2 de março de 2018

Capítulo 18

Fletcher empurrou a porta e se deparou com um corredor curto, com uma fileira de portas de cada lado. A porta de entrada bateu atrás dele, empurrada por uma rajada de vento vindo de uma seteira no fim do corredor. Fletcher franziu o cenho ao vê-la; aquele seria um inverno longo e gélido se aquilo continuasse assim.
O rapaz ouviu movimento no quarto mais próximo e bateu, na esperança de que não estivesse acordando ninguém. A porta se abriu ao seu toque, talvez soprada pelo vento.
— Olá? — chamou, empurrando-a.
Subitamente se viu caído de costas no chão, com dentes cheios de baba mordendo o ar logo acima de si enquanto um peso enorme o prendia. Fletcher conseguiu segurar a criatura pela garganta, mas precisou usar toda a sua força para evitar que as presas dela se fechassem no seu pescoço. Enquanto a saliva do bicho pingava no rosto do rapaz, seu diabrete guinchou e atacou o focinho do monstro com as garras, mas o único efeito foi fazer a criatura ganir de dor com cada rilhar de dentes.
— Chega, Sariel! Ele aprendeu a lição — disse uma voz melodiosa vinda de cima.
Imediatamente, a criatura interrompeu o ataque e se sentou no peito de Fletcher. Ainda indefeso, o rapaz espiou seu algoz, e viu um Canídeo quase tão grande quanto Sacarissa: do tamanho de um pônei pequeno. Porém, enquanto a pelagem do Canídio de Arcturo era negra e crespa, este tinha pelos loiros e encaracolados como as madeixas de uma dama de Corcillum. O focinho também era mais longo e refinado, com um nariz preto e úmido que o farejava.
— Tire esse bicho de mim! — conseguiu exclamar Fletcher por entre dentes cerrados. Era como se uma árvore tivesse caído em cima dele e lhe esmagasse o peito.
A criatura desceu de cima do rapaz e se sentou ofegante atrás da porta, com os quatro olhos malévolos ainda fixados em seu rosto.
— Vou escrever uma carta aos chefes dos clãs sobre isto! Fui colocada com os plebeus num quarto menor e menos confortável que uma cela de cadeia, que foi obviamente invadido por um jovem rufião logo na primeira manhã. Quando me deram Sariel, comecei a pensar que estivessem levando nossas negociações de paz a sério. Agora sei que estava enganada — ralhou a voz, carregada de amargor e raiva.
Fletcher se sentou e contemplou a dona da voz, estonteado pelo sangue que lhe voltava à cabeça.
O menino arregalou os olhos ao notar as longas orelhas em forma de diamante que despontavam por entre os cabelos prateados. Um rosto delicado o encarava com grandes olhos da cor de um céu azul límpido. Estavam carregados de desconfiança e pareciam quase à beira das lágrimas. Fletcher estava conversando com uma pálida menina elfa, vestida com uma camisola rendada.
O rapaz desviou o olhar e virou o rosto, falando em defesa própria:
— Calma lá, eu só queria dizer oi. Não quis assustar você.
— Me assustar? Não estou assustada, estou furiosa! Ninguém lhe avisou que este era o alojamento das meninas? Você não tem permissão de entrar aqui — gritou a elfa como uma banshee, batendo a porta na cara de Fletcher.
Ele xingou a própria estupidez.
— Seu idiota — murmurou a si mesmo.
— Parece que não foi muito bem — comentou Rory atrás dele, uma expressão de solidariedade no rosto ao espiar pela porta que levava ao salão comum.
Fletcher se sentia um idiota.
— Por que você não me avisou que aqueles eram os alojamentos das meninas? — estourou Fletcher, ficando vermelho ao voltar ao salão principal.
— Eu não sabia, juro! Acho que faz sentido, né, agora que penso melhor, com Genevieve neste lado e um quarto sobrando do outro... — disse Rory atrás dele.
— Tudo bem. Só não esqueça de ficar mais esperto antes das aulas começarem, ou vai fazer a gente passar vergonha diante dos nobres — afirmou o rapaz, arrependendo-se de suas palavras imediatamente. A expressão animada de Rory desapareceu, e Fletcher respirou fundo. — Foi mal, não foi culpa sua. Não é todo dia que sobrevivo a um ataque de Canídeo. — Forçou um sorriso e deu tapinhas amistosos nas costas de Rory. — Você estava dizendo alguma coisa sobre um quarto sobrando?
— Sim! Já que você foi o último a chegar, os melhores quartos já foram ocupados. Dei uma olhada quando cheguei, e não é grande coisa.
Eles entraram num corredor quase idêntico, exceto por uma porta adicional que tinha sido construída bem ao final. Parecia uma decisão tardia, mais um armário de limpeza reformado do que um quarto de verdade.
Mas o lado de dentro era mais espaçoso do que Fletcher tinha esperado, com uma cama de aparência confortável, um guarda-roupa grande e uma escrivaninha pequena. O menino fez uma careta à seteira aberta na parede; teria de tampá-la depois. Havia um uniforme dobrado no pé da cama, um jaquetão azul-marinho com duas fileiras de botões e calças da mesma cor. Fletcher ergueu o traje e gemeu. Estava puído e rasgado, com os botões de latão tão frouxos que um deles estava pendurado quase três centímetros abaixo do lugar certo.
— Não se preocupe, posso dar uma olhada nessa jaqueta para você depois do café. Minha mãe era costureira — disse Genevieve, da porta.
— Obrigado — respondeu Fletcher, mesmo sem saber se seria possível de fato salvar o uniforme.
— Então, como era a menina? — inquiriu Genevieve, com olhos faiscantes de curiosidade. — Era uma sulista, que nem eu?
— Ela era... não sei dizer exatamente — despistou Fletcher, evitando a pergunta. Agora que já tinha arruinado a manhã da garota, não queria começar a fofocar sobre ela também. Melhor deixar que se apresentasse aos outros à sua própria maneira. A mente do rapaz ainda estava processando a presença de uma elfa na Cidadela. Eles não eram os inimigos?
Os pensamentos foram interrompidos pelo surgimento do diabrete, que pulou do capuz para inspecionar a nova morada. O demoniozinho derrubou o uniforme no chão com uma chicoteada do rabo, em seguida cantarolou feliz ao rolar de costas e se esfregar no tecido áspero. Rory arregalou os olhos e Fletcher sorriu consigo mesmo.
— O que é um Canídeo? — ponderou Rory em voz alta enquanto os dois voltavam à câmara principal. Logo foram seguidos pelo diabrete, que escalou até o ombro de Fletcher e vasculhou o ambiente com um olhar protetor.
— Você logo vai descobrir. Não são fáceis de descobrir. Se os seus Carunchos são demônios-besouros, então eu diria que um Canídeo é um demônio-cachorro, se é que isso faz sentido — explicou Fletcher orgulhoso, feliz em finalmente saber mais sobre conjuração do que outra pessoa.
— Nossos demônios são chamados de Carunchos? — indagou Genevieve, estendendo a palma e deixando o besouro azul pousar em sua mão.
— Não tenho certeza; ouvi o reitor usar essa palavra — respondeu Fletcher, sentando-se à mesa.
— Ah, bem, eu chamo o meu de Malaqui. Como em malaquita. Sabe, por causa da cor — decidiu Rory, deixando o besouro verde lhe subir pelo braço.
— A minha se chama Azura — declarou Genevieve, erguendo o demônio contra uma das tochas para que Fletcher pudesse ver o azul cerúleo da carapaça. O rapaz fez uma pausa, sentindo-se constrangido enquanto os dois o encaravam com expectativa.
— Como o seu se chama? — perguntou Rory, como se Fletcher fosse lerdo.
— Eu... Eu não tive bem uma chance de escolher um nome, ainda — murmurou em resposta, envergonhado. — Mas sei que ele é um demônio Salamandra. Talvez vocês possam me ajudar a escolher um nome durante o café da manhã.
— É claro! Ele tem uma cor linda; sei que a gente consegue pensar em alguma coisa! — exclamou Rory.
— Será que a gente poderia evitar as cores? — sugeriu Fletcher, na esperança de escolher um nome mais original. — Ele é um demônio de fogo. Talvez possamos usar isso.
Antes que Rory pudesse responder, uma governanta de aparência severa entrou no aposento com um cesto pesado de lençóis e roupas de cama.
— Fora daqui, todo mundo! Preciso arrumar o alojamento. Vocês podem esperar lá embaixo com os outros em vez de se meterem em encrencas aqui em cima — ralhou ela, enxotando-os para as escadas.
— Será que a gente deveria avisar os outros dois? — perguntou Genevieve, olhando de volta para cima enquanto eles desciam.
— Não — retrucou Fletcher, na esperança de evitar a elfa por pelo menos mais alguns minutos. — A governanta vai avisá-los quando chegar aos quartos deles.
Os outros deram de ombros e o guiaram pelo longo caminho corredor abaixo, sugerindo nomes. O diabrete de Fletcher voltou a dormir com um bocejo, alheio ao debate. O rapaz estava começando a se perguntar se estaria permitindo que o demônio ficasse preguiçoso enquanto observava Malaqui e Azura esvoaçando ao redor das cabeças dos donos.
Eles finalmente chegaram ao térreo, e Fletcher foi guiado pelo átrio, balbuciando um pedido de desculpas silencioso para Jeffrey, que ainda estava polindo o chão em que o trio pisava. O menino revirou os olhos com um sorriso triste e voltou ao trabalho.
Eles atravessaram o par de grandes portas que ficava do lado oposto da entrada principal no átrio. O teto tornou-se substancialmente mais baixo, porém ainda assim era um espaço enorme em que os passos do trio ecoavam. Grandes candelabros apagados pendiam em intervalos regulares sobre três fileiras de longas mesas e bancos de pedra. O centro do aposento era dominado pela estátua de um homem barbudo vestindo armadura elaborada, esculpida com uma atenção espantosa aos detalhes.
Fletcher ficou surpreso ao ver apenas dois meninos sentados ali, engolindo com prazer colheradas de mingau de aveia. Um tinha cabelos negros e pele morena; provavelmente vinha de uma das vilas nos limites do deserto de Akhad, no leste de Hominum. Era bonito, com queixo bem definido e olhos cheios de vida emoldurados por longos cílios.
O outro rapaz era gorducho, com cabelos castanhos bem curtos e um rosto amistoso e corado. Os dois acenaram para ele enquanto um criado lhe entregava uma bandeja de mingau, geleia e pão quente. Assim que Fletcher se sentou, os dois se apresentaram; o menino gordinho se chamava Atlas e o outro, Serafim.
— São só vocês dois? Cadê os alunos do segundo ano? — indagou Fletcher, confuso.
— Nós comemos antes deles, graças aos céus! — resmungou Atlas, abandonando a colher para sorver o mingau pela beirada da tigela.
— Eles precisam do sono adicional, considerando o desgaste das lições mais... práticas — explicou Serafim, observando Atlas com uma expressão perplexa. — Eles fazem até excursões semanais à fronteira. Mal posso esperar para estar no lugar deles.
— Espere só até você ter visto como são as coisas por lá — murmurou Genevieve, com um tom de tristeza na voz.
Fletcher percebeu e decidiu mudar de assunto. Ele conhecia o suficiente sobre as linhas de frente para ser capaz de deduzir que a menina provavelmente havia perdido alguém próximo. Talvez fosse uma órfã, como ele.
— Cadê os seus demônios? Vocês receberam Carunchos como os outros? — Fletcher estava desesperado para ver mais demônios.
— Não, nada ainda — respondeu Atlas, com um toque de inveja. — Ainda estamos esperando. Disseram que os professores vão nos dar os nossos amanhã. Eles só tinham dois no dia que todos nós chegamos.
— Foi melhor assim — comentou Serafim, meio para si mesmo. — Eles me perguntaram se eu queria ficar com um dos Carunchos ou esperar. Fiz o meu dever de casa, falei com alguns dos criados. Os Carunchos são os mais fracos. É melhor esperar pela chance de conseguir uma criatura melhor.
Fletcher ficou intrigado com a menção a demônios melhores. Tentou se lembrar do que tinha visto de relance nas pinturas e esculturas pelo castelo. Se ao menos Jeffrey não estivesse com tanta pressa naquela hora... De qualquer maneira, ele teria tempo o bastante para esse tipo de coisa mais tarde.
— Pois eu não teria feito nada diferente — retrucou Rory, na defensiva. — Não trocaria Malaqui por nada.
Serafim ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo.
— Não quis ofender. Tenho certeza de que vou ter os mesmos sentimentos em relação ao meu demônio quando recebê-lo, seja ele um Caruncho ou qualquer outro tipo.
Rory grunhiu e voltou à refeição.
— Que outros tipos de demônio você conhece? Só ouvi falar de quatro — perguntou Fletcher a Serafim, que parecia ser o mais bem informado do grupo. Mas antes que o belo rapaz pudesse responder, Atlas ofegou de espanto. Um anão tinha entrado no refeitório... e trazia um demônio consigo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!