13 de março de 2018

Capítulo 1


Fletcher abriu os olhos, mas só viu escuridão. Grunhiu e cutucou Ignácio, cuja pata estava espalmada sobre seu queixo. O demônio reclamou com um choramingo sonolento antes de descer para a pedra fria sob os dois.
— Bom dia. Se é que ainda é dia — resmungou Fletcher, acendendo um fogo-fátuo, que pairou no ar como um sol em miniatura, girando suavemente.
O aposento foi banhado em uma fria luz azul, revelando a minúscula cela sem janela, pavimentada com lajes de pedra lisa. No canto havia uma latrina, um simples buraco no chão coberto com um pedaço serrilhado de ardósia. Fletcher fitou a grande porta de ferro engastada na parede à frente.
Como se tivesse sido combinado, um barulho crepitante soou quando a pequena portinhola na base da porta foi levantada e mão enluvada em cota de malha se enfiou pela abertura. Tateou ao redor, buscando o balde vazio colocado ao lado da porta. Seguiu-se o som de água sendo despejada, e o balde foi devolvido, cheio até a boca. Fletcher observou a portinhola com esperança, depois grunhiu ao ouvir o eco de passos se afastando.
— Nada de comida de novo, parceiro — anunciou o garoto a Ignácio, acariciando o queixo do demônio abatido.
Não era incomum; às vezes o carcereiro simplesmente não se dava o trabalho de trazer comida. O estômago de Fletcher roncou, mas o rapaz o ignorou e catou a pedra solta, que ele guardava ao lado da cama, para riscar mais um traço na parede.
Mesmo que fosse difícil medir a passagem do tempo sem luz natural, Fletcher presumia que recebia comida e água — ou, às vezes, como hoje, só água — uma vez por dia. Não precisava contar as centenas de riscos na parede para saber quanto tempo fazia que estava aprisionado; já sabia de cor.
— Um ano — suspirou Fletcher, deitando-se de volta na palha. — Feliz aniversário.
Fletcher ficou ali deitado, contemplando o motivo do próprio encarceramento. Tudo começara naquela noite, quando seu inimigo de infância, Didric, o encurralara numa cripta e tentara assassiná-lo, depois de se gabar do plano do pai de transformar toda a vila de Pelego numa prisão.
E então surgira Ignácio, vindo do nada, queimando Didric quando o rapaz investira, e dando a Fletcher tempo para escapar. O diabrete tinha arriscado a própria vida para salvar a do garoto, mesmo nos primeiros momentos do vínculo entre eles. Em consequência, Fletcher tinha se tornado um fugitivo, pois sabia que a família de Didric mentiria descaradamente para incriminá-lo por tentativa de assassinato. O único consolo era que, se aquilo tudo não tivesse acontecido, ele talvez jamais tivesse entrado para a Academia Vocans.
Teriam se passado mesmo dois anos desde que Ignácio entrara em sua vida e ele pisara pela primeira vez no ancestral castelo? Lembrava-se de seus últimos momentos lá com tanta clareza. Seu melhor amigo, Otelo, havia conquistado o respeito dos generais e convencido seu povo a não se rebelar contra o Império de Hominum. A elfa Sylva tinha cimentado a paz entre as raças e provado que ela e os outros elfos poderiam ser valiosos aliados. Até mesmo Serafim, o primeiro plebeu a ser elevado à nobreza em mais de mil anos, chegara a impressionar os colegas nobres no Torneio. De tudo, talvez o mais satisfatório fosse o completo desmonte do plano dos Forsyth de fomentar uma nova guerra com os anões e elfos para lucrar com a venda de armas. Tudo fora tão perfeito.
Até o passado de Fletcher voltar para assombrá-lo.
Como uma coruja, Ignácio piscou para o dono; os olhos da cor do âmbar sentindo o desalento do mestre. Esfregou o focinho na mão de Fletcher, que tentou lhe dar um tapinha amigável, porém desanimado. Mas o demônio se esquivou e deu uma mordida leve na ponta de seu dedo.
— Tudo bem, tudo bem. — Fletcher sorriu para o demônio empolgado, sentindo a dor que o distraía da tristeza. — Vamos voltar ao treinamento. Então, que feitiço deveríamos praticar hoje?
Ele enfiou a mão embaixo da pilha de palha que lhe servia de cama e pegou os dois livros que haviam preservado sua sanidade ao longo daquele ano.
Fletcher não sabia quem escondera os tomos ali para ele, mas sabia que a pessoa tinha corrido um sério risco ao fazê-lo. Sentia-se eternamente grato a tal misterioso benfeitor; sem os livros, teria rapidamente enlouquecido de tédio. O número de brincadeiras que poderia fazer com Ignácio no espaço confinado da cela, afinal, era bastante limitado.
O primeiro era o livro-texto padrão de feitiçaria, o mesmo que todos usaram nas aulas de Arcturo. Era fino, pois continha apenas poucas centenas de símbolos e as técnicas apropriadas para se entalhá-los. Antes, Fletcher tinha apenas se familiarizado vagamente com eles de modo a passar nas provas, preferindo se concentrar em aperfeiçoar a execução dos quatro principais feitiços de batalha. Agora, era capaz de visualizar cada um de cabeça e de entalhá-los com os olhos fechados.
O segundo livro era grosso, tão grosso que quem quer que o tivesse escondido fora forçado a remover a capa de couro para ocultá-lo mais facilmente na palha. Era o diário de James Baker, o estopim que levara Fletcher ao caminho para se tornar um mago de batalha treinado. Dentro das páginas, o garoto encontrou uma dúzia de novos feitiços, copiados com diligência pelo finado conjurador das paredes de antigas ruínas órquicas. Além disso, Baker tinha estudado dezenas de demônios inimigos, detalhando seu poder relativo, habilidades e estatísticas. Agora Fletcher era um especialista nisso também. Talvez o mais fascinante de tudo fosse o fato de Baker ter compilado tudo que sabia sobre a cultura dos orcs, incluindo suas armas e estratégias. Era um verdadeiro tesouro de conhecimentos, que Fletcher devorou em alguns dias, apenas para imediatamente voltar ao começo e caçar detalhes que poderia ter ignorado.
Os dois volumes eram tudo que ele tinha para se distrair do silêncio ensurdecedor do mundo exterior. Todas as noites, ele sonhava com os amigos, perguntando-se onde poderiam estar. Talvez batalhando nas linhas de frente enquanto ele apodrecia nas entranhas da terra? Talvez mortos por uma lança órquica ou uma adaga Forsyth?
Mas o pensamento mais torturante era saber que seu pai adotivo, Berdon, estava perto, na vila logo acima dele. Fletcher se lembrou de quando o transporte da prisão o trouxera de volta a Pelego na calada da noite. Ele espiara pelas frestas da carruagem blindada, desesperado para captar algum relance do lar de sua infância. Antes que pudesse dar uma boa olhada, porém, os carcereiros jogaram um saco sobre sua cabeça e o arrastaram para longe.
Quando Fletcher enfim se deixou cair mais uma vez em um silêncio deprimido, Ignácio rosnou inquieto até fungar uma labareda que chamuscou a palha abaixo.
— Uau, você está impaciente hoje! — exclamou Fletcher, energizando um dedo tatuado com uma onda de mana. — Tudo bem, foi você quem pediu. Vamos ver se você gosta do feitiço de telecinese!
O menino permitiu que uma fina torrente de mana passasse pela ponta do dedo, e o símbolo espiral brilhou num tom violeta até que uma tira de ar tremeluziu acima. Ignácio começou a recuar, mas Fletcher golpeou com a mão contra ele, enrolando a tira de energia na barriga do demônio brincalhão e o atirando para cima. A criatura abriu as patas e cravou as garras no teto, salpicando Fletcher com poeira.
Antes que o conjurador tivesse tempo de reagir, Ignácio se lançou para baixo, girando no ar, como um gato, com as garras e o aguilhão da cauda apontados contra o rosto de Fletcher. Foi só com um rolamento desesperado que conseguiu escapar do ataque, girando em seguida nos calcanhares para se deparar apenas com a escuridão que envolvia a cela. Ignácio tinha rompido o fogo-fátuo durante o ataque, apagando-o como uma vela.
— Então é assim que você quer brincar! — exclamou Fletcher, energizando o dedo indicador, o que não tinha tatuagens. Dessa vez ele entalhou no ar, usando um dos símbolos raros aprendidos com o diário de Baker. Virou o dedo para que apontasse direto para o próprio rosto.
O símbolo de olho de gato era bem parecido com o nome, um oval fino dentro de um círculo. Por tentativa e erro, Fletcher tinha descoberto o feitiço não teria efeito até que sua luz fosse lançada sobre as retinas.
O símbolo reluzente revelou sua posição, assim como o clarão amarelo que se seguiu, mas Fletcher rolou para o lado a fim de despistar Ignácio na escuridão. Sentiu os olhos se alterando lentamente, as pupilas se alongando em fendas felinas. Não demorou muito para que a visão de Fletcher clareasse e ele pudesse distinguir o vulto de Ignácio se esgueirando na direção da posição anterior do rapaz, como um leão perseguindo uma gazela. Mesmo que o demônio tivesse uma visão noturna muito melhor que a de Fletcher, no breu absoluto da cela até mesmo ele tinha dificuldades em se orientar.
— Peguei você! — gritou Fletcher, mergulhando pela cela e embrulhando o demônio em seus braços.
Eles rolaram de volta à palha, e Fletcher caiu na gargalhada com os latidos de protesto da criatura.
A porta foi aberta num rompante, e a cela se encheu de luz, cegando os olhos sensíveis de Fletcher.
Ele correu para esconder os livros debaixo da palha, mas uma bota o chutou, acertando a lateral da cabeça e o jogando contra a parede.
— Alto lá — disse uma voz rouca.
Fletcher ouviu o clique inconfundível de um mosquete sendo engatilhado e sentiu o metal frio do cano da pistola encostado em sua testa. Conforme os efeitos do feitiço passaram, o rapaz distinguiu um vulto vago e encapuzado agachado ao seu lado, com uma arma elegante na mão.
— Um suspiro seu, e eu te mando pro inferno — afirmou a voz. Era árida como a de um homem morrendo de sede.
— Tudo bem — respondeu Fletcher, erguendo lentamente as mãos.
— Nã-não — advertiu o vulto, pressionando o cano com ainda mais força. — Você é surdo? Já ouvi falar do que você pode fazer com esses dedos tatuados. Mantenha as mãos junto ao corpo.
Fletcher hesitou, ciente de que aquela provavelmente seria sua melhor chance de fuga. O pistoleiro soltou um suspiro de irritação.
— Rubens, dê a ele um gostinho do seu ferrão.
Fletcher captou um bater de asas nas profundezas do capuz do sujeito, e então um Caruncho vermelho-vivo saiu zumbindo e pousou no pescoço do prisioneiro. O garoto sentiu uma dor aguda, e uma sensação fria se espalhou pelo seu corpo.
— Agora eu sei que você não vai aprontar nenhuma gracinha — grasnou o vulto, levantando-se de modo a ficar com a silhueta marcada pela luz de tocha da porta aberta. — Por falar nisso, cadê aquela sua Salamandra?
Fletcher tentou virar a cabeça, mas parecia estar com o pescoço travado. Com a menção da palavra “Salamandra”, Ignácio se agitou embaixo de Fletcher, que sabia que o demônio se preparava para atacar.
Ele reprimiu as intenções de Ignácio com pulso firme, usando a conexão mental dos dois. Mesmo que eles conseguissem sobrepujar o homem, Fletcher não estaria em condições de rastejar para fora da cela, quanto mais fugir da prisão.
— Ah, ele está na palha, ali. Bem, mantenha-o quieto se quiser continuar com o cérebro dentro do crânio. Seria uma pena matar você depois de todos os preparativos que fizemos.
— Pr-pr-preparativos? — Fletcher conseguiu gaguejar, a língua desajeitada e dormente com o veneno do Caruncho.
— Para o seu julgamento — respondeu o vulto, estendendo a mão para Rubens se encarapitar. — Nós o adiamos o máximo possível, mas parece que seus amigos têm sido muito persistentes nas petições ao rei. Uma pena.
O vulto guardou o Caruncho de volta nas profundezas do manto, como se não pudesse suportar ficar separado dele. A pele da sua mão era lisa, quase feminina, com unhas cuidadosamente feitas. As botas eram de couro de bezerro costurado a mão, e as calças justas acima eram elegantes. Até mesmo a jaqueta com capuz era feita do melhor couro negro. Fletcher deduziu que o estranho devia ser um jovem muito rico, provavelmente o primogênito de um nobre.
— Permitirei mais uma pergunta, então vou levá-lo ao tribunal. Demore, se quiser, para dar tempo da paralisia passar. Não quero ter que carregá-lo até lá.
A mente de Fletcher se voltou aos amigos, a Berdon e ao estado da guerra. Mas ele não tinha como saber se o estranho teria as respostas que queria. Será que eles se conheciam? Fletcher rememorou os outros conjuradores que tinha encontrado em Vocans, mas nenhum deles tinha voz rouca. Poderia ser Tarquin, pregando uma peça cruel? Uma coisa era certa: o oponente teria a vantagem enquanto permanecesse anônimo.
— Quem. É. Você? — indagou Fletcher, forçando cada palavra por entre lábios dormentes.
O simples fato de ele conseguir falar significava que a ferroada de Rubens só lhe transmitira uma pequena dose de toxina. Ele ainda tinha chance de lutar.
— Você ainda não deduziu? — perguntou o homem. — Mas que decepção. Achei que você já teria adivinhado a esta altura. Ainda assim, estou bem diferente de como eu era quando nos falamos pela última vez, então não posso mesmo culpá-lo.
O sujeito se agachou de novo e se inclinou para a frente até que as profundezas sombrias do capuz preencheram a visão de Fletcher. O homem então puxou o capote para trás, revelando o rosto.
— Me reconhece agora, Fletcher? — sibilou Didric.

7 comentários:

  1. putis eu não esperava MESMO

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  2. Então o porco do Didric voltou...

    -Devorador de livros

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  3. Eeeeita O.O Como assim gente?!

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  4. Esse cretino é um conjurador tbm???? 😲
    Cada página uma surpresa

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  5. Mas é só desgraça na vida desse coitado! Parece até que ele é brasileiro.

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  6. A não, velho, que saco
    O cara não pode ser um conjurador, ele é desprezível

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Boa leitura, E SEM SPOILER!