31 de março de 2018

Capítulo 16

JAFIR

Meu rosto ardia por causa do vento. Eu cavalgava o mais rápido possível, pegando as armadilhas enquanto passava. Elas estavam todas vazias, mas eu não me importava. A única coisa que estava em minha mente era Steffan e a forma como ele tinha sorrido para mim ontem à noite. Eu entendia agora. Ele tinha nos visto, me viu cavalgando com Morrighan. Ou talvez enquanto nos banhávamos no lago?
Refiz os nossos passos, pensando em onde que ele poderia ter nos visto. Eu nunca a levei para perto do nosso acampamento, e Steffan era preguiçoso e quase nunca ia para longe. Mas Fergus estivera de mau humor desde a chegada do clã do norte. Mais insistente em aumentar as nossas reservas. Ninguém podia volta com as mãos vazias, e — de repente o esclarecimento veio — é claro que Steffan me seguiria, já que eu era um caçador melhor que ele. Talvez tivesse sido ele quem esvaziara as minhas armadilhas.
A imagem dele andando até nos apareceu em meus pensamentos de novo. Parado na porta, composto e confiante, com aquele mesmo sorriso que me mostrou na noite passada.
Medo nasceu dentro de mim, e as minhas mãos se apertaram nas rédeas. Há quanto tempo ele estava lá, nos escutando? Medo explodiu em minhas veias. Morrighan. Tentei lembrar de todas as palavras que eu disse, mas tudo era uma confusão em minha cabeça — eu tentando convencê-la de que nunca mais invadiria uma tribo, o desespero em seus olhos, o desapontamento, as minhas promessas... Será que eu disse o nome dela? Será que ele me escutou chamá-la de Morrighan?
Qual é seu nome, menina?, ele perguntara.
Por que que Steffan se preocuparia com um nome a não ser que suspeitasse? A não ser que ele o tivesse escutado.
E o nome Morrighan era de grande importância — pelo menos para uma pessoa — o que obviamente seria importante para Steffan também.
Quando voltei para o acampamento, saltei do meu cavalo sem me incomodar em prendê-lo. Laurida carregava uma criança em suas ancas, deixando-a tomar um gole de uma sopa.
— Onde está Steffan? — exigi.
Ela olhou para mim, levantando uma sobrancelha em suspeita.
— Qual é a pressa? — ela perguntou. — Stefan acabou de passar correndo também. Ele esta lá embaixo no pavilhão com os outros. Harik e os seus homens se encontraram Fergus – estão dividindo o ensopado.
Suor escorria pelo meu rosto. Não, Harik não. Não hoje. Corri até o pavilhão, mas era tarde demais. Steffan dava a volta no círculo frio do fogo, anunciando para todos a sua descoberta – uma menina das tribos.
— Eu a encontrei — ele falou. — Morringhan.
O grupo se silenciou. As feições de Harik se endureceram, e ele se curvou para frente. Mas é claro que Steffan não tinha me mencionado – a descoberta tinha que ser toda dele. Ele atiçou a atenção de Harik e Fergus, contando a história de sua furtividade.
Eu o encarei.
— Como você sabe que era ela?
— Ela conversava com um garoto estúpido que disse o nome dela.
Quando Fergus perguntou por que ele não a trouxera, Setffan afirmou que ele estava em seu cavalo em uma cordilheira acima deles, e quando a menina o viu, eles fugiram. Mas ele viu a direção que tomaram. O acampamento não ficava longe.
Eu estava quase impressionado pela forma como ele inventava as historias. Eu sabia que não era para me proteger, mas para guardar a glória toda para ele.
Harik tomou um longo gole da sua sopa.
— Então quer dizer que a velha também estava perto. Tantos anos... — ele disse mais para si mesmo que para nós. A sua voz estava cheia de curiosidade. — Os esoques deles devem estar cheios. — Mas o interesse dele parecia estar em outra coisa além da comida.
Eles começaram a fazer planos para cavalgar até o acampamento, mas Steffan rapidamente recuou, dizendo que não tinha visto exatamente para onde tinham ido, mas que poderia liderá-los próximo o suficiente, e que à noite eles com certeza veriam um fogo que os guiariam.
Dei um passo à frente, zombando da alegação de Steffan.
— Eu vi a tribo que invadimos há alguns dias se dirigir para sul. Ela provavelmente fazia parte deles. Por que desperdiçar o nosso tempo?
Steffan insistiu que ela não era um deles, e quanto mais eu discutia, mais ele ficava irritado — mais todos ficavam irritados, exceto Harik. Ele me olhava com olhos frios, o seu queixo se levantando lentamente. Todos perceberam e se calaram.
— Deixem o rapaz ficar para trás se é isso o que ele quer — ele disse enquanto se levantava. — Mas ele não aproveitará os frutos da nossa incursão. — Ele olhou para Fergus à procura de confirmação.
Fergus me encarou. Eu o humilhei na frente de Harik.
— Nada — ele confirmou.
 Eles foram todos até os seus cavalos — os nossos homens e Harik, com seus quatro. Eu não podia impedir todos. Tinha que ir com eles.
— Eu também vou — falei, já pensando em formas de despistá-los. E se eu não conseguisse e eles encontrassem o acampamento, eu sabia que teria que me pôr entre Steffan e Morrighan.

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