2 de março de 2018

Capítulo 19

O anão tinha uma aparência muito semelhante à de Athol, com barba ruiva e um corpo atarracado e troncudo. Encarou os outros estudantes por debaixo das grossas sobrancelhas, então aceitou uma bandeja das mãos de um criado nervoso. Mesmo que Fletcher tivesse certeza de que o anão era a fonte da fascinação de todos os outros, ele estava mais interessado no demônio que o seguia.
Com 1,20 metro de altura, a criatura teria a forma de uma criança pequena, não fosse pela silhueta atarracada e os membros robustos. Porém, o mais fascinante era a sua coloração. A criatura parecia ser feita de rocha malformada, um efeito tornado ainda mais impressionante pelo musgo e líquen que cresciam em sua superfície. As mãos eram como luvas de cozinha, com um grosso polegar opositor que poderia ser usado para segurar coisas. Com cada movimento do demônio, Fletcher ouvia o raspar tedioso de pedra contra pedra.
Enquanto os plebeus o fitavam, o demônio se virou e os encarou de volta com um par de olhinhos negros profundos.
— Um Golem! Estes são difíceis de capturar. Os criados contaram que eles crescem com o tempo, então você precisa pegá-los ainda jovens — sussurrou Serafim. — Espero que eu ganhe um deles.
— Pouco provável — retrucou Atlas. — Eles devem ter dado o Golem a ele como um favor ao Conselho Enânico, um gesto de boa vontade enquanto os anões são incorporados ao exército. Não tinha me tocado de que eles tinham sido aceitos em todos os níveis do serviço. Deus sabe como eles iriam cavalgar se entrassem para a cavalaria; aquelas perninhas curtas mal conseguiriam segurar os flancos de um cavalo.
Atlas riu com a imagem. Fletcher o ignorou, fitando o anão sentado encurvado e sozinho. O rapaz se levantou.
— O que você está fazendo? — sibilou Rory, agarrando a manga de Fletcher.
— Vou me apresentar a ele — explicou o outro.
— Você não viu como ele nos olhou? Acho que prefere ficar sozinho — gaguejou Genevieve.
Fletcher se soltou do aperto de Rory, ignorando os outros. Ele tinha reconhecido a expressão de ressentimento no rosto do anão quando este entrara. O próprio rapaz tinha sentido aquilo e várias vezes antes, quando era marginalizado pelas outras crianças de Pelego.
Quando o menino se aproximou da mesa, o Golem ribombou ameaçadoramente, a cara rochosa se abrindo para revelar uma boca sem dentes. Apreensivo, o anão se virou ao ouvir o ruído.
— Meu nome é Fletcher. — Ele estendeu a mão para o anão.
— Otelo. O que você quer? — perguntou, ignorando o cumprimento.
— Prazer em conhecê-lo. Por que não se senta conosco? Tem muito espaço sobrando — sugeriu Fletcher.
O anão olhou para os outros, que os encaravam da outra mesa com expressões de receio.
— Estou bem aqui. Obrigado pelo esforço, mas sei que não sou bem-vindo — resmungou o anão, se voltando para sua refeição. Fletcher decidiu fazer uma última tentativa.
— É claro que é bem-vindo! Você vai lutar contra os orcs assim como todos nós.
— Você não entendeu. Não sou nada além de um gesto simbólico. Os generais de Hominum não pretendem deixar que entremos para as forças armadas para valer. Eles mandam a maior parte dos nossos recrutas à frente élfica para apodrecer com o refugo. O rei teve boas intenções ao forçá-los a nos aceitar, mas ainda são os generais que decidem o que fazer conosco. Como vamos mudar a opinião deles se eles não nos deixarem lutar? — murmurou Otelo, para que só Fletcher pudesse ouvir.
— Vocans recebeu meninas e plebeus também. De fato, todo mundo que você vê aqui é plebeu. Os nobres vão chegar amanhã — respondeu Fletcher, abrindo o coração ao anão infeliz. Ele pausou por um momento, então se inclinou mais para perto do anão e sussurrou: — Eles precisam de adeptos, não importa de onde eles venham. Tem até uma elfa! Não acho que a divisão de magos de batalha seja muito seletiva, desde que você possa lutar.
Otelo sorriu com tristeza para Fletcher. Em seguida, pegou a mão que lhe fora oferecida e a apertou.
— Eu sei sobre a elfa. Nós tivemos uma... conversa interessante enquanto esperávamos para ganhar nossos demônios. De qualquer maneira, espero que você esteja certo. Lamento pela minha grosseria; devo ter soado pretensiosamente insensível — disse Otelo, pegando a bandeja.
— Não se preocupe. Conheci outro anão ontem, e ele tinha uma opinião muito parecida com a sua. Ele me deu uma coisa — contou Fletcher, puxando do bolso o cartão que tinha ganhado.
— Guarde isso agora! — sibilou o anão em voz baixa assim que viu o cartão. Fletcher o meteu de volta nas calças. Qual era o problema?
Eles se sentaram à mesa com os outros, a conversa logo sendo abafada com a chegada do anão.
Fletcher apresentou todos.
— Bom dia — saudou Otelo, desajeitado, acenando com a cabeça para cada um. Eles acenaram de volta em silêncio. Depois de alguns instantes, Rory começou a falar. Fletcher tinha a impressão de que o menino odiava silêncios constrangedores.
— Olha, vou te contar, eu queria poder deixar crescer um bigode desses. Você sempre teve um? — indagou Rory, passando a mão no rosto liso.
— Se quer saber se nascemos barbudos, a resposta é não — explicou Otelo, abrindo um sorriso irônico. — Nós acreditamos que cortar nossos pelos e cabelos é um pecado contra o Criador. Fomos feitos exatamente como ele queria que fôssemos. Se ele nos deu pelos, então temos que mantê-los.
— Então por que vocês não deixam as unhas crescerem também? Parece maluquice para mim — retrucou Atlas bruscamente, apontando para os dedos atarracados mas com unhas bem aparadas de Otelo.
— Atlas! — ralhou Genevieve.
— Tudo bem, é uma pergunta justa. Consideramos a parte cinzenta da unha morta e, portanto, não mais parte de nós. Claro que isso tudo é visto mais como tradição do que crença religiosa hoje em dia: muitos anões aparam a barba e os cabelos; alguns dos mais jovens até as pintam. Isso é conhecimento comum em Corcillum. De onde vocês vêm? — perguntou Otelo numa voz controlada.
— Sou de uma vila do oeste, perto do mar Vesaniano — respondeu Atlas. — Você é nativo de Corcillum?
Otelo fez uma pausa, parecendo confuso. Serafim respondeu por ele.
— Os anões já estavam aqui antes que o primeiro homem pisasse nestas terras. Eles derrubaram as florestas, aplainaram os vales, desviaram os rios e até mesmo plantaram os grandes marcos de pedra que mapeiam o território de Hominum.
Otelo sorriu, como se impressionado pelo conhecimento que o jovem plebeu tinha do seu povo.
— A humanidade chegou aqui dois mil anos atrás, depois de completarem a longa jornada através do deserto de Akhad — continuou Serafim, encorajado pela atenção total dos outros. — Corcillum era a capital enânica, então nós viemos morar com eles, trabalhando e comerciando. Mas uma doença terrível varreu a cidade, e tem um efeito particularmente forte contra os anões. Logo depois, nosso primeiro rei assumiu o poder, com ajuda daqueles que hoje são as famílias nobres. Eram um pequeno grupo de conjuradores que comandavam demônios poderosos, muito mais fortes que as criaturas controladas pelos conjuradores modernos. É por isso que toda a realeza e a nobreza são capazes de conjurar; eles herdaram as habilidades de seus ancestrais.
— É por isso também que nós nos rebelamos com tanta frequência — acrescentou Otelo em voz baixa. — Um ato imensamente tolo, considerando que somos tão poucos e não temos conjuradores. Nunca nos recuperamos em números depois da peste, graças à lei baixada sobre nós pelos ancestrais do seu rei. Temos que viver nos guetos e só podemos ter um número limitado de filhos por ano. Não podemos nem ter nossa própria terra. A realeza diz que somos os responsáveis pelo nosso próprio infortúnio, depois de tantas rebeliões.
Um clima sombrio baixou sobre os outros, mas Fletcher sentia raiva, a mesma raiva que lhe fora provocada pelas injustiças de Didric. Aquilo era... desumano! A hipocrisia da situação o enojava.
Então tinha sido disso que Athol falara. Atlas abriu a boca novamente, com uma expressão de discordância no rosto.
— Então, Serafim, você disse que fez o dever de casa — interveio Fletcher, antes que Atlas pudesse começar uma discussão. — Conte-nos um pouco sobre o que devemos esperar ao longo dos próximos meses.
Serafim se inclinou para a frente e chamou todo mundo mais para perto, sorrindo com a oportunidade de mostrar o quanto tinha aprendido.
— Eles são muito justos aqui. As patentes são conferidas de acordo com o mérito, então quanto melhor for o seu desempenho nas provas e nos desafios, mais alta a sua patente de oficial quando se formar. O problema é que nós, plebeus, já saímos em desvantagem nessa disputa. Os demônios que recebemos não são particularmente fortes, enquanto os nobres ganham as criaturas dos pais, que se esforçam mais em capturar seres poderosos para os filhos. Alguns são até afortunados o bastante de receber um dos demônios particulares da família, mas isso é raro. Não sei muito sobre o demônio de Fletcher, nunca vi um desses antes. Mas, Otelo, o seu será muito poderoso quando estiver completamente crescido, pelo que ouvi dos Golens.
— Então... nós sempre teremos só os nossos Carunchos? — perguntou Genevieve, confusa.
— Não necessariamente — respondeu Serafim. — É possível capturar outro demônio mais poderoso no éter e acrescentá-lo ao seu rol. Não sei muito sobre como isso é feito, e aparentemente é mais difícil e perigoso de se fazer com demônios mais fracos. Estou torcendo para ganhar algo melhor que um Caruncho. Eles são ótimos batedores e têm ferrões bem fortes, mas seus níveis de mana são bem baixos, e fisicamente não são páreos nem para um filhote de Canídeo.
— Entendi — disse Genevieve, parecendo um pouco menos orgulhosa de Azura enquanto a criatura decolava e esvoaçava pelo salão. Todos observaram o bicho pousar na enorme estátua no centro do salão, caminhando até o olho de pedra do homem.
— Quem é esse cara, afinal? — perguntou Fletcher a todos à mesa.
— Essa eu sei — respondeu Otelo, apontando a placa sob a estátua. — É Ignácio, o braço direito do rei Corwin e fundador da Academia Vocans, no tempo em que ela não passava de uma barraca num campo. Ele morreu na Primeira Guerra Órquica uns dois mil anos atrás, mas lhe atribuem o mérito de ter liderado a carga suicida que rompeu as fileiras dos orcs e acabou levando à derrota deles.
— É isso! — exclamou Fletcher em voz baixa, olhando para o diabrete. A criatura tinha descido pelo braço do dono e estava lambendo com alegria os restos de mingau na tigela.
— O que foi? — indagou Rory.
— Ignácio. Assim que vou batizar meu demônio.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!