22 de março de 2018

Capítulo 19

O oceano parecia infinito, tão vasto que depois de uma hora de voo não havia mais nenhum sinal de terra à vista. Não havia sol para orientar a navegação; o único guia era a estranha bússola interna que todos os demônios possuíam, que atraía as criaturas instintivamente em direção ao centro do éter.
Ignácio e Lisandro voavam o mais alto e rápido que ousavam, com medo de se esgotar, mas ansiosos para alcançar os Picanços. Se fossem depressa demais, poderiam cansar-se rapidamente e depois se afogar no oceano antes de encontrarem terra. Se fossem devagar demais, por outro lado, a única chance que tinham de atingirem a região de Hominum do éter desapareceria para sempre... Ou pelo menos, até o ano seguinte. Fletcher nem queria pensar nessa possibilidade. Em vez disso, tentou viver o momento e desfrutar da alegria de voar. Seu mundo se encheu do gosto do sal marinho, do ruído das ondas e do barulho contínuo do bater de asas de Ignácio.
Eles começaram um jogo para passar o tempo, para ver quem seria o primeiro a detectar demônios na imensidão azul-escura. Fletcher incitara a brincadeira, depois de localizar um grupo de Encantados pulando as ondas. Eram criaturas rosadas, semelhantes a golfinhos, com garras com membranas interdigitais nas quatro patas. Sua aparência de golfinhos quadrúpedes era como a semelhança de um Nanauê com um tubarão, ou a semelhança do raro Akhlut com uma orca. Cress grunhiu de frustração ao vê-los, pois Encantados eram criaturas bonitas e imensamente raras, mas não havia tempo para que parassem.
Eles correram os olhos ininterruptamente pelo mar e pelo horizonte à medida que as horas passavam, mas viram apenas outro demônio — e ainda assim era apenas o vulto de um Trunko solitário, uma espécie que tinha o mesmo corpo de uma baleia branca, só que com uma tromba comprida. Ele a punha para fora da água a fim de respirar, e eles haviam aprendido nas aulas de demonologia que aquele apêndice fora projetado para proteger os Trunkos dos predadores voadores do éter, de modo que não precisassem se arriscar na superfície.
Continuaram voando, mesmo depois do sol se pôr. Foi uma espécie diferente de escuridão, acompanhada pelo quebrar suave das ondas abaixo, e temperado pelo calor dos braços de sua mãe. Dormir, algo aparentemente tão fácil no Abismo profundo e sombrio, era difícil agora, pois ele de repente viu-se tomado do medo irracional de cair — medo este agravado depois de uma arremetida súbita, quando Ignácio cabeceou de sono em pleno voo.
Portanto, Fletcher cochilou e acordou em sobressaltos, até o céu se encher de luz rosada e a manhã voltar mais uma vez. Naquela nova luz não avistaram nenhum Picanço em parte alguma, mas a sombra de uma terra distante manchava o horizonte. Crescia a cada hora, pois Lisandro e Ignácio batiam as asas com determinação renovada, desesperados por um descanso.
À medida que se aproximavam, contudo, a esperança de Fletcher desaparecia. A terra à frente não era coberta pelas selvas do território de Hominum, mas um deserto, que se estendia tão longe que quase encontrava o horizonte, interrompido apenas por uma faixa finíssima de vegetação, onde a areia terminava e começava a selva. A uma longa distância, uma tempestade de areia subia em direção ao céu azul, manchando-o de um tom laranja acastanhado.
Para Fletcher, era como se eles tivessem deixado um oceano e entrado em outro, pois a terra abaixo estava ondulada em dunas que pareciam ondas estáticas de fina poeira cor de canela. O céu acima era tão opressivamente brilhante e quente que os braços de Fletcher coçavam com filetes de suor.
Então, quando Fletcher começou a pensar que o deserto jamais teria fim, a borda verde da selva apareceu à vista, primeiro como uma faixa fina de verde, depois como uma faixa ininterrupta que se estendia até o horizonte.
Eles não viram Picanços, mas enxames de Carunchos voavam aqui e ali, e houve até um momento de pânico quando a sombra de um grande demônio os encobriu. Por sorte, não era nada além de um Ropen, similar a um pelicano, de asas coriáceas, bico denteado e uma aparência quase cômica, com uma crista pontiaguda e alongada na parte de trás da cabeça.
Fletcher ficou satisfeito ao ver as colunas reveladoras de fumaça à distância quando eles pousaram. Vulcões, tal como no território de Hominum. Sentiu-se tentado a ter esperanças de que eles tivessem alcançado o fim da viagem, mas lembrou-se de que não havia desertos ou oceanos perto da região de Hominum do éter. Levariam pelo menos mais um dia antes de chegar lá.
Quando o grupo aterrissou, Ignácio e Lisandro desabaram de cansaço — não havia a menor chance de viajarem mais, embora o dia ainda estivesse claro. Então eles montaram acampamento; cortaram ramos das árvores, depois os afiaram e prenderam no solo em torno do assentamento. Isso pouco adiantaria para deter um predador, mas deveria bastar para impedir que demônios menores e mais curiosos se aproximassem durante a noite.
Assim, Atena foi convocada e posta para vigiar de um ramo alto, pois a Griforuja estava bem descansada depois de passar tanto tempo infundida dentro de Fletcher.
O abastecimento de charque ainda era abundante, embora a carne estivesse meio cinzenta nas extremidades e com gosto azedo de couro duro. Eles a comeram mesmo assim, tostando-a na fogueira depois de espetá-la em galhos verdes para melhorar o sabor.
Cansados, Ignácio e Lisandro tinham ido dormir juntos, enrodilhados um no outro, como cachorros recém-nascidos. Era um descanso merecido, e os demônios tinham recebido uma parte equivalente à que se daria a um leão da carne restante antes de desmaiarem de cansaço. Fletcher só torcia para que, de manhã, já estivessem recuperados.
— Vamos ter de seguir em frente, de manhã cedinho — murmurou Fletcher, cutucando o fogo de mau humor. — Não vimos nenhum sinal do bando de Picanços, então eles devem estar mais adiante.
— Sim, mas eles com certeza estavam viajando nessa direção, e sabemos que tendem a ficar ao longo das bordas do éter, que é mais ou menos onde estamos. — As palavras de Otelo eram otimistas, mas seu tom de voz se revelava aborrecido e apático.
— Pode ser um rebanho diferente — disse Sylva.
— O quê? — perguntou Cress, olhando para cima, parecendo não ter escutado direito as palavras de Sylva.
— Um rebanho diferente daquele que passa pelo território de Hominum. Não temos ideia se existem diferentes bandos com diferentes padrões de migração ao redor do éter. O éter é imenso, e os Picanços parecem ser relativamente comuns.
— Por que você não disse isso ontem? — lamentou-se Otelo, enterrando a cabeça entre as mãos.
— E você tinha uma ideia melhor? — devolveu Sylva. — Pelo menos temos uma direção para seguir!
— Pessoal, isso não está ajudando em nada — ralhou Fletcher, levantando as mãos. — Pode não ser o mesmo rebanho, mas pode muito bem ser. Vamos continuar em seu encalço, por enquanto.
— No encalço do quê? — resmungou Cress. — Nem ao menos sabemos onde eles estão.
— Desculpe se as coisas não tomaram o caminho que você esperava — alfinetou Sylva, com sarcasmo na voz. Ela se levantou e foi até o alforje ao lado do corpo adormecido de Ignácio. — Vou ver se o feitiço de crescimento ainda funciona nessas flores.
Um brilho verde surgiu, e Sylva soltou um gritinho de alegria. Ela virou-se e ergueu uma planta recentemente florida, da qual colheu as pétalas, mostrando-as aos outros.
— Bem, se nós vamos ficar aqui um tempo, vocês também podiam fazer o resto das plantas crescerem de novo antes que elas murchem e morram — disse Sylva aos outros. — Prefiro não fazer outra viagem a um vulcão. Venham, vamos lá!
Fletcher e os outros relutantemente juntaram-se a ela, e logo o acampamento viu novos clarões de verde, os feitiços drenando o pouco mana que o grupo havia recuperado na longa jornada pelo oceano.
Agora havia pétalas em grande quantidade — e, se eles mantivessem as plantas seguras, teriam um suprimento vitalício.
A luz minguava depressa, assim como o calor do dia. Pouco tempo depois, o grupo estava aninhado sob a pele do Catoblepas em busca de calor, os pés esticados para o fogo. Antes, as noites tinham sido escuras e opressivas, a única luz vinha dos pequenos fogos-fátuos que invocavam para guiá-los até os arbustos, de forma que pudessem se aliviar. Depois de viajarem tão longe oceano afora, contudo, Fletcher duvidava de que os orcs tivessem sido capazes de rastreá-los. Então eles dormiram com o crepitar do fogo, que lançava no acampamento uma aconchegante luz alaranjada.


Fletcher acordou, percebendo que tinha bebido água demais depois da viagem seca pelo deserto. Ele não queria sair de seu casulo quente, mas sua bexiga estava cheia demais e ele sabia que não conseguiria continuar a dormir sem esvaziá-la. As primeiras luzes do amanhecer começavam a colorir o céu, mas ele não podia esperar. Ele suspirou e se levantou, tomando cuidado para não acordar sua mãe e Otelo, que dormiam ao lado.
Atena piou suavemente lá em cima quando ele abriu caminho pela barreira de galhos nos limites de seu acampamento e deu alguns passos dentro da escuridão. Ele tinha receio de se afastar demais do acampamento, principalmente porque eles não tinham explorado nenhuma parte da selva ao redor, mas não havia jeito.
Fletcher logo viu uma árvore espinhosa entre os arbustos a uns 30 metros de distância que parecia promissora, então seguiu em sua direção, grato por haver luz residual suficiente da fogueira e o brilho da aurora para alcançar o tronco largo sem um fogo-fátuo intenso. Ele parou e começou a desabotoar os calções.
Mas algo parecia errado. Estava tudo quieto demais. Quando eles viajavam sobre Sheldon, as selvas sempre estiveram cheias de sussurro de diabretes, pios distantes e um ou outro rugido de um predador noturno. Agora, mal se ouvia o barulho do vento. Algo pingou em sua bochecha, molhado e pesado como uma gota de chuva. Ele tocou o local com a mão, e surgiu uma mancha vermelha em seus dedos.
Fletcher levantou a mão e criou uma luz de fogo-fátuo. O globo azulado girou suavemente na ponta do dedo enquanto ele direcionava o mana, até que a bola se tornasse tão grande quanto um punho. A respiração de Fletcher ficou presa em sua garganta quando o horror do que estava adiante se tornasse aparente à luz que se espalhava. A morte tinha visitado as selvas.
Dezenas de demônios estavam empalados pelos espinhos da árvore. Logo acima havia um Jackalope, um demônio parecido com um coelho com chifres pequenos e afiados, morto. Seu tórax estava aberto e vazio, e os olhos tinham sido arrancados de deu crânio aberto. Ao lado, os restos da carapaça de um Caruncho tinham sido espetados ali; nada restava além de uma casca vazia.
Fletcher virou-se, o coração batendo forte, cheio de horror.
E começou a correr.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!