13 de março de 2018

Capítulo 19

Suor ardia nas costas de Fletcher enquanto ele adentrava a arena, infundindo Ignácio e Atena com um clarão na palma da mão, pois eram os únicos demônios no aposento. Ele ainda sentia os dois na própria mente e, mais estranhamente, sentia uma terceira conexão se formando lentamente entre ambos. Talvez Atena e Ignácio estivessem começando a confiar um no outro.
Ao entrar na área iluminada pela luz tremeluzente de tochas, memórias da última vez que andara por aquelas areias emergiram em sua mente. Os perigos que havia encarado então não seriam nada comparados ao que estava por vir.
— Vocês todos sabem por que estão aqui — anunciou Rook, andando de um lado para o outro na areia. — Há dois objetivos para sua missão. O primeiro é destruir os vários milhares de ovos de goblin antes que eles choquem. O segundo é resgatar lady Cavendish, a mãe de Rufus.
Rufus se endireitou na arquibancada quando os outros alunos se viraram para fitá-lo, e Fletcher notou os nós dos dedos dele ficarem brancos ao apertar o cabo da espada. O jovem nobre não havia impressionado Fletcher no ano anterior, pois fora um bajulador dos gêmeos Forsyth. Agora ele esperava que Rufus não se mostrasse um fardo numa missão tão perigosa, especialmente com a pressão adicional de resgatar a própria mãe.
Um clarão azul chamou a atenção de Fletcher de volta a Rook. O inquisidor havia produzido um fogo-fátuo, que agora riscava o ar de um lado ao outro,  deixando um rastro brilhante, desenhando uma forma como um conjurador entalharia um feitiço.
Logo uma enorme pirâmide de quatro lados flutuava no ar, com uma estranha teia de tubos rodeando uma câmara central abaixo. Girava lentamente, banhando o salão num brilho azul fantasmagórico.
— Nossa inteligência sugere que os ovos de goblin estão localizados dentro da rede de cavernas vulcânicas sob esta antiga pirâmide, nas profundezas do coração da selva órquica — explicou Rook,  cravando o dedo na rede de túneis sob a pirâmide. — Lady Cavendish é mantida em algum lugar aqui dentro, também, e por um bom motivo: este é o lugar mais seguro de todo reino órquico. A pirâmide é, para eles, o lugar mais sagrado.
Tudo aquilo era novidade para Fletcher, e o coração pareceu martelar suas costelas conforme o pulso acelerou. Tinha pensado que iriam invadir alguma aldeia remota dos orcs, não se enfiar nas profundezas da terra.
— O Corpo Celeste deixará vocês o mais perto possível; em seguida, terão que andar pelo resto do caminho. Vocês precisam... e não tenho como reforçar isso o bastante... vocês precisam se encontrar à meia-noite na saída dos fundos da pirâmide, três dias depois da chegada. Deste ponto em diante, terão um total de oito horas para completar a missão; esse é o tempo máximo que o Corpo poderá esperar por vocês de prontidão, interrompendo as patrulhas dos céus de Hominum. Lembrem-se, cada hora que demorarem é uma hora em que estarão colocando o povo de Hominum em risco, pois, se os orcs perceberem os céus desprotegidos, mandarão as Serpes para saquear as vilas indefesas.
Fletcher engoliu em seco, imaginando a destruição que uma única Serpe poderia causar a um assentamento desprotegido. Era um risco imenso a se assumir.
— O Corpo Celeste observará pelos cristais de visão e tentará chegar assim que a missão estiver cumprida. Se qualquer uma das equipes não estiver com as outras nesse ponto, terão que encontrar o caminho de casa por conta própria.
Rook fez outra pausa, permitindo que a gravidade de suas palavras fosse absorvida.
Fletcher sabia que tentar voltar para casa sozinhos seria uma sentença de morte. Ao redor dele, os outros rostos exibiam expressões severas. Até mesmo Tarquin e Isadora pareciam preocupados, com a cor drenada das faces. Tinha passado mais de um ano lutando nas linhas de frente; sabiam melhor do que qualquer outro ali o que as equipes enfrentariam.
— Como todos sabem, cristais de visão serão distribuídos em Hominum — prosseguiu Rook. — Logo cada taverna, salão comunitário e praça pública terão quatro cristais, um para cada equipe, com os quais a população poderá assistir ao progresso da missão. Vocês por sua vez não receberão esses cristais, porque, se uma equipe for capturada, os orcs poderão usá-los para rastrear as outras.
Rook estalou os dedos, e a pirâmide desapareceu, deixando o salão novamente imerso na luz alaranjada das tochas.
— Para que vocês possam se concentrar completamente na missão, cada equipe precisará de um demônio para agir como transmissores para as pedras — explicou Rook. — Assim sendo, pedimos que patrocinadores oferecessem seus próprios demônios. Esses patrocinadores também oferecerão a vocês um guia experiente que os ajudará a atravessar a selva sem se perder. Vocês descobrirão quem são seus patrocinadores e guias muito em breve.
Rook juntou as mãos e as esfregou em expectativa.
— Agora, vamos nos juntar em nossos respectivos grupos. Teremos quatro equipes de quatro, compostas de três alunos veteranos e um voluntário calouro. Voluntários, assim que vocês puserem os pés nesta areia, não há mais volta...
Ele permitiu que a voz minguasse lentamente ao observar o pequeno grupo de calouros do outro lado da arena.
— Os capitães já foram escolhidos — continuou o Inquisidor, desenrolando um longo pergaminho. — Estão aqui à sua frente agora.
Fletcher sentiu uma onda de orgulho e nervosismo, as duas emoções se assentando desconfortavelmente no fundo do estômago. Havia ficado fora daquilo tudo por tanto tempo; mal conversara com qualquer um além de Ignácio por um ano inteiro... E aquilo geralmente era mais um monólogo. Estaria realmente pronto para liderar uma equipe numa missão mortal?
Rook pigarreou, e Fletcher se virou, segurando o fôlego para saber quem seriam seus companheiros.
— Após cuidadosa deliberação do conselho real e dos professores da academia, estas são as equipes. Por favor, venham se juntar aos seus capitães escolhidos conforme seus nomes forem chamados.
Ele pigarreou de novo.
— Na equipe de Isadora, temos Tarquin e Atlas. Na de Serafim, Rory e Genevieve. Na de Malik, Penélope e Rufus. Na equipe de Fletcher, Otelo e Sylva.
Fletcher respirou, aliviado, enquanto os estudantes saltavam para a arena, juntando-se aos respectivos companheiros. Sylva abriu um sorriso ao parar ao seu lado, e Otelo acertou um leve soco no braço do amigo.
— Claro que eles puseram um humano no comando — sussurrou Otelo, piscando em seguida para mostrar que na verdade não se importava. — Parece que eles nos organizaram por afinidade.
— Também acho — respondeu Fletcher alegremente. — Isadora parece satisfeita. Aposto que, quando Tarquin perdeu o Torneio para mim, ela foi considerada a mais forte dos dois.
Enquanto os estudantes se alinhavam, Fletcher viu quatro que ficaram nas arquibancadas. Átila, Cress e Didric, além de uma menina de cabelos negros que Fletcher não reconheceu. Rook fez um gesto com a mão em direção a eles, apontando para cada um.
— Vocês agora terão a opção de escolher um quarto participante para suas equipes dentre os primeiranistas que se ofereceram como voluntários para a missão. Isadora, você foi escolhida aleatoriamente para ser a primeira.
— Aham, sei — sussurrou Sylva no ouvido de Fletcher, e ele subitamente ficou muito ciente do toque suave da mão dela na sua cintura. — Não que faça alguma diferença. Nós dois sabemos quem ela vai escolher.
— O valente Didric Cavell — anunciou Isadora, chamando Didric com um gesto magnânimo. — Depois de seu brilhante desempenho no Torneio, privado da vitória por puro azar.
— Azar não teve nada a ver com isso! — exclamou Cress, ignorando o sibilo de reprovação que Rook soltou por ela ter falado fora de hora.
Didric saltou para a arena, cambaleando um pouco com a tontura do que provavelmente era uma leve concussão. Tarquin apertou a mão de Cavell, enquanto Atlas e Isadora lhe davam tapinhas nas costas.
— Agora, Fletcher — anunciou Rook, com olhos ainda em Cress, desafiando-a a falar de novo.
Fletcher empalideceu. Por algum motivo, tinha imaginado que seria o último.
Ele fez uma pausa, o que lhe valeu um olhar zangado de Átila. Era óbvio a qual equipe o anão queria se juntar. Porém... Cress tinha acabado de ganhar o Torneio. Ela pedira educadamente para participar da equipe dele. Também havia a recente explosão de Átila contra a escolha de vestimenta de Cress. Fletcher queria que a equipe dele fosse um exemplo reluzente para o mundo: de solidariedade,  amizade e aceitação. Átila tinha um bom coração e era um guerreiro capaz, mas Fletcher não o escolheria, não para aquilo.
Agora, precisava apenas de um motivo que Átila pudesse compreender.
— Escolho Cress — anunciou ele, erguendo a mão quando Átila começou a protestar. — Os pais de Otelo e Átila nunca me perdoariam se os filhos estivessem na única equipe que não voltou, ambos mortos num único golpe de má sorte. Melhor diluir o risco. O exército do rei não permite que irmãos sirvam no mesmo regimento por esse exato motivo.
Átila curvou a cabeça e deu um curtíssimo aceno em concordância.
— Venci o Torneio também, caso você tenha esquecido, Fletcher — comentou Cress bem alto, já andando na areia. — E é Cress Freyja, aliás.
— Eu não tinha me esquecido — sussurrou Fletcher quando ela assumiu seu lugar ao lado deles. — Esse é o outro motivo. É bom ter você a bordo, Cress Freyja.
— Serafim, sua vez — disse Rook, dando as costas a eles.
Serafim olhou de esguelha para a garota de cabelos negros, mas só por um momento.
— Átila Thorsager, é claro. Venha cá, seu ranzinza — declarou Serafim com um largo sorriso do rosto, chamando o anão. Átila revirou os olhos ao descer os degraus, mas havia um quê de sorriso em seu rosto. Os dois deviam ter se aproximado enquanto Fletcher estava fora.
— E, finalmente, Malik — disse Rook.
— Fico muito feliz em escolher Verity Faversham — anunciou Malik, sorrindo enquanto a garota de cabelos negros vinha à luz das tochas. — Fico surpreso que ela não tenha sido escolhida primeiro.
Quando a garota se juntou à equipe, Fletcher não conseguiu deixar de fitá-la fixamente enquanto ela balançava os cabelos negros para soltá-los. Era bonita, talvez a garota mais bonita que já havia visto, com um rosto em forma de coração e grandes olhos expressivos que pareceram se deter nele enquanto se aproximava dos companheiros. Por um momento, o nome não teve nenhum efeito em Fletcher, e foi necessário um grunhido aborrecido de Otelo para lembrá-lo.
— Ela é a cara da avó Ofélia, não acha, Fletcher?
Fletcher percebeu a semelhança, mas achou difícil associar aquela jovem à mulher de olhos severos que comandava o Triunvirato com Zacarias e Didric. Até mesmo o pai dela, o Inquisidor Charles, parecia muito distante da menina, apesar de terem a mesma tez pálida. Verity saudou Malik com um sorriso caloroso e abraçou Penélope e Rufus sem hesitar.
Sylva deu uma cotovelada no flanco de Fletcher, que percebeu que estava encarando. Balançou a cabeça, tentando lembrar que ele e os Faversham eram inimigos.
— Ela é uma primeiranista? — indagou Fletcher.
— É — confirmou Otelo. — Apesar de eu não a ter visto muito por aí. Passava a maior parte do tempo por conta própria, no quarto, estudando, ou em Corcillum.
Fletcher observou o restante das equipes se alinhar, esperando pelo próximo anúncio de Rook.
— Como todos sabem, as pedras de visão que possibilitaram esta missão foram generosamente fornecidas pelo pai de Tarquin e Isadora, a avó de Verity e o próprio Didric — declarou Rook, indicando cada estudante mencionado com um aceno da cabeça.
— Acho que deveríamos tomar um momento para agradecer às famílias Forsyth, Faversham e Cavell pela generosidade.
Ele encarou os outros estudantes com expectativa.
Os gêmeos Forsyth e Didric sorriram enquanto Fletcher e sua equipe murmuraram agradecimentos forçados, mas Verity apenas corou e fitou os próprios pés.
— Muito bem — continuou Rook. — Agora, tenho um anúncio para todos. Há um prêmio para esta missão, para manter as coisas interessantes tanto para os participantes quanto para os espectadores por todo Império. A equipe que conseguir resgatar lady Cavendish receberá mil soberanos de ouro, a serem divididos igualmente entre os participantes.  Também haverá mais quinhentos soberanos para qualquer equipe que participar da destruição dos ovos goblínicos. Afinal, não há nada como uma competição saudável.
Ele sorriu para os estudantes conforme o salão se encheu de sussurros furtivos. Era um resgate de rei,  suficiente para equipar um pequeno exército por si só. A recompensa não era surpresa para Fletcher, mesmo que pouco lhe importasse. Se, nas profundezas da selva, uma equipe perdesse a determinação, a recompensa seria um forte motivador para que cumprissem seu dever.
— Se vocês puderem se virar — ordenou Rook,  apontando a porta atrás deles, e Fletcher girou. Havia quatro demônios na entrada, três dos quais ele reconheceu imediatamente.
— Equipes, conheçam seus novos demônios — disse Rook.
Lisandro, o Grifo de Lovett, desceu orgulhosamente os degraus, agitando o ar com as asas para lançar uma nuvem de areia na direção da equipe de Isadora. Estava claro qual era a equipe para a qual ele fora escolhido, pois seguiu em linha reta até Fletcher e ficou arranhando o chão ao lado deles.
— Ela não pode... — sussurrou o garoto, com o coração dolorido ao pensar em Lovett sozinha e confinada a uma cadeira de rodas. — Ele é suas pernas e asas. É o melhor amigo dela. Tudo que lhe restará é Valens.
— Ela quer nos proteger, Fletcher. Este é o jeito que encontrou de fazê-lo — murmurou Sylva. — Vamos trazer Lisandro de volta, são e salvo. E será como se ela estivesse bem ao nosso lado. Lovett pode visualizar usando a mente, praticamente ocupar este corpo como fez com Valens. Não ficaria surpresa se ela estivesse fazendo isso neste exato instante.
Lisandro deu um empurrãozinho em Fletcher com o bico, como se para chamar a atenção dele ao próximo demônio que descia as escadas, trotando.
Era um gesto que parecia particularmente humano, e, quando Fletcher olhou para baixo, viu Lisandro piscar um olho para ele. Lovett estava ali dentro, com certeza, e Fletcher lhe devolveu um sorriso.
O Canídeo lupino de Arcturo, Sacarissa, passou por eles, parando apenas para dar um empurrão brincalhão em Lisandro. O Grifo devolveu uma patada, mas só conseguiu acertar a ponta da cauda negra do demônio de quatro olhos.
— Parece que Arcturo estava pensando a mesma coisa — comentou Fletcher, quando Serafim recebeu Sacarissa com uma tira de carne seca, milagrosamente disponível num bolso do casaco. Ainda que Grifos fossem mais poderosos e versáteis que Canídeos, Fletcher desejava que pudesse ter os dois na equipe.
Com os demônios de Arcturo e Lovett ao seu lado,  ele se sentiria muito mais seguro na penumbra das selvas órquicas.
— O que diabos é aquela coisa? — perguntou Cress, apontando uma enorme criatura esquelética, vagamente humanoide, que descia as escadas.
Ela ostentava uma grossa galhada que se estendia de cada lado da cabeça como um emaranhado de espinhos. A cabeça lembrava uma mistura sem pelos de cervo e lobo, com olhos negros e famintos que esquadrinhavam o salão. Longos braços pendentes se apoiavam sobre os nós dos dedos na areia adiante, com unhas afiadíssimas nas pontas. A pele era um cinzento malhado de cadáver, com o fedor correspondente. Apesar da silhueta longilínea da criatura, seus músculos se remexiam sob a pele esticada conforme ela se movia, como um arame sendo contraído e esticado.
— Um Wendigo — respondeu Otelo, num misto de espanto e horror. — Nível treze e raríssimo, ainda por cima. É o demônio principal de Zacarias Forsyth. Quase tudo que sabemos sobre o Wendigo veio do estudo daquela exata criatura; quase nunca são vistas no éter.
— Não é mistério a qual equipe ele vai se juntar — observou Fletcher, enquanto o ser parava ao lado do esquadrão de Isadora. O rapaz sorriu ao ver Tarquin, o mais próximo ao monstro, torcendo o nariz para o fedor.
— Meu Caliban se juntará à equipe de Malik — anunciou Rook, chamando o último demônio restante, o próprio.
Era o Minotauro de Rook, uma fera musculosa coberta por um pelame negro. Tinha um porte poderoso, todo músculo e carne, enquanto o Wendigo, mais alto, era todo tendão e osso rijo. A cabeça de touro fungou pelas narinas grossas e porcinas enquanto o bicho descia as escadas nos cascos fendidos, cada respiração como o bombear dos foles na velha forja de Berdon.
— Obrigado por nos patrocinar, Inquisidor — agradeceu Malik, curvando-se.
— Não podemos deixar os únicos herdeiros dos Saladin e Faversham desprotegidos — declarou Rook, ignorando deliberadamente Penélope e Rufus, cujas famílias, ainda que nobres, não eram tão ricas quanto as outras. Rufus, porém, não pareceu perceber, pois agarrou a mão de Rook e a balançou enfaticamente.
— Você não se arrependerá disso, Inquisidor — afirmou Rufus. — Meu irmão mais velho o recompensará dez vezes quando resgatarmos minha mãe, isso eu prometo!
— Vocês conhecerão seus guias, que foram escolhidos pelos seus patrocinadores, esta noite — explicou Rook, libertando a mão com uma careta. — Equipe de Malik, vocês ficam aqui comigo. O restante de vocês, sigam os demônios.

2 comentários:

  1. "O restante de vocês, sigam os demônios." lembrei de harry potter o Rony com medo das aranhas

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  2. Snape e esse Rook se entenderiam as mil maravilhas

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Boa leitura, E SEM SPOILER!