaleiros e suas Serpes começarão a nos caçar; entrarão no éter assim que voltarem da busca pelas outras equipes. Temos sorte de Fletcher ter enterrado uma grande quantidade dos demônios dos xamãs mais próximos, porque assim eles ficarão desorientados, pelo menos por algum tempo.
— Ela tem razão — concordou Fletcher. — Vamos esperar até encontrar terra firme e a cobertura de uma floresta. Aqui estamos expostos demais.
Ele voltou, arrastando os pés, e se aconchegou junto à mãe. Era estranho tocá-la. Ele mal conseguia acreditar que ela era real. Seria mesmo ela... depois de todo aquele tempo?
Todos aqueles anos inspecionando os rostos das mulheres que encontrava, pensando na desalmada que tivera a coragem de abandoná-lo nu na neve... para agora descobrir que, na verdade, ela o amara e fora afastada dele durante todo aquele tempo.
Com a cabeça apoiada em seu ombro, Fletcher se deu conta de que a mulher tremia; o corpo estava tão exaurido que não lhe fornecia proteção alguma contra o frio. Os trapos imundos que usava estavam encharcados.
— Cress, onde estão os alforjes? — perguntou Fletcher.
— Hã... sabe o que é... — murmurou Cress, retorcendo as mãos no colo. — A gente aterrissou na água, e eu precisava das mãos para boiar. Só consegui ficar com um dos sacos de pétalas e dois dos alforjes. O seu e o de Jeffrey. Tome.
Ela empurrou um dos alforjes ensopados para Fletcher. Ao pensar na perda das pétalas preciosas, um estremecimento de medo espalhou-se pelo peito do jovem — eram sua única imunidade contra o veneno natural da atmosfera do éter —, mas ele afastou aquela preocupação por um momento.
Em vez disso, abriu o alforje e ficou aliviado ao descobrir que o duro estojo de couro impedira a penetração da maior parte da água. Revirando o fundo, ele retirou a jaqueta que Berdon lhe dera de aniversário e a envolveu bem apertado em torno dos ombros da mãe, cobrindo-lhe a cabeça com o capuz. Ela esfregou o rosto no pelo macio de coelho.
Pela primeira vez, os olhos de Fletcher encontraram os da mãe. A água do pântano lavara a maior parte da sujeira do rosto da mulher, e Fletcher ficou maravilhado ao ver a semelhança impressionante com a irmã gêmea, Josefina, a mulher que vira ao lado de Zacarias Forsyth em seu julgamento. Entretanto, elas não eram idênticas, pelo menos não nas atuais condições de sua mãe. Os olhos estavam fundos, mirando inexpressivamente um ponto distante. Fletcher lhe afastou uma mecha de cabelo do rosto, magro quase esquelético. Quem poderia saber o que ela havia sofrido nos dezessete anos de cativeiro?
— Alice, você consegue me ouvir? — perguntou Fletcher, tentando encontrar seu olhar, mas não havia nenhuma luz atrás dos olhos da mãe. — Mãe?
— Mãe? — repetiu Otelo, suavemente. — Fletcher... você está bem? Essa é lady Cavendish.
— Não — retrucou Fletcher, ajudando a mulher a enfiar os braços finos na jaqueta. — Lady Cavendish morreu ao cair; ela jamais foi a prisioneira. Esta mulher ficou lá por muito mais tempo... minha vida inteira. Ela reconheceu Atena e chamou por seu filhinho, e eu reconheço esse rosto, do sonho que tive. Esta é minha mãe. Os orcs a capturaram quando eu era criança.
Otelo franziu a testa, então entendeu. Quando, contudo, abriu a boca para falar, seus olhos se viraram na direção das águas pantanosas atrás deles.
— Pra trás! — berrou, mergulhando em direção ao casco.
Ele imobilizou Fletcher no chão, e o rapaz ouviu o estalo oco de mandíbulas acima de sua cabeça. Um hálito fétido com cheiro de peixe o encobriu, e então a criatura se foi, deslizando de volta para as águas escuras, sem fazer praticamente nenhum ruído.
Fletcher viu de relance uma cabeça reptiliana e, por um instante de pânico, pensou que os Serpes os tivessem alcançado. Foi então que notou os vultos encurvados e cilíndricos nas águas ao redor, e suas aulas na Academia Vocans cintilaram em sua mente sem que ele as invocasse. Sobeks. Enormes criaturas bípedes, semelhantes a crocodilos, que usavam as garras e mandíbulas para destroçar seus oponentes — isso se suas grandes caudas não os espancassem até a morte antes. Encurvado, com 1,50 metro de altura, o Sobek era um demônio de nível nove. E, agora, eles estavam rodeados por dezenas deles.

4 comentários:

  1. SOBEK? - ai mds. referencias... referencias

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    Respostas
    1. Só podemos pensar em Deuses do egito.

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  2. Como eles vão sair?
    Duvido que vão mandar uma equipe os tirar de lá.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!