13 de março de 2018

Capítulo 15

Logo depois da entrada, havia dois elfos junto às paredes, barrando a passagem com suas espadas longas como lanças.
Fletcher as reconheceu de seu tempo de ferreiro como espadas falx, compostas de um cabo especialmente longo, que podia ser segurado com as duas mãos, e uma lâmina curva ainda mais longa, com a forma de meio-arco.
O fio de corte curvo dava à arma qualidades de machado, com o longo cabo oferecendo uma alavancagem adicional para golpes e aparos. Espadas temíveis, que, pelo Fletcher lembrava, eram a arma escolhida do povo élfico.
— Está tudo bem; deixem que entrem — disse Sylva, da escuridão adiante.
Ela saiu das sombras. Fletcher ficou surpreso ao ver que ela trazia a própria falx atada às costas, além de um arco flexível e uma aljava cheia. Os cabelos, geralmente soltos e livres, estavam agora amarrados numa única trança oleada que caia por sobre o ombro até o umbigo, com uma pedra de jade atada à ponta para dar-lhe peso.
O que mais chamou a atenção de Fletcher, porém, não foram as armas, mas a armadura lamelar que ela vestia. Era feita de centenas de pedaços retangulares de couro, cada um perfurado nos quatro cantos e atado aos outros em volta. Prendia-se bem justa ao corpo, flexionando e afrouxando com cada passo que Sylva dava na direção deles. Os braços e pernas eram protegidos por guardas de coxa, canela, ombro e antebraços, e o traje inteiro fora laqueado de forma a reluzir em verde-escuro.
— Bem, estamos aqui para um conselho de guerra. — Ela corou com um sorriso pesaroso ao ver a admiração de Fletcher.
Harold lhe lançou um aceno respeitoso de cabeça e seguiu adiante, atravessando a escuridão do corredor até alcançar um salão iluminado por tochas tremeluzentes. Sylva o seguiu sem olhar para trás.
O aposento era tão grande quanto o refeitório em Vocans, com um teto em domo e paredes completamente nuas, exceto pela entrada pela qual haviam passado e algumas dezenas de tochas. No centro havia uma grande mesa redonda de madeira polida, abrigando em seu meio um estranho objeto, coberto por um pano e da altura de um homem. A mesa estava cercada por cadeiras de espaldar alto, cada uma com um estandarte afixado acima. A maioria estava ocupada; algumas por homens e mulheres, outras por elfos e, perto de Fletcher, por anões. Todos se viraram para fitar os recém-chegados.
Fletcher se encolheu sob os olhares.
— Fletcher, seu lugar é aqui — sussurrou uma voz familiar. O rosto de Otelo surgiu de trás de uma das cadeiras, a barba tosada contrastando com a fileira de anões grisalhos à direita. O anão sorriu quando o rosto de Fletcher se iluminou de alegria, mas então levou um dedo aos lábios.
Fletcher olhou para o assento ao lado de Otelo e se deparou com a insígnia azul e prata dos Raleigh logo acima. Era tão estranho subitamente ter uma história, até um brasão de família. Ele nunca se acostumaria; principalmente considerando a Mantícora estampada no centro. Sentou-se sem muita certeza enquanto Sylva e o rei Harold se dirigiam aos respectivos lugares.
Harold se postou à esquerda de Fletcher, entre Alfric, Zacarias e lady Faversham — os três com o cuidado de evitar o olhar do garoto. Havia quatro generais com enormes costeletas e densos bigodes em lugares próximos aos elfos. Sentavam-se com costas retas e olhavam para a frente, sem desviar o olhar.
Uma nobre de aparência aquilina que Fletcher não reconhecia assentiu com a cabeça para ele. Era corpulenta e tinha cabelos ruivos entremeados com prata. Ao lado dela, um nobre de pele escura completava o contingente humano. Ele só espiou Fletcher, os olhos cobertos por um capuz. Fletcher achava difícil acreditar que agora era tão bem-nascido quanto todos aqueles nobres, considerado um igual por eles.
E pensar que, apenas algumas horas antes, fora taxado como um reles assassino, condenado a uma morte brutal. Sentiu um calafrio de horror por todo o corpo e, dentro de si, a consciência de Ignácio estremeceu com seu desconforto.
Atena, por sua vez, não reagiu. Talvez o pai de Fletcher a tivesse treinado para não permitir que as próprias emoções nublassem as do demônio.
À direita estavam Otelo, Uhtred e cinco anões de cabelos brancos que se sentavam em silêncio pétreo, esperando o começo da reunião. Parecia que pai e filho tinham sido nomeados anciãos no ano que se passara, talvez pelas contribuições para aliança com Hominum ou pela alta estima que suscitavam junto aos pares.
Havia dez elfos, incluindo Sylva, que deveria estar representando o pai, chefe de clã. Todos eram altos elfos e só três não eram mulheres. Cada um vestia a mesma armadura pesada que Sylva, só que a coloração variava, combinando com os estandartes acima das cadeiras.
— Bem, agora que estamos todos aqui, vamos começar — anunciou rei Harold em voz alta e clara, enquanto batia com o punho na mesa para chamar atenção.
Fletcher ficou espantado com a mudança no homem. A voz adquirira um tom de força, e a autoridade do rei de repente pesava sobre o salão.
— Temos três problemas a resolver hoje. O primeiro e mais urgente é o problema do moral; entre os anões, humanos e elfos igualmente.
Ele apontou para Sylva e suavizou o tom.
— Vocês, elfos, adiaram nossa aliança por quase um ano, devido à fúria que sentiram com os ferimentos que Sylva sofreu no nosso Torneio de fim de ano, ainda por cima pelas mãos do filho de um membro do conselho. Essa animosidade continua, tanto junto aos elfos silvestres quanto junto aos altos elfos. Estou mentindo? — indagou o monarca.
— Não, tem toda razão — concordou Sylva. Ela se levantou e contemplou os outros chefes elfos. — Apesar de eu ter feito o possível para explicar que todos os estudantes foram submetidos ao mesmo risco.
— Sem dúvida — disse o rei, acenando para que ela voltasse ao assento.
Sylva estreitou os olhos ao ver Zacarias e Alfric trocarem olhares entretidos, mas se sentou de volta. Harold era um ótimo ator.
— Quanto aos anões — continuou o rei —, os ataques terroristas dos Bigornas fomentaram muita hostilidade entre nossos povos. Tentei abrandar a raiva enânica revogando as leis de população e propriedade direcionadas aos anões, mas a atitude não teve muito efeito.
— De que nos serve permissão de possuir terra se os nobres não a vendem para nós? — indagou um dos anciãos anões com voz trêmula.
— Se eles são donos da terra, não cabe a mim decidir a quem devem vendê-la ou alugá-la — retrucou Harold. — A maioria dos nobres reluta em se desfazer das próprias terras mesmo na melhor das hipóteses. Não sou um tirano; eles podem proceder como preferirem.
— Já as leis de população são pouco úteis quando nossos homens estão fora, treinando — acrescentou Uhtred. — Menos bebês anões foram concebidos neste ano do que em qualquer outro.
Harold suspirou alto, depois seguiu em frente, ignorando-o.
— Os humanos têm seus próprios motivos para odiarem os elfos, depois da custosa guerra que nos obrigaram a enfrentar. Se a situação piorar, haverá brigas entre nossos soldados. Anões, humanos e elfos, lutando uns contra os outros. Um desastre que pode nos custar a guerra inteira. Concordam que isso é um problema grave?
Houve acenos de concordância ao redor da mesa.
— Fico feliz que sejamos capazes de concordar em alguma coisa — disse Harold, reclinando-se de volta na cadeira. — Os próximos dois problemas podem ser explicados melhor por outra pessoa. Lorde Forsyth, por favor.
Zacarias se levantou, virando-se para a entrada.
— Tragam o garoto! — gritou o lorde.
Houve um sibilar de lâminas sendo descruzadas; um rapaz de cabelos escuros cambaleou salão adentro. Ele estava magro como uma vassoura, de forma que as roupas pendiam de seu corpo, como velas de navio num dia sem vento. Seus olhos eram fundos, e o rapaz tinha um bronzeado escuro, como se tivesse trabalhado ao sol a vida inteira.
— Recém-foragido de um campo de prisioneiros órquico — afirmou Zacarias, trazendo o rapaz até a luz das tochas. — Tinha 14 anos ao se alistar, 15 ao ser capturado e 16 agora. Por dois anos, ele foi um dos escravos dos orcs, carregando lenha para fogueiras, pescando peixes, construindo monumentos, produzindo armas.
O rapaz evitou os olhares que o observavam, e ficou fitando os pés.
— Você era como um gremlin, só que maior, não era? — latiu Zacarias, fazendo o rapaz pular. — Vamos, desembuche.
O rapaz abriu a boca para falar, mas só conseguiu gaguejar sons incoerentes. Zacarias lhe acertou um tapa na nuca, e o menino se encolheu.
— E pensar que você já foi um dos Fúrias de Forsyth. Verme rastejante! Fale ou eu lhe dou uma surra!
O lorde ergueu a mão ameaçadoramente, e o rapaz falou, as palavras tropeçando na língua na pressa de sair, o sotaque forte e ordinário como Fletcher jamais ouvira.
— Tinha dez da gente que fazia os trabalho difícil quando os gremlin não conseguia, milorde. Eu mais nove. Mas tinha mais uma. Uma mulher. Nobre, eu acho. Mais velha também. Nunca que eu pude de dar uma boa olhada nela, os orc não deixava a gente chegar perto. Sempre faminta, ela tava. Nunca que disse de nada, nem quando eu passei coisa de comer pra ela. Ficou maluca, de tanto tempo sozinha. Mas as roupa era uniforme de oficial, das antigas. Assim que eu soube que ela é um de vocês.
Houve sussurros entre os nobres, até que a lady de cabelos ruivos se levantou e falou com uma voz suave e musical:
— Elizabete Cavendish. Só pode ser. Ela e seu demônio, um Periton, foram perdidos atrás das linhas inimigas há doze anos. Ofélia, poderia ser?
Lady Faversham ergueu o olhar, pois estivera profundamente imersa em pensamentos.
— Tem razão, Boadiceia. Não cheguei a ver Elizabete ser morta; foi o Periton que a lança atingiu. Ela pode estar viva, apesar de ter caído de uma grande altura. Só queria ter podido voar em seu socorro, mas os cavaleiros de Serpe estavam nos perseguindo. Talvez eles a tenham capturado. Torturado. Para descobrir nossos segredos.
— A mãe de Rufus — sussurrou Otelo.
Fletcher se lembrou do pequeno menino de cabelo castanho de Vocans que seguia Tarquin Forsyth como um cachorrinho perdido. A mãe dele, uma nobre, era considerada morta, enquanto o pai era um plebeu.
— Não podemos permitir que ela continue nas mãos dos orcs. Seria impróprio deixar uma das nossas lá fora. Ela era popular tanto com os plebeus quanto com os nobres, graças ao seu casamento com aquele servo. — Desdém escorria das palavras de Ofélia Faversham, que torceu o lábio. — Seria muito bom para o moral, e para os dois filhos dela, se a resgatássemos.
— Exato — concordou Harold. — Bem dito, Ofélia.
Uma elfa se levantou. Tinha um físico imponente, com um queixo forte e cabelo tão finamente trançado que as mechas pendiam em dreadlocks ao redor da cabeça.
— Esta nobre não é problema nosso. Reservem este assunto para sua própria reunião de conselho. — Seu sotaque era pesado, mas as palavras saíam com clareza.
— Por favor, chefe Cerva — implorou Harold. — Uma vitória para Hominum é uma vitória para todos. Não estamos nessa juntos?
Cerva o encarou de volta, nada impressionada.
— Não vamos arriscar vidas élficas numa missão de resgate imprudente, se é isso que você tem a nos pedir — declarou.
— Não é nada do tipo, eu lhe garanto. Por favor, permita-nos apresentar nosso plano e, se depois você estiver insatisfeita, vamos esclarecer suas dúvidas.
Cerva voltou ao lugar, mas manteve os braços cruzados.
Harold fez uma pausa, para permitir que o silêncio recaísse sobre o aposento.
— Nosso próximo problema é talvez o mais chocante. Algo novo. Algo que pode significar a ruína para todos nós, aliados ou não. Lorde Raleigh, você faria a gentileza de remover o pano do recipiente ali?
Levou alguns momentos para Fletcher perceber que Harold falava com ele. Lorde Raleigh. Será que ele se acostumaria com aquilo algum dia? Fitou o objeto por um momento, depois, percebendo que não teria opção, subiu à mesa.
A madeira rangeu com o peso, e houve um murmúrio de reclamação de um dos elfos, mas ele finalmente alcançou o cilindro coberto pelo pano.
Fletcher agarrou o tecido e o puxou, ouvindo um barulho de água balançando quando a base do cilindro se moveu. Não sabia o que esperava ver, mas os gritos de nojo no salão ecoaram os dele.
Havia uma criatura ali dentro.

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