22 de março de 2018

Capítulo 17

Passaram-se horas; pelo menos dez, pois Fletcher se vira forçado a comer duas das pétalas guardadas no bolso. Ignácio diminuiu o ritmo da batida das asas, até que simplesmente passou a planar. Era como se todo o universo tivesse desaparecido, pois o negror da noite os envolvia. Tudo era escuridão, exceto a faixa de luz do éter, ao longe. E frio... Um frio que Fletcher não acreditara ser possível.
Ele teria morrido congelado, não fosse o calor do lombo de Ignácio.
Mesmo assim, à medida que se passavam os minutos e que a luz na distância aumentava gradualmente, ele ficou na dúvida se não tinha esperado demais para voltar. Seus dentes batiam sem parar, e gotas de vapor derramavam-se de sua boca.
Os orcs deviam pensar que ele morrera havia muito tempo, mas, para o caso de eles ainda estarem lá, Fletcher guiou Ignácio em uma longa curva que os levaria ao redor da região do Abismo próxima da lagoa, fazendo com que ganhasse tempo na viagem de volta.
Seu palpite fora acertado, a hipótese estava provada. Não havia Ceteanos naquele ponto tão longínquo do Abismo — pois ali não havia comida, luz ou calor. Os monstros sempre se reuniam em torno das bordas do disco do éter, na esperança de encontrarem demônios incautos que pudessem arrancar do topo dos penhascos, e, durante a espera, hibernavam ou canibalizavam-se.
Agora restava somente um problema: atravessar a região de volta ao éter.
Ele tinha duas coisas a seu favor. A primeira era o elemento surpresa, pois os Ceteanos jamais esperariam encontrar presas que viessem de trás — seus olhos estariam firmemente focados na beira do penhasco. A segunda era que o frenesi que ele presenciara talvez tivesse atraído Ceteanos de toda parte, desejosos de juntar-se ao banquete, o que diminuiria o grande número que espreitava junto aos limites do éter. As Serpes eram demônios enormes; cinco delas de uma tacada devia representar mais comida do que aquelas monstruosidades jamais tinham visto de uma só vez. Com sorte, não haveria nenhum Ceteano perto do ponto onde atravessariam de volta.
Agora já era possível ver a borda, penhascos de pedra vermelha cobertos pelo deserto estéril das terras áridas. Mesmo extremamente cansado, Ignácio aumentou o vigor do voo. A única coisa que Fletcher podia fazer era observar as profundezas lá embaixo, torcendo com todas as forças para que os Ceteanos estivessem se banqueteando, bem longe dali.
Segurou a respiração. Nada. Nada ainda.
E, então, o calor e o reluzir do céu, banhando-o como água quente, extraindo o frio que se entranhara até os ossos. Alívio, e um chilrear agudo de alegria da parte de Ignácio. Areia vermelha estendendo-se abaixo dos dois. Agora estavam a salvo.
Seria tão fácil fechar os olhos! Dormir...
A vegetação passava por eles lá embaixo, a brisa morna. O odor acre da vegetação, como grama fresca cortada, pesava nas narinas de Fletcher.
Ele se empertigou e estremeceu de dor quando seu corpo rígido e ferido doeu. Havia adormecido de alguma forma. Ou desmaiado. Não importava; a única coisa de que sabia é que as monstruosas criaturas tinham ficado muito para trás, ainda que viessem a habitar seus sonhos nos anos seguintes.
Ignácio voava baixo, logo acima da copa das árvores, onde os raios da luz desvanecida acima os inundava de calor. O Drake, sem mais do mana que ajudava a aquecer seu corpo, havia sofrido na fria expansão do abismo tanto quanto Fletcher, que se inclinou para a frente e acariciou o pescoço de Ignácio. O demônio o salvara, arriscando a própria vida no processo.
Fletcher sentia o cansaço de Ignácio e sabia que eles não conseguiriam continuar por muito tempo. Mas o demônio também estava cheio de expectativa, como se estivessem se aproximando de algo. Fletcher olhou para cima.
A lagoa. Ela brilhava como uma bandeja de prata, cintilando conforme as delicadas ondas estremeciam de um lado a outro. Ele estava com sede, coberto de fuligem, terra e efluentes dos Ceteanos. Seria o paraíso, mergulhar e se banhar naquilo. Ele podia sentir que Ignácio tinha a mesma intenção.
Mas havia algo errado. Ignácio ouviu alguma coisa e começou a mudar de caminho, batendo as asas com urgência repentina. Um sentimento de raiva, de proteção. Então Fletcher também ouviu. Um rugido, depois um grito. Sylva?
— Vamos! — gritou Fletcher, incitando o demônio exausto.
Ele estava cansado até os ossos, sem munição e tinha apenas um filete de mana. Mas iria lutar mais uma vez.
Sentiu raiva agora. Eles não haviam chegado até ali para que as coisas acabassem assim, seus amigos abatidos, a mãe morta. Ele rosnou entre dentes e retirou o khopesh da bainha. Já podia ver as bolas de fogo cruzando o céu, os demônios guerreando em uma longa praia branca, posicionados entre a selva e a água de um tom azul profundo.
Uma Serpe solitária atacava Lisandro, e o Grifo cambaleava, as penas escorregadias de sangue. Cadáveres de demônios menores jaziam inertes na areia, e outros demônios atacavam três vultos, que lutavam unidos. Um outro vulto estava escondido na névoa. A mãe de Fletcher.
O vento fustigou seu cabelo conforme ele e Ignácio disparavam de cabeça no meio daquela confusão, rugindo de ódio.
Ignácio atacou a Serpe com a velocidade de uma carruagem desgovernada, arrancando um pedaço do monstro gigantesco com o bico.
Fletcher foi lançado para cima em uma confusão de garras e asas, e aterrissou em uma mistura de braços e pernas na areia. Ficou ali, imóvel, quase sem forças.
— Fletcher, cuidado! — gritou Sylva, e ele rolou instintivamente para o lado. Ouviu um baque seco quando alguma coisa caiu na areia a seu lado.
Ele se pôs de pé em um pulo e saiu brandindo o khopesh às cegas; sentiu o impacto da lâmina, viu o xamã cair de joelhos, a arma enfiada até a metade em seu pescoço. Fletcher chutou o cadáver para livrar a espada, e sua raiva o fez sair correndo em disparada na direção da Serpe.
Havia dor pulsando em sua mente. Ignácio cruzou os ares e espirrou sangue na areia carmesim ao aterrissar nos baixios. Ele ficou caído ali, imóvel.
Lisandro cambaleou à frente, como se fosse combater uma vez mais, porém desabou depois de poucos passos. Algo peludo e vermelho tinha se agarrado à lateral de seu corpo.
A Serpe se virou com os olhos concentrados em Fletcher, e o rapaz subitamente percebeu o quanto sua espada era inútil contra aquele monstro. Recuou, devagar, e seus joelhos tremeram de exaustão, mal conseguindo suportar o peso do corpo. Ele mal podia ficar de pé; sair correndo estava fora de questão.
A Serpe deu um passo adiante, os antebraços alados esticados, sangue gotejando do focinho, uma ferida profunda no peito. A besta selvagem não contava mais com o xamã para controlá-la, mas estava em agonia, confusa e cheia de raiva. Aqueles demônios eram animais malignos por natureza, e aquele ali ainda seria capaz de lembrar-se das intenções de seu mestre.
Fletcher congelou onde estava, esperando que o demônio desistisse.
Mas era inútil. A Serpe não hesitou e veio saltando sobre a areia. Fletcher caiu para trás, viu a carne da boca vermelha e escancarada. Foi nesse momento que algo saiu rolando da selva e chocou-se contra a lateral do corpo da Serpe, atirando-a, guinchando, na água.
Sheldon.
O Zaratan pegara a Serpe pela garganta, o bico segurando com toda a força os dois lados do pescoço escamoso enquanto o arrastava para os baixios e além. Juntos, os dois demônios desapareceram na lagoa, tornando-se dois vultos negros sob a superfície. Sangue turvou a água de vermelho, depois uma espuma branca despontou conforme os demônios começaram a lutar nas profundezas.
Fletcher se virou bem a tempo de ver Tosk arremeter do céu um raio contra o último dos atacantes, uma Vespe com listras de abelha, que aterrissou ruidosamente nos baixios.
Ele caiu de joelhos enquanto os outros vinham correndo em sua direção — Sylva, Otelo, Cress. Seus rostos apertaram-se lado a lado para vê-lo, mas ele os ignorou, procurando Ignácio. Suspirou de alívio ao ver o Drake arrastando-se pela praia e usando a língua para molhar de saliva curadora uma ferida feia na carne rubra de seu flanco.
— Lisandro. Cuidem de Lisandro — conseguiu dizer, gesticulando para que os outros fossem até o demônio ferido atrás dele.
Houve um clarão branco quando o trio passou em disparada por Fletcher e executou o feitiço de cura. Ele soltou um longo suspiro, como se houvesse segurado a respiração por muito tempo. O Grifo sobreviveria.
E seus amigos também.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!