31 de março de 2018

Capítulo 15

MORRIGHAN

Tem sido uma longa manhã, a preocupação me incomodando conforme as horas passavam. Mesmo que eu tivesse acabado as minhas tarefas, como capinar o jardim, reparar as cestas desgastadas e colher as novas plantas do solo, quando disse a Ama que estava saindo para coletar, ela ainda encontrou uma nova tarefa para mim, e mais outra e outra. A manhã se tornou meio-dia. Minha ansiedade me queimava enquanto eu a olhava e ela lançava olhares ao redor do vale, e quando finalmente peguei a minha bolsa para sair, ela disse:
— Leve Brynna e Micah com você.
— Não, Ama  gemi. — Eu estive trabalhando com eles durante a manhã toda enquanto fazíamos as tarefas e nenhum dos dois parava de conversar. Eu preciso de alguma paz. Não posso pelo menos coletar sozinha? — Preocupação transparecia em seu rosto, e eu parei, olhando para rugas entre as suas sobrancelhas. — O que foi?  fui até ela, pegando suas duas mãos e as apertando. — O que está te preocupando?
Ela afastou uma mecha de cabelo branco de sua testa.
— Tem havido incursões. Pata foi até a planície mais cedo para pegar sal, e viu uma tribo viajando para sul. O acampamento deles a três dias daqui para o norte foi atacado por Abutres.
Eu pisquei, não acreditando totalmente no que ela falou.
— Tem certeza?
Ela confirmou com a cabeça.
— Eles disseram a Pata que um deles se chamava Jafir. Não foi ele o Abutre que conheceu alguns anos atrás?
Eu acenei, procurando uma resposta, tentando entender tudo isso. Não, Jafir não.
— Ele era só um menino  falei. — Eu... eu não me lembro do nome dele. — Eu estava completamente sem ar. — Foi há muito tempo.
Minha mente girava, e eu não consegui me concentrar. Abutres? Jafir invadindo um acampamento?
Não.
Não.
Afastei minhas preocupações de uma vez e controlei a minha respiração.
— Estamos a salvo, Ama. Estamos escondidos. Ninguém sabe que estamos aqui, e três daqui ao norte daqui é muito longe.
— Três dias a pé, sim. Mas não para Abutres com cavalos velozes.
Eu a assegurei de novo, lembrando-a de quanto tempo estávamos aqui sem nunca ter visto qualquer um além da nossa tribo. Prometi que seria prudente, mas lhe disse que não podíamos deixar algo que acontecera a quilômetros daqui nos deixar com medo de estar em nossa própria casa. Casa. A palavra flutuava em meu peito, parecendo mais frágil agora.
Ela me deixou ir com relutância, e eu me apressei pelo caminho até o desfiladeiro, através do prado, para cima pelos degraus que passavam por uma caverna escura. Ele não estava lá ainda. Andei de um lado para o outro, varrendo o chão, guardando os livros, tentando manter os meus pensamentos e mãos ocupadas. Como alguém ouvira o nome de Jafir? Ele passava todos os dias comigo.
Exceto pelos três dias em que não aparecera.
Lembro de quando ele finalmente apareceu, de como ele me segurou, parecia diferente a forma como ele o fez. Mas eu conhecia Jafir. Eu conhecia o seu coração. Ele não faria...
Ouvi passos e me virei.
Ele estava de pé ao lado da porta, sem camisa como sempre durante o verão, alto, o cabelo um ninho selvagem, os braços bronzeados e musculosos, a faca guardada em sua cintura. Um homem. Mas depois eu o vi da forma que Ama e o resto da tribo o veriam. Um Abutre. Perigoso. Um deles.
— O que foi? — ele me preguntou e se apressou até mim, segurando os meus braços como se alguma parte de mim estivesse machucada.
— Houve uma invasão. Uma tribo ao norte foi atacada.
Encontrei em seus olhos tudo o que eu precisava de saber. Eu me soltei, soluços subindo até a minha garganta.
— Pelos deuses, Jaifr.
Tropecei para longe, sem conseguir ver direito, desejando estar em qualquer outro lugar. Eu cambaleei mais para o fundo da caverna.
— Deixe-me me explicar  ele implorou, me seguindo, pegando a minha mão, tentando me impedir.
Eu me libertei e me virei.
— Explicar o quê?  gritei. — O que conseguiu, Jafir? O pão deles? Uma cabra? O que tirou deles que não era seu?
Ele me encarou, uma veia aparecendo em seu pescoço. O seu peito subiu e desceu com respirações controladas.
— Eu não tive escolha, Morrighan. Eu tinha que cavalgar com o meu clã. Foi como consegui isto  ele disse, mostrando o rosto ferido. — O meu pai me obrigou a ir. O clã do norte estava vindo e...
— E as bocas de vocês eram mais importantes do que as daquela tribo?
— Não. Não é isso. É o desespero. É...
— É a preguiça!  cuspi. — É a ganancia! É a...
— É errado, Morrighan. Eu sei disso. Eu juro, depois daquele dia, eu jurei nunca mais cavalgar com eles de novo, e farei isso. Me deixou doente, mas — ele balançou a cabeça e se virou como se não quisesse que eu o olhasse. Ele parecia realmente doente.
Eu peguei o seu pulso, forçando-o a olhar para mim.
— Mas o quê, Jafir?
— Eu também entendi! — ele gritou, não se sentindo mais culpado. — Quando vi crianças comendo, quando ouvi mães chorando, eu entendi o medo. Nós morremos, Morrigham. Nós morremos tal como vocês! Nem todos batemos em nossas crianças. Às vezes morremos por elas – e talvez até façamos coisas indescritíveis por elas.
Abri minha boca para dar uma reposta amarga, mas ver a expressão angustiada em seu rosto me fez engolir. O cansaço me atravessou. Olhei para o chão, meus ombros de repente pesados.
— Quantas? — perguntei. — Crianças?
— Oito. — A sua voz parecia tao fina quanto neblina. — A mais velha tem quatro, e a mais nova tem alguns meses.
Fechei os meus olhos com força. Ainda não era desculpa!
— Morrighan. Por favor.
Olhei para cima. Ele me puxou até o seu peito, e as minhas lágrimas quentes molharam seu ombro.
— Desculpa — ele sussurrou no meu cabelo. — Eu prometo que não vai acontecer de novo.
— Você é um Abutre, Jafir — falei, sentindo-me impotente sobre o fato de ele ser quem ele era.
— Mas eu quero ser mais. Eu vou ser mais.
Ele ergueu a minha cabeça até a dele, beijando uma lágrima que escorregava pela minha bochecha.
— Então. é isto o que tem caçado nos últimos dias.
Jafir e eu nos separamos, assustados pela voz.
Um homem passou pela porta, andando em uma forma casual.
— Bom trabalho, irmão. Achou a tribo. Onde está o resto?
— O que está fazendo aqui? — Jafir exigiu.
— Menina bonita. Qual o seu nome, menina? — Ele perguntou, ignorando Jafir. Os seus gélidos olhos azuis passaram por mim, e eu me senti como uma presa na frente de um animal faminto. Ele se aproximou, me examinando, e depois sorriu.
— Ela é uma retardatária da tribo que invadimos — Jafir respondeu. — Eles estão se mudando.
— Eu não me lembro de tê-la visto com eles.
— Isso é por que o seu olhar estava em outra.
Eu não conseguia respirar. O meu coração batia de uma forma selvagem.
— Mudando, mas não antes de ter uma pequena diversão. — Ele me olhou de novo. — Venha até aqui — ele disse, acenando a sua mão me incentivando a me aproximar. — Eu não mordo.
Jafir se colocou na minha frente.
— O que você quer, Steffan?
— Só o que você tem aproveitado. Somos irmãos. Nós dividimos.
Ele se moveu para passar por Jafir, mas Jafir se jogou contra ele. Eles tropeçaram para trás e bateram com força na parede. Pó choveu sobre os dois. Mesmo que Jafir fosse mais alto, Steffan era mais forte, parecido com um touro, e ele tinha punhos pesados. Ele socou a cara de Jafir, e depois de novo no maxilar. Jafir tropeçou para trás, mas depois balançou-se para frente e o seu punho acertou o queixo de Steffan. Ele se jogou contra o irmão de novo, e desta vez derrubando-o no chão, e em um instante a sua faca estava na garganta de Steffan.
— Vá em frente, irmão — Jafir disse entre respirações pesadas. —Mexa-se! Eu adoraria cortar a sua garganta! — Ele pressionou mais a faca.
Steffan me encarou, e depois olhou para o seu irmão.
— Você é ganancioso, Jafir. Fique com ela só para você, então — ele falou. — O tipo dela é estupido e ignorante mesmo.
O peito de Jafir subia e descia com raiva, os seus punhos ainda apertando a faca, e pensei que ele cortaria a garganta de seu irmão, mas ele finalmente se levantou e ordenou que o outro se levantasse também. Steffan fez o que lhe foi mandado, limpando a poeira das suas roupas indignadamente, como se ele já não estivesse sujo antes da briga.
— Vá — Jafir ordenou. — E nunca mais volte aqui. Entendeu?
Steffan sorriu com desdém e foi embora. Jafir manteve-se de pé na porta observando-o ir.
Isso era tudo? Ir embora?
Minhas mãos tremiam incontrolavelmente, e eu as mantive em minha lateral, tentando fazê-las parar de tremer. Eu não tinha dito nada durante esse tempo todo — minha garganta se fechara por causa do medo. Um murmúrio instável finalmente saiu.
— Jafir. — Terror martelava o meu coração. — Como ele nos encontrou?
Os olhos de Jafir estavam arregalados, e o seu lábio sangrava, gotas caindo e manchando o seu peito.
— Eu não sei. Ele deve ter me seguido. Eu sempre fui prudente, mas hoje...
— O que você vai fazer? — eu solucei. — Ele vai voltar! Eu sei que sim!
Jafir segurou as minhas mãos, tentando parar a tremedeira.
— Sim, ele vai voltar, o que quer dizer que você nunca mais pode voltar aqui, Morrighan. Nunca. Nos acharemos um novo lugar para...
— Mas e a tribo! Eles não estão longe daqui! Ele os encontrará! Como você pôde deixar que ele te seguisse, Jafir? Você prometeu! Você... — eu me virei, passando as costas da mão na testa, tentando pensar, ansiedade crescendo dentro de mim.
Jafir segurou-me pelos ombros.
— Ele não encontrará a tribo. Você mesma disse, o vale é bem escondido. Eu nunca o encontrei. Steffan é preguiçoso. Ele nem tentará.
— Mas e se ele falar para outros?
— Falar o quê? Que ele achou uma menina de uma tribo que já invadimos? Uma tribo que já tinha deixado o seu acampamento, e já estava se mudando? Você não tem nenhum valor para eles.
Jafir insistiu em me acompanhar até a cordilheira que me levaria de volta para a minha tribo, só para o caso de seu irmão não ter ido embora de verdade, mas Steffan não estava lá. O prado e o desfiladeiro pareciam calmos como sempre, sem nenhum barulho ou perigo. O meu coração começou a bater normalmente de novo. Jafir disse que me encontraria em uma fenda no desfiladeiro em três dias. Para dar um tempo para Steffan se assentar e acreditar que a tribo invadida já tinha ido embora de verdade e estavam fora de alcance. Ele apertou a minha mão enquanto eu descia do seu cavalo, e me olhou como se fosse a última que vez que me veria, com rugas entre as suas sobrancelhas.
— Três dias — ele disse de novo.
Eu assenti, ansiedade presa em minha garganta, e finalmente tirei a minha mão da dele.

Um comentário:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!