13 de março de 2018

Capítulo 16

Ela estava suspensa num líquido esverdeado que ainda balançava. Fora colocada dentro do recipiente para preservar a carne, e um furo irregular podia ser visto no centro do peito magrelo.
— O que é isso? — perguntou Cerva, com voz marcada por um misto de horror e curiosidade. — Algum tipo de demônio?
— Não — respondeu Harold com gravidade. — Não é um demônio. É uma aberração, uma monstruosidade. Uma estranha mistura de orc e gremlin, criada por alguma desconhecida arte das trevas.
Fletcher examinou a criatura. Parecia um pouco com um gremlin, pois tinha as mesmas orelhas triangulares e caídas, nariz alongado e olhos bulbosos. Os dedos também eram longos e ágeis como os de um gremlin, com uma corcunda semelhante, porém menos pronunciada. Vestia até uma tanga de trapo do mesmo tipo.
Porém, era grande demais, da altura entre a de um humano e a de um anão. A boca estava cheia de afiados dentes amarelos, e havia um par de grossos caninos na mandíbula inferior que lembrava Fletcher das presas de um jovem orc. O físico era mais esbelto, mas os fortes músculos nos membros não deixavam dúvida de que a criatura era uma ágil lutadora. A pele do cadáver, cinzenta como a de um orc ou gremlin, enrugara um pouco após a imersão no líquido.
— Nós o chamamos de goblins, e eles estão sendo criados aos milhares... — começou o rei, apenas para ser interrompido por Uhtred.
— Milhares? — gritou o anão. — Mal somos capazes de conter os orcs com as coisas como estão. Números eram a nossa maior vantagem!
— Que armas usam esses goblins? — indagou Sylva, saltando sobre a mesa para estudar a criatura mais de perto.
— As mesmas que os orcs, até onde sabemos — respondeu o rei Harold. — Clavas cravejadas com vidro vulcânico, dardos, escudos de couro cru, lanças com ponta de pedra, esse tipo de coisa. Como Uhtred disse, são os números que nos preocupam. Mesmo contando com tropas enânicas e élficas, pode ser que eles já nos superem em número.
— E como vocês os descobriram? — perguntou Fletcher, com o rosto corando.
Harold, porém, o respondeu de pronto:
— O rapaz. Menino, qual é seu nome? — inquiriu Harold, estalando os dedos.
Fletcher ficou momentaneamente chocado com a grosseria do rei, mas então percebeu que ele ainda interpretava um papel.
— Mason, milorde — murmurou o rapaz.
— Mason aqui trouxe o corpo consigo. Ele matou um deles durante a escapada. Você é um rapaz inteligente, não é, Mason?
— Se Vossa Majestade diz — respondeu Mason, baixando a cabeça em respeito.
— Mason nos conta que os viu chocando de ovos, por incrível que pareça, nas profundezas das cavernas órquicas na selva. Este que vocês veem está completamente crescido, um dos primeiros espécimes. Desprovido de sexo debaixo daquela tanga.
— E quantos desses espécimes iniciais existem? — perguntou Uhtred, virando-se para Mason.
— Num sei dizer com certeza, com seu perdão, senhor. Talvez umas centenas — respondeu Mason, depois de alguns momentos de reflexão. — Eles fica escondido debaixo da terra a maior parte do tempo, cuidando dos ovo e coisa e tal. Os ovo deve ficar chocando um tempão, porque os goblin saem crescidos deles. Alguns ovo devia ter vários anos, pela poeira e lama neles. Depois que essa leva chocar, não deve ter outra por muito tempo.
— Bem, isso pelo menos já é alguma coisa — comentou Uhtred.
— De fato — assentiu Harold. — O que me traz à próxima parte da nossa reunião. Esses ovos devem ser destruídos. Lady Cavendish deve ser resgatada. Nossos povos devem ser unificados e o moral, melhorado. A pergunta é: como?
— Deixando de lado o problema do moral, não podemos articular um ataque direto contra os orcs — afirmou Cerva, enquanto Sylva se descia da mesa. Fletcher seguiu o exemplo da elfa, feliz em se afastar do cadáver em conserva. Cerva não esperou que ele se sentasse antes de prosseguir: — Vocês precisam de campo aberto para os mosquetes dos seus soldados, e os orcs estariam lutando no próprio território. Seria um massacre.
— Eu concordo — declarou um dos generais. — Lady Faversham, seus conjuradores alados não poderiam montar uma investida?
Ofélia se virou para o general e lhe lançou um olhar gélido.
— Mason nos conta que foi mantido nas profundezas da selva. Só escapou quando foi carregado por um rio, usando o cadáver do goblin como boia. Não é mesmo, garoto? — Ela mal esperou o rapaz concordar com um aceno de cabeça antes de continuar: — Tão longe assim, o Corpo Celeste seria avistado antes mesmo de passar da metade do caminho, e os xamãs voariam em suas Serpes para nos enfrentar. A força aérea deles é maior que a nossa, apesar de sermos mais rápidos. Mesmo que conseguíssemos alcançar o alvo, poderíamos apenas pousar no local por alguns minutos, depois sair voando de novo antes que os xamãs orcs mobilizassem suas Serpes e nos alcançassem. Só que isso não seria nem de perto tempo suficiente para vasculhar as cavernas, destruir várias centenas de ovos de goblin e libertar uma prisioneira, especialmente com metade dos orcs alertados à nossa presença.
À menção dos cavaleiros de Serpe, Fletcher rememorou uma das longas e tediosas aulas de demonologia com o major Goodwin, na qual aprendeu sobre elas pela primeira vez. Eram enormes criaturas escamosas, com duas pernas poderosas, asas de morcego, uma longa cauda com espinhos e uma cabeça crocodiliana com chifres. De nível 15, eram consideradas os demônios mais poderosos no arsenal dos orcs, uma exceção a crença de que os demônios de xamãs orcs eram geralmente mais fracos que os de Hominum. Havia apenas uma dúzia delas, mais ou menos, mas nem mesmo os Alicórnios, Hipogrifos, Peritons e Grifos de Hominum eram páreos para as temíveis feras.
Pela primeira vez, o velho rei Alfric falou. Fletcher se controlou e tentou não encarar com raiva o homem que havia tentado matá-lo.
— Minha cara prima tem razão — afirmou ele, acenando com a cabeça para Ofélia. — Se perdermos o Corpo Celeste, perderemos nossa única defesa aérea. Então os cavaleiros de Serpe poderiam nos aterrorizar livremente sem o grupo para afastá-los caso invadissem Hominum.
— Então essa não é uma opção — disse Harold, apesar de empregar um tom que sugeria que ele já sabia daquilo. — Mas tenho uma solução. Um plano arriscado, que exigirá uma decisão unânime. Proponho mandarmos quatro equipes de formados de Vocans para atrás das linhas inimigas, resgatar lady Cavendish e destruir os ovos de goblin. Como magos de batalha, eles serão poderosos o bastante para se defender com eficácia, além de estar ao mesmo tempo em número suficientemente pequeno para atravessar a selva despercebidos. Não podemos arriscar nossos oficiais experientes; os soldados precisam da liderança deles nas linhas de frente.
Harold fez uma pausa para observar as reações do conselho, mas, dessa vez, o silêncio foi de surpresa em vez de desinteresse. A mente de Fletcher entrou em ação, contemplando o plano. Poderia dar certo, sim; mas era muito, muito perigoso.
Ele já fazia uma ideia de quem seria mandado nessa missão fatídica; um chute de Otelo por baixo da mesa lhe disse que ele não era o único. Cruzou olhares com Sylva do outro lado do salão. Ela o fitou impassível, mas Fletcher percebeu que os músculos da mandíbula da elfa estavam tensos.
— Cada grupo terá um guia designado — continuou Harold alegremente. — E, uma vez que tiverem completado a missão e saído das cavernas, o Corpo Celeste os trará de volta.
Mais uma vez, silêncio. O discurso cuidadosamente ensaiado de Harold não estava obtendo o efeito desejado.
— Mas isso não é tudo — insistiu o rei. — Poderemos unir nossos três povos em prol de um propósito comum. Lorde Forsyth, por favor.
Zacarias se levantou e tirou um objeto do bolso, erguendo-o à luz das tochas para que todos pudessem ver. Era um cristal roxo, cuidadosamente polido e lapidado numa gema plana e redonda.
— Cristal de coríndon. Pedras de visão, medidores de realização e pedras de carregamento são todas feitas com eles. Até algumas semanas atrás, era um dos materiais mais raros e caros de Hominum. Só que não mais.
Zacarias jogou o cristal na mesa, como se não valesse nada.
— O Triunvirato investiu em operações de mineração para suplementar as reservas limitadas de enxofre em Hominum, o ingrediente chave para a pólvora. Em vez disso, nos deparamos com um enorme depósito de coríndon. Grande o bastante para colocar cristais de visão em todos os quarteis, tavernas e prefeituras do país e ainda sobrar.
Se ele esperava alguma reação da mesa, ficou decepcionado, pois só recebeu olhares inexpressivos.
— Parabéns — comentou Sylva, com um leve toque de sarcasmo.
— Vocês não entendem o que isso significa?! — exclamou Ofélia, surpresa com a falta de interesse. — Todos os habitantes de Hominum poderão usar os cristais de visão para descobrir o que está acontecendo nas linhas de frente. Pode ser um enorme reforço ao moral.
— Sim, do ponto de vista de apenas um demônio para cada cristal — apontou Otelo. — E não poderiam ouvir nem uma palavra; só o dono do demônio seria capaz.
— Mas veriam soldados elfos, anões e humanos lutando lado a lado — observou Uhtred, interessando-se pela ideia.
— Mas isso só vai ajudar a longo prazo — argumentou Cerva. — Os soldados elfos e anões só chegarão às linhas de frente daqui a algumas semanas. Precisamos resolver as tensões raciais antes que eles cheguem. Caso contrário, haverá rixas entre nossos soldados, escutem o que eu digo. Uma simples briga de taverna poderia acabar descambando para guerra racial declarada.
— Bem, essa é a segunda parte do meu plano — retrucou Harold, levantando-se num salto e dirigindo-se à mesa inteira. — A missão aconteceria antes da chegada dessas tropas e seria transmitida igualmente para humanos, elfos e anões por meio das pedras de visão do Triunvirato, generosamente oferecidas por lorde Forsyth. Acima de tudo, com anões e elfos formados, nossos povos verão que estamos nessa juntos, e que os orcs são o verdadeiro inimigo.
Harold fez outra pausa, deixando que as palavras fizessem efeito.
Fletcher considerou o plano. Era arriscado e poderia fazer mais mal que bem. Não havia garantias de que as diferentes raças se entenderiam durante a missão; ele pensou em toda rivalidade racial que já tinha acontecido em Vocans. Um só deslize e poderiam acabar com tumultos nas ruas.
— Nossas três raças são galhos da mesma árvore — afirmou Harold, fitando com sinceridade cada pessoa na mesa. — Este poderia ser o começo de uma nova era, na qual humano, anão e elfo poderão viver em paz, lado a lado. Nunca antes tivemos uma oportunidade assim. Vamos agarrá-la, juntos!
— Eu tenho uma pergunta — disse Sylva, erguendo a mão. — Quem são esses formados que você mencionou? A única conjuradora elfa... sou eu.
— Sim, bem... isso é parte do motivo pelo qual juntei todos vocês aqui. — Harold tossiu, a bravata substituída por súbito constrangimento, a máscara caindo por um breve momento. — Estamos no comecinho do processo de diversificação em Vocans. Você é a única elfa formada, e Otelo, o único anão.
— Entendo — respondeu Sylva em um tom pensativo, enquanto considerava cuidadosamente o que o rei tinha dito.
— Precisaríamos tanto de você quanto de Otelo na missão — prosseguiu Harold. — Lorde Raleigh seria outro candidato; suas raízes plebeias e herança nobre apelariam ao povo de Hominum. Também seria o mais justo; um membro de cada um dos nossos respectivos conselhos. Também permitiríamos que um voluntário primeiranista se juntasse a cada equipe. Minha esperança é de que Átila e Cress, os dois primeiranistas anões, façam justamente isso.
O silêncio pesou denso no salão. Então os sussurros começaram, conforme os anões se juntaram para discutir a proposta. Houve balançar de cabeças. Do outro lado da mesa, Fletcher ouviu resmungos irritados de Cerva.
— Se a missão falhar, fará mais mal que bem — grunhiu ela, segurando o antebraço de Sylva. — Já é uma missão arriscada, e seu pai jamais nos perdoaria se a filha única morresse.
Fletcher fitou Harold. Suor escorria pela têmpora do rei, colando os cabelos dourados na testa em cachos encharcados. O monarca voltou os olhos para Fletcher e deu o mais leve dos acenos de cabeça.
Era hora de se levantar e falar. Mas seria a manobra correta? Tudo que ele sabia era que a aliança estava desmoronando, e o ódio entre as raças estava perto de entrar em ebulição. Se nada fosse feito, mais cedo ou mais tarde tudo sairia completamente de controle. Mais um ataque dos Bigornas, mais uma discussão exaltada, até mesmo um comentário racista poderia ser o estopim. Às vezes, não fazer nada era a atitude mais arriscada.
— Eu vou — declarou uma voz, cortando o debate sussurrado. Fletcher levou um momento para perceber que a voz era a própria. Engoliu em seco enquanto todos os olhos se voltaram novamente para ele. — Não tenho medo — continuou. Levantou-se e apoiou os punhos cerrados na mesa. — Hominum não fugirá à luta.
Ele estava com medo, mas sabia que tinha dito as palavras certas assim que elas deixaram sua boca.
Cerva se eriçou com a acusação implícita.
— Os elfos também não têm medo — retrucou ela, erguendo o queixo. — Sylva é a melhor de nós. Não posso falar por ela, mas os clãs vão apoiar qualquer decisão que tome.
Sylva se levantou para encarar Fletcher, contemplando-o com uma expressão fria e calculista que deixou claro que ela não tomaria aquela decisão com base na amizade entre eles. Fletcher encarou de volta, tentando transmitir uma confiança que não sentia.
— Os anões não o deixarão na mão. — Fletcher respirou aliviado ao ouvir as palavras grunhidas por Otelo à sua direita. — Se o povo de Hominum quiser ver como um anão enfrenta os orcs, ficarei feliz em oferecer uma demonstração.
Uhtred puxou a manga do filho, mas era tarde demais; as palavras já tinham sido ditas. Otelo lançou um aceno de cabeça para Fletcher, que segurou o pulso do amigo em gratidão.
— De acordo — declarou um dos anciãos anões de barba branca, depois de uma rápida olhada aos outros.
Sylva parecia inabalada, o olhar dardejando entre Zacarias Forsyth, Ofélia Faversham e o velho rei Alfric. O gesto lançou uma sombra de dúvida sobre o coração de Fletcher. De quem seria de fato aquele plano? Algumas coisas não faziam sentido. Por que lorde Forsyth distribuiria todos aqueles cristais preciosos de graça, quando geralmente só se importava com lucro? Não dava a mínima para a união das raças: os anões eram seus principais concorrentes na indústria armamentista, e uma guerra com os elfos significaria demanda contínua por armas na frente norte.
Mais estranho ainda era que Ofélia parecia apoiar a decisão, apesar de estar tão envolvida na indústria de armas quanto Zacarias. Talvez eles finalmente tivessem compreendido como uma guerra racial seria perigosa para a segurança de Hominum.
Enquanto Fletcher tentava entender o comportamento bizarro dos nobres, Sylva finalmente decidiu:
— Então que assim seja.

7 comentários:

  1. Eiiiitaa , que esse trem ta baum dms :)

    Fletcher <3

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  2. Tenho a impressão q isso ainda vai dar muito errado

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  3. Talvez eles finalmente tivessem compreendido como uma guerra racial seria perigosa para a segurança de Hominum.
    Espera sentado que em pé cansa fletcher

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    Respostas
    1. O plano deles obviamente é matar o Fletcher e o Otelo, e de quebra a Sylva...
      Mandar os três pra uma missão suicida é o jeito mais fácil de fazer isso sem serem acusados de assassinato nem nada.
      E transmitir tudo pra todo mundo ver...
      Realmente, eu odeio muito esses nobres!

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  4. Acorda cara, eles estão armando uma coisa bem grande e vcs so vão ver quando explodir na cara de geral.
    Q ódio desse povo, alguém mata logo esse Alfric, pra q o Harold comece a mandar nesse bagaça!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!