17 de março de 2018

Capítulo 1


Rory apertou a mão da irmã, perguntando-se se ela conseguia sentir o suor frio na palma dele. A fila em que estavam avançava implacável em direção à entrada da tenda, onde os Inquisidores aguardavam. Ele tentou evitar os olhares dos aldeões curiosos que assistiam e cochichavam toda vez que uma criança entrava, irrompendo então em vivas quando ela saía ilesa.
— A gente pode ir brincar agora? — indagou Daisy, tirando o polegar da boca. — Isto é tão chato.
Rory forçou um sorriso e segurou a mão da irmã com mais força. Os olhinhos azul-bebê o contemplavam de baixo, tomados por impaciência infantil. Ele acariciou o cabelo loiro emaranhado e soltou os nós com os dedos.
— Claro que podemos. Só temos que fazer um testezinho rápido e então faremos o que você quiser.
Daisy sorriu e voltou a chupar o dedão, seu passatempo favorito. Não importava o quanto a mãe brigasse, a menina sempre estava com o dedo na boca. Rory amava isso na irmã; nada a perturbava, nem mesmo a ameaça de umas chineladas. Nem mesmo um teste com os Inquisidores. Daisy era jovem demais para ser considerada, mas aquela era a primeira vez que os Inquisidores visitavam a vila de Robur. Eles haviam requisitado o comparecimento de todas as crianças, independentemente da idade, para que pudessem mandar buscá-las quando tivessem idade para lutar.
Quanto a Rory, ele acabara de completar 15 anos. Se seu teste o indicasse como adepto, a Inquisição poderia levá-lo embora de seu lar, mesmo que o rapaz não quisesse partir. Mandariam-no para lutar como mago de batalha nas trincheiras da selva, junto aos soldados durões do Sul. Mesmo que acabasse ferido, poderia ser enviado como refugo à frente élfica para apodrecer com os aleijados, os insanos e os doentes. De certa forma, a segunda opção parecia melhor. Robur ficava a poucos quilômetros das linhas de frente élficas, no extremo nordeste de Hominum. Havia pouquíssimos soldados nesta ponta da fronteira; somente um forte antigo e um pequeno pelotão de dez homens. Os generais tinham decidido que as montanhas Dente de Urso a oeste eram de importância estratégica muito maior. Se Rory conseguisse ser refugado, quem sabe poderia ser alocado ali perto.
— Rory — reclamou Daisy, puxando a mão do irmão. — Não quero fazer o teste, tá demorando demaaaais.
Rory se ajoelhou e a abraçou.
— Se nós não entrarmos, mamãe vai ter problemas. Não pode esperar mais um pouquinho? Eu carrego você nas minhas costas na volta para casa, se esperar.
— Tá bom, mas eu também quero ser carregada agora, minhas pernas estão cansadas.
Rory sorriu com o pedido, afastando as preocupações. Daisy era capaz de correr o dia inteiro sem se cansar, mas ainda assim ele ficou feliz em colocá-la nos ombros, oferecendo uma boa vista.
— Rory, bote ela no chão! — veio uma voz da multidão próxima.
Era a mãe deles, voltando da coleta de flores na encosta da Dente de Urso. A cesta que carregava estava transbordando de pétalas azuis, prontas para as perfumarias de Boreas e Corcillum.
— Está tudo bem, mãe, ela gosta! — respondeu Rory, balançando Daisy para cima e para baixo. Ele estremeceu quando a irmã riu e agarrou um punhado de cabelos loiros espetados para se segurar.
— Só acabem logo com isso e venham para casa. Preciso de ajuda para embalar essas flores.
Rory, obediente, fez que sim com a cabeça, mas a lembrança do teste iminente acabou com seu bom humor. Sentiu pena da mãe. Ela tivera uma vida difícil, criando-os sozinha com a renda mirrada de uma catadora de flores. Rory ainda se lembrava de sua aparência do tempo em que era um garotinho. Ela fora bela então, com longas madeixas cor de mel e olhos faiscantes. Hoje em dia, por outro lado, vivia com o rosto amargurado de preocupação, os cabelos das têmporas repletos de fios grisalhos. Rory se lembrou de que ela estaria cansada da longa manhã nas encostas da montanha. Ele seria um bom filho aquela noite e a deixaria descansar. A mãe merecia uma folga.
— Rory, anda logo! — sibilou um menino atrás dele.
Rory foi empurrado adiante, avançando aos tropeços até a entrada da tenda. Um guarda com o uniforme vermelho do exército real indicou Daisy com um gesto da cabeça. Rory a colocou no chão e lhe deu a mão. O soldado deve ter notado a expressão em seu rosto, pois lhe lançou um sorriso encorajador.
— Não se preocupe, guri, não vai doer. Vocês vão entrar e sair num minuto.
Com isso, empurrou os dois para dentro da tenda e fechou a aba atrás deles. O interior estava mergulhado em penumbra; um candelabro solitário ao centro do aposento, com velas fumacentas posicionadas em seus suportes, era a única fonte de luz. O ar parecia grudento e pesado, provocando em Rory o desejo súbito de se lavar. Havia dois homens logo à frente, com rostos carregados de mau humor e impaciência. Seus uniformes eram de boa feitura e ajustados ao corpo, cerzidos de tecido preto com botões e bordados dourados. Os olhos do garoto não conseguiram deixar de correr às bainhas, de onde pendiam espadas filigranadas. O homem mais próximo deu um passo à frente e estalou os dedos com impaciência.
— A garota primeiro. Estenda a mão.
O Inquisidor tinha olhos estranhamente fundos e uma tez doentia. Sua silhueta era magricela, quase malnutrida. Daisy deu um passo hesitante à frente, depois recuou de novo quando o homem lhe deu um sorriso com lábios finos.
— Você está assustando a pobre menina, Charles — disse o outro homem. — Ande logo com isso; já ficamos tempo demais neste fim de mundo.
Era um sujeito de aparência severa, pálido e com pequenos olhos negros que reluziam perigosamente. Tinha o cabelo preso num rabo de cavalo, tão puxado para trás que a pele parecia se esticar sobre o crânio como a lona de um tambor.
— Cuidado, Rook. Você se esquece de que fiz a maioria dos testes hoje. Prefere tomar meu lugar? — retrucou Charles, exibindo os dentes num sorriso ainda mais largo e chamando Daisy para si. — Não, acho que não. Quem sabe que doenças essas crianças imundas carregam? Não vou tocar em mais nenhuma enquanto estiver aqui. Ah, como queria voltar a Corcillum...
Daisy deu mais um passo atrás, e Rory percebeu que a corajosa irmãzinha estava assustada. Ele se adiantou e a segurou gentilmente pelo pulso. Quanto antes saíssem dali, melhor.
— Vamos lá, Daisy... Aperte a mão do moço bonzinho para que a gente possa sair e brincar — insistiu, acenando respeitosamente com a cabeça para Charles.
— Não acho que ele seja tão bonzinho assim, Rory — respondeu Daisy cautelosa, provocando uma risada seca de Rook.
Charles estalou a língua com impaciência e estendeu os finos dedos brancos, pousando-os no pulso exposto de Daisy. O Inquisidor fechou os olhos e franziu o cenho, como se estivesse profundamente concentrado. Rory arregalou os olhos ao ver as pontas dos dedos de Charles se iluminando com um pulso tênue de luz azul, e seu coração disparou com a possibilidade de que Daisy fosse uma adepta. Porém, Charles logo tirou a mão, balançando a cabeça desapontado.
— Mais uma normal — anunciou, dispensando Daisy com um aceno. A menina se escondeu atrás de Rory e envolveu a cintura do irmão. — Garoto, você sabe o que fazer.
Rory estendeu a mão, já pensando no ar fresco e na luz do sol. A primeira coisa que ele e Daisy fariam depois de sair seria nadar no riacho da vila. Focou seus pensamentos na água cristalina, tentando ignorar os dedos úmidos que tocavam na pele da sua palma. A mão do sujeito latejou com luz azul de novo e o coração de Rory se elevou. Era igual a como fora com Daisy. Ele estava seguro. O alívio se infiltrou pelo menino como fogo. O sangue borbulhou, pulsando febrilmente com cada batida do coração.
— Eu não acredito — sussurrou Charles. — Eu disse que valeria a pena vir aqui, Rook.
Rory arrancou a mão num puxão, pois a sentiu queimar e congelar ao mesmo tempo. Com um sobressalto horrorizado, viu que ela brilhava com a mesma luz azul, tão brilhante que a mera visão doía em meio à escuridão da tenda. Tentou recuar e sair daquele lugar, mas, de alguma forma, Rook já estava ao seu lado, segurando-o com firmeza pelos ombros, com braços que pareciam feitos de ferro.
— Ora, ora. Parece que temos um adepto nas mãos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!