22 de março de 2018

Capítulo 18

Sheldon estava morrendo. O Zaratan surgira das águas sangrentas alguns minutos depois, ao lado do cadáver afogado da Serpe. Mas a batalha exigira demais do pobre demônio.
Ele tinha sido horrivelmente ferido, pois a besta selvagem atacara freneticamente sua cabeça, seu pescoço e seus membros enquanto ele a segurava embaixo d’água. Eles assistiram, impotentes, Sheldon se arrastar para a praia e desabar na areia carmesim, respirando fracamente na luz tênue do crepúsculo.
O grupo fez o possível para curá-lo com o que restava de seu mana, mas sem sucesso. O Zaratan perdera sangue demais, e um feitiço de cura não poderia fazer nada a esse respeito.
Cress foi quem ficou mais desolada. Foi deitar-se ao lado dele e acariciou sua cabeça a noite inteira. Sylva ficou ao lado da amiga em solidariedade silenciosa, lendo o diário de Jeffrey à luz do fogo.
Enquanto esperavam pelo inevitável e a escuridão se assentava, Fletcher contou-lhes de sua conversa com Khan, da transformação de Ignácio e da fuga que tinham empreendido. Por sua vez, Sylva revelou a perseguição desesperada que sofrera no éter, e como pensou que os havia despistado, mas os encontrara e fora emboscada na praia algumas horas depois, pouco antes de Fletcher chegar.
Então, ao fim da noite, Otelo contou como Sheldon os deixara em terra e desaparecera logo após a partida de Fletcher e Sylva, e da surpresa que ele sentira com o retorno do Zaratan. Finalmente, quando a luz rosada do amanhecer começou a tocar o céu, o sono apoderou-se deles.
Fletcher acordou e descobriu que Sheldon falecera enquanto ele dormia. Cress, de coração partido, soluçava no ombro de Sylva, as duas agarrando-se uma à outra, como marinheiros em uma tempestade. Otelo se sentou ali perto, abatido, a mão pressionando o casco de Sheldon.
Sentindo-se vazio, Fletcher foi sentar-se ao lado do corpo do demônio, procurando por palavras que não viriam. O Zaratan os salvara mil vezes, sacrificando a própria vida no processo. Ele não tinha lealdade alguma com eles, nenhuma conexão parecida com a que existia entre um conjurador e seu demônio. Sheldon não tinha sido conjurado como os outros demônios, e os protegera ainda assim, prova de sua grande inteligência e compaixão. Eles lamentaram sua morte como a de um amigo.
— Eu pensei que ele talvez conseguisse sobreviver — fungou Sylva, sem a compostura costumeira.
— Ele não pareceu ter sofrido muito — disse Fletcher, tentando manter a voz estável.
Cress estava com os olhos secos; as lágrimas tinham se esgotado durante a noite.
— Espero que ele tenha encontrado uma namorada simpática enquanto esteve ausente.
Ela olhou sério para os outros, como se os desafiasse a rir.
— Não, você tem razão — concordou Otelo, suavemente, abraçando Cress pelos ombros. — Foi por isso que ele veio para cá. Aposto que encontrou. Aposto que logo vai ter um monte de Sheldonzinhos correndo por aí.
— Sim — disse Cress, afagando mais uma vez a cabeça do demônio.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, ouvindo o barulho suave das águas batendo nas margens da lagoa.
— É melhor a gente ir embora logo — avisou Fletcher, odiando-se por apressá-los. — Existe a chance de que um dos xamãs restantes tenha um cristal de visualização e tenha assistido à batalha através de um demônio menor. Eles podem saber que estamos em algum lugar perto da lagoa; podem estar vindo para cá.
Ele apontou com a cabeça para a pilha de cadáveres de demônios, uma mistura de Picanços, Estirges e Vespes mortos.
— Tem razão — disse Cress, levantando-se e assentindo com firmeza.
Ela limpou as lágrimas de suas bochechas e começou a reunir suas coisas. Otelo saiu pesadamente atrás dela.
Sylva ficou ao lado de Fletcher por mais um momento.
— Fletcher, antes de irmos, preciso falar com você. Depois de ontem... Se algo acontecer comigo, quero que saiba de uma coisa.
O coração de Fletcher deu um pulo, mas o olhar sombrio no rosto de Sylva lhe disse que aquilo não seria sobre seus sentimentos por ele. Ela se sentou e deu um tapinha na areia ao lado. Ele se juntou a ela e ficou surpreso ao vê-la folheando novamente o diário de Jeffrey.
— Andei lendo isso aqui — disse ela, passando pelas páginas finais. — Só cheguei ao fim na noite passada. Veja.
As páginas do final do diário estavam preenchidas com números e datas. Mais estranho ainda, havia uma carta, inserida entre as páginas. O selo estava quebrado, mas Fletcher reconheceu o brasão Forsyth em alto-relevo na cera vermelha — as três cabeças entrelaçadas de uma Hidra.
— Leia — pediu ela, entregando o diário.

Jeffrey,
Você conseguiu avanços para a segurança da humanidade de uma maneira que será sentida através das eras, lembrada nos anos vindouros pelos filhos imaculados de nossos descendentes. Saiba que o que você vem fazendo é justo e bom. O sangue dos inocentes é um sacrifício necessário para proteger a pureza de nossa raça.
O próximo passo deverá ser executado daqui a três dias. Rook já terá colocado o barril no armário de armazenamento junto aos cartões em um envelope selado. Espalhe-os pelo caminho ao sair.
Memorize e queime esta carta depois de lê-la.
Passe bem,
Zacarias

Claro, Fletcher já sabia que os Forsyth e seus aliados estavam envolvidos nos ataques dos Bigornas; Jeffrey mesmo tinha confessado.
As bombas responsáveis pela morte de seres humanos nos arredores de Corcillum tinham sido plantadas pelo Triunvirato para incriminar os anões e seus apoiadores, para colocar o povo de Hominum contra eles.
Mas aquilo era diferente. Era uma prova!
— E tem mais — prosseguiu Sylva. — Há registros de pagamentos que Zacarias fez para ele, datas dos lugares e momentos exatos dos bombardeios, cálculos de comprimento dos pavios e dos raios de explosão. Ele guardou tudo isso por algum motivo; para se proteger, extorquir dinheiro dos Forsyths... ou algo do tipo.
— Agora eles vão ver só — disse Fletcher cheio de triunfo. Finalmente, algo acontecia em seu favor.
— Não! — comentou Sylva, balançando a cabeça. — Não vão.
— Por que não? — perguntou Fletcher.
— Você não se lembra do que Jeffrey disse? — A voz de Sylva soou frustrada. — Lá na pirâmide, Jeffrey disse que até mesmo o rei Alfric está envolvido. Leia a carta. Ele menciona Rook, um Inquisidor.
— E daí? — perguntou Fletcher, mas já sentia a esperança se esvaindo.
— Para quem vamos levar esses documentos? Os Pinkertons? Eles estão na palma da mão de Alfric. A Inquisição? Não é bom. Eles se livrarão desses papéis assim que nós os entregarmos, ou afirmarão que são falsos, ou nos matarão lá mesmo. Não podemos levar esses documentos para as autoridades... Eles são as autoridades!
— Então, vamos levar para o rei Harold! — exclamou Fletcher. — Ele vai saber o que fazer com isso.
— Espero que você esteja certo, Fletcher — disse Sylva, mordendo o lábio. — Seja como for, vou manter os documentos a salvo. Eu só queria que você soubesse que eles existem.
Fletcher suspirou e esfregou os olhos. As poucas horas de sono tinham feito pouco para diminuir seu cansaço.
— Desculpe, é que por um minuto pensei que tivéssemos alguma vantagem. Obrigado. De verdade.
Ele apertou o ombro da elfa e levantou-se, justamente quando Otelo e Cress vinham chegando, com as armas guardadas e tudo preparado para partir.
— Eu irei com Otelo — disse Sylva, apanhando a pele enrolada do Catoblepas das mãos de Cress. — É melhor você levar sua mãe e Cress... Creio que Ignácio agora é um pouco maior que Lisandro.
Ela fez uma pausa e olhou para o Drake, um sorriso gentil surgindo nos lábios.
— Quem imaginaria? — murmurou ela, olhando para o demônio de cima a baixo, do bico à cauda. — Ele vai ser motivo de inveja de todos na Vocans.
Balançando a cabeça, ela colocou a pele sobre as costas de Lisandro, dobrando-a para formar um assento seguro e confortável no lombo do demônio. Fletcher sorriu, invejando aquela engenhosidade, mas feliz por eles estarem levando a pele. Ele merecia.
— Vamos — murmurou Cress, persuadindo Alice a montar no lombo de Ignácio. — Sei que ele parece um pouco diferente, mas é o mesmo velho Ignácio de sempre, não se preocupe.
O Drake achatou o corpo na areia para facilitar que a mulher frágil o montasse e ronronou com prazer quando ela o fez, contente pela confiança. Fletcher sentou-se na frente, e Cress apertou-se atrás de Alice, para ter certeza de que a mulher mais velha não cairia durante a viagem. Fletcher sorriu quando Alice instintivamente abraçou sua cintura. Seu primeiro abraço? Bem, na verdade não, mas ele o aceitaria de bom grado.
Ambos os anões pareciam apreensivos.
— Eu odeio voar — grunhiu Cress. — Especialmente em um demônio que só ganhou asas há poucas horas.
Ela deu um tapinha no pescoço de Ignácio, cheia de apreensão, e o Drake soltou um latido grave de encorajamento, que a fez estremecer.
— Vamos decidir exatamente para onde iremos, primeiro — disse Otelo, depois de dar uma boa olhada em Lisandro e Ignácio. — Prefiro não discutir esse assunto lá em cima, onde os Serpes podem nos detectar. Além do mais, prefiro ficar o menor tempo possível no ar.
— Agora que temos um amplo suprimento de pétalas, precisamos encontrar a região de Hominum no éter — disse Fletcher, mais para si mesmo. — E torcer com todas as forças para encontrar um portal quando o fizermos.
— Claro — concordou Otelo, assentindo com ar sombrio. — Mas não temos como saber que direção seguir, e, ainda que soubéssemos, poderíamos sobrevoar a região sem saber.
— Bem, sabemos que, ao contrário da parte órquica do éter, a nossa fica perto dos limites do éter, nas proximidades das terras mortas — matutou Sylva. — Há vulcões perto da área, também. Acho que nossa melhor aposta é voltar na direção de onde encontramos as pétalas. Havia mais vulcões para aquele lado.
— Voltar na direção das Serpes? — grunhiu Cress. — Acabamos de escapar.
— Bem, isso é a única coisa em que consigo pensar, a menos que alguém tenha alguma ideia melhor — argumentou Sylva.
— Também sabemos que não há nenhum oceano perto da região de Hominum no éter — acrescentou Fletcher. — Outra razão para seguir na direção indicada por Sylva.
— Ir na direção do oceano, aliás, não seria mesmo uma boa ideia: não sabemos o quão grande ele é, e poderíamos ficar voando por dias — disse Sylva, gesticulando para a lagoa. Havia uma grande foz no ponto para onde apontava, e Fletcher sabia que levava ao vasto corpo d’água que eles tinham visto antes.
— Bem, não pode ser tão grande assim, considerando aquilo com os Picanços... — retrucou Otelo. — Não que nós quiséssemos segui-los, de qualquer forma.
— Picanços? — perguntou Sylva.
— Não mencionei isso? — indagou Otelo, surpreso. — Vimos um grupo grande como o diabo um dia depois de você e Fletcher terem partido para procurar as pétalas das Euryale. Por sorte, eles voaram reto por nós em direção ao oceano.
— Prefiro não seguir seus passos, digamos assim; ainda mais nesses transportes perigosos — acrescentou Cress, olhando significativamente para Lisandro e Ignácio.
Sylva estreitou os olhos, desconfiada.
— Desculpe, foi só uma brincadeirinha — emendou Cress, levantando as mãos em sinal de desculpas.
— Não, não é isso — disse Sylva. — Estou pensando. — Ela mordeu o lábio e fechou os olhos completamente. — Quanto tempo depois do Torneio começa o ano letivo seguinte na Vocans? — perguntou, a cabeça inclinada com concentração.
— O que isso tem a ver!? — exclamou Cress.
— Na verdade não existe uma pausa propriamente dita — respondeu Otelo, ignorando Cress. — Com a guerra, eles se organizam para que o próximo ano letivo comece quase que imediatamente. Talvez haja uma semana ou duas de intervalo? O negócio é que este ano nosso Torneio foi adiado por causa dos ataques dos Bigornas, então tecnicamente Cress deveria ter começado seu segundo ano há algumas semanas.
— Melhor ainda. Quando a capitã Lovett nos levou ao éter, nossas aulas também tinham começado havia poucas semanas, correto? — indagou Sylva, erguendo um dedo. — Nós só tivemos algumas aulas com ela.
— Certo... — concordou Fletcher, ainda incerto de aonde ela queria chegar.
— E Valens foi atacado por um Picanço. Não aprendemos em nossas aulas de demonologia que os Picanços migram para nossa região no éter naquela época do ano? Tipo, a mesma época do ano em que estamos agora?
A compreensão atingiu Fletcher, como uma tonelada de tijolos. Os Picanços. Eles poderiam estar se dirigindo à região de Hominum do éter.
— Sylva, você é uma gênia! — gritou Fletcher, sorrindo de orelha a orelha.
Porque eles estavam indo para casa.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!