13 de março de 2018

Capítulo 17

— Não vou fazer isso — disse Fletcher, enquanto a capitã Lovett se inclinava da sela e o puxava para trás de si.
— Tarde demais. — Ela riu, pegando as mãos de Fletcher e as colocando em volta da cintura.
Era a manhã seguinte, e eles estavam num largo galho de árvore, com Lisandro arranhando a casca sob as garras, pronto para decolar. Antes, Fletcher não tinha se importado muito com a altitude, mas agora que sabia que voaria sobre tudo aquilo, o chão lhe parecia muito distante.
Os outros pilotos e passageiros estavam abaixo deles, incluindo Arcturo, prontos para o longo voo para Vocans, onde assistiriam ao Torneio. Viu Sylva entre os outros, a única elfa num mar de humanos e anões idosos. Sentiu-se ansioso quanto ao que tinha acontecido entre eles durante a reunião de conselho, mas não falara com ela desde então, tendo sido conduzido diretamente ao dormitório por um impaciente servo elfo, passado por uma noite de sono intranquilo e, em seguida, acordado por Lovett de manhã.
Sylva sempre colocava o próprio povo antes da amizade dos dois, e a memória da tentativa de aliança dela com os gêmeos Forsyth surgiu a contragosto na mente de Fletcher. Mal poderia culpá-la por ter agido dessa forma, mas, ainda assim, a lembrança de suas prioridades na reunião de conselho lhe causava um aperto no coração.
— Você tem certeza de que não se incomoda em me levar de volta a Pelego, primeiro? — perguntou Fletcher, tentando não olhar para baixo.
— É claro. Cá entre nós, não gosto de passar meu tempo com o Corpo Celestial, por mais que ainda seja membro. — respondeu Lovett, olhando para trás. — Foi por isso que me voluntariei para dar aula em Vocans. Ofélia Faversham é a cabo mais desagradável que já me comandou; apesar de ela preferir o título de Lady, pois acha que a patente soa muito masculina. Eu sou capitã, porém, então não tenha nenhuma ideia engraçadinha!
— Eu sou um capitão também, sabia — resmungou Fletcher, tentando se concentrar no retângulo das costas de Lovett. — Venci o Torneio, afinal.
— Eu tinha me esquecido disso! — riu Lovett.
Fletcher sorriu, pois jamais ouvira a risada dela antes. Sua voz, sempre tão determinada, ficava calorosa e convidativa.
— Eu acho...
Só que Fletcher nunca chegou a lhe dizer o que pensava, pois Lisandro se lançou para cima e o mundo se transformou num borrão de verde e marrom. O Grifo investia e ziguezagueava por entre os galhos, e Fletcher sentiu o estômago mergulhar no vazio, depois dar uma cambalhota. Lovett deu vivas de alegria incontida, urgindo Lisandro a voar ainda mais rápido.
Com algumas últimas batidas das poderosas asas, o Grifo irrompeu da folhagem no topo, grossas folhas esbranquiçadas que lhes açoitavam o rosto. Então estavam livres no céu da alvorada, com o sol matinal pálido, mas morno, na pele de Fletcher.
Ao longe se erguiam as montanhas Dente de Urso, com picos pontiagudos que arranhavam o céu, como as presas que os tinham batizado. Apesar da subida violenta, Fletcher sentiu uma calma súbita dominá-lo.
Um mar de verde se estendia abaixo deles; as copas das árvores ondulavam ao roçar da brisa, acompanhadas pelo suave ranger dos galhos. Era uma visão de tirar o fôlego.
— Nunca me canso de voar! — exclamou Lovett, acariciando o pescoço de Lisandro. — Como vão as coisas aí atrás?
Fletcher contemplou a paisagem ao redor. Mesmo ao espiar pela janela do quarto em Vocans, jamais estivera tão alto ou visto tanto do mundo em que vivia.
— Eu também nunca me cansaria — concordou Fletcher, reclinando-se na sela.
O medo tinha desaparecido, substituído por um desejo súbito de se mover, pular, sentir alguma coisa, qualquer coisa. Estava vivo e livre, enfim sem amarra alguma.
Queria conjurar Ignácio para que ele também pudesse compartilhar aquele momento. Mas era arriscado; mal havia espaço na sela. Porém, havia outra que poderia juntar-se a ele no seu primeiro voo, e, assim, Fletcher apontou a mão para o ar. A palma teve um clarão de dor quando o pentagrama brilhou em roxo, e logo em seguida Atena surgiu no mundo com um ronronar de puro deleite, esvoaçando ao redor de Lovett e Fletcher numa mancha branca e marrom. Quando Lisandro olhou para trás a fim de conferir a recém-chegada, ela recuperou a compostura, pousou no ombro do mestre e o fitou serenamente. Fletcher estendeu a mão para acariciá-la, e sentiu uma pontada de ciúmes de Ignácio. A emoção foi escondida tão rapidamente quanto apareceu, mas Fletcher baixou a mão.
— Eu me lembro bem de Atena — comentou Lovett, sobriamente. — Fui estudante em Vocans com seus pais, Fletcher. Claro, eles eram muito mais velhos que eu. Você precisa saber que eram boas pessoas. Edmund e Alice sempre foram gentis comigo e tomaram conta de mim, já que eu era a mais jovem da academia. Arcturo fez o mesmo, é claro.
— Arcturo conheceu meus pais? — indagou Fletcher.
— Conheceu. Foi o primeiro plebeu a frequentar Vocans. Edmund, Alice e eu fomos os únicos que o aceitaram de verdade.
— Ele pode estar desapontado, agora que sabe que eu não sou seu meio-irmão — comentou Fletcher, o humor enveredando por um caminho mais sombrio.
Ele sempre soubera que podia contar com Arcturo para o que desse e viesse, como faria qualquer irmão mais velho. Será que Arcturo ainda se importaria com ele, agora que sabia a verdade?
— Acho que ele gostará ainda mais de você assim — assegurou-lhe Lovett, olhando para trás. — Seus pais morreram só dois anos depois de terem se formado, e Arcturo sofreu muito com a tragédia. Ele arranjou aquela cicatriz caçando os orcs que os mataram.
— Eu não sabia disso — observou Fletcher, contemplando as próprias mãos. Sentiu uma mordidinha afetuosa na orelha quando Atena tentou animá-lo. Penas roçavam a nuca do rapaz conforme a Griforuja se esfregava nele. Era reconfortante pensar que ela teria feito o mesmo com seu pai, muito tempo antes. Era sua única conexão com o próprio passado.
A determinação dele se fortaleceu, e Fletcher se voltou à tarefa imediata. Sir Caulder e Berdon gostariam de saber que ele estava bem.
— Leve-nos a Pelego, capitã — disse Fletcher, agarrando-se à sela e apontando o pico mais alto do Dente de Urso. — Vamos ver o quão rápido este grifo pode voar.
Enquanto eles desciam numa espiral, Fletcher ficou surpreso ao ver novas estruturas construídas fora dos portões de Pelego. Cabanas improvisadas espalhadas como pedregulhos jogados, construídas de qualquer jeito, com barro, palha e galhos esparsos. Havia uma área aberta no centro, onde um grupo de homens e mulheres se reuniam. Fletcher notou o vulto imponente de Berdon à frente, com Sir Caulder ao lado. Diante deles havia uma linha dos guardas de Didric, cujos uniformes amarelos e pretos contrastavam com o solo lamacento.
— Pouse ali — gritou Fletcher, apontando entre os dois grupos.
Ao se aproximarem da multidão, ele ouviu gritos de raiva; viu forcados, tijolos e pás erguidas. A situação estava tensa, e eles iam chegar bem no ápice da encrenca.
Lisandro aterrissou num espirro de lama, sujando os guardas mais próximos. Fletcher saltou para o chão, deixando que Lovett decolasse para circular acima. O olhar determinado da conjuradora não deixou dúvidas de que lado escolhia. Atena seguiu no rastro dela, pronta para mergulhar ao primeiro sinal de problemas.
— Lorde Raleigh — gritou um dos guardas. — Eu respeitosamente peço que o senhor se afaste. Estamos aqui seguindo as ordens de lorde Cavell. Esses posseiros devem imediatamente deixar as terras dele.
Fletcher o ignorou e se aproximou de Berdon e Sir Caulder. Ergueu a palma, e Ignácio se materializou ao seu lado, cuspindo uma pluma de chamas como advertência enquanto os guardas, nervosos, começavam a levantar os mosquetes.
— O que está acontecendo? — indagou o garoto, desejando ter o khopesh consigo.
— Estão tentando nos expulsar — respondeu  Berdon. — Esse é nosso assentamento.
— E não vamos sair daqui — berrou uma das mulheres na multidão. — Não vão tomar nossos lares uma segunda vez.
Houve uma explosão de apoio daqueles ao redor, e a multidão investiu adiante, parando logo atrás dos braços de Berdon. Fletcher a reconheceu como Janet, a coureira que fizera sua jaqueta.
— Quase todo mundo em Pelego está vivendo neste assentamento desde que Didric e o pai cobraram as dívidas para construir a prisão — explicou Berdon a Fletcher, sob o olhar dos outros. — Só que estas terras foram concedidas a Didric quando foi feito nobre, e ele vem tentando nos expulsar daqui desde então.
— Eu não fazia ideia — murmurou Fletcher, balançando a cabeça de desgosto.
— Isso não vai acabar nada bem — grunhiu Sir Caulder, desembainhando a espada e apontando contra o aldeão furioso mais próximo. — Aqueles guardas vão começar a atirar a qualquer momento. Berdon me diz que esta é a primeira vez que eles trazem os mosquetes.
— Sim, filho, acho que isso é a vingança por tê-lo vencido no julgamento — concordou Berdon, em seguida olhando por cima do ombro. — Não vou conseguir contê-los por muito tempo.
Fletcher fitou os soldados que se aproximavam.
Aquele problema era sua culpa; então ele teria que resolvê-lo. Mas como?
As cabanas ao redor não passavam de barracos imundos, abrigando os aldeões paupérrimos que não tinham como comprar materiais de construção de verdade. Não havia um poço de água nem muros para afastar lobos e ladrões. Os aldeões em si vestiam trapos sujos e esfarrapados, e tinham os rostos cobertos de fuligem. Até mesmo Berdon estava malvestido, e Fletcher via que ele inclusive perdera peso; seu físico outrora parrudo agora se tornara músculo magro e definido.
Era a isso que Didric os reduzira; transformara caçadores e artesãos antes orgulhosos em um bando de vagabundos morando em barracos. E agora, quando a última coisa que lhes restava era um teto, Didric queria lhes tomar até mesmo isso.
— Ele vai pagar por isso — sussurrou Fletcher, enquanto uma pedra voava por sobre a própria cabeça. Ela pousou a um metro dos guardas, mas, subitamente, os mosquetes estavam erguidos, e os dedos, nos gatilhos.
— Eles não podem matar todos nós, rapazes — berrou Janet de novo. — Nossas casas são tudo que nos resta!
— Elas não valem as suas mortes! — gritou Fletcher.
Os gritos da multidão se reduziram a murmúrios enquanto eles voltavam seus olhares para ele.
— Nós não temos mais nada — retrucou Janet, franzindo os lábios e cuspindo para demonstrar o desprezo. — Sem estes “lares” nó teremos que mendigar nas ruas de Boreas, isso se os Pinkertons não nos expulsarem primeiro. Metade de nós terá morrido de frio antes do fim do ano.
As palavras afetaram Fletcher com força. Era tão fácil pensar que eles poderiam reconstruir as vidas deles, encontrar empregos em outros lugares. Porém, ele ainda se lembrava daquela noite fatídica dois anos antes, quando ele mesmo fora forçado a abandonar Pelego. O medo, a dúvida. Mesmo assim, ele tivera dinheiro, roupas, armas. Essas pessoas não tinham nada. Ele queria poder ajudá-las, mas não tinha praticamente nada para lhes dar.
— O gato comeu sua língua, foi, lorde Raleigh? — zombou Janet. — Sim, a gente sabe tudo sobre a sua ascendência agora. Desça do pedestal e saia da frente. É aqui que faremos nossa resistência final. Não temos mais para onde ir.
Mas eles tinham. Fletcher se tocou da solução, como um facho de luz do sol irrompendo das nuvens. Seria trabalho duro, e ele não estaria lá para ajudá-los.
Mas Fletcher tinha uma dívida para com aqueles aldeões. Uma dívida para com Berdon.
— Esperem! Tem um lugar aonde poderiam ir! — gritou Fletcher. Ignácio rosnou quando os guardas deram um passo à frente. — Raleighshire. Vocês podem construir um novo assentamento lá.
Fez-se silêncio, rompido apenas pelo tilintar do metal nos uniformes dos guardas.
— Há vilas abandonadas. Terras para caçar, rios para pescar. É quente, na fronteira da selva. Vocês podem reconstruir. Começar de novo. — Fletcher falava depressa, pois Ignácio soltou mais um latido de advertência quando os guardas deram mais outro passo.
— Você acha que a gente ficaria mais seguro perto da selva? Com saqueadores orcs atravessando a fronteira todo dia, massacrando quem estiver no caminho? Prefiro correr o risco do aqui e do agora — sibilou Janet.
— Vocês me conhecem, todos vocês — declarou Fletcher, dirigindo-se à multidão. — Serei o lorde e senhor das terras onde vocês viverão. Juro que farei todo o possível para manter todos sãos e salvos quando eu voltar para lá.
Ignácio escalou a perna do mestre e subiu até seu ombro. Fletcher puxou Berdon e Sir Caulder pelos braços. Era hora de mudar de tática.
— Você podem morrer aqui, como tolos teimosos —afirmou, caminhando até a multidão. — Ou podem nos seguir para uma nova vida. A escolha é de vocês.
Fletcher abriu caminho pela turba, afastando-se dos soldados. Ele sentiu os olhares ao esbarrar nos outros e torceu para que não vissem sua nuca corando de medo. Será que dera certo?
Berdon falou bem alto, no seu barítono profundo, conforme os três se separavam da aglomeração.
— Aqueles que virão conosco, peguem suas coisas e me encontrem à margem do acampamento. Levem só o que puderem carregar, pois a estrada será longa.  O resto de vocês, nos vemos no além.
Fletcher, Berdon e Sir Caulder seguiram em frente, sem olhar para trás. Ouviram o esguicho de passos na lama atrás deles, mas, se eram mais do que alguns poucos gatos pingados, Fletcher não sabia dizer.
— Quantos deles estão nos seguindo? — sussurrou Sir Caulder do canto da boca, grunhindo com o esforço de caminhar com a perna de pau na lama.
— Não faço ideia — murmurou Berdon de volta. — Não olhe. Dê a eles mais alguns minutos.
Os três continuaram caminhando, passando pelos últimos barracos, até alcançarem a trilha montanhosa que descia da vila. Não houve tiros, mas eles continuaram virados para a frente, contemplando os vales abaixo. O sol ainda se erguia ao longe,  banhando as copas das árvores em luz dourada.
— Se o senhor não se incomodar, eu gostaria de ir com o amigo Berdon aqui de volta a Raleighshire — disse Sir Caulder em um tom de insegurança, pouco mais que um suspiro. — É lá que é o meu lugar, e não acho que estarei seguro em Vocans depois de tudo o que falei no julgamento.
— E será muito bem-vindo, é claro. Sabe, não tive uma chance de lhe agradecer. Você correu um grande risco, contando aquela história — disse Fletcher.
— Não há de quê, meu caro rapaz. Era meu dever.  Fico feliz de ter sido capaz de salvá-lo, mesmo depois de ter falhado com seus pais há tantos anos. Você pode me perdoar? — A voz dele fraquejou, e Fletcher se lembrou de que, mesmo sendo um guerreiro habilidoso, Sir Caulder era um homem idoso, próximo ao fim dos seus anos. Ele poderia imaginar como a culpa fora terrível, mantida oculta por tanto tempo.
— Não há nada a perdoar. O passado ficou para trás — respondeu Fletcher. — Vou me concentrar na família e nos amigos que ainda me restam, incluindo você.
Ele fez uma pausa e se virou para Berdon, que encarava a alvorada e ignorava os olhos do rapaz.
— Você sabe que ainda é meu pai, né?
Berdon fechou os olhos e sorriu, e a tensão sumiu dos ombros dele.
— Há coisas que eu terei que fazer em breve — continuou Fletcher, passando o braço pelas costas largas de Berdon. — Coisas que me levarão para longe de você. Mas eu prometo que voltarei para casa. Podemos fundar a nova vila juntos, longe do buraco que isso aqui se tornou.
— Vou cobrar essa promessa, filho — respondeu Berdon, envolvendo Fletcher num abraço de urso que fez as costelas do rapaz estalarem.
Uma tossida constrangida soou atrás deles, e Fletcher espiou sobre o ombro de Berdon,  deparando-se com um monte de gente parada ali, as posses empilhadas bem alto em carrinhos de mão e uma única carroça bamba. Janet saiu do grupo, o rosto brevemente obscurecido pela sombra de Lisandro quando o Grifo passou por ali.
— Bem, você nos convenceu. Agora parem com essa chorumela sentimental e nos diga como chegar lá.


3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!