2 de março de 2018

Capítulo 16

Fletcher não descobriu muitas outras coisas com Arcturo naquela noite. O oficial fora fiel à palavra, comprando-lhe um filé e uma torta de rim e escutando a história do menino, que deixou de fora a parte de Didric, é claro. Assim que Fletcher terminou de falar, Arcturo pediu licença e desapareceu nos próprios aposentos. O rapaz não se importou; tomou um banho fumegante, de barriga cheia, e dormiu em lençóis de seda. Até o diabrete se fartou com carne moída fresca, devorando-a em segundos para logo depois empurrar o pote com o focinho, pedindo mais. Se Arcturo tinha como pagar por tanto luxo, então certamente a vida de conjurador não poderia ser assim tão ruim.
Pela manhã, Fletcher foi acordado por um sujeito impaciente, que afirmava ter sido instruído a levar o menino à academia. Quando Fletcher chegou à rua, o homem gesticulou para que se apressasse a subir ao banco do carona, ou ele se atrasaria para a entrega matinal de frutas e legumes.
A jornada levou mais de duas horas, mas o carroceiro evitou as tentativas de Fletcher de começar uma conversa fiada, seu rosto contraído de preocupação com o trânsito na estrada. Em vez de bater papo, então, Fletcher passou o tempo permitindo que o diabrete ficasse encarapitado orgulhosamente em seu ombro, sorrindo aos olhares curiosos que lhe lançavam ao passar. Após presenciar Arcturo permitindo que Sacarissa andasse abertamente pelas ruas, o rapaz deixou de ver motivo para não fazer o mesmo.
Tentou visualizar como seria Vocans, mas sabia tão pouco sobre a academia que a mente imaginava lugares tão variados quanto um palácio suntuoso ou um campo de treinamento para recrutas novatos, desprovido de confortos. De um jeito ou de outro, sua empolgação crescia com cada giro das rodas da carroça.
Finalmente, chegaram à fronteira com a selva do sul, o estrondo de canhões ecoando a distância.
Onde antes a estrada de terra em que eles viajavam era cercada de campos verdes, ali a paisagem era recoberta de ervas daninhas e marcada com crateras profundas; indícios de que a guerra já passara pelo lugar.
— Lá está a Cidadela — anunciou o carroceiro, quebrando o silêncio. Apontou a sombra turva do que parecia ser uma montanha adiante, obscurecida por uma neblina espessa que pairava no ar. A carroça entrou numa fila atrás de outras, que iam entregar barris pesados de pólvora e caixotes cheios de balas de chumbo.
— O que é a Cidadela? É onde mora o rei? — perguntou Fletcher.
— Não, garoto. É onde fica a Academia Vocans. O rei vive com o pai num palácio luxuoso no centro de Corcillum — respondeu o condutor, lançando um olhar curioso para o rapaz. Mas Fletcher não estava ouvindo. Em vez disso, contemplava boquiaberto conforme a névoa era dissipada por uma forte rajada de vento.
O castelo era grande como um dos picos do Dente de Urso. O prédio principal era um cubo gigante, feito de blocos de granito marmorizado, com varandas e sacadas em camadas nas laterais, como decorações num bolo de casamento. Havia quatro torres redondas em cada quina, cada uma com um topo plano e ameado, estendendo-se dezenas de metros no céu acima da estrutura principal.
Um fosso profundo de água negra e turva cercava o castelo, com seis metros de largura e margens íngremes de cada lado. A ponte levadiça tinha sido baixada, mas todos os carroções passavam direto por ela, seguindo em direção à canhonada que ainda retumbava ao longe.
Conforme eles se aproximaram da Cidadela, Fletcher percebeu que as muralhas estavam completamente recobertas de hera e tingidas com líquen e musgo. Deviam ter sido construídas séculos atrás. As tábuas da ponte levadiça rangiam perigosamente enquanto o carroceiro incentivava os cavalos assustados a seguir em frente, mas todos chegaram inteiros ao outro lado.
O pátio ficava à sombra das quatro muralhas que o cercavam, com apenas um pequeno quadrado de céu oferecendo luz, vários andares acima. A área era dominada por um semicírculo de degraus que levavam a um par de pesadas portas de madeira: a entrada do castelo.
Assim que os cascos dos cavalos estalaram nos paralelepípedos, um sujeito gordo de avental, com um rosto vermelho e inchado, emergiu das sombras. Era seguido por dois assistentes de aparência nervosa que começaram a descarregar a carroça apressadamente.
— Atrasado, como sempre. Vou ter uma conversinha com o intendente sobre arranjar um novo fornecedor, se isto voltar a acontecer. Agora só teremos meia hora para preparar e servir o café da manhã — afirmou o homem gordo, puxando os cordões do avental com dedos rechonchudos.
— Não foi culpa minha, Sr. Mayweather. Um oficial me obrigou a trazer este aprendiz, o que me tirou meia hora do meu caminho. Aqui, menino, conte para ele — balbuciou o carroceiro, cutucando Fletcher nas costas. O rapaz fez que sim com a cabeça, atordoado, percebendo finalmente onde tinha chegado.
— Muito bem, então. Vou deixar passar desta vez, mas você está na minha lista — retrucou Mayweather enquanto lançava um olhar de avaliação a Fletcher e outro ainda mais longo ao demônio.
O rapaz desmontou enquanto as últimas frutas e legumes eram retirados da carroça, e ficou ali parado sem saber direito o que fazer. O carroceiro partiu sem olhar para trás, ansioso em seguir com a rota e pegar a próxima carga.
— Você sabe aonde vai, rapaz? — indagou Mayweather asperamente, mas não sem alguma gentileza. — Você não é um nobre, isso é óbvio. Os plebeus já estão aqui há uma semana, e, a esta altura, eu já conheço todos os alunos do segundo ano. Você deve ser novo. Recusou a oferta de vir para cá e então mudou de ideia?
— Arcturo me mandou... — respondeu Fletcher, sem saber bem o que dizer.
— Ahh, entendi. Você deve ser um caso especial, então. Já temos mais dois desses lá em cima — afirmou Mayweather, com voz baixa e misteriosa. — Se bem que eles são um pouquinho mais estranhos que você, isso eu garanto.
Depois, continuou:
— Não recebemos muitos aprendizes trazidos pessoalmente por magos de batalha. — Aproximou-se para espiar o diabrete de Fletcher. — Geralmente são os Inquisidores que encontram os dotados e os trazem para cá. Magos de batalha raramente alistam adeptos pessoalmente, porque isso significa que eles terão de dar um dos próprios demônios ao novato. Eles precisam de cada demônio que puderem encontrar na frente de batalha. Parece estranho que Arcturo lhe conceda um raro como esse, porém. Nunca vi um desse tipo!
— Tem alguém a quem eu precise me apresentar? — perguntou Fletcher, ansioso para se afastar antes que Mayweather o esquadrinhasse ainda mais. Quanto mais gente soubesse como Fletcher se tornara um conjurador, maior a chance da notícia de seu paradeiro alcançar Pelego.
— Você está com sorte. O primeiro dia vai ser amanhã, então não perdeu muita coisa — explicou Mayweather. — Os candidatos nobres ainda vão chegar; eles costumam passar a semana prévia em Corcillum, onde lhes é mais confortável. Quanto aos professores, voltarão das linhas de frente pela manhã, então é melhor que você vá falar com o reitor. É o único mago de batalha que não passa metade do ano na guerra. Siga direto em frente pelas portas principais e um dos funcionários vai lhe explicar onde encontrá-lo. Agora, se você me dá licença, eu tenho um café da manhã a preparar. — Mayweather deu meia-volta e se afastou, bamboleante.
Apesar de ter o demônio aninhado ao redor de sua garganta, Fletcher não se sentia parte daquele lugar. As pedras antigas transmitiam opulência e história. Não era para o bico dele.
Fletcher subiu as largas escadas e empurrou as portas duplas. Melhor encontrar o reitor antes que o café da manhã fosse servido; ele poderia se apresentar aos outros alunos durante a refeição matinal. Não pretendia ser um lobo solitário de novo.
Entrou num enorme átrio com escadarias gêmeas espiraladas à esquerda e à direita, com paradas em cada andar. Fletcher contou cinco andares no total, cada um protegido por um corrimão de metal. O teto era suportado por pesadas vigas de carvalho; escoras imensas que seguravam as pedras acima no lugar. Um domo de vidro no teto permitia que um pilar de luz descesse ao centro do aposento, suplementado pelas tochas crepitantes nas paredes. No extremo oposto do salão havia outro par de portas de madeira, mas foi o arco acima delas que chamou a atenção de Fletcher. A pedra estava entalhada com centenas de demônios, cada um mais impressionante que o outro. A atenção ao detalhe era extraordinária, e os olhos de cada criatura eram feitos de gemas coloridas que faiscavam à luz.
Era um espaço imenso, quase extravagante em sua arquitetura. O piso de mármore estava sendo polido por um jovem criado; ele lançou um olhar cansado a Fletcher, que andava com botas sujas sobre o chão molhado.
— Será que você poderia me indicar o caminho até o reitor? — pediu Fletcher, tentando não olhar para trás, para as pegadas que deixara.
— Você vai se perder se eu não lhe mostrar o caminho — respondeu o criado, com um suspiro. — Venha. Tenho muito trabalho a fazer antes que os nobres cheguem, então não enrole.
— Obrigado. Meu nome é Fletcher, e o seu? — indagou, estendendo a mão.
O criado o encarou, surpreso, e aceitou o cumprimento com um sorriso contente.
— Sendo muito sincero, nenhum estudante nunca tinha me perguntado isso — comentou o criado. — Jeffrey é o meu nome, obrigado por perguntar. Se você vier rápido, eu lhe mostro seus aposentos e depois recolho qualquer roupa que queira que seja lavada. Com seu perdão, mas pelo cheiro dos seus trajes, acho que precisa.
Fletcher corou, mas agradeceu do mesmo jeito. Ainda que tivesse tomado banho na noite passada, tinha se esquecido de que as roupas ainda cheiravam a ovelha.
Jeffrey o levou até o primeiro andar no lado leste e por um corredor em frente à escadaria. As paredes eram decoradas com armaduras completas e cavaletes de piques e espadas, resquícios da última guerra. A cada tantos passos eles passavam por uma pintura ilustrando alguma batalha antiga, da qual Fletcher era obrigado a desgrudar os olhos toda vez, pois Jeffrey o apressava. Passaram por uma vasta coleção de grandes estantes de vidro abarrotadas de jarros com um líquido verde pálido. Cada um deles continha um pequeno demônio, suspensos eternamente em seu interior.
Finalmente, Jeffrey reduziu o passo. O criado apontou para uma enorme clava pendurada na parede. Era cravejada de rochas afiadas, cada uma delas do tamanho e formato de uma ponta de flecha.
— Essa era a maça de guerra do orc chefe da tribo Amanye, tomada como troféu na batalha da Ponte Watford. Foi o reitor quem o derrotou — anunciou Jeffrey, com orgulho. — Um grande homem, nosso reitor. Severo como um juiz, porém. Tome cuidado com ele: olhe nos olhos e não dê respostas malcriadas. Ele odeia os fracos e os insolentes em igual medida.
Com essas palavras, Jeffrey parou diante de uma pesada porta de madeira e bateu com o punho.
— Entre! — gritou uma voz retumbante do outro lado.

4 comentários:

  1. por gentileza ganhou um aliado

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  2. Eu acho que a história está avançando muito rápido e sem tempero. Logo quando chegou à cidade já recebeu ajuda do mago e facilmente entrou na academia. Ele sendo salvo, a entrada do mago quando o salvou foi MUITO clichê (não que não tenha gostado, foi melhor que muitas outras entradas, mas ainda assim, muito clichê). Ele sobrevivendo sozinho e seu caminho para chegar até a cidade foi muito rápido também. Sinto falta da riqueza de detalhes, da emoção que trabalha a história de forma emotiva e forte, provocando momentos marcantes, como se o leitor estivesse realmente vivendo o momento e não apenas passando por ele. Fora isso a história está ótima até agora. :)

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!