31 de março de 2018

Capítulo 17

MORRIGHAN

Entre mim e Jafir, já se passou uma vida. Parece que não existia nada antes — nada pelo menos que importasse. Eu contava os meus dias não pelas horas, mas sim pelos raios de cores que dançavam em seus olhos enquanto ele olhava para mim, pelo sol em nossas mãos entrelaçadas, pelos nossos ombros que se tocavam enquanto líamos. O seu sorriso aparecia mais facilmente agora, a imagem de um menino magrelo carrancudo era só uma memória. O seu sorriso. O meu estômago se apertava.
Nós tínhamos algo entre nós que já durava tanto e que era importante demais para ser estragado por causa de um dia — ou por causa de um simples erro. Ele me prometeu que nunca mais cavalgaria com eles. E agora me prometeu três dias. Daqui a três dias nos veríamos de novo. Começar do começo de novo, faremos planos para encontrar um lugar mais seguro para nos encontrar.
Durante algumas horas, esse pensamento me confortou mais do que eu poderia imaginar. Era sobre o futuro. Três dias. Jafir acreditava que tudo ficaria bem. Isso passaria. O meu estômago se acalmou. O meu pulso desacelerou. Não era preciso alertar o resto da tribo e preocupá-los.
Eu fiz as minhas tarefas da noite, mas sabia que a Pata e Oni tinham percebido que eu não tinha trazido nada de volta comigo hoje. Eu sempre trazia algo, mesmo que só algumas sementes, ou uma mão cheia de ervas. Mas eles não disseram nada para Ama, que estava ocupada amarrando o javali com Vicente. Talvez eles pensassem que eu estava doente. Esfreguei a minha testa algumas vezes e os vi assentindo um para o outro. Tentei fazer com que todas as minhas ações e palavras fossem casuais.
Mas enquanto o crepúsculo se transformava em noite, mesmo enquanto nos levantávamos as peles e as coberturas para poder deixar a brisa passar pela cabana comum nesse calor do verão, mesmo enquanto eu adicionava galhos e ramos na fogueira para que continuasse a arder, eu sabia. Eu e Jafir não nos encontraríamos na fenda em três dias. Nós nunca mais nos encontraríamos lá.
Só na tristeza.
No medo.
Na necessidade.
É neste ponto que o saber ganhava asas.
Ama me explicara de várias maneiras. Para os poucos que tinham sido deixados para trás e que não tinham nada, eles retornaram para esta forma de saber. Era como eles sobreviviam.
Mas este saber que me esmagava a barriga não me parecia nada igual a asas.
Na verdade, parecia mais algo escuro e pesado, espalhando-se, esmagando cada canto da minha espinha um por um, como se fossem passos chegando mais perto. Estes dias viriam e passariam, e Jafir não apareceria.
Eu me encostei no poste da cabana, olhando para os espaços escuros entre as árvores onde os grilos cricrilavam as suas canções noturnas, sem saberem o que eu sentia. Os gêmeos dançavam perto da fogueira, excitados pelo javali. Mesmo que já tivessem oito anos, nunca tinham comido um, e o seu aroma dançava pelo ar, vigoroso e salgado. Carys derrubara o javali enquanto colhia cogumelos nas sombras do choupo. Era uma ocasião rara.
Nós comíamos fora da casa, sentados em tapetes em volta da fogueira, e depois de ter comido, eu me senti melhor. Nedra assobiava uma música, melhorando o ar festivo. Meu humor melhorou temporariamente, e eu me perguntei se o que estava me incomodando era a fome.
Mas enquanto eu me levantava e olhava para extensão do vale, o máximo que a luz da fogueira me deixava ver, aquela sensação voltou, tirando-me o fôlego. Não fazia sentido. Não havia nada além de paz, mas então Ama apareceu atrás de mim e colocou uma mão em meu ombro.
— O que está sentindo? — ela perguntou.
Eu vi nos seus olhos também.
— Vamos apagar o fogo — ela disse — e levar as crianças e os outros para dentro.
Mas já era tarde demais.
O som rugiu pelo ar, o som dos cascos parecia vir de todos os lados. Todos pareciam confusos — os gêmeos gritaram, todos se virando, procurado saber o que era todo aquele barulho — e depois lá vinham eles, os Abutres nos rodeando com seus cavalos para ter certeza de que ninguém fugiria. A tribo estava imóvel de choque enquanto os Abutres nos encurralavam, todos nós silenciados a não ser pelos soluços de Shantal. Mesmo que dois anos tivessem se passado, a morte de Rhiam ainda estava em nossas mentes.
O líder, Harik, deu o sinal para os outros cavaleiros, que tinham ficado para trás nas sombras, e eles seguiram como tempestade pela cabana comum, derrubando paredes enquanto passavam. Eles desmontaram e começaram a pegar sacos de grãos e feijão seco que tínhamos estocado para o inverno, procurando por outros alimentos, pegando peles das paredes, enchendo as suas sacolas com tecidos e roupas, pegando tudo o que queriam e jogando o resto fora.
Outro Abutre, que os outros tinham chamado de Fergus, mandou que procurassem nas sombras com tochas, em busca de gaiolas de animais. Ouvimos os sons das nossas galinhas quando eles as encontraram. Eles as colocaram em sacolas também.
Era um redemoinho de movimentos — peles e braços e fervor — era difícil distinguir um Abutre do outro no seu entusiasmo descuidado. Mas então havia cor. Um movimento. Uma bochecha. Um peito. Um fio de cabelo.
A algazarra de repente se distorceu e foi abafada, o mundo estava se desacelerando. Virando do avesso.
Jafir.
Jafir estava com eles.
Ele pegou um saco grande de grãos e colocou no lombo do seu cavalo.
Os meus ossos viraram água.
Ele os guiara até aqui. Trabalhou lado a lado com o seu irmão. Eles tinham talento em saquear. Tudo acabou rapidamente, e eles deixaram a casa para nos cercar.
Os olhos de Jafir encontraram os meus, e o meu torpor desapareceu.
Eu tremia com raiva. Eles não tinham nos mostrado nenhuma compaixão ou misericórdia. Steffan alcançou o que restava do javali, e o enrolou em uma pele para levá-lo também. Eu vi a faca que Carys tinha usado para cortar a carne a um braço de distãncia de mim, pousada sobre uma pedra.
— Deixe-nos alguma coisa! — gritei enquanto dava um passo para frente para pegá-la, mas Ama, mais rápida que um relâmpago, me puxou para trás.
— Fique quieta, criança — ela sussurrou — deixe que levem.
Harik virou o seu cavalo quando ouviu a minha voz, e o guiou até mim. A suas lâminas prateadas balançaram aos seus lados, e ele olhou para mim.
— Ela está crescida.
Ama me puxou para trás dela.
— Você e os seus ladrões já pegaram o que queriam, Harik. Agora nos deixem.
Ele era um homem de estatura grande, as sobrancelhas cheias, os punhos pesados e carnudos. Mas eram os seus olhos que me assustavam mais. Eles se estreitaram enquanto ele me estudava antes de olhar de volta para Ama.
— É o meu direito, velha, ter o que é do meu sangue.
Ama não cedeu, e eu estava surpresa com a familiaridade entre eles.
— Você não tem direito nenhum aqui — ela disse. —Ela não é nada sua.
— É isso o que você queria que eu acreditasse. — O olhar dele voltou para mim. — Olhe para o cabelo dela. O olhar feroz. Ela quer nos matar. Isso vem de mim.
Eu não podia me enganar sobre o orgulho presente em sua voz. O meu estômago revirava, o meu coração doía. Senti o meu jantar subir pela minha garganta, o javali vivo e corajoso. A minha memória se enchia de sussurros de Ama, Oni e Nedra, sussurros que eu tinha negado há muito tempo. A verdade.
Olhei de volta para ele, engolindo o meu nojo e vergonha.
— Você não é nada para mim além de um animal, como os outros.
Steffan se precipitou para cima de mim, jorrando lições sobre respeito e sobre a minha falta dele, mas Jafir pulou na sua frente, empurrando-o para o lado e avançando até mim no seu lugar. Ele levantou o braço, a parte de trás da sua mão pronta para me bater.
— Segure a sua língua, menina, a não ser que queira que eu a arranque. — Ele se aproximou, a sua voz parecendo um rosnado. — Você me entendeu? Agora, volte para trás para perto dos outros.
Os meus olhos ardiam. Quem era ele? Não o Jafir que eu conhecia. A minha visão se embaçou.
— Como você pôde fazer isso?
Ele me encarou, o seu rosto e o peito brilhando com o suor à luz da fogueira. Ele cheirava a cavalo, sujeira e engodo.
— Dê um passo para trás — ele me ordenou de novo, trincando os dentes.
Eu o encarei também.
— Eu te odeio, Jafir de Aldrid — sussurrei. — E prometo que amaldiçoarei o seu nome e que o odiarei até o meu último fôlego.
— Já basta! Vamos embora! — Harik gritou, virando o seu cavalo. — Nós temos o que queríamos — e então encarou Ama — por enquanto.
Eles foram embora, Jafir por último, os seguindo.
A partida deles foi apressada e selvagem, tal qual a sua chegada, e Pata gritou, tentando evitar o cavalo que ia em sua direção. Ela caiu, mas os cavalos continuaram. Um pisou nela, esmagando a sua perna. Ela se contorceu com dor, e nós corremos para ajudar. Carys a examinou e disse que a perna estava quebrada. Seis de nós a levantamos gentilmente e a carregamos até o que restava da cabana para deitá-la entre os escombros espalhados. Carys começou a examinar a sua perna enquanto Onis sussurrava palavras de conforto na orelha de Pata.
Micah veio correndo do escuro, arrastando uma bolsa atrás dele.
— O último deles deixou isto cair! Escorregou da sela, e ele nem percebeu.
— Então pelo menos temos algo pelo o que sermos gratos — Ama falou, enquanto fazia um inventário das coisas que foram saqueadas.
Uma bolsa de aveia.
Eu não ficarei grata por isso! E nunca mais deixarei a minha mão de lado quando uma faca estiver ao meu alcance.

5 comentários:

  1. Ele é o pai da Morrighan 😱😱😱?

    ResponderExcluir
  2. Karina lê todos os livros postados aqui?

    ResponderExcluir
  3. Eu já suspeitava que Harik era mesmo o pai da Morrighan e que Gaudrel tinha mentido no livro que a Lia encontrou, já que lá ela falava que Harik havia roubado Morrighan e vendido para Aldrid, no entanto eles estavam apaixonados, só queria saber pq em uma das passagens das palavras perdidas de Morrighan ela falava que havia matado seu noivo, espero que nao seja o Jafir =(

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!