31 de março de 2018

Capítulo 18

A festa durou até tarde da noite. Eles empilharam o que roubamos no abrigo, comeram o que sobrou do javali, e beberam generosamente do caldo de Harik. Fergus estava de bom humor, olhando para a pilha.
— O nosso clã partirá amanhã — ele disse como se, com esse saque, nunca mais haveria melhor momento. Mas Harik olhava a pilha também. Uma grande parte era dele. Ele e os seus homens ficarão durante a noite, e de manhã voltarão para a sua fortaleza do outro lado do rio. Com a maré alta, era muito perigoso atravessar durante a noite. A água já ultrapassava o seu limite.
Eu me deitei em meu saco de dormir, olhando para a abertura entre os caibros abertos. Exaustão me tomou. Cada parte do meu corpo já estava pronta para sucumbir já fazia horas. Eu tinha feito tudo para despistá-los, até mesmo dizendo que tinha visto fogo na direção oposta. Mas quando o cheiro forte de javali assado apareceu em nossa trilha, não havia nada que os pudesse parar.
Os meus músculos tinham se transformado em pedras, assistindo Harik e Steffan, à espera do que os dois fariam. Assistindo a todos.
E depois vendo Morringham. Os seus olhos. A sua expressão.
Eu te odeio, Jafir... o odiarei até o meu último fôlego.
Fechei os meus olhos.
Nos iríamos embora. Ela ficaria grata por isso. Ela nunca mais terá que me ver.
Mas eu sempre a veria. Até o meu último fôlego, sempre será o rosto dela que eu verei quando fechar os meus olhos antes de dormir, e o seu rosto novamente quando acordar a cada dia. Eu me forçarei a apagar as últimas palavras que ouvi vindo dos seus lábios. Eu me lembrarei das outras.
Eu te amo, Jafir de Aldrid. Palavras que, agora, eu sabia nunca ter merecido.
Eu finalmente adormeci logo antes do amanhecer, e acordei tarde. Quando saí, Steffan estava dormindo esparramado no chão, na frente da porta, ainda cheirando ao caldo de Harik. Passei por cima dele e vi Laurida e Glynis embalando os pertences, amarando-os nas várias peles que roubamos ontem à noite. Lá embaixo, perto do pasto, vi outras pessoas carregando os cavalos com mais coisas.
— Fergus precisa da sua ajuda com os mantimentos lá no abrigo — Laurida falou para mim.
Quando cheguei lá, ele estava sozinho, colocando os sacos em estantes.
— Onde estão Harik e seus homens? — perguntei.
— Já foram embora.
Fergus não olhou para cima, ainda ocupado com os mantimentos, as olheiras escuras pela falta de sono.
Olhei para o saque. Ainda estava tudo aqui.
— Harik não levou a parte dele?
— Presente dele para nós. Ele estava relutante de ir embora sem nada, mas a menina foi suficiente. Nos agradeceu por tê-la encontrado.
Eu ainda estava grogue da falta de sono e pensei ter perdido algo.
— O que você quer dizer com “a menina foi suficiente”?
— Ele acha que ela tem o saber, como a avó. Ele foi buscá-la antes de atravessar a ponte.
— Ele vai levá-la? Agora?
— É direito dele. Ela...
— Não! — balancei a cabeça, virando-me para todas as direções, tentando me concentrar. Pense, Jafir. — Não. Ele não pode...
— Para de latir como um coiote machucado! — Fergus surtou.
Eu me virei para encará-lo.
— Há quanto tempo ele se foi?
— Há uma hora. Talvez mais. — Ele fitou os alimentos roubados e começou a me falar sobre como os arrumaria perto dos cavalos. — Junto do restante, haverá o suficiente para...
Agarrei um saco grande de grãos, tirando-o da prateleira.
— Eu preciso disto! — Ele se moveu para me parar, e eu o empurrei. — Eu vou levar. Afaste-se!
Os seus olhos se encheram de descrença, e depois de raiva. Eu nunca o tinha desafiado antes. Ele veio contra mim, e eu desviei, dando um murro no seu maxilar e o derrubando no chão. Ele ficou lá, deitado, chocado pelo murro. Peguei o saco de grãos e corri até o meu cavalo sem olhar para trás.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!