13 de março de 2018

Capítulo 18

Os demônios de Fletcher se ignoraram mutuamente durante o voo até Vocans, apesar de estarem a centímetros de distância; Atena no ombro, Ignácio no pescoço. Não era que não gostassem um do outro.  Fletcher percebia que se tratava de uma sensação estranha de incerteza, amplificada pela competitividade.
A jornada foi silenciosa, com poucas palavras entre ele e Lovett, até porque seria difícil conversar com o vento carregando para longe as poucas frases que eles tentaram trocar. Fletcher fez um esforço de não ficar remoendo em sua cabeça os eventos dos últimos dias, pois eles o tinham perturbado profundamente e o deixado muito inseguro. Até os pensamentos sobre Berdon eram agridoces, pois a reunião fora curta, e a despedida, tão dolorosa quanto a primeira separação.
Assim sendo, Fletcher se ocupou em observar a terra abaixo, que corria do horizonte como uma lenta colcha de retalhos amarelos, marrons e verdes,  entremeados com as linhas de azul e cinza dos rios e estradas que abriam caminho pelas planícies.
Já quase anoitecia quando o rapaz viu a sombria fachada de Vocans ao longe e, conforme desceram numa espiral até o pátio, percebeu como tinha sentido saudades do velho castelo desmoronante.
— É melhor você correr se quiser pegar o fim do Torneiro — comentou Lovett ao pousar, fazendo Fletcher sair em disparada até as portas. — Eu cuido de Lisandro. Pode seguir em frente.
— Obrigado pela viagem. Vejo você lá dentro — respondeu Fletcher. — Desculpa eu ter sido um passageiro tão calado.
Lovett gesticulou como se não fosse nada e acenou para que Fletcher se fosse.
— Não esquente com isso.
O rapaz seguiu correndo pelas portas duplas e se deparou com o átrio silencioso como um túmulo, de modo que seus passos ecoavam no vazio. Era estranho estar de volta. Havia se passado um ano, o ano mais longo de sua vida, mas ele se sentia como se tivesse andado por aqueles salões logo no dia anterior. De certa forma, sentia-se mais em casa em Vocans do que jamais se sentira em Pelego.
Curiosamente, ter tanto Ignácio quanto Atena nos ombros mal o atrapalhava, apesar da Griforuja aproveitar agora a oportunidade de esticar as asas e se lançar ao ar, pairando acima e mantendo vigia contra possíveis ameaças. Ignácio bocejou para ela,  depois se embrulhou mais de perto no pescoço de Fletcher, como se para informar a Griforuja que ela estava perdendo seu tempo.
Logo Fletcher descia as escadas, seguindo pelo corredor de celas. Já ouvia o rugido da multidão reverberando pelas paredes rochosas, subindo e descendo conforme a batalha por supremacia era travada nas areias da arena. Ao se aproximar da entrada, Fletcher percebeu que deveria ser a rodada final, pois as celas estavam vazias, com todos os competidores, exceto os dois na arena, já eliminados do Torneio.
Sua  entrada  passou  despercebida  pelos espectadores, de tão concentrados que estavam nos eventos abaixo. Nobres, generais e servos entoavam juntos um mesmo nome, que Fletcher só entendeu ao entrar.
— Didric! Didric!
No calor sufocante da arena, dois vultos giravam em torno um do outro, atacando e se defendendo enquanto buscavam uma abertura. Não parecia haver demônios presentes, o que indicava que as regras da rodada final eram julgamento por combate, como a segunda rodada de Fletcher contra Malik tinha sido no próprio Torneiro.
Didric estava armado com uma longa rapieira com guarda em cesto, criada para esgrimir em vez de matar orcs. Os cabelos loiros estavam emplastrados na cabeça por conta do suor, e uma mancha de sangue seco coagulava nos lábios e queixo, os restos de um recém-estancado sangramento de nariz.
O rosto cicatrizado se contorcia num sorriso selvagem ao oponente, o corpo, outrora flácido agora esguio e rijo, estendendo-se e contraindo-se com a facilidade de um espadachim treinado.
O outro combatente era claramente um anão, com uma longa juba de cabelos ruivos que chicoteava o ar conforme os dois se esquivavam e contra-atacavam,  uma das mãos segurando uma pulseira espinhosa como soqueira para golpear e aparar, a outra brandindo uma lâmina curta e larga com um cabo de osso entalhado. Fletcher reconheceu a arma como sendo um seax.
O anão deu alguns passos para trás contra uma saraivada súbita de ataques de Didric, então chutou o chão para lançar um borrifo de areia nos olhos dele.
Quando Didric girou para ficar de costas, levando as mãos aos olhos, o anão aproveitou a oportunidade para se esquivar em direção a um espaço aberto na lateral, pois estivera sendo pressionado contra a parede da arena.
Fletcher ficou surpreso ao ver o queixo imberbe de uma anã de olhos tão verdes quanto os de Otelo, com um salpicar de sardas na ponte do nariz de botão. Ela não vestia véu como faziam outras anãs, mas Fletcher reconheceu a pulseira de espinhos na mão, um torque, o equivalente feminino à machadinha.
— Fletcher, aqui embaixo — gritou Otelo, e Fletcher viu o amigo acenando alguns degraus abaixo.
Fletcher desceu até Otelo e se sentou ao seu lado,  sem nunca desviar os olhos dos dois oponentes enquanto Didric investia novamente, cuspindo palavras murmuradas. Fletcher não ouviu o que foi dito, mas percebeu pelo jeito como a garota arregalou os olhos que fora uma ofensa.
— Como ela se chama mesmo? — indagou Fletcher, enquanto ela aparava mais um golpe com o torque e brandia o seax em direção às pernas de Didric, forçando-o a pular, desajeitado, sobre a lâmina.
— Ela se chama Cress. Já deveria ter vencido essa disputa; Didric não foi treinado para esgrimir contra um adversário com dupla empunhadura. Vê o nariz dele? Ela o acertou na cara com o torque, mas Rook considerou um golpe não fatal. Típico. — Otelo apontou o juiz trajando preto no canto, com olhos cintilando de raiva enquanto o seax de Cress cortava o tecido da gola do uniforme de Didric, o pescoço só permanecendo intocado graças ao feitiço de barreira.
— Mas o que é isso? — berrou Otelo, a voz perdida em meio à multidão que vaiava a defesa tosca de Didric. — Um golpe no pescoço é fatal!
Rook balançou a cabeça e franziu os lábios. Apesar da óbvia torcida por Didric da parte do público quase inteiramente humano, vários vaiaram a decisão.
Fletcher, percebendo a ausência de outros anões,  cutucou Otelo.
— Cadê Átila? Na enfermaria?
— Não. Ele e Cress... vamos dizer apenas que não se dão bem. Depois de perder para Didric, ele saiu batendo o pé.
Abaixo, Cress golpeou contra o estômago de Didric, forçando-o a se curvar para a frente e escapar.  Foi então que o torque avançou sibilando pelo ar,  deixando marcas dos espetos no rosto dele e produzindo um estalo ressonante que Fletcher ouviu até acima dos gritos da multidão. Didric caiu como uma pedra, com braços e pernas esparramados no chão. Mesmo assim, Rook esperou dez longos segundos antes de finalmente assentir, provocando aplausos esparsos daqueles ao redor.
— Cress vence o Torneio! — declarou ele, batendo palmas duas vezes antes de deixar as mãos cair para os lados do corpo. Saltou para a arena quando Didric recuperou a consciência e ajudou o rapaz atordoado a se levantar. Cress, orgulhosa, limpou o rosto, parecendo não se incomodar com a falta de comemoração ao seu redor.
Claramente, os ataques dos Bigornas haviam cumprido sua missão. O sentimento antienânico parecia pior do que quando Fletcher chegara a Vocans. A maior parte do público já começava a se dispersar, desapontada que seu favorito tivesse perdido a batalha. Otelo balançou a cabeça conforme as arquibancadas começaram a se esvaziar. Era uma celebração pobre para uma vitória muito merecida.
— Fique atento; os gêmeos estão aqui — sussurrou Otelo.
Tarquin e Isadora subiam as escadas à frente de Fletcher e Otelo, com Didric, suado, a reboque. O trio parou alguns degraus abaixo, encarando os dois rivais.
— Mas que reunião de família tocante — zombou Didric, o que lhe rendeu um soco no braço, cortesia de Tarquin.
Ele encarou de volta ao captar o olhar odioso de Fletcher, que precisou se controlar para não empurrar Didric de volta escada abaixo. Otelo,  porém, segurou seu pulso para acalmá-lo.
Isadora revirou os olhos e estalou os dados para chamar a atenção de Fletcher.
— Caríssimo primo, já faz muito tempo. — Ela deu um sorriso fofo e fez uma mesura exagerada para Fletcher. — Ora, mais de um ano, não? Por onde você andou esse tempo todo?
— Vocês não são família pra mim — cuspiu Fletcher, com as memórias de seu longo cárcere e daqueles responsáveis por este ainda frescas na memória.
— Não poderia concordar mais — retrucou Tarquin, com um sorriso de zombaria. — Uma vez plebeu, sempre plebeu. Desde que a herança da tia Alice continue conosco, não dou a mínima para o nome que você usar.
— Você  pode  ficar  com  seu  dinheiro ensanguentado — disse Fletcher. — Só fiquem longe de mim.
— Com prazer — respondeu Isadora, o sorriso fofo já longe rosto. Ela ergueu o nariz e farejou o ar.  — Vamos — zombou, indo embora. — Aqui fede a anão, de qualquer jeito.
Otelo ficou vermelho de raiva, e Fletcher estremeceu quando o amigo intensificou o aperto em seu antebraço para controlar o impulso de agressão.
— Belo corte de cabelo, aliás — comentou Tarquin, olhando para trás. — Você precisa me contar onde foi o que o fez.
— Já chega... — grunhiu Otelo, levantando-se num salto. Fletcher imitou o movimento, mas o trio tinha partido, e no lugar deles os dois deram de cara com Rory e Genevieve, que pareciam espantados.
— Oi — cumprimentou Fletcher, inseguro. Os três não tinham se despedido nos melhores termos; ele acabara quase matando o Caruncho de Rory no Torneiro, afinal.
— Oi. Então você saiu mesmo — respondeu Rory,  constrangido.
— Isso aí — confirmou Fletcher, coçando a nuca.
— Legal... legal — disse Rory, evitando o olhar do colega. — Fico feliz.
Os quatro ficaram ali, parados num silêncio constrangido, até que Genevieve deu um passo adiante, com um sorriso forçado no rosto.
— Bem-vindo de volta — disse ela, dando um firme abraço em Fletcher. — Vamos conversar direito mais tarde.
Ela tomou o braço de Rory, e os dois se afastaram depressa.
— Bem, isso foi... bem — comentou Otelo.
— Só precisamos de um pouco mais de tempo — afirmou Fletcher. — Eles não vão me perdoar assim de uma hora para a outra.
— É — disse Otelo. — Se bem que seria de imaginar que um ano fosse o bastante, não é?
Mas Fletcher não respondeu, pois Cress tinha saído da arena e subia até eles, limpando a areia do uniforme de cadete.
Momentos depois, ela estava diante dos dois, com as mãos nos quadris e os olhos cintilando.
— Então, você é o grande Fletcher — disse ela, abrindo um largo sorriso. — Achei que seria mais alto.
— Você também não é assim tão alta — retrucou Fletcher, que não teve como não sorrir de volta. O bom humor da anã era contagioso.
— Cress e Átila tiveram um ótimo desempenho este ano — comentou Otelo, também sorrindo. — Vencer aquele falastrão do Didric foi o ápice, resultado de muito esforço e treinamento. Nem consigo expressar como foi desagradável ser colega dele. Didric e Atlas viraram amigos do peito desde o primeiro instante.
— Não precisava nem dizer — disse Cress.
Ela indicou o outro lado do salão com um aceno de cabeça, e Fletcher viu Didric sentado na arquibancada oposta, ao lado de Tarquin, Isadora e Atlas. O jovem Cavell vestia o mesmo uniforme negro e amarelo que Fletcher vira antes, mas Atlas e os gêmeos trajavam o uniforme dos Fúrias de Forsyth; tecido negro com botões e dragonas prateados.
— Por que estão vestindo os uniformes? Eles acabaram de se formar, não? — indagou Fletcher. 
— Tarquin e Isadora foram promovidos a tenente depois do torneio do ano passado, assim como Serafim — explicou Otelo, seguindo o olhar de Fletcher. — Então os gêmeos têm servido no regimento do pai o ano todo. Acho que trouxeram o uniforme de Atlas, agora que ele se formou também.
Depois de um ano lutando nas linhas de frente, os gêmeos deveriam estar mais formidáveis do que nunca, pensou Fletcher com terror.
— Sei tudo sobre a missão, aliás — sussurrou Cress, enfiando-se no assento ao lado dos dois. — Rook nos contou antes do Torneio começar. Quero me juntar à sua equipe se você aceitar. Acho que provei ser uma guerreira valorosa.
— Equipe? — indagou Fletcher.
Antes que ela pudesse responder, porém, Sylva se espremeu entre eles e se sentou, ainda ostentando a armadura verde do dia anterior.
— O que foi que eu perdi? — perguntou a Fletcher. — Didric venceu? Eu teria ficado, mas saí para procurar você.
— Ah. Não, Cress o derrotou — contou Fletcher,  inclinando-se para a frente, desajeitado, e apontando para a jovem anã.
— Parabéns — elogiou Sylva, estendendo a mão.
Cress a tomou com um leve franzir de cenho, insatisfeita por ter sido tão rudemente interrompida.
Fletcher se sentiu estranho, sentado tão perto de Sylva, pois eles não tinham se falado desde a reunião do conselho. Era difícil para ele oscilar tão rápido entre amigo e diplomata, especialmente depois da hesitação dela em apoiá-lo.
— Bem, como eu estava diz... — começou Cress,  parando logo em seguida ao ver Átila descendo as escadas, batendo os pés. Ele evitou ostensivamente o olhar da colega antes de acenar respeitosamente com a cabeça para Fletcher e Sylva.
— É bom ver vocês, Fletcher, Sylva — murmurou ele, ainda evitando o olhar franco da anã. — Já faz muito tempo.
— Não está feliz em me ver também? — indagou Cress, animada, em um tom quase sarcástico. 
Átila ficou vermelho e virou a cabeça, depois grunhiu em voz baixa.
— Já é uma falta de vergonha entre os alunos, mas em frente a essa gente toda? É... repugnante.
Fletcher franziu a testa, confuso. Do que Átila estava falando?
— Eu sou assim tão feia? — retrucou Cress,  levando as mãos às bochechas e batendo as pestanas para ele.
— Cubra seu rosto — disse Átila, corando ainda mais.
— Entenda bem uma coisa, Átila — afirmou Cress, o tom agradável se transformando em algo mais severo. — Anãs vestem o véu porque elas querem. É para elas, não para você. Se eu decidir mostrar meu rosto, é uma decisão minha. Você não tem que se meter nesse assunto.
— É indecente — disse Átila, ainda afastando o olhar. — Você se exibe para que todos vejam.
— E quanto a mim, Átila? — interveio Sylva. Ela soava calma, mas Fletcher percebeu que as pontas das orelhas da elfa haviam ficado vermelhas, um sinal garantido de que estava brava.
— Não estou entendendo — respondeu Átila,  confuso.
— Eu sou indecente? Eu me exibo?
Átila se atrapalhou com as palavras, mas não conseguiu pensar numa resposta.
— E quanto a você, Átila? — perguntou Cress, pressionando o argumento. — Você tem um belo rosto, bigodes exuberantes. Ora, já vi você treinando sem camisa. Você se expõe ao mundo e a mim. Que indecente da sua parte.
Átila bateu o pé de raiva.
— Não vou discutir com patetas. Cress sabe que o que ela está fazendo é errado, mesmo que vocês, não anões, não entendam. Você, irmão, não deveria ser tão tolerante. Cress deveria ser um exemplo a todos os anões, e todas as pessoas no Império de Hominum verão esse rosto caso ela participe da missão. Imagine só se as outras garotas decidirem seguir o exemplo?
Otelo olhou para Cress e lhe deu um sorriso tímido.
— Não vejo nada do que reclamar — respondeu.
Átila bufou e saiu batendo o pé, dando a volta na arena em direção a Serafim, que acabara de notar os amigos e acenava, animado. Vestia um extravagante uniforme cor de âmbar com uma faixa escarlate, e estava armado com uma cimitarra e uma pistola no coldre.
Enquanto Fletcher e os amigos acenavam de volta, Rook avançou até o centro da arena, entalhando um feitiço no caminho. Quando completou o encantamento, um grande estouro soou na câmara, alto o bastante para ferir os tímpanos de Fletcher e deixar um tilintar ecoando em sua cabeça.
— Agora que vocês todos se calaram, podemos começar a seleção. Fletcher, Isadora, Malik e Serafim, venham se juntar a mim na arena.

4 comentários:

  1. Gente...não existem vilões demais nessa história??? Rei Alfric, Dedicr e o pai dele, Jakov, os gêmeos e seu pai, o gordo que foi queimado, lady Farvesahaun, Rook...já são 10 se não esqueci de ninguém...ta chato

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    1. Sim, mas Flecher dá conta. Ainda mais com a ajuda de alguns amigos: Sylva, Otelo, Serafim, Rory, Genevive, Arcturo, Lovet, Criss... 8, só que com certeza esqueci alguns

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    2. N me importo muito com a quantidade de vilões, vou ficar ainda mais feliz quando eles quebrarem a cara

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  2. Não vejo a hora de reencontrar o Serafim

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Boa leitura, E SEM SPOILER!