22 de março de 2018

Capítulo 15

Fletcher nem se deu o trabalho de se esconder. Em vez disso, afastou-se ainda mais da lava, em direção ao ar mais fresco e onde podia ouvir os próprios pensamentos. Se tivesse sorte, os orcs pousariam ali, e não seguiriam Sylva. Ela precisava do máximo de tempo que ele pudesse lhe dar.
Fletcher sentiu Atena lutando dentro de si. Ela desejava ser convocada para lutar, mas ele se recusava a permitir — melhor manter o demônio ferido a salvo e infundido.
Quanto a Ignácio, dessa vez a Salamandra usava o mana de Fletcher com a mesma velocidade que o fizera na poça de lava sob a pirâmide, mas de alguma maneira o obtinha ainda mais velozmente de outra fonte desconhecida. Era como se o demônio estivesse convertendo o calor do vulcão em mana.
Fletcher afrouxou o khopesh na bainha e sacou as pistolas dos coldres.
Três tiros — relativamente inúteis contra a pele encouraçada das Serpes, mas com sorte conseguiriam derrubar um dos xamãs, se ele mirasse direito. Quem sabe até o próprio Khan.
Reservaria Chama para isso: o cano mais comprido, como o de um rifle, permitiria um tiro mais preciso. E então sua morte não seria em vão.
Ao pensar na morte, Fletcher sentiu um aperto de medo na boca do estômago. Lutou para ignorá-lo, apesar de aquilo parecer apenas aumentar ainda mais.
As primeiras Serpes voaram sobre a outra extremidade do lago de lava, os vultos escuros cintilando no ar quente. Provavelmente conseguiam vê-lo, mas nenhuma se aproximou. Em vez disso, os xamãs desmontaram e espalharam-se em semicírculo do outro lado do lago fervilhante, dando bastante espaço de manobra a Fletcher. Pena que estavam fora do alcance das pistolas.
Não demorou para que Khan chegasse. Ele só estivera aguardando até os outros garantirem cobertura. Fletcher o observou aterrissar, o vulto pálido contra o solo vulcânico escuro.
Para seu terror, uma única Serpe e o que parecia um bando inteiro de Picanços, Vespes e Estirges seguiu para cima, bem alto. Haviam localizado Sylva — Fletcher torceu para que ela tivesse conseguido obter uma boa vantagem para despistá-los.
Ele tentou fazer um feitiço de escudo, mas seu mana estava sendo extraído por Ignácio com muita intensidade, tanto que até mesmo o suprimento de Atena fora exaurido. Nenhum feitiço seria capaz de ajudar Fletcher agora.
Ele ouviu Khan bradar uma ordem qualquer, e viu algo estranho acontecendo do outro lado da lava. Uma luz branca saía dos xamãs, retorcendo-se pela terra e ao redor da cratera, e, então, seguia em sua direção. Era como uma enchente de água opaca, fluindo a poucos centímetros da terra. Feitiços de escudo.
Fletcher recuou, porém em questão de segundos o feitiço o alcançou. Por um instante ele pensou que a onda lhe engolfaria o corpo, mas então ela recuou alguns centímetros e o envolveu como uma bolha, deixando-o no interior de uma esfera de luz translúcida. Estava preso.
Atena conseguiria quebrar aquilo — a energia de que os demônios eram feitos era capaz de destruir tais escudos —, mas um demônio de seu tamanho levaria vários segundos para romper um escudo daquela espessura. Ele retirou Ventania do coldre, sua pistola menor de dois canos, e apertou a mão em punho, para esconder a tatuagem de pentagrama. Era a única carta que ainda tinha na manga.
Somente depois que o escudo envolveu Fletcher completamente é que Khan começou a se aproximar, caminhando casualmente pela borda, a saia flutuando no ar quente. Segurava o maior macaná que Fletcher já vira na vida. Era quase da altura de um homem, porém mais estreito que os porretes comumente usados pelos orcs, com apenas um palmo de largura no lugar de dois. Em vez dos costumeiros cacos de obsidiana cravejados de modo intermitente nas laterais da arma, os cacos daquele porrete eram enfileirados, formando uma única extremidade afiada ao redor. Era uma arma mortífera, e o orc a empunhava com experiente tranquilidade, apoiando-a no ombro enquanto suas pernas compridas o levavam adiante.
A respiração de Fletcher ficou presa na garganta, e ele se forçou a inspirar o ar em golfadas. Aquele era seu inimigo. Sua nêmesis.
Era isso.
A pistola estava escorregadia em suas mãos, mas se o suor era de calor ou de nervosismo, difícil saber. A única coisa que ele sabia é que o escudo ao redor do orc era espesso demais para ser rompido com um tiro. Ele apoiou a testa em sua parede, sentindo o frio escorregadio do feitiço na pele.
O orc albino de 2,50 metros de altura parou ao lado do escudo. Era tão alto que Fletcher teve de dobrar o pescoço para ver-lhe o rosto. Os olhos vermelhos e funestos o encararam, as presas de elefante idênticas dos dois lados da boca formando um sorriso cruel.
Para surpresa de Fletcher, Khan caiu sobre um dos joelhos, de modo que o rosto do orc ficou a poucos centímetros do seu. Então, ele falou:
— É só um garoto — grunhiu, as palavras guturais em sua boca.
Fletcher sufocou um arfar surpreso, e o orc soltou uma gargalhada grave e rouca ao ver a expressão no rosto do prisioneiro.
— Ah, sim, eu sei falar sua língua — riu Khan.
Sua fala era mais clara que a da Mãe que encontraram nas selvas; as presas menores constituíam um impedimento menor.
— Como? — perguntou Fletcher, a pergunta saindo de sua boca antes que ele pudesse contê-la.
— A mulher que vocês roubaram de nós — respondeu Khan, apontando um dedo acusador para Fletcher. — Uma professora bastante útil — continuou o orc, coçando o queixo. — Ela acreditava que estávamos com seu filho, então eu disse que o mataria caso ela se recusasse a nos ensinar. Foi o suficiente. Claro que, quando ela deixou de ter utilidade, eu lhe disse que o havíamos matado de qualquer maneira. Tenho certeza de que você já viu o que aconteceu com ela depois disso.
Ele tornou a gargalhar, mas Fletcher notou que ele jamais desfazia contato visual. O orc o provocava. As palavras rasgaram a alma de Fletcher, mas ele se obrigou a abafar a raiva. Precisava fazer o orc perder a calma e reduzir a força do escudo, apenas pelo tempo suficiente para que pudesse lhe acertar um tiro.
— Meu nome é Fletcher Raleigh, e esse filho sou eu — disse então, desafiadoramente. — Eu matei seus goblins e enterrei os demônios de seus xamãs nos escombros de seu local mais sagrado. Copiei suas chaves até o éter e roubei seus escravos. Fui eu. Só um garoto.
Foi sua vez de gargalhar, embora o som tivesse saído falso e forçado.
O rosto de Khan parecia impassível, mas Fletcher notou que o havia afetado, pois as mãos do orc apertaram o macaná com mais força. Fletcher continuou:
— Você colocou todas as suas Serpes atrás de mim. Aposto que suas forças estão acéfalas em sua terra natal, enquanto eu o conduzia a uma caçada feliz até outro mundo. Aposto também...
— Basta! — Khan deu um soco no escudo, que rachou muito ligeiramente. — Sua mãe era uma cadela que alimentávamos com restos — sibilou ele, cheio de raiva, do outro lado do escudo, espirrando saliva pela boca. — Ela latia para nós e dormia na própria sujeira. Nós a espancávamos por diversão até ela perder os sentidos, e, em seguida, nós a espancávamos mais um pouco. Estou me mijando para a memória dela.
Fletcher recuou diante daquela súbita torrente de ódio, completamente esquecido de fingir coragem.
Como se surpreso pela própria explosão de raiva, Khan alisou o longo cabelo para trás e recuou um passo. Havia um brilho desvairado em seu olhar, e ele sorriu.
— Onde está seu demônio? — perguntou ele.
— Morreu — respondeu Fletcher, com a mente em disparada. — E levou vários de seus demônios com ela.
Aquilo fazia sentido, também: que Fletcher estivesse sozinho e não tivesse mana para criar um escudo e se proteger.
— A Canídeo, não é? — indagou Khan. — Que pena, eu tinha esperanças de... — hesitou, e em seguida perguntou: — Qual de vocês tem a Salamandra? Sua amiga?
Ele fez um gesto na direção para onde Sylva tinha voado. A pergunta era casual, mas ele observava Fletcher muito de perto. Fletcher tinha se se esforçar para não desviar os olhos para o lago de lava. Ignácio continuava pulsando com mana. Era difícil pensar, pois a consciência do demônio aumentava tanto que Fletcher tinha a sensação de que a mente poderia explodir.
— E então? — perguntou Khan.
Fletcher nada disse, simplesmente sustentou o olhar do outro com o máximo de confiança de que era capaz.
— Não importa, em breve descobrirei por conta própria — declarou o orc.
— Por que quer saber? Quer mais uma Salamandra?
Dessa vez foi a vez de Khan parecer surpreendido.
— Nós o vimos com uma, na câmara central — explicou Fletcher. — Estávamos escondidos nas vigas acima.
Khan torceu o nariz, cheio de irritação.
— As Salamandras são minha propriedade, por direito de nascença — rosnou Khan. — Está escrito nas paredes de nosso templo.
Fletcher olhou para a rachadura no escudo. Outro golpe talvez permitisse que Atena passasse por ela com velocidade o bastante. O buraco seria o suficiente para que ele conseguisse dar um tiro com Chama. Ele manteve a pistola ao lado do corpo e partiu de novo para a ofensiva.
— Já vi esses entalhes — disse Fletcher, cobrindo a voz com desdém. — Pelo que eu vi, uma Salamandra pode pertencer tanto a uma aberração como você quanto a um ser humano. Mas não que exista nada de mais nas Salamandras. São poderosas para um demônio de nível cinco, mas uma Serpe, ou até mesmo um Canídeo, aliás, poderia comer uma no café da manhã.
— Não fale de coisas que você não entende! — rosnou Khan. — A importância não é o que a Salamandra é, mas aquilo que ela pode se tornar.
— Você está falando baboseiras — disse Fletcher, encolhendo os ombros. — Isso não passa de crenças irracionais dos bárbaros.
Khan soltou um urro de raiva.
— Você por acaso sabe o que é um Drake, garoto? Ou um Dragão? — perguntou Khan, com olhar enlouquecido. — Um ser humano pode até sonhar em controlar um Drake, o primeiro estágio da metamorfose de uma Salamadra, mas o estágio seguinte... um Dragão? Não, apenas alguém de meu tipo, uma “aberração” com meu nível de conjuração, seria capaz de fazer isso. É por isso que a profecia prevê que a chave da vitória é uma Salamandra. E agora eu vou ter as duas.
Khan estava falando a torto e a direito, a máscara da razão destruída, deixando apenas a insanidade crua atrás dos olhos vermelhos.
— Eu nasci para destruir sua raça. Vamos queimar suas cidades e salgar a terra na retaguarda. O sangue irá correr pelas ruas. Ninguém será poupado, nem as crianças nem os velhos. Vamos transformar Hominum em uma terra devastada. Daqui a cem anos, ninguém se lembrará sequer que sua raça um dia existiu.
Fletcher o ignorou. Drakes? Dragões? Jamais tinha ouvido aquelas palavras antes. Provavelmente deviam ser deuses antigos dos orcs ou alguma besteira parecida.
Era muito difícil raciocinar. A consciência de Ignácio estava imensa, como se o calor do vulcão houvesse inflado a presença do demônio. Por sorte, ele havia parado de aumentar depois de preencher as reentrâncias da mente de Fletcher. Juntos, eles haviam alcançado alguma espécie de marco, porém havia outro que Fletcher sentia que Ignácio estava almejando, muito maior que aquele já atingido. Fletcher tinha a sensação de que a mente se estilhaçaria caso eles seguissem em frente.
Não que isso tivesse alguma importância. A única coisa que importava era matar Khan. Talvez, se ele tentasse arrancar mana de Ignácio mais uma vez, e enfraquecesse a rachadura com dois tiros de Ventania primeiro...
Enquanto Fletcher tentava entender sua conexão com Ignácio, Khan, aguardando parado, suspirou. Sua explosão de raiva parecia havê-lo esgotado. Então, ele sorriu maliciosamente quando a mão de Fletcher pousou sobre a pistola no coldre.
— Talvez você queira que eu aumente essa rachadura para você, Fletcher — disse o orc.
Os olhos de Fletcher reluziram com culpa e se desviaram da fissura no escudo, enquanto o sorriso de Khan se alargava. Um facho de luz branca fluiu de seus dedos compridos, espalhando nova camada sobre o escudo, até a superfície ficar coberta de branco com a espessura da esfera.
Fletcher observou Khan levantar seus dedos curvos e lentamente fechá-los em um punho. Para seu horror, o escudo começou a encolher, contraindo-se e espessando-se enquanto as paredes brancas se aproximavam cada vez mais.
Fletcher bateu na lateral com Chama, mas era como socar uma parede de tijolo.
Então alguma coisa agitou-se nos recessos da mente de Fletcher. Ignácio pressentira seu pânico — a consciência de Atena parecia estar gritando, emitindo sinais através da própria conexão com a Salamandra. Ignácio estava a caminho.
— Espere! — berrou Fletcher, socando o escudo escorregadio. — Eu vou lhe contar quem é o dono da Salamandra.
O escudo parou de se contrair, mas Fletcher precisou curvar-se para impedir que sua cabeça roçasse o topo. Sentiu Ignácio vir nadando até a superfície, movendo-se furiosamente pela lava. O demônio estaria ali em questão de segundos.
— Então me diga! — rosnou Khan, os olhos funestos emitindo um brilho cor de rubi através da superfície opaca. — E lhe darei uma morte rápida.
Fletcher se inclinou para perto, até seu rosto estar a centímetros do rosto do orc.
— Sou eu — sussurrou Fletcher.
Ignácio irrompeu da lava derretida em uma explosão cor de laranja.
Fletcher viu um clarão rubro quando o escudo foi destroçado, sentiu um pescoço sinuoso deslizar por baixo das pernas e erguê-lo, fazendo-o se assentar sobre ombros largos.
Fletcher virou o corpo e disparou Chama, vendo o orc branco recuar com o impacto da bala.
E então viu-se sobre a borda da caldeira, despencando no espaço vazio.

8 comentários:

  1. ele evolui que lokooo

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  2. Eu sei que ninguém vai entender, porém adoro Orcs e o Khan parece tão estiloso kk eu fico imaginando um orc bonito kk
    Aaah, Ignácio, será que virou um dragão??? Sonho!!

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    1. Assim, o Khan meio que parece estiloso mesmo, mas eu ainda tenho essa consciência de estar lendo pelo ponto de vista de alguém que o considera o vião, logo não consigo gostar dele

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  3. Suspeito que Ignácio agora está no nível 10 e o Fletcher só possa ter demônios até o nível 14, por isso quando ele diz que se o Ignácio continuasse ele não aguentaria a pressão.

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  4. Não acho que Ignácio virou um dragão acho ele ainda vai ser um Drake quando sair mais que vai virar um dragão na proxima oportunidade

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Boa leitura, E SEM SPOILER!