31 de março de 2018

Capítulo 19

MORRIGHAN

— A velha a envenenou contra mim.
— Não foi preciso de veneno. Você mereceu o meu ódio por conta própria.
— Morringhan — ele falou, não para mim, mas para o ar. Ele deu um suspiro baixo, como se o nome trouxesse tristeza. — Ela escolheu o seu nome muito antes de você ter nascido. Eu gostava da sua mãe.
Fechei os meus olhos. Eu não queria ouvi-lo falar da minha mãe. Eu me virei para o lado desejando poder dar um tapa em sua cara.
— Se gostava tanto dela, por que roubou a minha tia também?
— Eu não roubei nenhuma das duas. Venda veio por vontade própria, e a sua mãe nunca deixou a tribo. Ela se encontrava comigo em segredo. Nenhum de nos sabia que o coração dela era fraco demais para ter um filho.
— Eu não quero ouvir mais — falei.
— Se quer negar a verdade, que seja, mas precisa enfrentar a verdade...
— A verdade? — interrompi. — A verdade é que você enganou a minha mãe! A iludiu! Assim como iludiu Venda!
Senti o seu peito corpulento subir atrás das minhas costas com uma respiração raivosa.
— Essa é a verdade de Gaudrel. A minha é outra. Fique quieta agora, menina. Estou cansado das suas conversas. A partir de agora você faz parte da minha casa. Isso é tudo o que precisa saber.
Um dos seus homens bufou como se Harik já tivesse me deixado falar muito. Eu era menos que uma prisioneira para eles. Era uma propriedade. Mas sabia que eu era algo a mais também. Algo tão vergonhoso que nem a Ama queria falar sobre isso.
Eu era uma deles. Mestiça. Era por isso que ela tinha mentido sobre o meu pai estar morto? Tinha esperança de que, ao apagá-lo da minha memória, o apagaria do meu sangue também? Havia alguma parte de mim — a parte que era a filha dele — aguardando para subir à superfície? Minha pele formigava só de pensar nisso, e eu queria poder apagá-lo da minha mente. A fortaleza do outro lado do rio crescia enquanto nos aproximávamos, ruínas que em breve seriam a minha casa. Eu me lembrei de Ama enquanto ela tentava se aproximar de mim, e lágrimas caíram dos meus olhos de novo.
Nós estávamos fazendo uma maca para carregar a Pata quando eles chegaram. Mais uma hora e já teríamos ido embora, mas ninguém esperava outra aparição tão cedo. Não tínhamos mais nada para eles levarem — pelo menos era o que pensávamos. Eu já tinha tentando parar as lágrimas durante a manhã toda. A visão de Jafir aparecia de novo e de novo em meus pensamentos, os eventos rodando, as suas palavras, tão tensas e calculadas, Você me entendeu? Agora, volte para trás. Algo sobre elas não parecia certo, não se encaixava com o resto.
Um dos capangas de Harik desacelerou o seu cavalo e sentou-se ereto na cela, olhando para o horizonte.
— Alguém está se aproximando — ele disse.
Todos pararam, e nós nos viramos para ver um cavaleiro galopando através o chão árido, deixando uma trilha de poeira atrás dele. Eu balancei a cabeça, confusa. Eu sabia quem era. O que ele estava fazendo?
O bruto relaxou em sua cela.
— É só um dos homens de Fergus.
Harik desceu da sua cela, me puxando ao mesmo tempo, anunciando que faríamos uma pequena pausa enquanto esperávamos pelo mensageiro do Fergus. Ele empurrou um cantil de couro com água para mim, mas eu recusei.
— Você vai beber mais cedo ou mais tarde. E vai me agradecer por isso.
— Eu nunca vou agradecer-lhe por nada.
As rugas da testa dele se acentuaram como se ele já tivesse perdido toda a paciência, os seus pulmões se encheram de ar, e pensei que ele iria me bater, mas então ele pausou, me analisando, e algo passou por seus olhos. Ele piscou e olhou para longe. Eu me perguntei se ele vira a minha mãe em mim quando me olhou. Ama dizia que eu parecia muito com ela, sem contar com o meu cabelo.
O som selvagem de cascos aumentou, e Jafir chegou, parando o seu cavalo rapidamente. Ele desceu da sela, mas evitou o meu olhar, olhando só para Harik. Ele não perdeu tempo nenhum em explicar a finalidade da sua visita.
— Eu vim fazer um acordo. Um saco de grãos por ela.
Harik olhou para ele, e depois começou a rir, quando percebeu que Jafir falava sério.
— Só um saco de grãos? Por ela? Ela é muito mais preciosa que isso.
Os olhos de Jafir ferveram.
— É tudo o que eu tenho. Você vai aceitar.
Por um momento todos prenderam o fôlego, e depois ouvimos risos abafados dos homens de Harik. As mãos deles foram para as suas espadas, impacientes para sacarem-nas da bainha. Olhei para Jafir, os pés plantados no chão, como se nada pudesse tirá-lo dali. Tudo o que ele carregava era uma adaga. Estaria maluco?
Eu arrancaria o meu próprio coração antes de permitir que algo acontecesse a ele.
— Está se ouvindo, menino? — Harik perguntou. — Ainda está bêbado de ontem à noite?
— Eu não estou bêbado. Estou esperando.
— E se eu não aceitar o acordo, o que vai acontecer?
A mão de Jafir foi parar em sua adaga, segura, mas ameaçadora.
— O senhor é um homem de bom senso. E sabe sobre valor. Sabe o que é melhor. Você ficará com os grãos.
Harik coçou o queixo como se achasse graça na audácia de Jafir, e a sua outra mão se moveu para a bainha da espada. Respirei fundo, engasgando um soluço. O olhar de Harik caiu sobre mim. Eu não conseguia respirar. Ele me analisou, a expressão ilegível, e então ele grunhiu, balançando a cabeça.
— Então é assim.
Ele olhou de novo para Jafir, rugas riscando a sua testa em um ar carrancudo.
— É um estúpido, menino. Eu que estou ganhando nesse acordo. Ela é só problema. Como queira! Fique com ela!
Ele me empurrou para Jafir, e eu tropecei, quase caindo aos seus pés. Me endireitei e olhei de volta para Harik com incerteza, imaginando se era um truque.
Os seus olhos permanceram um pouco mais em mim, e então ele se virou abruptamente para Lasky:
— Pegue o saco de grãos do cavalo dele, e vamos!
— Suba no cavalo, Morrighan — Jafir ordenou detrás de mim. — Não temos muito tempo.
Eu me virei, olhando para ele, os seus olhos ainda cheios de fúria. Raiva cresceu em mim, e a minha mão voou até o rosto dele. A dele se ergueu, apanhando o meu pulso no meio do ar. Nossos braços tensos um contra o outro, os nossos olhares se prenderam, e ele me puxou para si, os seus braços me envolvendo, os meus ombros sacudindo, o seu peito ficando molhado com as minhas lágrimas.
— Eu não tive escolha, Morrighan — ele sussurrou. — Eu tive que cavalgar com eles. Steffan contou aos outros sobre você. Tentei despistá-los, mas eles sentiram o cheiro do javali assando.
Ele se enrijeceu e me afastou. Endireitou os ombros. Ele parecia diferente. Distante. Mais velho. Tinha linhas nos seus olhos que não estavam lá ontem.
— Eu a levarei de volta para o seu acampamento.
— Então quer dizer que você não estava tentando me comprar com o meu próprio saco de grãos.
Ele fungou.
— Você nunca mais terá que me ver de novo. Eu sei que ficará contente em ouvir isso. Vou embora com o meu clã. Eles ainda precisam de mim.
Olhei para ele, uma nova dor surginfo dentro de mim. Abri a minha boca, mas nenhum som saiu.
— Você vai embora — repeti.
— Isto não pode ser tudo o que há — ele disse — isto não é vida para se viver. Tem de haver algum lugar melhor que este. Em algum lugar. Um lugar onde as crianças do meu clã poderão viver uma vida diferente daquela que eu vivi. — Ele trincou os dentes, e disse depois com um tom mais sério: — Um lugar onde as pessoas possam se apaixonar por quem quiserem e não precisem ter vergonha disso.
Ele pegou as rédeas do cavalo e fez gesto para eu subir.
Tudo o que eu queria era poder voltar para perto da minha tribo, mas eu hesitei, sentindo algo me cutucar por dentro, as suas palavras mexendo comigo. Algum lugar. Ele fez outro gesto, impaciente, e coloquei meu pé no estribo. Ele se montou atrás de mim, segurando as rédeas com os braços à minha volta como já fizera muitas vezes, mas agora os seus braços pareciam rígidos contra a minha pele, como se ele estivesse tentando não me tocar. Nós cavalgamos em silêncio. Eu me lembrei dos grãos com as quais ele tinha me trocado. Os meus grãos. Não dele. Eu tinha o direito de estar irritada. Eu não lhe devia nada.
Mas ele não tinha me traído.
Não da forma como eu tinha imaginado. Eu fui rápida em pensar no pior sobre ele.
E quase agora mesmo, ele arriscara a própria vida para me libertar de Harik.
Ele vai embora. Hoje.
— É perigoso do outro lado da montanha — lembrei a ele.
— É perigoso aqui — ele replicou.
Eu me recostei em seu peito, forçando-o a me tocar.
Ele limpou a garganta.
— Piers me disse que viu o oceano do outro lado das montanhas quando era um menino.
— Ele deve ser da mesma idade de Ama, se ainda se lembra.
— Ele não se lembra de muito. Só do azul do mar. Nós vamos procurar por isso.
Azul. Um oceano que nem deve existir mais. Era a busca de um tolo. Mas as memórias de Ama tinham incentivado os meus sonhos.
Existem realmente tais jardins, Ama?
Sim, minha criança, em algum lugar. E um dia você vai encontrá-los.
Em algum lugar. Coloquei os cabelos que voavam em meu rosto para trás das orelhas e olhei em frente para a paisagem árida, através do vento. Não, eu nunca encontrarei tais jardins, e Jafir não encontrará o seu azul. Ele e o seu clã nunca conseguirão chegar lá. Eles todos morrerão. Em breve. O saber me queimou por dentro tão real quanto o peito de Jafir atrás de mim. Eles morrerão.
— Jafir...
— O quê? — ele respondeu, com um tom afiado, como se escutar mais argumentos de mim fosse demais para ele suportar.
Não há futuro para nós, Morrighan. Nunca haverá.
Balancei a cabeça.
— Nada.
Houve um tempo quando acreditei que havia uma forma de nós podermos ficar juntos, mas isso parece agora tão distante quanto os jardins de Ama.

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